quinta-feira, janeiro 31, 2008

Treta da Semana: Bento XVI

O prémio desta semana vai para Joseph Alois Ratzinger, agora conhecido como Bento XVI, pela sua ofuscante carreira a confundir superstição e ciência. Um exemplo é a lição de 2006 na universidade de Regensburg (1), onde Ratzinger alerta para a “auto-limitação” da razão moderna porque a ciência «pressupõe a estrutura matemática da matéria, a sua racionalidade intrínseca, que torna possível compreender como a matéria funciona e usá-la eficientemente »

A matemática na ciência é consequência do conhecimento que a ciência produz. Não é pressuposta. Antigamente não era preciso matemática na ciência. Para dizer que as plantas são verdes basta a linguagem corrente. Mas quanto mais rico e detalhado é o conhecimento mais expressiva e rigorosa tem que ser a linguagem que o codifica. Para descrever uma proteína, um avião a jacto ou uma sinfonia é preciso uma notação própria. Pode ser com equações, desenhos, zeros e uns no computador ou qualquer outra coisa, mas o significado dos símbolos tem que ser tão preciso como a informação que transmitem.

Segundo Ratzinger, porque a ciência depende deste pressuposto e se fundamenta na experiência «este método exclui a questão de Deus, fazendo a parecer uma questão não científica ou pré-científica. Consequentemente, estamos frente a uma redução do âmbito da ciência e da razão, uma redução que tem que ser questionada»(1). Mas este método não exclui deus nenhum. Pelo contrário.

Se existissem deuses a melhor forma de os descobrir seria estudando a realidade com rigor. A teologia natural, mais antiga que o Cristianismo, visava conhecer o criador do universo através do universo que ele criou. Eventualmente tornou-se ciência porque enquanto método de estudar o universo funciona bem. É enquanto teologia que só faz sentido se o tal deus existir, e tudo indica não haver tal coisa neste universo.

É o truque de pintar a ciência como se fosse mais um sistema axiomático assente numa crença inquestionável. A teologia assume que existe um deus, a ciência assume que não há deuses. O criacionismo, a astrologia, a homeopatia e tantas outras tretas fazem exactamente a mesma coisa. Tentam repartir o conhecimento entre os que assumem uma coisa e os que assumem outra. Mas a ciência não se amarra a axiomas. A ciência põe hipóteses que a qualquer momento podem ser trocadas por outras. A hipótese de haver deuses já lá esteve, mas como se pode ver pelos resultados práticos da teologia não leva a lado nenhum.

Este truque serve sempre para vender alguma treta, e é nisso que a teologia é rainha:

«O homem constitui algo que vai muito além do que se pode ver ou do que se pode perceber pela experiência. Descuidar a questão sobre o ser humano leva inevitavelmente a negar a busca da verdade objectiva sobre o ser em sua integridade e, deste modo, à incapacidade para reconhecer o fundamento sobre o que se apoia a dignidade do homem»(2)

É banha da cobra por excelência. Não estica, não dobra e nem sequer se pode perceber pela experiência. Mas não a podemos descuidar. A teologia não se limita ao universo todo. Enfiando o barrete da fé consegue ver muito além. Vê o fundamento da dignidade. Vê a verdade objectiva. Vê Deus que é amor e é pai e é filho e é três e é um. E se esfregar os olhos com força até vê luzinhas.

1- Bento XVI, 12-09-06, Lecture of the Holy Father
2- Bento XVI, 28-1-08, Por uma ciência com consciência

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Respeitinho...

Free Image Hosting

Don Addis, no Freethought Today, via Sandwalk

ASAE

Tem havido muita discussão acerca da ASAE. Uns criticam abusos e incoerências, outros defendem que é preciso fazer cumprir a lei. Ambos têm alguma razão. A ASAE faz cumprir a lei e qualquer organização examinada em detalhe revela problemas. Ninguém é perfeito. O que me preocupa é que a discussão ignora o mais importante.

A polícia deve zelar pela nossa segurança, que inclui a segurança alimentar e económica. Apanhar uma gastrite com um croquete estragado ou um choque eléctrico com uma torradeira pode ser pior que ser assaltado. Mas não vejo como as t-shirts da feira ou os mp3 possam ser um problema de segurança.

Os feirantes estão a concorrer com as marcas que vendem dez vezes mais caro. Não me oponho à política de preços, ao direito das marcas de vender como quiserem e nem a leis que protejam o uso da marca. Mas isso é entre a marca e o feirante e é para decidirem entre eles em tribunal. O contribuinte não tem interesse em pagar à polícia para investigar e prender quem vende t-shirts ou DVDs. Como política de segurança é um tiro no pé. Há problemas mais importantes e multar o feirante ou apreender-lhe os trapos não o torna um comerciante honesto. Ele não vai abrir uma papelaria ou arranjar emprego por causa disso.

Criminalizar actos inofensivos acaba por incentivar crimes piores, sacrificando a nossa segurança para proteger interesses de quem não precisa da ajuda da polícia. Um condutor embriagado que ponha em perigo a vida de outra pessoa pode ter até três anos de prisão. A lei que temos vê os CDs pirateados ou as camisolas na feira como merecendo igual castigo. Isto não é zelar pela nossa segurança. É fabricar criminosos.

