quinta-feira, março 04, 2010

Telhados de vidro.

Simon Singh é um escritor e jornalista britânico que escreve sobre matemática e ciência. Em Abril de 2008 escreveu um artigo para o jornal The Guardian criticando a quiropraxia, uma terapia de alinhamento da coluna vertebral que considera que as doenças se devem a vértebras desalinhadas. Segundo Daniel David Palmer, o fundador da coisa, «Ao corrigir as deslocações destes tecidos ósseos, o suporte de tensão do sistema nervoso, afirmo prestar obediência, adoração e honra à Inteligência Espiritual Todo-Sabedora, bem como um serviço às suas porções individuais e segmentadas»(1).

No seu artigo, Singh afirmou que a «Associação Britânica de Quiropraxia (BCA) alega que os seus membros podem ajudar a tratar crianças com cólicas, problemas de alimentação e sono, otites frequentes, asma e choro prolongado, tudo sem quaisquer evidências. Esta organização é a face respeitável da profissão quiroprática e ainda assim de bom grado promove tratamentos da treta.»(2) Em resposta, e continuando sem evidências, a BCA processou Singh por difamação (3).

A lei britânica considera que as afirmações difamatórias são falsas a menos que o acusado comprove serem verdade (4). Esta inversão da presunção de inocência justifica-se se as alegações devassam a vida privada, caso em que é injusto impor ao difamado o ónus de as refutar. Mas já não é assim quando estão em causa factos públicos. Quem vende tratamentos deve comprovar que são seguros e eficazes. Não é quem critica a falta de provas que deve ser obrigado a demonstrar que a banha da cobra não cura. Em matérias desta natureza a critica aberta é fundamental e leis como esta são um travão no progresso científico. Por isto o processo contra Simon Singh motivou uma campanha pela reforma desta legislação no Reino Unido (5).

Mas o mais engraçado foi a reacção de vários indivíduos que, por causa deste processo movido contra Singh, começaram a escrutinar os quiropratas com mais atenção. Em Maio do ano passado um blogger apontou um artigo nos regulamentos do Conselho Geral de Quiropraxia (GCC) que proibia aos quiropratas publicidade que não respeitasse as directivas da Autoridade de Standards Publicitários (ASA) britânica. Como a ASA exige que publicidade médica seja substanciada por evidências e o regulamento do GCC aplica-se, por força da lei, a qualquer quiroprata em exercício, aqueles que publicitassem terapias como as que Singh criticara estavam a violar a lei (6). E eram muitos.

Depois disto começaram a aumentar as queixas contra quiropratas por publicidade enganosa, chegando até a BCA a recomendar aos seus associados que retirassem as páginas da 'net e recolhessem todos os panfletos para não arriscar. Hoje a BCA está a braços com centenas de queixas e processos legais contra os seus associados e já teve de contratar meia dúzia de pessoas só para tratar da papelada (7). Vai-lhes sair cara a brincadeira.

Via Bad Astronomy.

1- Wikipedia, Daniel David Palmer
2- O artigo original foi retirado, mas é possível encontrar cópias em muitos sitios. Por exemplo: Beware the spinal trap
3- Telegraph, Doctors take Simon Singh to court
4- Wikipedia, English defamation law
5- New Scientist, Campaign to reform English libel law launched
6- Zeno's Blog, What chiroquacktors are allowed to claim
7- Guardian, Furious backlash from Simon Singh libel case puts chiropractors on ropes

quarta-feira, março 03, 2010

Design.

Há por aí uns anúncios de uma cola com um homem pendurado de cabeça para baixo, colado à asa de um avião. Pelo menos era essa a ideia que, infelizmente, parece ter escapado a quem afixou os anúncios no Metro. Hoje, quer na ida quer na volta, vi isto pendurado do tecto nas carruagens da linha amarela:

vira roda vira

E por falar em design, aproveito para recomendar as galerias na nova página do Krippmeister:

www.krippart.com

terça-feira, março 02, 2010

Será que é desta?...

O Mats continua baralhado com a possibilidade de uma ética sem Deus. «Porque é que nós devemos viver e tentar viver em paz e harmonia na sociedade? E se eu não quiser viver em harmonia, mas sim em luxuria? Ou em criminalidade? Dentro da visão ateísta, o que me impede de faze-lo?»(1)

Nada. Nada nos impede de viver a vida em luxuria ou na criminalidade, de torturar os outros ou algo do género. Nem dentro da "visão ateísta" nem fora, que a Bíblia dizer para não matar também não impede ninguém de o fazer. E é precisamente por isso que matar, roubar, ajudar os outros e dizer verdades ou mentiras são eticamente relevantes. Porque quando o fazemos não podemos deixar de sentir que poderíamos ter agido de outra forma*. Aquilo de que somos impedidos ou a que somos forçados, como voltar atrás no tempo, estar sujeitos à gravidade ou gerar entropia, não é eticamente relevante.

A outra questão do Mats é porque não se pode considerar moralmente louvável o egoísmo, o crime, a maldade e assim por diante. «Eu posso muito bem classificar a tortura de bebés como algo moral», ou «porque é que temos que considerar o direito alheio? Quem disse que a moral deve levar em conta os sentimentos alheios?»(1).

Para decidir pode-se avaliar as opções por vários critérios. Pode ser pelo dinheiro que se espera lucrar, pelo sabor do cozinhado, pela vantagem sobre os outros, pela posição na chegada à meta e assim por diante. Mas é fácil reconhecer que estes não são critérios éticos. Critérios financeiros, culinários ou de mera competitividade não são critérios éticos. É só quando avaliamos os nossos actos pelo seu impacto nos outros que aplicamos critérios éticos.

Resumindo, a resposta ao Mats está no problema em si. O problema ético é escolher conscientes de que vamos afectar os outros. Por isso não pode ser algo forçado e tem de considerar os outros, senão é um problema diferente. De física, meteorologia, finanças ou culinária, mas não de ética.

O que nos traz às falhas na solução do Mats. O Mats propõe que é o deus dele que decide o que é moralmente bom ou moralmente mau. Só que isso não tem nada que ver com o problema ético. Se eu tenho a opção de dar, ou não dar, um pontapé num cão, o problema ético surge-me por perceber que posso magoar o animal e importar-me com isso. É o que me leva a criar critérios morais para me guiar nestas decisões. O que o deus do Mats queira ou deixe de querer é irrelevante.

E o Mats defende que devemos obediência ao deus dele porque senão somos castigados. Mesmo que fosse verdade, e é improvável que seja tendo em conta o número de deuses que por aí se alega fazer o mesmo com ordens diferentes, também nada teria de ético. Se decido não bater no cão para me safar do castigo ou ganhar uma recompensa estou a avaliar as minhas opções por um critério que apenas maximiza o meu bem estar sem considerar o dos outros. O cão safa-se pela feliz (para ele) coincidência de interesses mas não há nada de ético na minha decisão.

Usar esta religião como fonte de moralidade vira a ética ao contrário. O bem e o mal tornam-se caprichos divinos, a nossa moralidade reduz-se a um interesse egoísta e a relação entre cada pessoa e Deus é o contrário do que devia ser, eticamente. Numa relação guiada por princípios éticos tem mais restrições e mais deveres aquele que tiver mais poder. É um princípio que demorou muito a implementar, e as religiões andam sempre atrasadas nestas coisas. Mas é evidente que tem de ser assim.

