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A Science desta semana publicou um artigo alegando uma correlação inversa entre o desempenho académico das raparigas relativo ao dos rapazes e a discriminação sexual na sua sociedade. Especificamente, entre os dados do Programme for International Student Assessment (PISA) 2003 e o Gender Gap Index (GGI) do World Economic Forum. Segundo os autores os dados mostram que a vantagem das raparigas na leitura aumenta com a redução na discriminação sexual, de 20 pontos na Turquia até 60 pontos na Islândia, e que a desvantagem na matemática inverte-se, de -20 pontos na Turquia a +10 na Islândia. A conclusão é que as raparigas são por natureza melhores na leitura, como já era aceite, e que, ao contrário do que se julgava, também são naturalmente melhores na matemática. O que baixa o seu desempenho em relação ao dos rapazes é apenas a discriminação sexual porque esta diferença, alegam, desaparece nos países com menos discriminação.
O Desidério criticou este artigo como «ciência ideológica, ciência politicamente correcta, ciência baseada numa mentira política.»(1) A minha primeira reacção foi responder que isso é irrelevante porque o que importa são os dados. Se há realmente uma correlação tanto faz a ideologia ou a política. A menos que tenham aldrabado. Por isso fui ver o artigo (2) e os dados. Achei estranho num artigo de 2008 usarem os dados do PISA 2003 quando temos o PISA 2006 (3). Também estranhei mostrarem um gráfico bonito com dez países quando os dados cobrem quase cinquenta. Finalmente, usarem uma análise estatística rebuscada quando o que afirmam é simplesmente a correlação de dois valores: desempenho académico e índice de discriminação. Cheirou-me a treta.
Depois de olhar para o material suplementar que acompanha o artigo, e cujos gráficos são bastante menos impressionantes por incluírem mais que os dez países escolhidos a dedo, decidi cruzar o PISA 2006 (3) com o GGI 2007 (4) a ver o que dava. O gráfico abaixo mostra no eixo horizontal o GGI, com valores maiores indicando sociedades mais igualitárias, e no eixo vertical a diferença entre o desempenho na matemática dos jovens do sexo masculino e feminino, com números menores indicando menor vantagem dos rapazes e valores negativos indicando vantagem para as raparigas.
Considerando os dados não me parece razoável a afirmação dos autores que «the gender gap in math scores disappears in countries with a more gender-equal culture.» Até porque os países em que as raparigas superam os rapazes na matemática são Islândia, Azerbaijão, Bulgária, Jordânia, Catar e Tailândia.
Não concluo daqui que a diferença seja biológica, até porque é uma questão difícil de formular de forma a fazer sentido. Mas concluo que o artigo é treta. Não é nada claro que a discriminação sexual explique as diferenças no desempenho académico. Concordo com o Desidério que a publicação deste artigo deveu mais à politiquice que à ciência e que isto é preocupante. Sugere que muitos julgam que se justifica combater a discriminação porque, em média, os sexos são iguais ou as raparigas são melhores que os rapazes. É um disparate nefasto porque devemos combater a discriminação precisamente para que não se julgue indivíduos pela média do grupo a que pertencem, seja qual for o grupo ou a média.
1- Desidério Murcho, 31-5-08, Pontapés na ciência
2- Guiso, Monte, Sapienza, Zingales, DIVERSITY: Culture, Gender, and Math, Science, Vol. 320. no. 5880, pp. 1164 – 1165 (só para assinantes, mas o material suplementar parece ser de acesso livre).
3- PISA 2006 (xls)
4 The Global Gender Gap Index 2007 (pdf)