Muitos vêem estes problemas como interessando apenas a alguns. Como se a liberdade de trocar informação digital apenas interessasse a quem descarrega músicas, a liberdade de criar obras derivadas só fosse relevante para o Hip-Hop, as patentes informáticas só afectassem os programadores e prender feirantes fosse só azar deles. Mas faz tudo parte de um problema de fundo que nos toca a todos. O quê, e como, é que se regula por leis?

A questão é importante porque temos recursos limitados, e cada polícia a ver se a Ginginha do Rossio tem casa de banho é menos um polícia a zelar pela nossa segurança. Porque é um perigo para a sociedade tratar como criminoso quem não representa perigo nenhum. E porque as leis de um país não devem ser determinadas em função de vantagens profissionais, económicas ou políticas de alguns.

Isto não é um problema novo, mas hoje temos mais possibilidade de participar discutindo, manifestando opiniões, e exigindo que os nossos representantes nos representem adequadamente. E o muito anda por aí acerca da ASAE mostra que a opinião pública faz ouvir nestas matérias. Mas penso que se aproveitava melhor a oportunidade discutindo a lei em vez de discutir a ASAE.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Portal Ateu, teologia e lorem ipsum.

Aceitei de bom grado o amável convite do Hélder Sanches (1) para participar no Portal Ateu. Não sei bem quanto é que vou poder contribuir, mas pelo menos um artigo pequenino já lá está. Ainda não está tudo operacional mas já podem dar uma olhada, deixar comentários, e até já nos deixaram o primeiro insulto. A coisa está a andar bem.

Como ainda está em construção, alguns textos estão com o famoso «Lorem ipsum dolor sit amet...», um texto usado por tipógrafos há cinco séculos. É composto de pedaços do «de Finibus Bonorum et Malorum» de Cícero (2) e não faz muito sentido, mas serve para ajustar o tipo e tamanho de letra e a composição gráfica das páginas.

Parece-me que a razão principal para se ter mantido constante durante cinco séculos é precisamente não fazer sentido. Como não se percebe, o texto é copiado letra a letra de geração em geração. Tal como a doutrina religiosa, cuja longevidade também me parece dever-se à falta de sentido. Vejam lá se isto não parece um argumento teólogico comprovando a existência de Deus.

«"Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur. Excepteur sint occaecat cupidatat non proident, sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum."»

1- Blog do Hélder Sanches, Penso, logo sou ateu
2- www.lipsum.com

Criacionismo já é ciência.

A equipa de Hamilton Smith (1) sintetizou o genoma completo do Mycoplasma genitalium, uma bactéria simples com cerca de 400 genes e um genoma de meio milhão de pares de bases. Isto é muito menos que os três mil milhões de pares de bases do genoma humano, mas é um feito considerável tendo em conta que foi tudo sintetizado a partir dos nucleótidos. A síntese química de sequências de ADN permite criar trechos de cerca 100 bases. Estes depois foram reunidos em sequências cada vez maiores num longo processo de manipulação e correcção de erros.

Foram anos de trabalho e milhões de dólares, mas a técnica certamente se tornará mais barata e mais simples quanto mais for usada. E, pela primeira vez, o genoma de um ser vivo foi criado artificialmente por um ser inteligente. Agora os criacionistas já podem dizer que o criacionismo é ciência. Só precisam deitar fora essas tretas de deuses e milagres.

Via SciGuy
1 Prémio Nobel da medicina 1978

domingo, janeiro 27, 2008

Cientologia. Mais ou menos...

Há uns tempos mostrei aqui o vídeo onde o Tom Cruise relata a maravilha que é ser cientólogo (1). Agora é Jerry O'Connell que nos conta como é ser actor.



Link para o vídeo. Via Zeropaid

1- 16-1-08, Fala, fala, fala...

PCR

A Polymerase Chain Reaction (PCR) é a técnica mais usada para copiar um trecho de ADN. A imagem abaixo esquematiza o processo (1).

Image:PCR.svg

No passo 1 a cadeia dupla de ADN é separada aquecendo a solução. No passo 2 arrefece-se a solução e os primers agarram o ADN nas extremidades da região a amplificar. Os primers são pequenos trechos de ADN com cerca de 20 a 30 nucleótidos sintetizados com a sequência do ADN nos pontos onde queremos que encaixem. Em seguida a polimerase começa a alongar os pequenos primers catalisando a ligação de nucleótidos à cadeia em crescimento. Como cada tipo de nucleótido (A, T, G, C) apenas encaixa num tipo específico da cadeia complementar (A com T e G com C), a cadeia gerada é complementar à original.

Depois é repetir isto vinte ou trinta vezes. O aquecimento separa (desnatura) as cadeias, o arrefecimento faz encaixar (hibridar) os primers nas extremidades e a polimerase sintetiza uma cadeia complementar a partir de cada primer. Cada ciclo duplica a quantidade de ADN da região a amplificar e basta umas dezenas de ciclos para obter milhões de vezes a quantidade inicial. É isto que permite isolar trechos de ADN a partir de uma amostra biológica e obter quantidade suficiente para sequenciar um gene, identificar um indivíduo e assim por diante.

Esta história toda é só para ajudar a perceber o vídeo abaixo, um vídeo publicitário da Bio-Rad que está muito engraçado mas é um bocado para nerds. Obrigado ao Mário Miguel pelo link.



1- Wikipedia, Polymerase Chain Reaction

sábado, janeiro 26, 2008

Para baixo. Para cima.