Se eu encontrar uma formiga inteligente posso discutir com ela problemas éticos. E porque a formiga tem anseios, desejos e sentimentos, eu fico moralmente restringido naquilo que lhe posso fazer. Será imoral pisá-la, destruir-lhe o formigueiro ou queimá-la com uma lupa. Mas a formiga, para se comportar de forma eticamente correcta para comigo, não precisa aceitar grandes restrições. Há pouco mal que me possa fazer e não é nada comigo se é heterossexual, se vai à missa ou se usa contraceptivos.

Entre mim e Deus a diferença seria infinitamente maior, tal como seriam as obrigações éticas dele comparadas com as minhas. Se tal coisa existisse, eu nada poderia fazer para o prejudicar. Ele é que teria de ter cuidado com os terremotos e furacões, com as epidemias e inundações, e que mais desgraças mandasse ou deixasse acontecer, para não ser eticamente condenável.

Essa ética que o Mats defende não tem nada de ético. É apenas extrapolar para a fantasia o antigo princípio do quero, posso e mando.

*Se essa sensação corresponde ou não à realidade é outro problema. Mas o ponto importante é que podemos distinguir actos e meros acontecimentos pela sensação de podermos determinar os primeiros.

1- Comentário em Hitchens 2 – o racismo.

domingo, fevereiro 28, 2010

Treta da semana: à vossa saúde!

Segundo um teaser online, a Visão desta semana tem uma entrevista com «Bal Krishna, presidente da Associação Nacional de Acupunctura», que «garante que a ingestão de urina "funciona como uma vacina"»(1). Não sei se é como uma vacina por fornecer antigénios e estimular o sistema imunitário se é por ser desagradável de tomar. Mas, segundo a notícia, «A ingestão de urina para prevenir problemas de saúde é um método milenar, praticado na Ásia, que tem vindo a ser divulgado no Ocidente.»

Nunca percebi a suposta virtude de ser milenar. Só quer dizer que se fazia há mil anos, e as coisas há mil anos não eram assim tão boas. Concubinas aparte, é melhor a minha vida de classe média do que a de qualquer imperador do século X. E com o que se sabia nessa altura sobre doenças venéreas, talvez eu viva melhor mesmo considerando as concubinas.

A ideia de beber urina pela saúde também não é consensual entre orientalistas. Um livro de Hatha Yoga que tenho tenta persuadir o leitor que somos naturalmente vegetarianos alegando, entre outras coisas, que «A análise química dos caldos de carne, que se costuma dar aos enfermos, tem revelado uma composição bem próxima à da urina» (2). Tem razão, porque tanto o caldo de carne como a urina são 95% água e sal. Mas os picuinhas como eu preocupam-se mais com os restantes 5% de ureia e compostos tóxicos na urina.

A ureia resulta da decomposição de aminoácidos e não é tóxica. É um fertilizante comum e é até usada em produtos para branquear os dentes, cigarros, pastilhas elásticas, gelados e cosméticos (3). Mas também não é especialmente útil para a saúde e a urina em si é moderadamente tóxica, irritante e a sua alegada utilidade como bebida para quem está a morrer à sede também não faz sentido. Quando estamos desidratados a urina é concentrada, com muitos sais, e desaconselhada mesmo como último recurso (4).

Dizem os proponentes que a urina é maravilhosa porque reúne «todas as experiências do corpo, físicas e psicológicas. Reintroduzindo a urina no corpo força o sistema imunitário do corpo a confrontar as mesmas experiências uma segunda vez, o que lhe dá um segundo incentivo para lidar com o problema»(5). Exageram. Não há evidências nem que a urina guarde tal registo nem que sirva de alguma coisa reviver essas experiências de forma tão insalubre. Excepto em certas circunstâncias. Muitas drogas são eliminadas na urina. Há uns séculos na Sibéria, onde pouco havia para fazer além de rapar frio, os mais ricos drogavam-se com Amanita muscaria e os mais pobres, sem cogumelos, bebiam a urina dos abastados (6). Enfim, povos e costumes...

Se alguém quiser beber urina, bom proveito. Em moderação deve fazer menos mal que o tabaco, não incomoda os outros e nem dá um hálito tão desagradável. Mas se o fizer convencido que isso cura foi enganado. Dizem que a urina é um elixir maravilhoso que só é pouco usado por causa da malvada industria farmacêutica (7). Mas se a urina tivesse valor terapêutico dava fortunas a quem vendesse os princípios activos numa bebida mais apelativa. Além disso, a ureia já é um produto importante na industria química e a indústria farmacêutica também extrai fármacos da urina (8). O que vale a pena aproveitar já se aproveita. O resto é melhor ir para a sanita.

Como de costume, o fundamento aqui é a ideia ridícula de que há um remédio milagroso para todas as maleitas. Nem sequer nos automóveis é assim, e um automóvel é muito mais simples que nós. As doenças e os problemas da idade são demasiado complexos para se tratar com uma mijinha.

Já agora, aproveito o espaço que me sobrou para referir a Associação Nacional de Acupunctura, «tão especial que o seu nome pode ser lido de trás para frente»(9). Arutcnupuca ed Lanoican Oãçaicossa? Penso que queriam dizer acrónimo em vez de nome. Mas gostei da página, concebida a pensar nos daltónicos tantas vezes esquecidos pelos web designers. E, como treta puxa treta, refiro também o despique entre dois representantes do budismo português, que descobri ao procurar mais informação sobre Bal Krishna.

No blog da Heloisa Miranda, que promete ser um rico filão para esta rubrica semanal, um budista de nome Carlos Amaral e cognome Lama Khetsung Gyaltsen escreve sobre cristais e mais uma baralhada de coisas. Segue-se um comentário do presidente da União Budista Portuguesa, declarando que «não pode garantir a fiabilidade da orientação budista das actividades do Sr. Carlos Amaral e declina qualquer responsabilidade pelas mesmas» e um tortuoso e prolongado contraponto do Carlos Amaral (9), cujos textos e vídeos (10) recomendo a quem sofra de insónias.

Penso que estes senhores deviam dar um exemplo da serenidade e do bom humor budista e reconciliar-se. Talvez se fossem tomar um copo...

1- Visão, E se alguém lhe disser que beber urina faz bem?. Obrigado ao Francisco Burnay pela referência.
2- Hermógenes, Autoperfeição com Hatha Yoga, Record, Rio de Janeiro, 1993. Pág. 148.
3- Kemi, Urea, e também Wikipedia, Urea
4- Wikipedia, Urine.
5- InnerSelf, Healing Yourself with Urine
6- The Vaults of Erowid, History of Amanita muscaria
7- Por exemplo, Filosofia e Tecnologia, A CURA PELA URINOTERAPIA.
8- Wikipedia, Premarin
9- Zen, Cristais: A Discussão Instala-se.
10- Vídeos de Lama Khetsung Gyaltsen, O Direito Primordial à Felicidade

sábado, fevereiro 27, 2010

Legal, 12.

O que se pode ou não pode fazer com ficheiros é confuso porque a Internet é global mas cada país tem as suas leis, que cada juiz interpreta à sua maneira. No Reino Unido, Allan Ellis foi ilibado em Janeiro da acusação de conspirar para defraudar as editoras discográficas (1). Ellis criou o OiNK, um site parecido com o Pirate Bay mas dedicado à música, onde os utilizadores afixavam informação acerca dos ficheiros que partilhavam (2). Na Islândia, Svavar Kjarrval teve menos sorte. Gestor de um site semelhante, o Torrent.is, andou deste 2007 a defender-se nos tribunais. Tal como com o OiNK e o Pirate Bay, o Torrent.is não continha ficheiros protegidos por copyright mas apenas informação acerca desses ficheiros. Foi ilibado no tribunal distrital e no supremo tribunal quando a associação islandesa de colecta (STEF) recorreu da decisão. Depois a STEF repetiu a acusação alterando um pouco as alegações e Kjarrval foi novamente ilibado no tribunal distrital. Mas agora, no recurso desta segunda volta, o supremo tribunal deu razão à acusação e Kjarrval já não tem dinheiro para continuar a pagar advogados (3).