A dedução é a forma de inferência preferida dos teólogos. Parte-se da Verdade e aplica-se a Razão. Para o teólogo, a conclusão tem que se pendurar na verdade certa, sólida, inatacável. Raciocina de cima para baixo, da autoridade para o subordinado, do perfeito para o imperfeito, do criador omnipotente para a pobre criatura. É natural. É como os nossos pais nos ensinam, é como se organiza uma tribo ou um bando de guerreiros, um reino ou uma religião. De cima para baixo. O cérebro humano evoluiu para lidar com situações destas e a nossa tendência é ver tudo desta forma.

Por azar o universo funciona ao contrário. Não é um deus poderoso que agita nuvens e vento numa tempestade. O vento é o movimento de moléculas microscópicas, algumas que condensam em gotas que se juntam e encharcam os homens assustados que rezam a um responsável que não existe. O Big Bang, as estrelas, os seres vivos, foi tudo de baixo para cima. Neste canto só ao fim de treze mil milhões de anos é que surgiu algo suficientemente complexo para tentar perceber o que se passava. A ciência é o truque que inventámos para pôr o cérebro a trabalhar ao contrário daquilo que a evolução favoreceu. Custa, e o Bernardo Motta mostra que muita gente ainda se engana.

«sem o cristianismo [...] não haveria qualquer razão intelectual para supor que o Mundo seria ordenado, inteligível, que permaneceria o mesmo independentemente do observador, que não seria um Mundo enganador, ou que os nossos sentidos não seriam enganadores ou subjectivos. Sem o cristianismo, o que nos faria supor que o João vê o mesmo que a Maria ou que o Manuel? Ou que o ferro do século XIV exibiria uma resposta mecânica semelhante à do ferro do século XIX?»(1)

Este raciocínio é de cima para baixo. Assume um deus todo poderoso e benévolo de onde deduz que os sentidos não nos enganam para, finalmente, concluir que há mesmo pedras, o ferro é duro e assim por diante. Que exagero. Como explicou David Hume, se o saco num prato da balança levanta os cinco quilos no outro prato não dizemos que o saco tem um peso infinito, nem que pesa quinhentas toneladas, nem sequer que pesa cem quilos. Dizemos apenas que pesa mais que cinco quilos. O deus Cristão é um exagero igualmente insensato. Para explicar pedras, ferro e humanos não é preciso postular omnipotência, omnisciência, benevolência e uma inexplicável aversão a preservativos. Não se justifica esse exagero nem é razoável a premissa.

Para explicar temos que fazer o percurso inverso deste raciocínio. Em vez de deduzir consequências de um postulado abduz-se hipóteses cujas consequências incluam o que se quer explicar. Explico a sensação de calor com a hipótese que estou ao Sol. Ou que há um incêndio. Ou que estou a sonhar. Tem a vantagem de partir do que se quer explicar, que é melhor do que partir dos confins da imaginação. E mostra que qualquer coisa pode ser explicada de infinitas maneiras, por isso não nos podemos fiar na primeira que aparece. Temos que procurar entre muitas a mais informativa e menos especulativa.

Eu gosto da metáfora com que Daniel Dennett expõe esta diferença. A ciência constrói gruas sobre dados empíricos, hipóteses que ajudam a erigir teorias onde se pode apoiar gruas mais altas e assim por diante. O conhecimento científico ergue-se gradualmente e de baixo para cima como os edifícios. A religião quer fazer o contrário. Postula um gancho mágico no céu onde pendura um enleado de especulações que vêm por ai abaixo. Quando toca no chão qualquer semelhança com realidade é pura coincidência.

Essa «razão intelectual» é desnecessária. Não precisamos assumir à partida que a realidade é estável ou previsível. Essa hipótese surge depois, como explicação para algumas coisas e nem serve para todas. Um prego é estável e previsível mas o átomo de Urânio 235 não é, e nem o deus do Bernardo pode prever o instante do decaimento radioactivo de um átomo.

Mais uma coisa na qual o Cristianismo não ajudou nada. Durante séculos andou tudo a pendurar especulações em ganchos no céu em vez de construir conhecimento sólido.

1- Bernardo Motta, 23-1-08, O paradoxo do ateu.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Treta da Semana: Professor Bambo.

Esta semana estou de folga. O Google deu-me logo a ligação para este excerto do programa As Teorias do Nilton (1). Não é preciso dizer mais nada.



Quem não conseguir ouvir pode tentar na página do ESnips.

Editado, 13:17: Penso que a voz que ouvimos não é a do professor Bambo, mas apenas de um dos seus funcionários. Parece que ele tem vários consultórios pelo país. Mas dá para perceber o nível do serviço...

1- http://www.teorias-nilton.te.pt/

quinta-feira, janeiro 24, 2008

O Papa e a universidade.

O reitor da universidade La Sapienza convidou o Papa Bento XVI a proferir o discurso de abertura do ano académico no passado dia 17. Vários professores protestaram que o Papa seria uma má escolha por imiscuir a fé na ciência (1) e pelos seus comentários acerca da condenação de Galileu pela Igreja Católica (2). A carta de protesto enviada ao reitor foi divulgada à comunicação social e coincidiu com a «Semana Anticlerical», uma acção de protesto organizada por alguns alunos. Por isso o Papa cancelou a visita. O contra-protesto dos crentes foi imediato. Censura. Intolerância. Silenciaram o Papa. O editorial de José Manuel Fernades no Público de dia 17 começou assim:

«Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso...»(3)

É treta. Ninguém impediu o Papa de falar e se lhe tivessem feito «tudo o que no passado criticaram à Igreja» o desgraçado tinha sofrido bastante mais que ter que enviar o discurso pelo correio. Galileu ficou preso, proibido de escrever e os outros proibidos de ler o que ele tinha escrito. Giordano Bruno e milhares de outros sofreram pior.

Se fosse um debate ou uma palestra noutro contexto estou certo que estes professores teriam aproveitado a oportunidade de fazer algumas perguntas ou comentários ao Papa. Mas a alocução inaugural do ano académico é uma ocasião diferente. Sugere que o convidado exprime o espirito da universidade. E, como salientou Marcello Cini, a teologia não tem lugar numa universidade pública moderna como La Sapienza (1). Não faz sentido ser um Papa, um Ayatollah, um Rabbi ou um Mullah a proferir este discurso.

Os Católicos, como o Bernardo Motta (4), dirão que a universidade foi inaugurada por um Papa e é legítimo que seja o Papa a inaugurar o ano académico numa universidade porque foi a Igreja que inventou as universidades e assim por diante. Mas isto apenas confunde duas coisas com nome igual mas que são muito diferentes.

A Igreja Católica criou sítios onde pessoas de um sexo e de uma fé aprendiam uma religião e mais umas coisas. Onde veneravam o deus da Igreja Católica, proibiam ideias que não fossem aprovadas pela Igreja Católica e aceitavam aprisionar, torturar ou matar quem se atrevesse a discordar da Igreja Católica. Antigamente chamavam-se «universidades» mas na Europa de hoje seriam crime. Os edifícios são os mesmos, o nome é o mesmo, mas o espírito de uma universidade como a de La Sapienza é o oposto daquilo que os Católicos criaram e de muito do que a Igreja Católica tenta ainda hoje justificar e defender.

Em 1990 Ratzinger citou Feyerabend para dizer que «A igreja na altura de Galileu foi muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e também considerou as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu veredicto contra Galileu foi racional e justo». Cientificamente, Galileu devia ter esperado por mais evidências antes de defender com tanto afinco o modelo de Copérnico. Cientificamente, isso justificava que o revisor do seu primeiro trabalho lhe pedisse que apresentasse mais dados. Mas não há nada de racional, científico, ou sequer minimamente aceitável em pôr o homem na prisão por causa disso. É isto que Ratzinger e os Católicos que o defendem varrem para debaixo do tapete, mas é isto que importa. A Igreja Católica tinha o direito de discordar de Galileu mas não tinha o direito de o prender por isso.

Ninguém quer fazer o mesmo ao Papa. O espírito académico de abertura e diálogo faz-me opor que ponham Ratzinger na prisão ou o torturem pelas tretas que diz. Mas é um disparate que o representante de uma religião inaugure o ano académico de uma universidade séria. A universidade não tem nada a ver com religião, não deve ter, e tinha-se poupado muito sofrimento a muita gente se nunca tivesse tido.

1- Marcello Cini, 14-11-07, Carta de Marcello Cini ao reitor
2- Corriere Della Sera, 15-1-08, Sapienza Academics Reject Pope’s University Address
3- Companhia dos Filósofos, O caso Sapienza
4- Bernardo Motta, 16-1-08, Jovens Obscurantistas, continuado em 22-1-08, Ratzinger, eu e o discurso do Papa

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Ah, "trouxe"...

O Bernardo Motta respondeu à minha crítica acerca do Cristianismo ter trazido a ideia que «o verdadeiro é o adequado ao real»(1). Na boa tradição teológica, o Bernardo esmiuça a palavra «trouxe», evita a questão e esquece as alegações que o Cristianismo teria também trazido a confiança nos sentidos, o amor pela investigação e conhecimento (em grego diz-se filosofia) e o «primado da razão» (2). Mas seja. Vejamos então o que diz o Bernardo.

«É certo que São Tomás [...] recuperou todas as coisas boas que o aristotelismo tinha, e também descartou as más.[...] Aristóteles nunca conheceu Cristo, mas amou a Verdade. E quem ama a Verdade acima de todas as coisas (rigorosamente acima de todas), ama a Cristo. Aristóteles não sabia nada de Cristo, mas amava-O sem o saber.»

Aristóteles afinal era mesmo Cristão. O Bernardo continua: «Dito por outras palavras, o cristianismo dos homens de fé não criou nada: Cristo é que criou tudo.» Eu diria ao Bernardo para não ser tão modesto acerca da sua criatividade. «A vasta obra de Aristóteles seduziu algumas mentes medievais persas, judaicas e islâmicas, que o traduziram e estudaram. Por via dos cordoveses do Al-Andaluz, sobretudo o judeu Maimónides e o muçulmano Averróis, mas sem esquecer o grande antecessor persa Avicena, a obra de Aristóteles entra “a matar” na Europa, primeiramente sob a forma de traduções em árabe, divulgadas a partir do Califado de Córdova. E o mérito da verdadeira redescoberta do aristotelismo [...] deve-se sobretudo [a] São Tomás».

Resumindo. Aristóteles diz que a verdade corresponde ao real, os muçulmanos e judeus preservam isso durante um milénio e reintroduzem as obras de Aristóteles na Europa. Conclusão? O Cristianismo trouxe a verdade objectiva para a Europa. Pena que a lógica tenha ficado pelo caminho...