Esta legislação foi criada para as empresas regularem entre si quem vende o quê. Não foi pensada para se aplicar a actividades pessoais, sem fins lucrativos. Quando um agente económico com bolsos fundos usa estas leis para tramar um indivíduo é só questão de ir insistindo até o arruinar. O copyright era um incentivo à divulgação e distribuição de cópias, mas agora só incentiva o litígio. E quem lucra mais com o copyright são os advogados.

Na Polónia a polícia encerrou o Filmowisko, um fórum onde os utilizadores afixavam ligações para ficheiros hospedados no Rapidshare, e prendeu os seus três administradores. Um aluno de informática com 21 anos e dois adolescentes de 16 e 15 anos (4). Outra função destas leis é apanhar quem faz algo inofensivo e trivial – gerir um fórum na Internet até um miúdo de 15 anos faz – e levá-los para onde aprendam a ser criminosos a sério.

Ainda não satisfeitos com esta legislação, representantes de alguns governos e de empresas de distribuição estão a delinear o ACTA (5), um tratado internacional para restringir ainda mais o que se pode fazer com bits e bytes. Mas apesar de representantes da eBay, Google, RIAA e MPAA terem acesso ao tratado em negociação (6), os membros dos parlamentos dos países intervenientes só conhecem o tratado pelas fugas que vão ocorrendo. Finalmente, isto de criar leis às escondidas dos legisladores começa a gerar protestos em vários países (7) e no Parlamento Europeu (8). É bom sinal.

E na Austrália o tribunal deu razão à iiNet, um ISP processado pela Associação Australiana Contra Furto de Copyright (AFACT). A AFACT, representando vários estúdios e distribuidoras, alegou que a iiNet autorizava a violação de direitos de autor por parte dos seus clientes e que tinha a obrigação de lhes enviar avisos pela violação de copyright. O juiz declarou que casos de violação de copyright não devem ser resolvidos dessa forma e que a iiNet não tem a obrigação de controlar o que os seus clientes fazem com a ligação à Internet (9). Se o ACTA entrar em efeito isto vai mudar. Cada ISP terá de policiar os seus clientes ou identificá-los com base apenas numa acusação. Mas até lá é bom ver que do outro lado do mundo ainda há bom senso.

Infelizmente, o bom senso é escasso. Nos EUA, a International Intelectual Property Alliance (IIPA) pediu ao governo para pôr a Indonésia, o Brasil e a Índia na lista negra dos desrespeitadores do copyright. A razão é que os governos destes países incentivam o uso de software livre e de código aberto. Que é perfeitamente legal mas que a IIPA alega que «enfraquece a indústria de software» e «não promove o respeito pela propriedade intelectual»(10).

Outra bonita foi a concessão à Facebook da patente sobre «Um método para mostrar um news feed num ambiente de rede social»(11). Ou seja, sobre mandar mensagens do tipo «o Zé deu um espirro» quando algum “amigo” numa rede social actualiza a página. Quer a Facebook tenha patenteado isto para processar empresas como Twitter, Google ou MySpace, quer tenha sido só para se defender de eventuais processos, o veredicto é o mesmo. Conceder patentes como esta é um grande disparate.

Esta confusão toda vem de não admitir que os computadores são máquinas de calcular. Fazem contas e copiam números. Podemos usar os resultados para fazer sons e imagens, mas nem os números são propriedade nem as contas devem ser patenteáveis. A lei deve proteger direitos e não negócios. Em vez de se preocupar com a troca de ficheiros a lei devia estar atenta a coisas como a segurança das nossas transacções bancárias (12) ou a protecção da privacidade. Na Filadélfia uma escola deu aos alunos computadores com software instalado às escondidas para permitir ligar as câmaras e espiar os alunos remotamente (13). Mas, provavelmente, os responsáveis por isto vão ter um castigo menor que os dois anos de prisão que apanhou o tipo que filmou o Dark Knight no cinema (14). Ao que parece, filmar coisas no cinema é que é um crime que preocupa a sociedade...

1- BBC, Music file-sharer 'Oink' cleared of fraud
2- Wikipedia, Oink's Pink Palace
3- TorrentFreak, BitTorrent Tracker Loses Lengthy Legal Battle
4- TorrentFreak, Three Arrested As Police Swoop on Rapidshare Link Forum
5- Wikipedia, Anti-Counterfeiting Trade Agreement
6- Knowledge Ecology International, White House shares the ACTA Internet text with 42 Washington insiders, under non disclosure agreements
7- Michael Geist, Legislators Worldwide Asking Questions About ACTA
8- ZeroPaid, European Parliamentarians Officially Declare Opposition to ACTA
9- TorrentFreak, Movie Studios Lose Landmark Case Against Aussie ISP
10- Guardian, When using open source makes you an enemy of the state. Obrigado pelo email com a ligação.
11- Mashable, Facebook Secures Patent for News Feed. Via o FriendFeed da Paula Simões, que espero não seja fechado por violar alguma patente, porque tem sempre coisas interessantes...
12- Computer Weekly, Chip and Pin 'broken', say Cambridge University researchers, via Schneier on Security.
13- The Standard, 'Spygate' teenager demands webcam pix from Pa. school. Obrigado ao João pela notícia.
14- TorrentFreak, Dark Knight Cammer Gets 2 Years in Prison

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Hitchens 2 – o racismo.

Isto é tangencial à palestra do Christopher Hitchens (1), algo que ele só mencionou de passagem. E pode ser que a crítica que faço aqui não se aplique à opinião dele; ele não elaborou este ponto o suficiente para ficar claro o que queria dizer. Mas isto ficou-me a comichar porque ele disse, parafraseando de memória, que a grande diversidade genética da nossa espécie mostra que o racismo está errado. E não é nada disso.

A nossa espécie não tem uma grande diversidade genética. Tem menos que muitos mamíferos e muito menos do que seria de esperar numa espécie tão numerosa e espalhada por todo o mundo. Por exemplo, apesar de haver trinta mil vezes mais seres humanos que chimpanzés, a diversidade genética, medida pelas diferenças médias entre indivíduos, é maior nos chimpanzés que nos humanos (2). Mas a diversidade por si não determina se há raças. Para isso o que importa é como as diferenças e semelhanças se distribuem.

Os primeiros seres humanos anatomicamente modernos viveram há cerca de duzentos mil anos em África. Há coisa de cem a setenta mil anos atrás a nossa espécie passou por um mau bocado, com o número de humanos diminuindo quase até à extinção. O que explica a pouca diversidade genética. E há cerca de 60 mil anos alguns grupos de humanos saíram de África e espalharam-se pelo por quase todos os continentes. Por isso a maior parte da diversidade genética humana está ainda em África. Entre finlandeses, aborígenes australianos e índios da Amazónia há menos diferenças genéticas, em média, que entre populações africanas.