Mas isto é pouco relevante porque quando Aristóteles definiu "verdade" como dizer que é aquilo que é e que não é aquilo que não é estava só a formalizar o que já todos sabiam. Sempre foi óbvia a falsidade de dizer que é aquilo que não é. E é absurdo que este conceito de verdade fosse desconhecido dos Celtas, dos Romanos pré-Cristãos, dos Gregos antes e depois de Aristóteles, dos povos nórdicos, de todos os povos da Europa que se foram convertendo ao Cristianismo e de todos os Cristãos antes de Tomás de Aquino. O Cristianismo não trouxe isto de lado nenhum. Isto já estava em todo o lado.

O Bernardo perguntou-me «se, quando tem amigos a jantar em sua casa, e algum traz uma garrafa de vinho, o Ludwig deduz imediatamente que o seu amigo seja produtor de vinho…». Não. Mas se o vinho já estava na minha cozinha* e ele diz que foi ele que o trouxe eu digo bebe mas é um copo e deixa-te de tretas.

* Vinho é improvável, que não bebo isso. Mas fui recentemente desencaminhado para os licores artesanais açorianos. Isso já é outra coisa.

1- 18-1-08, O que o Cristianismo nos trouxe.
2- Bernardo Motta, 23-1-08, O paradoxo do ateu.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Correlação e causalidade.

A série de posts sobre a Europa e o Cristianismo surgiu da confusão que João César das Neves fez entre correlação e causalidade (1), afirmando que a Europa democrática, capitalista e tecnologicamente desenvolvida surgiu por causa do Cristianismo. É por isso estranhamente apropriado que a crítica do Tiago Luchini assente na mesma confusão:

«Os principais argumentos variam entre “se o Cristianismo não tivesse existido, não teríamos isso” a “se Aristóteles não tivesse existido, não teríamos aquilo”. Nesta brincadeira o mais óbvio é que se eu não tivesse comido repolho, não estaria com gases e que brincar com “se” é simplesmente isso: uma grande e infantil brincadeira.»(2)

O “se” é a diferença entre causa e coincidência. Imaginemos que o Tiago come sempre repolhos no mesmo prato. A correlação entre o prato e os gases seria a mesma que entre os repolhos e os gases. Dizer que a causa dos gases são os repolhos e não o prato é dizer que se não tivesse comido repolhos não teria gases mas se tivesse comido repolhos noutro prato teria gases à mesma. É este “se” que distingue a mera ocorrência conjunta de uma relação entre causa e efeito.

Concordo que «isolar uma ou duas variáveis como fundamentais para o atual mundo ocidental é praticamente impossível.» Até os gases são produto de várias causas. Os repolhos, os intestinos, o tempo de digestão, os microorganismos no intestino, a temperatura do corpo e assim por diante. Não podemos isolar uma. Mas podemos comparar a importância dos factores e até eliminar alguns que são irrelevantes.

A maioria das descobertas científicas nos últimos séculos foi feita por pessoas com bigode e acesso à melhor educação da sua época. Não podemos isolar uma destas como causa única mas podemos perceber que não são igualmente importantes. A física moderna perderia mais se Einstein fosse analfabeto que se ele tivesse rapado o bigode.

É isso que estamos a discutir aqui. É fácil perceber o mecanismo que fez o telescópio ser uma causa da descoberta das luas de Júpiter. Sem telescópio não se vê as luas de Júpiter, por isso se não tivesse telescópio Galileu não as tinha descoberto. A interacção da tecnologia com a ciência, a influência das ideias da antiguidade clássica recuperadas no Renascimento e os efeito sociais das riquezas obtidas nos descobrimentos mostram mecanismos que justificam propor relações causais.

O Cristianismo não dá nada disso. Darwin estudar para padre foi tão relevante na altura como hoje tirar a carta de condução. Adam Smith e Jeremy Bentham se inspiraram no poder redentor de Jesus Cristo, nem a doutrina ou teologia Cristã foi relevante para as revoluções na América e na França. O Cristianismo foi, e é, o grande bigode da história da Europa. Qualquer bigode tem o seu efeito, mas não na democracia, no capitalismo nem no progresso tecnológico.

1- João César das Neves, Como a Igreja criou a Europa

2- Tiago Luchini, 20-1-08, Grécia, Cristianismo e Europa.

domingo, janeiro 20, 2008

Treta da Semana (passada): BioStabil.

A Gigashopping apresenta-nos o BioStabil(1). É um colar com um íman que «funciona como um íman», o que não parece nada de especial. Mas é. Custa €240 e é um «sistema biomagnético holandês patenteado que equilibra as energias do seu corpo, quer você tenha demasiada energia negativa ou demasiada energia positiva.» Por afirmarem sem evidências ser «um tratamento natural excelente e a solução para muitos problemas do organismo, como stress, depressão, insónias, ansiedade, arritmias, entre outros» os anúncios a este produto foram proibidos pela Comissão Holandesa de Código Comercial. A Gigashopping mantém-se fiel à sua missão de vender em Portugal aquilo que os outros países condenam como publicidade enganosa.

O fundamento científico da medalha milagrosa é evidente nas palavras do inventor, Bruno Santanera: «As mulheres, quando começam as aulas de condução, a primeira vez que entram no carro começam a hiperventilar. É o resultado de carga positiva excessiva que desenvolvem.» Mas esta maravilha não elimina apenas as cargas positivas. Também elimina as negativas e o que mais calhe. «Aumenta a energia de forma incrível, melhorando a saúde, activando a circulação do sangue e estimulando a sensibilidade de alguns nervos». Melhor que isto só com os ímans de frigorífico.