Além disto, a nossa diversidade genética está quase toda dentro das populações. Duas pessoas de populações diferentes diferem apenas mais 10%-20%, em média, que duas pessoas da mesma população. E, finalmente, a nossa espécie distribui-se numa rede populações interligadas por variações contínuas. Não há divisões claras entre raças. Por estas razões a biologia moderna rejeita as distinções raciais clássicas. Não faz sentido, geneticamente, falar de coisas como “raça negra” ou “raça africana”. E há quem defenda que nem sequer vale a pena discriminar raças na nossa espécie.

Por outro lado, há correlações estatísticas significativas entre grupos de genes e regiões geográficas que permitem identificar os antepassados da maioria das pessoas. E entre estes há alguns genes particularmente salientes. Por exemplo, cerca de 90% da variação genética na cor da pele está entre populações e apenas 10% dentro de cada população. É raro o Finlandês que se confunde com um Nigeriano. E em certos casos estas correlações têm relevância médica. Por isso também há quem defenda que é útil considerar divisões raciais na nossa espécie.

Factualmente o Hitchens enganou-se. Nem temos uma diversidade genética grande nem basta uma diversidade genética grande para que uma espécie não se divida em raças. Tudo depende como essa diversidade genética se distribui nas populações. E não é claro que não haja raças na nossa espécie. As divisões clássicas são incorrectas e não podemos dividir a humanidade em grupos genéticos bem separados mas, por outro lado, há correlações entre genes e origem geográfica que definem agrupamentos estatisticamente significativos. Se isso é útil ou não depende das circunstâncias.

Mas não foi este erro que me motivou a escrever. O erro mais grave, que não sei se Hitchens comete mas que já encontrei várias vezes, é julgar que isto tem alguma relevância para o racismo. Não tem. Uma coisa é a caracterização genética das populações que compõem a nossa espécie. Outra bem diferente é a ideologia segundo a qual certas pessoas merecem menos consideração, ou têm menos direitos, por causa de quem descendem. Não há qualquer relação entre as duas. Porque seja qual for a distribuição da diversidade genética humana será sempre possível discriminar pessoas com base nos seus antepassados. E será sempre errado fazê-lo.

O problema principal do racismo não está nos erros factuais, se bem que sejam comuns em ideologias como estas. O problema do racismo está nos valores. Haja ou não haja raças humanas, o racismo é uma treta indecente e imoral.

1- Casa Fernando Pessoa, "Livres Pensadores" com Christopher Hitchens
2- Search.com, Human genetic variation

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Talvez seja melhor um financiamento homeopático?...

O comité parlamentar de ciência e tecnologia do Reino Unido começou finalmente a desconfiar que o financiamento público da homeopatia não é bom negócio, e que os quatro milhões de libras por ano gastos em gotinhas de água podiam ser melhor empregues noutras coisas (1).

A maioria dos medicamentos homeopáticos não contém nem uma molécula do princípio activo. As diluições são tão grandes que fica só o solvente, normalmente água. Os homeopatas explicam isto alegando que a água tem memória das moléculas que por lá passaram, e que retém as suas propriedades mesmo depois de já não restar nenhuma dessas moléculas. Felizmente, não há evidências que isso seja verdade.

Memória da 
água
Imagem copiada do Hell's News Stand.

A extrema diluição dos medicamentos homeopáticos é justificada, segundo os homeopatas, pela potenciação do principio activo. Quanto menos tiver mais efeito faz, diz a homeopatia, uma regra que não se verificou no falhanço de um suicídio em massa na Bélgica, em 2004. Protestando contra a cobertura da homeopatia pelas seguradoras, um grupo de cidadãos tentou suicidar-se com soluções homeopáticas potentíssimas de veneno de cobra, arsénico e até leite de cão, que segundo a homeopatia dá vómitos e faz sonhar com cobras (2). Mas não tiveram sucesso. Ao que parece, a homeopatia só funciona em quem acredita.

Mas isto sugere uma solução simples e elegante para o problema dos britânicos. Podiam reduzir o financiamento de quatro milhões para quatro cêntimos ao ano, potenciando assim em cem milhões de vezes a eficácia desta terapia alternativa.

1- BBC, NHS money 'wasted' on homeopathy. Via Bad Astronomy.
2- Quackwatch, Homeopathic Products Used for Mass "Suicide"

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Burka.

Andar de cara tapada ou destapada não é opção de moda ou idiossincrasia cultural. Em regra as pessoas não andam de cara tapada quando interagem com outros. Além de ser a parte mais expressiva do nosso corpo, a cara é a forma de nos identificarmos. Ninguém espera que os alunos estejam na aula de óculos escuros e barba postiça, se alguém pára a mota para pedir indicações deve pelo menos levantar o visor do capacete e se entrarem pessoas num banco com barretes pretos a tapar a cara é certo que alguém vai chamar a polícia. Andar de cara tapada é uma atitude ameaçadora, porque uma pessoa que esconde assim o que quer e quem é não parece vir com com boas intenções. Em todas as culturas há uma aversão natural a quem aja assim.

E a burka não é excepção porque nas sociedades onde a usam as mulheres não são consideradas pessoas. São propriedade dos pais, dos maridos ou dos filhos e não faz mal terem um pano a tapar a cara. Pessoas de cara tapada não é aceitável, mas nessas sociedades as pessoas são os homens. Esses andam com a cara descoberta.

Os franceses querem proibir o uso da burka em espaços públicos e há quem diga que isto é atentar contra os direitos e costumes daquelas mulheres. Não é uma crítica muito acertada porque os costumes visados são mais os dos “donos” dessas mulheres. Mas, além disso, há outro aspecto importante. Na Europa as mulheres são pessoas. Não são gado nem objectos. E ninguém quer viver no meio de pessoas de cara tapada.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Será desta que o Kevin se trudeu?...

Um dos posts mais populares deste blog, senão o mais popular, é a treta da semana de 28 de Maio de 2007 sobre as curas do famoso Kevin Trudeau(1). Várias condenações por fraude e publicidade enganosa (2) não lhe tiraram a fama nem o dissuadiram de vender a sua banha da cobra. Em 2007 foi novamente a tribunal pela publicidade ao seu livro «A Cura da Perda de Peso Que Eles Não Querem Que Você Saiba». Enquanto que nos infomercials Kevin o apresentava como um método fácil de seguir para qualquer pessoa, no livro exige um regime de dieta intensiva, injecções diárias de drogas sujeitas a receita médica e outras coisas menos “fáceis de seguir”.

Pelo seu historial e pelo dinheiro que o Kevin faz a enganar gente, o juiz Robert Gettleman condenou-o a pagar trinta e sete milhões de dólares e proibiu-o de aparecer em publicidade durante três anos. Kevin teve então a ideia de pedir aos seus apoiantes para enviar emails ao juiz, que recebeu um dilúvio de mensagens com ameaças e insultos, ficou com o email entupido e condenou Kevin a 30 dias de prisão por desrespeito ao tribunal(3). Os advogados do Kevin Trudeau conseguiram um adiamento para interpor recurso, mas só têm até o início de Março para o safar (4).

A ideia de respeitar as opiniões dos outros parece bonita porque assim não se critica e não se ofende ninguém. Mas respeitar opiniões impede que se corrija erros e dá carta branca à aldrabice. É um preço grande demais só pelo privilégio de dizer disparates sem contraditório.

Via Bad Astronomy.

1- Treta da Semana: Kevin Trudeau
2- Ver um resumo do historial no Skeptic's Dictionary, e também na Wikipedia
3- Wallet Pop, Infomercial king Kevin Trudeau held in contempt of court
4- Wallet Pop, Infomercial king Kevin Trudeau fighting to stay out of jail

domingo, fevereiro 21, 2010

Treta da semana: com anestesia?!

O Marcos Sabino relata com grande entusiasmo a descoberta de uma possível amputação cirúrgica feita há quase sete mil anos. O entusiasmo vem de estar convencido que «os evolucionistas ficam surpreendidos ao detectarem conhecimento tão avançado há tantos anos a esta parte»(1). Para o Marcos, que julga que o universo tem pouco mais que isto, sete mil anos é muito tempo. Mas para a evolução não é.

Não há razões para crer que os humanos há sete mil anos atrás fossem biologicamente menos capazes de fazer o que nós fazemos. À parte de algumas características que mudam rapidamente, como adaptações ao clima, dieta ou doenças, não é de esperar grande evolução em sete mil anos num animal como nós. Se criássemos um bebé do neolítico com as crianças de hoje, com escolas e livros e brincadeiras modernas, ele cresceria igual a qualquer um de nós. Porque, biologicamente, seria um de nós. Evidências de uma amputação cirúrgica no neolítico só contradizem a caricatura confusa que os criacionistas fazem da teoria da evolução, e não a teoria em si.

E esta descoberta é interessante mas surpreende mais pelo nosso preconceito. O progresso tecnológico é muito rápido hoje em dia, e se o extrapolarmos para sete mil anos no passado ficamos com a impressão que não podiam saber nada de nada nessa altura. Mas só recentemente, com a invenção da ciência, é que o progresso se tornou tão rápido e imparável. Antes de assentarmos a tecnologia numa base teórica formal e rigorosa o conhecimento prático era muito mais frágil e muito mais difícil de obter.

Um exemplo que ilustra bem isto é o transporte do obelisco da Praça de São Pedro, em Roma. Em 1586, aquando da expansão da basílica, foi deslocado cerca de cem metros para o centro da praça. Foi uma obra de engenharia extraordinária que exigiu o máximo das capacidades tecnológicas da altura. Mas o obelisco tinha sido trazido do Egipto mil e quinhentos anos antes pelos romanos e tinha sido erguido originalmente em 1835AC pelos egípcios (2).

Até recentemente a tecnologia progredia por tentativa e erro, com truques e ferramentas passados de mestre para aprendiz em comunidades pequenas e muito sensíveis a variações políticas. Com a queda do império egípcio perdeu-se aquelas técnicas de construção. Os romanos redescobriram algumas a muito esforço mas perderam-se novamente quando esse império também se desagregou.

Há sete mil anos atrás, aquelas comunidades do neolítico já tinham tido dezenas de milhares de anos para adquirir conhecimentos práticos de anatomia e de como tratar feridas. Não era medicina no sentido moderno nem terá sido um progresso constante como temos hoje. Era tentativa e erro; cada vez que mudavam de sítio, com outro clima e outras plantas, tinham de começar do princípio. E muito se perdia regularmente em cada escaramuça entre tribos, epidemia ou fome que matasse quem sabia dessas coisas na tribo. Por isso não é de admirar que certos povos primitivos soubessem como amputar um braço e manter o paciente vivo, mesmo que posteriormente se perdesse esse conhecimento naquele sítio.

O relato também indica que a amputação foi feita a um braço que tinha sido quase amputado por um acidente que tinha desfeito parcialmente o osso (3), não indicando que a amputação fosse prática regular naquela cultura. O notável é o paciente ter sobrevivido, «beneficiando de bons conhecimentos médicos, incluindo como estancar uma hemorragia, evitar infecções e promover a cura.» Mas «Este conhecimento não é inesperado, pois são conhecidas intervenções cirúrgicas em ossos, por exemplo trepanações, em períodos anteriores no Mesolítico» (3).

Este post do Marcos Sabino segue um padrão argumentativo comum nos criacionistas. Faz-me lembrar uma episódio da minha infância. A minha bisavó não nos deixava comer bolachas antes do almoço. Então fui à cozinha, apontei para a janela espantado e, quando ela olhou, fugi com a lata das bolachas. Os exemplos que os criacionistas dão para “refutar” a teoria da evolução não têm qualquer relevância. Servem apenas para distrair.

Mas não é só por isso que menciono o post do Marcos. O Marcos escreveu que «O paciente teria sido anestesiado e o corte tratado após a cirurgia»(1), e achei interessante ver como os arqueólogos teriam descoberto vestígios de anestesia num esqueleto com sete mil anos de idade. É claro que o artigo original não menciona anestesia nenhuma. Esta ideia do Marcos parece ter vindo da notícia sensacionalista no Times Online (4). Aproveito assim para deixar esta dica ao Marcos, como futuro jornalista. Para fazer jornalismo sobre ciência convém ler pelo menos o que os cientistas escrevem.

PS: Quero pedir desculpa ao Nuno Miguel Madeira Farias, também conhecido por Miguel Arcanjo Espirita dos Pobres, pois por pouco o contemplava com a treta desta semana. Mas como o Nuno demonstra as suas credenciais de vidente com uma imagem do diploma de «Basic Bodyguard Skills», pareceu-me estar pouco aberto a críticas. Por amor à pele e por respeitar a distância considerável entre o Nuno e a realidade, preferi galardoar o Marcos.

1- Marcos Sabino, Na Idade da Pedra já se faziam amputações.
2- St. Peter's Basilica, The Obelisk
3- Cécile Buquet-Marcon, Philippe Charlier & Anaïck Samzun, A possible Early Neolithic amputation at Buthiers-Boulancourt (Seine-et-Marne), France
4- Times Online, Evidence of Stone Age amputation forces rethink over history of surgery

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Hitchens 1 – a religião envenena tudo.

A palestra do Christopher Hitchens ontem (1) não deve ter surpreendido quem já tivesse lido alguma coisa dele. Nem pelo conteúdo, que foi o previsto, nem pela forma, pois no que ele escreve nota-se que é um comunicador extraordinário. Mas foi uma experiência interessante vê-lo ao vivo. Vou aproveitar algumas ideias que ele expôs como inspiração para uns posts, começando pela mais óbvia.

Hitchens defende que a religião envenena tudo quer pelas suas consequências quer pelos seus princípios. Não há nenhum acto que se reconheça como bom que seja exclusivo dos religiosos e, para ser uma pessoa boa e ter valores louváveis, não é preciso ter religião. Por outro lado, facilmente nos ocorrem actos e valores condenáveis associados a práticas religiosas, desde os sacrifícios humanos e a inquisição aos ataques bombistas e à mutilação genital de raparigas. Ele não o mencionou mas, antecipando já as criticas costumeiras, saliento que isto não quer dizer que todos os ateus sejam boas pessoas. O ponto aqui é que a religião é desnecessária para se ser bom e é motivo para muitos actos condenáveis. Pesando os prós e os contras, mais vale não a ter.

Mesmo entre os que são ateus, num sentido estrito, o mau comportamento institucionalizado vem da aceitação acrítica de superstições e ideologias estranhas ao ateísmo. Na Coreia do Norte, um exemplo comum dos terrores do ateísmo, a Constituição foi alterada em 1998 para nomear Kim Il-Sung o Presidente Eterno da República. O homem já tinha morrido quatro anos antes. O estalinismo, o maoismo e a ditadura em Cuba, apesar de não seguirem algo que oficialmente seja considerado divino, assentam também numa teimosia ideológica que o ateísmo não exige mas que é fundamental em qualquer religião. As religiões consideram-se acima das limitações, da falibilidade e até da contestação humana, e é essa atitude que facilmente tem consequências trágicas.