O BioStabil é «o único sistema patenteado no mundo» de medalha giratória que orienta o íman da melhor forma para descarregar as energias. Não explicam como é que um íman descarrega seja o que for, e a física do Sr. Santanera é algo estranha. O nosso corpo é «composto de energia positiva e negativa» e se apanhamos um choque ao tocar em algo ou alguém isso não é electricidade estática a descarregar. É «sinal de incompatibilidade de energias». Mas o mais estranho é ser um íman de 24,000 gauss por ter 12,000 gauss de cada lado. Gauss é uma unidade de densidade de fluxo magnético e esta soma é como dizer que os dois passageiros do carro se deslocam ao dobro da velocidade do carro por somar as velocidades dos passageiros.

O sucesso do BioStabil está na forma de o usar. No anúncio recomendam que se ponha o colar sempre que se sentir pior e que se pare a “terapia” apenas quando se sentir melhor. Resulta quase sempre. Este método de aplicação garante que o BioStabil só falhe da última vez e torna-o imune a qualquer reclamação que não seja a título póstumo.

Termino com uma citação que dispensa comentários.

«- O BioStabil não é contra nem a favor de nenhuma religião, pois não?

- Porquê? É magnetismo, e o magnetismo é um grande dom que Deus nos deu, porque nós somos ícones do magnetismo. Somos seres do magnetismo. Nós estamos na Terra e a Terra é o maior íman que o homem conheceu. Se eu sou católico, por respeito a todo o mundo e a todas as religiões. O BioStabil não pode agradar a todos, e somente com a graça de Deus é que pode ajudar.»


Mais informações sobre esta treta das terapias magnéticas no artigo Magnet Therapy, do Stephen Barrett.

1- Gigashopping.tv, BioStabil
2- SWIFT, 15-6-07, Let’s do something.

sábado, janeiro 19, 2008

Como a Europa criou a ciência.

Nos últimos séculos a Europa destacou-se do resto do mundo pelo progresso social e tecnológico. Até recentemente era comum explicarem-no pela superioridade da raça. Da raça de quem propunha a explicação, claro. Agora há quem o explique pela superioridade da religião de quem assim o explica. Eu rejeito ambas as explicações e mais ou menos pelas mesmas razões.

Durante os mil anos que seguiram o colapso do império Romano a Europa esteve atrás do Médio Oriente e de grande parte da Ásia. Foi só por volta de 1300-1500 que as coisas mudaram. A peste negra dizimou parte da população e, mais importante a longo prazo, o sistema feudal. A redescoberta dos clássicos lembrou os europeus que havia mais que um livro. A navegação, o contacto com outros povos e as riquezas trazidas de outras terras mudaram as sociedades da Europa. A religião e a raça eram as mesmas. Foi o resto que mudou. E talvez o mais importante tenha sido a combinação de três factores, dois dos quais uma ciência com aplicações tecnológicas e uma tecnologia útil à ciência. Hoje parece estranho, mas antigamente a tecnologia e a ciência não tinham nada a ver uma com a outra. Os Gregos e os Romanos são um bom exemplo.

Os Gregos tinham uma filosofia sofisticada, investigavam as coisas com o espírito crítico da ciência e acumularam imenso conhecimento teórico. Que não servia para nada. Foi essencial para o que veio mais tarde mas, naquela altura, não tinha utilidade prática. Não há tecnologia baseada nas quatro causas de Aristóteles ou nas formas de Platão. Os Romanos eram o contrário. Tinham pouco de ciência mas a sua tecnologia era extraordinária. Tudo descoberto pela prática, por tentativa e erro e passado de mestre para aprendiz sem alicerce teórico. Faz-se assim porque funciona, e durante muito tempo não houve outra forma de melhorar a tecnologia. Mas isso mudou no Renascimento.

Galileu usou tecnologia para fazer experiências cientificas e quantificar os resultados, e usou a ciência para criar nova tecnologia. Novas formas de apontar canhões, lunetas, microscópios e termómetros e até uma maneira de calcular a longitude usando as luas de Júpiter como um relógio. Enquanto a ciência era apenas filosofia especulativa e a tecnologia tentativa e erro o progresso era quase imperceptível. Dois mil anos do trirreme à caravela. Mas desde que a ciência e a tecnologia se desenvolveram o suficiente para cada uma empurrar a outra foram cinco séculos até à Lua.

O terceiro factor foi a burguesia. Durante muitos séculos o poder pertenceu ao clero e à nobreza, que queriam sempre manter o status quo. No Renascimento o comércio deu muito dinheiro, e poder, a quem se interessava por inovar. Com estes três factores em conjunto a inovação explodiu, e o Cristianismo não ajudou nada. A versão Católica até atrapalhou, deixando a Europa do Sul ficar para trás da Europa Protestante em ciência e tecnologia apesar de ter começado à frente.

Mas também não digo que o Cristianismo tenha atrapalhado muito. Até ao Renascimento seria difícil acelerar o processo. Mesmo que houvesse melhor clima para a especulação filosófica, até a tecnologia permitir uma abordagem experimental quantitativa a ciência não ia produzir muito de útil. E desde que a ciência e a tecnologia se aliaram que a escolha das religiões tem sido entre recuar, cair no ridículo ou, mais frequentemente, ambas.