Além disso, as religiões declaram-nos todos servos dos deuses. Não somos donos de nós próprios nem os responsáveis pelos nossos valores. Somos instrumentos criados por outrem para servir os seus propósitos e cujo mérito é função da submissão a esse desígnio. Isto desumaniza as pessoas.

Nestes aspectos concordo com o Hitchens, mas parece-me que ele erra ao considerar, implicitamente, que a religião é a origem destes problemas. A religião é apenas um de vários meios de desumanizar e levar pessoas boas a praticar o mal. É o mais popular e foi provavelmente o primeiro a ser inventado, mas não é o único. O problema fundamental não é a crença num deus ou numa casta de sacerdotes; é a facilidade com que abdicamos da nossa autonomia e responsabilidade e lavamos mãos das asneiras que fazemos com a desculpa de agir em nome de qualquer fantasia que nos impinjam.

1- Casa Fernando Pessoa, "Livres Pensadores" com Christopher Hitchens

Comprar ou copiar?



Obrigado pelo email com o link.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Como funciona o BitTorrent.

No link abaixo podem ver uma animação ilustrando o protocolo BitTorrent, e que serve para perceber o P2P em geral. A animação começa com dois seeds, que têm o ficheiro completo, e dez peers, que querem o ficheiro e começam sem nada. Primeiro os seeds copiam fragmentos do ficheiro para alguns peers. Depois, quando os primeiros peers já têm um bloco completo começam a copiá-lo para outros até que toda a rede se enche de cópias de fragmentos a passar de um lado para outro.

Com as teclas S e P podem acrescentar seeds e peers, e com a tecla R retirar um participante ao acaso. Antes de passar ao link, gostava de salientar dois aspectos da partilha P2P. Um é a sua eficiência quando comparado ao sistema clássico de cliente e servidor, no qual um nó central envia cópias completas a cada um que as peça. Nesta animação pode-se ver a aceleração exponencial da cópia conforme mais peers obtêm blocos para partilhar. O outro é que não há um participante que envie aos outros o grosso das cópias. Os seeders têm um papel mais importante ao início, mas rapidamente o tráfego é dividido igualmente por todos os participantes. Estes aspectos são importantes para perceber a futilidade do combate ao P2P.

E agora, sem mais demoras: BitTorrent!

Nota: julgo que isto não dá com o Internet Explorer, pelo menos com as versões que não suportem a tag <canvas>.

Via TorrentFreak.

Christopher Hitchens, hoje às 18:30.

Se calhar não devia ajudar a publicitar isto, que os lugares são limitados. Mas, por outro lado, se a sala encher é bom sinal. Por isso aqui vai. Se ficar sem lugar também não será pelo anúncio neste blog, e é por uma boa causa.

Hoje, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa, Christopher Hitchens vai falar sobre a Necessity of Atheism. A entrada é livre. Aproveito para dar os parabéns aos organizadores por esta iniciativa.

Mais informação no site da Casa Fernando Pessoa.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Moral objectiva, take 3.

Um atributo é objectivo se for propriedade do objecto. Por exemplo carga, massa ou comprimento. E é subjectivo se for atribuído ao objecto por um sujeito, como beleza, utilidade ou valor. Mas um atributo objectivo não é necessariamente invariante em relação aos pontos de vista. A massa e o comprimento são atributos objectivos mas variam, por efeitos relativistas, conforme a velocidade do objecto no referencial onde são medidos. E também não é necessário que uma qualidade subjectiva varie de sujeito para sujeito. O valor monetário de uma nota de vinte euros é uma qualidade subjectiva atribuída à nota pelos sujeitos de uma comunidade. Ainda assim, a nota vale vinte euros para todos esses sujeitos.

É por isso inválido o argumento comum que a moral tem de ser objectiva porque se não o fosse haveria uma para cada gosto. Além de irrelevante, porque desejar as suas consequências não torna a hipótese mais verdadeira, uma coisa não tem nada que ver com a outra. Se a moral fosse objectiva podia à mesma ser diferente de pessoa para pessoa, e mesmo subjectiva pode ser igual para todos os sujeitos. Basta assentar num aspecto comum à subjectividade de todos.

E é evidente que a moral não é objectiva. Os objectos da moral são os actos voluntários e conscientes, que a moral avalia e regula. Mas não há valores morais intrínsecos aos actos se desligados dos juízos que fazemos deles. O valor moral de cada acção tem de lhe ser atribuído por um sujeito que avalie essa acção. E foi provavelmente esta necessidade que impulsionou a religião como um atalho manhoso para fugir à ética. Ironicamente, a fonte mais apregoada da tal “moral objectiva” é um deus, um sujeito moral que determina o bem e o mal pelo seu juízo subjectivo.

A moral só pode ser subjectiva porque o seu fundamento tem de vir de cada sujeito. Nem faz sentido ser de outra forma. Mesmo que todas as acções viessem rotuladas de fábrica com “bom” e “mau” ou que um deus nos desse uma lista de “faz” e “não faças”, isso teria tanta relevância ética como a fórmula química da glucose ou as regras do Monopólio. Meros factos que nos caiam no colo são insuficientes para justificar a moral.

Aqui tenho de fazer um pequeno desvio para esclarecer esta distinção que não é consensual porque há quem use “moral” e “ética” como sinónimos. Mas muitas vezes é útil distinguir entre as regras e o seu fundamento. Uma coisa é concordar que é imoral roubar e outra é explicar porquê. Essa justificação é o papel da ética, sem a qual nenhum conjunto de regras ou valores pode ser moral.

O problema ético é um problema de decisão e não apenas um problema de conhecimento que se possa resolver consultando factos ou livros de regras. Surge àqueles que compreendem que as suas acções afectam os outros e sentem que isso restringe as suas escolhas. Quem não compreende o que faz, como o recém-nascido, ou quem é indiferente ao mal que causa, como o psicopata, não pode ser um agente moral. Mesmo que se comporte de acordo com algumas normas não as adopta para resolver esse problema ético de lhe constranger o que faz aos outros. E seguir regras por medo do castigo, com olho na recompensa ou simplesmente por hábito não tem nada que ver com moralidade.

Este constrangimento ético é subjectivo mas é necessário para qualquer sujeito ser moral. Por isso é uma base comum onde construir uma moral universal. Tal como a nossa compreensão do problema de trocar bens e serviços permite o acordo unânime acerca de algo tão subjectivo como o valor monetário de um pedaço de papel, também a nossa compreensão do problema ético permite encontrar valores morais universais sem precisarmos fingir que a moral vem de algum sítio que não de cada um de nós.

A moral religiosa é manhosa porque evita a justificação ética com um “porque Deus disse” ou uma referência inconsistente às “leis naturais”. Como o preservativo ser pecado por ser contra a natureza, mas o flúor na pasta de dentes já não. Ou embrulhar em pecado os impulsos sexuais, do mais natural que há, só por dar jeito aos padres mandar na cama dos outros. Uma “moral” que vem de brinde nos cereais da revelação divina não é moral nenhuma. É só uma artimanha para levar o pessoal à missa.

Em suma, a religião pode ser eficaz a manipular comportamentos mas não serve para orientação moral. O problema fundamental é a responsabilidade individual pelo que cada um faz aos outros, mas a religião transveste-o de mera obediência a regras impostas por deuses, listas de mandamentos ou idiossincrasias da natureza. Encarar o fundamento subjectivo da moral tem incomodado muitas religiões mas levado a um consenso cada vez mais alargado acerca dos direitos e deveres de todos, porque todos os agentes morais têm algo em comum, subjectivamente. Em contraste, a pretensão de uma “moral objectiva” universal vinda das religiões tem apenas gerado uma salada inconsistente de virtudes arbitrárias para os fieis defenderem e defeitos fictícios para apontarem aos outros.

domingo, fevereiro 14, 2010

Dia dos namorados.

Hoje é um bom dia para deixar comentários sobre criacionismo.

Até amanhã.

sábado, fevereiro 13, 2010

O princípio da igualdade.

O Jónatas Machado é uma presença assídua neste blog, contribuindo com as suas opiniões criacionistas mesmo em posts sem qualquer relação com o assunto. Um comentador extraordinariamente consistente, não só mantém constante a sua opinião mas até o texto pelo qual a exprime. Uma, e outra, e outra, e outra vez. Mas refresca o que podia ser repetitivo mudando ocasionalmente de nome para que as suas intervenções pareçam novidade.

Mas o nosso longo monólogo tem focado quase exclusivamente a falta de formação científica dos cursos de direito. Pela sua argumentação, o Jónatas conseguiu convencer-me que um professor de direito e constitucionalista não precisa perceber nada de física, biologia, termodinâmica ou teoria da informação. É por isso que acolho com prazer esta oportunidade de examinar a opinião do Jónatas em matéria na qual ele é perito. O direito.

O Jónatas Machado falou esta semana à Comissão dos Assuntos Constitucionais representando a Plataforma Cidadania e Casamento (PCC) (1), uma organização que luta pelo referendo sobre o casamento homossexual. Estes cidadãos querem exercer o seu direito de proibir casamentos aos outros, o que é compreensível. A única vantagem de viver com as restrições arbitrárias de certas religiões é o gozo de impor um pouco dessa miséria aos outros. O Jónatas apontou como exemplo dos problemas do casamento homossexual a possibilidade de litígios caso haja restaurantes que recusem servir o banquete (2). Talvez haja um universo paralelo onde o Chapeleiro e a Rainha de Copas se preocupem com isto mas, por cá, estou mais como o Daniel Oliveira*.

Esta notícia levou-me a procurar mais informação e, no site da PCC, encontrei um texto do Jónatas sobre este assunto (3). O link na página com o resumo remete para um pdf de 25 páginas, mais sucinto do que esperava do Jónatas mas, mesmo assim, demasiado longo para tragar. Por isso fui ao que me interessava mais, o Princípio da Igualdade, nas páginas 12 a 15.

Ao contrário das outras discussões com o Jónatas, aqui estou em clara desvantagem. Falta-me a formação jurídica necessária para complicar o simples, obscurecer o claro e resumir ideias em dez vezes mais palavras do que é preciso. Mas ainda assim atrevo-me a discordar. Escreve o Jónatas que o argumento da igualdade a favor do direito ao casamento homossexual é forte mas encontra duas dificuldades.

«A primeira decorre de o princípio da igualdade pouco ou nada dizer acerca da questão de saber o que é igual e o que é diferente, quais os critérios atendíveis, quem define esses critérios, com que autoridade, etc. […] Uma outra dificuldade do princípio da igualdade prende-se com o facto de que a afirmação simbólica da igualdade relativamente a todas as orientações sexuais remete as múltiplas orientações sexuais reconhecidas, todas potencialmente carecidas de afirmação simbólica.»

A segunda dificuldade é fácil de resolver. A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo não tem nada que ver com a orientação sexual. O Jónatas confunde orientação sexual com parafilia, mas neste caso é irrelevante porque o problema não é a lei limitar o casamento em função dos nubentes preferirem relações sexuais mais assim ou assado. O problema é apenas a lei impedir o casamento por os nubentes serem ambos homens ou mulheres, independentemente das suas preferências sexuais.

E a primeira dificuldade que o Jónatas aponta surge apenas por complicar a noção de igualdade perante a lei. Mas, neste caso, é muito simples. Basta a lei não tratar pessoas de forma diferente apenas por serem de sexo diferente. Só as pessoas. Os contratos podem ser tratados de forma diferente se tiverem número diferente de participantes ou duração diferente. E, neste caso, basta não discriminar quanto ao sexo. A lei pode considerar a idade, graus de parentesco, a capacidade de tomar decisões ou qualquer outra coisa que considere pertinente. O que se exige é apenas que não considere o sexo dos nubentes como legalmente relevante. Como prescreve a Constituição e como a lei já faz com a etnia, crença religiosa, orientação política e até com a orientação sexual. Esta última não é problema porque não há nada na lei que proíba um homossexual de casar com uma lésbica. O problema é apenas a lei proibir o casamento em função do sexo dos nubentes.

Quanto ao referendo que o Jónatas e a PCC exigem, já foi em 27 de Setembro. Os partidos que agora aprovam na Assembleia da República a legalização do casamento entre homossexuais foram aqueles que disseram que o iam fazer e que, por isso e por outras coisas, receberam do eleitorado os votos para o fazer. Se fosse uma decisão acerca da qual não tivessem já manifestado qualquer posição ainda compreendia que houvesse um referendo. Mas referendar o cumprimento dos programas eleitorais que foram a votos nas legislativas é contra os princípios desta democracia, que é representativa, e é um desperdício de tempo e de dinheiro.

* Obrigado ao Pedro Ferreira pelo link, as gargalhadas e a inspiração para este post

1- www.casamentomesmosexo.org
2- DN, ”Certas coisas podem fazer mal”.
3- PCC, A (in)definição do Casamento no Estado Constitucional.

Treta da semana: In nomine Patris, toma lá disto.

Apesar da fé inabalável, o fundamentalista também precisa, desesperadamente, de confirmação independente para o seu livro sagrado. Para o Mats, o livro é aquele que manda bater nas crianças com um pau para que sejam obedientes (Provérbios: 13:24; 22:15; 23:13; 29:15), que os pássaros lhes comam os olhos se o pau não resultar (Provérbios 30:17), ou que os homens da cidade as apedrejem até à morte (Deuterónimo 21: 18-21*). Para confirmar isto, o Mats refere um “estudo” indicando que «Aparentemente pais que disciplinem fisicamente os seus filhos entre as idades de 2 a 6, estão a criar condições para que os mesmos sejam mais bem sucedidos na vida.»(1)

Mas esta confirmação é pouco independente. É um inquérito (2) organizado pela University of Notre Dame, uma universidade católica da Congregação da Santa Cruz (3), e financiado pela Lilly Endowment, uma fundação privada de apoio a iniciativas religiosas (4). Refere também as recomendações do American College of Pediatricians (ACP). O nome confunde-se facilmente com American Academy of Pediatrics (AAP), mas enquanto a AAP é a mais antiga e prestigiada associação de pediatras dos EUA, o ACP foi criado por um grupo de pediatras conservadores que saíram da AAP por exigir que esta se opusesse à adopção por parte de casais homossexuais (5). Em linha com a sua ideologia de inspiração cristã, o ACP defende ser apropriado bater em crianças dos 18 meses aos 6 anos.