Em 1992 a Igreja Católica perdoou Galileu, mostrando-se, mesmo antes de começar o século XXI, aberta à possibilidade de alguns astros não orbitarem a Terra. Mas este gesto teve pouco impacto na astronomia moderna, à parte de algumas gargalhadas.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O que o Cristianismo nos trouxe.

Segundo o Bernardo Motta (1), sem o Cristianismo estávamos tramados. Jesus, ao morrer na cruz e ressuscitar, trouxe a todos os homens a

«1. Verdade objectiva: o verdadeiro é o adequado ao real»

Antes do sacrifício do Deus encarnado em homem ninguém se tinha lembrado de separar a verdade da mentira conforme o que se adequava ao real. Foi um período de grande confusão, como devem imaginar. Era ventiras e merdades e ninguém se entendia. O que safou foi São Aristóteles, aquele grande Cristão, escrever que «Dizer do que é que não é ou dizer do que não é que é, é falso, enquanto dizer do que é que é e do que não é que não é, é verdadeiro». Graças a Deus.

Outra coisa que o Cristianismo nos deu foi:

«2. Confiança nos sentidos: o mundo é cognoscível e estável, com leis boas porque feitas por um Deus bom»

Foi um alívio. Desde o paleolítico inferior que o pessoal andava atrapalhado com isto. Cada vez que se atirava uma pedra ninguém sabia se ia cair, ficar no ar ou transformar-se num burro falante. Andava tudo com úlceras só dos nervos. A crucifixão de Jesus deu logo a todos uma grande confiança nos sentidos e mostrou como o mundo é cognoscível e estável («always look on the bright side of life...»). Excepto a Santíssima Trindade. E os milagres, claro. E os Mistérios. E a fé, a Verdade transcendente, o supra-empírico, o... enfim, o facto é que desde que Jesus morreu que as pedras têm caído para baixo, e é assim que deve ser.

«3. Amor à investigação natural: o mundo não é uma criação maligna de uma entidade gnóstica, mas sim a criação boa de um Deus bom»

Muito melhor que a regra antiga. Ninguém ligava a «3. Amor à investigação natural: saber que as bagas são venenosas é mais útil antes de as comer», e é por isso que antes do nascimento milagroso do Salvador ninguém se tinha incomodado a descobrir seja o que fosse. Podem imaginar o frenesim naquele primeiro Natal, com tudo a correr a inventar a pedra lascada, como fazer fogueiras e trabalhar o bronze e o ferro, a domesticar animais, construir pirâmides e assim por diante. Até os desgraçados dos reis se atrasaram quase duas semanas porque tiveram que descobrir a mirra, o ouro e o incenso pelo caminho. Felizmente, tudo acabou bem («always look on the bright side of life...»).

«4. Primado da razão: Deus não é irracional, porque o irracional é uma violação do intelecto, e o intelecto humano é feito à imagem e semelhança do intelecto divino»

O primado da razão ficou demonstrado quando Deus fez um filho a uma virgem, encarnou no seu próprio filho e deixou-se torturar até à morte para ressuscitar ao fim de três dias e desaparecer outra vez, sendo esta a única forma de perdoar aos homens os pecados dos seus antepassados. O comércio de drogas psicotrópicas e o sucesso das religiões comprovam que o intelecto humano é feito à imagem e semelhança do intelecto divino.

O António Parente aconselhou-me a preceder todas as afirmações com «eu penso que», não vá alguém julgar que isto se escreveu sozinho ou coisa que o valha. Lamento, mas não posso escrever o que penso destas quatro proposições num blog acessível a menores.


1- 18-1-08, O cristianismo e a Europa.

O Cristianismo e a Europa.

A aparente importância do Cristianismo na cultura europeia vem de confundir a história com o presente. O Cristianismo foi muito importante na história da Europa. Mas também foram importantes o colonialismo, a escravatura dos povos africanos, o extermínio das civilizações da América, as guerras religiosas, o genocídio e o fascismo. Tal como estes factores que marcaram o nosso passado, também a fé na salvação por Jesus Cristo morto e ressuscitado ao terceiro dia não caracteriza a cultura europeia de hoje.

Os valores que distinguem a cultura europeia não são valores Cristãos. Pelo contrário. Na Europa ocidental o estado soberano da Cidade do Vaticano é o único que não respeita os princípios da democracia, da igualdade de direitos para ambos os sexos e da liberdade de expressão e crença religiosa. É verdade que a Europa foi assim mas agora já não é. A ditadura, a intolerância religiosa e a discriminação sexual já não são aceites na cultura Europeia.

Até na atitude perante a religião não é o Cristianismo que mais distingue a Europa. Na América, em África, e até em partes da Ásia leva-se o Cristianismo muito mais a sério que aqui. Niste aspecto a Europa distingue-se mais pelo ateísmo, pela indiferença à prática religiosa e pela condenação de todo o fundamentalismo religioso. Fora da Europa é mais comum condenar-se todos os fundamentalismos excepto o favorito regional.

Concordo que o Cristianismo foi muito importante na história da Europa. Mas hoje em dia destaca-se mais por chocar com os valores fundamentais da cultura europeia.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Como a Maratona criou a Europa.