Em contraste, a AAP opõe o uso de castigos corporais por várias razões, entre as quais tornar a criança mais nervosa e agressiva, degradar o relacionamento com os pais e deixar de ter efeito a menos que se aumente progressivamente a severidade do castigo (6). O que é compreensível. Se queremos ensinar um cão o melhor é recompensar os comportamentos desejados, com festas ou guloseimas, e desencorajar os indesejados com uma rosnadela ou mandando-o de castigo para a cozinha. Tentar ensinar o animal batendo-lhe só dá um cão assustado e violento, porque o mecanismo primitivo de aversão à dor desencadeia apenas respostas imediatas e simples: fugir ou atacar. Os cães são animais sociais inteligentes, motivados para pertencer a um grupo e ter a aprovação dos seus membros. É esse mecanismo mais sofisticado que permite ensinar-lhe coisas que não se consegue ensinar a um gato, por exemplo.

Ensinar crianças à pancada é uma asneira pior. Além do péssimo exemplo e do risco de a magoar, a criança tem formas de aprendizagem ainda mais sofisticadas que as dos cães. Não só tem a empatia e ânsia por aprovação comum aos mamíferos sociais mais inteligentes, como tem linguagem e capacidade de abstrair e compreender regras. Com estes mecanismos podemos ensiná-la a não só a sentir pelos outros mas também noções como justiça, direitos, deveres, bem e mal. Se a ensinarmos com empatia e diálogo a criança desenvolve valores éticos. Não é imediato; é preciso muitos anos e muita paciência. Mas ensinar é isso mesmo. Anos e paciência. Não se ensina coisas complicadas com um par de estalos.

À pancada o resultado é o oposto. Ensina que a diferença entre o bem e o mal está no castigo. Se leva tabefes, é porque fez mal. Se conseguiu safar-se, tudo bem. É como se o problema moral de bater na velhota fosse ir para a prisão em vez de ser o sofrimento da coitada. Isso não é ética. É egoísmo. Mas é a base da suposta “moral objectiva” destas religiões. Basicamente, há coisas que são más porque Deus castiga. E pronto. Nesta moral deturpada, é aceitável um homem bater numa criança mas não se tolera que beije outro homem. Não interessa que um cause sofrimento e outro prazer, que um seja imposto e o outro voluntário, que um seja uma violação e o outro o exercício de um direito. O que interessa é que Deus não castiga o homem que bate em crianças mas castiga aquele que beija outros homens.

Isto, obviamente, não tem nada de ético. Mas é uma forma eficaz de manipular as pessoas. Disfarçado de “moral”, este parasita engana as defesas dos hospedeiros que, tendo levado no trombil desde pequenos, crescem sentido o dever de repetir a virtuosa façanha e infectar a geração seguinte.

É esta a preocupação principal do Mats. Se ensinamos as crianças com paciência, amor e diálogo elas tornam-se autónomas, capazes de perceber por si a diferença entre o bem e o mal. É o pecado original, e quem pensa por si corre o risco de ficar ateu. Por isso o melhor é dar tabefes a ver se aprendem a “temer a Deus”. Ou, pelo menos, a fingir de forma convincente.

* É costume nos baptizados alguém ler trechos da Bíblia. Quando tenho mesmo de ir a um baptizado, imaginar que alguém escolhe esta passagem ajuda a tolerar a seca:

«Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedeça nem ao pai nem à mãe, ainda que estes o castiguem para o corrigir, então seus pais deverão trazê-lo perante os anciãos da cidade e declarar: 'Este nosso filho é obstinado e rebelde e não quer obedecer; além disso é um comilão e beberrão incorrigível.' Os homens da cidade apedrejá-lo-ão até morrer. Dessa forma tirarão o mal do vosso meio; e todos os outros jovens de Israel ouvirão isso que aconteceu e terão medo.»


1- Mats, Crianças novas que recebem disciplina física se tornam adolescentes mais felizes e bem sucedidos
2- pals.nd.edu
3- Wikipedia, University of Notre Dame
4- Wikipedia, Lilly Endowment
5- ACP, History of the College
6- AAP, Guidance for Effective Discipline

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Placebo.

Via Pharyngula.


terça-feira, fevereiro 09, 2010

Tretologias.

O astrólogo Sérgio Rivilo perguntou «¿Cómo se podría demostrar la validez del Teorema de Pitágoras a alguien que no sabe nada de matemáticas?»(1). A pergunta devia ser retórica mas, como o Pedro Amaral Couto apontou, é trivial. Basta papel, lápis e um esquadro*. Na verdade, é fácil mostrar que um elevador funciona como se espera sem explicar como. Ou um automóvel, um computador ou uma reacção química.

É certo que há casos mais complexos. Não é trivial explicar a importância da teoria da relatividade para o GPS ou da teoria da evolução para a previsão de estruturas de proteínas por homologia. Mas mesmo assim pode-se mostrar que o aparelho dá a posição certa e que a estrutura prevista é semelhante à real. A validade do conhecimento científico pode ser demonstrada mesmo a quem não o compreenda. É por isso que não precisamos de uma dúzia de doutoramentos cada um para usar roupas, carros, medicamentos e electrodomésticos. Quando se compreende a realidade e se consegue prever como esta se comporta é fácil mostrá-lo mesmo a quem não tenha esse conhecimento.

E a realidade é só uma, ao contrário das fantasias, opiniões e conjecturas. Por isso todo o conhecimento da realidade acaba por encaixar e formar uma rede coerente de modelos e teorias. Da física à sociologia, a ciência procura hipóteses que liguem entre si os vários conjuntos de dados. E o que não encaixe ou só for compatível com uns dados e não com outros vai sendo abandonado. O éter luminífero, os quatro elementos, o flogisto. E o criacionismo, a teologia, a astrologia, o tarot e assim por diante.

Segundo Sergio Rivilo, «Para obtener una demostración de la validez de la astrología es ABSOLUTAMENTE IMPRESCINDIBLE estudiar astrología.» Isto é verdade. O psicólogo Hans Eysenck (2) teve resultados interessantes em estudos sobre a correlação entre o signo astrológico e a personalidade avaliada com um questionário preenchido por cada participante. As respostas de pessoas com conhecimento de astrologia correlacionavam-se significativamente com aquilo que a astrologia dizia ser a personalidade do seu signo. Mas as respostas de quem não sabia nada de astrologia não tinham qualquer correlação com os traços de personalidade associados ao signo. O signo astrológico não permite prever coisa nenhuma, mas se convencermos as pessoas que esses são os traços da sua personalidade, pelo menos quando nos relatam a personalidade que julgam ter fazem-no conforme essas expectativas.

Psicologicamente, as tretologias são um fenómeno interessante. É intrigante a abundância destas crenças: na influência dos planetas sobre a nossa personalidade, na criação do mundo em seis dias, na previsão do futuro pelas cartas, em milagres e afins. Isso, e a propensão para confundir narrativas fictícias com conhecimento. Praticamente qualquer história da carochinha pode dar uma coisologia. Estas idiossincrasias dão pistas importantes acerca do funcionamento da nossa mente. Mas não são explicações; são dados por explicar.

Talvez um dia consigamos explicar em detalhe porque a treta se propaga com tanta facilidade de mente em mente. Nessa altura teremos uma explicação cuja validade será fácil de mostrar pela sua utilidade, e que encaixará com o resto do nosso conhecimento, como a neurologia, a psicologia e a evolução da nossa espécie. Mas, até lá, fica o espanto por esta capacidade de acreditar em tretas tão diversas que o seu único ponto comum é a total falta de fundamento.

* Ou menos que isso, como se pode ver neste vídeo com Jacob Bronowski. Obrigado ao sxzoeyjbrhg pelo link.

1- Comentários em Treta da semana: XXVII Congresso Ibérico de Astrologia
2- Richard Wiseman, Quirkology, 2007, Pan Books, pag. 7