No post sobre o artigo do João César das Neves a Abobrinha comentou que «A guerra foi sempre um grande motor de grandes desenvolvimentos tecnológicos. Podemos dizer então "como a guerra criou a Europa"»(1). É verdade que muitas guerras conduziram a desenvolvimentos tecnológicos e a alterações sociais. Mas se é pancada para criar a Europa eu nomeio a batalha de Maratona, em 490 AC.

O rei da Pérsia estava furioso com os Atenienses por terem ajudado os Gregos da Jónia a revoltar-se. Depois de suprimir a revolta enviou um exército com uns trinta ou sessenta mil homens para castigar Atenas, conquistar o resto da Grécia e dar cabo dos Gregos. Os Persas levavam estas coisas a sério. Se tivessem conseguido nunca haveria democracia, nem Platão ou Aristóteles, nem Sófocles. Nem o Renascimento. Para a Europa de hoje foi mais importante o Renascimento que a Ressurreição.

Ao contrário do que propõe César das Neves, o que marca a Europa como europeia é a cultura da Grécia antiga. O Cristianismo é uma importação do Médio Oriente, e o pouco que tem de europeu foi influência Grega. Quatro séculos antes de Cristo já Platão propunha julgar homens e mulheres pelo mérito em vez do sexo. Passaram dois mil e quinhentos anos e o Cristianismo ainda não chegou lá. Esta é uma das ideias que mais separa a cultura Europeia do resto do mundo. Por seu lado, o Cristianismo é das coisas menos Europeias que a Europa tem.

A democracia, a liberdade de expressão, a tolerância religiosa, a ciência, o pensamento crítico e a abertura à crítica. Nada disso veio do Cristianismo ou por causa do Cristianismo. Veio tudo dos Gregos e apesar do Cristianismo. Se um tal Yeshua Ben Yosef tivesse sido mais um profeta esquecido pela História a Europa ainda seria a Europa. Mas se aqueles dez mil Atenienses não tivessem dado uma coça ao exército Persa nem sequer tinha chegado a haver Europa.

1- 15-1-08, Como a cerveja criou a Europa.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Fala, fala, fala...

Este vídeo esteve brevemente no YouTube, mas foi retirado por pressão dos cientólogos. Pelo que percebi, o Tom Cruise ganhou uma medalha da cientologia, e este vídeo fazia parte da cerimónia, mas não era para ser visto por quem não seja cientólogo. Especialmente SPs (supressive persons).



Penso que Tom mostra bem o que é a cientologia. Mas mesmo assim acho que o Ricardo diz mais, melhor, e com muito mais graça.



Via Et Cetera, e obrigado ao António Parente pelo email.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Como a cerveja criou a Europa.

No Diário de Notícias de ontem, João César das Neves explica como a cerveja «gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico no Ocidente.»(1) De facto, como se pode ver na imagem abaixo, o consumo de cerveja é maior nos países influenciados pelos ideais Europeus de democracia, livre comércio e respeito pelas liberdades individuais (2):

Image:Map of world by beer consumption.png

Como aponta César das Neves, «seria muito estranho não existir uma relação estreita entre esta origem e aqueles efeitos», pelo que é evidente que tudo isto se deve à cerveja. Bem, César das Neves não diz exactamente «cerveja». Ele prefere o termo «igreja». Mas o argumento é o mesmo. É partir de uma correlação e inferir uma relação causal. Até tem um nome em latim e tudo, de tão famosa que é a falácia. Post hoc, ergo propter hoc. César das Neves acrescenta:

«Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc. A notação musical, arquitectura gótica, tintas a óleo, soneto, universidade, além das bases da ciência, a separação Igreja-Estado e a liberdade dos escravos (c. III) são também criações medievais. Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral, bem como a confiança da teologia cristã no progresso, contrária à de outras culturas.»(1)

As bases da ciência e a separação de Estado e Igreja datam dos Gregos, pelo menos. Os avanços tecnológicos não têm muito a ver com a Igreja Católica. O primeiro relógio mecânico de que há registo foi oferecido a Carlos Magno pelo califa de Bagdade, Harun al-Rashid (3). Há imagens de carrinhos de mão em murais do século II na China (4). Quanto às coisas que foram mesmo inventadas na idade média, tanto a Igreja como a cerveja tiveram o mesmo papel "decisivo". Estavam lá.

1- João César das Neves, Como a Igreja criou a Europa
2- Wikipedia, List of countries by beer consumption per capita
3- Wikipedia, Clock
4- Wikipedia, Wheelbarrow

domingo, janeiro 13, 2008

Devíamos copiar isto.

Vários deputados do Partido Moderado Sueco assinaram dois artigos na revista Expressen a defender a proposta do partido para descriminalizar a partilha de ficheiros. No primeiro artigo expõem o problema principal. A única forma de proteger o mercado pela força da lei é controlar tudo o que se faz na Internet:

«Decriminalizing all non-commercial file sharing and forcing the market to adapt is not just the best solution. It’s the only solution, unless we want an ever more extensive control of what citizens do on the Internet [...]

The simple truth is that almost all communication channels on the Internet can be used to distribute copyrighted information. If you can use a service to send a message you can most likely use the same service to send an mp3-song. Those who want to prevent people from exchanging of copyrighted material must control all electronic communication between citizens.»
(1)

O segundo artigo responde às críticas de Horace Engdahl, secretário da Academia Sueca, e representantes dos distribuidores de músicas e filmes. Salienta que os interessados em usar a lei para controlar a distribuição de conteúdos não são os criadores, mas os distribuidores, e que a implementação exige dar aos fornecedores de serviços de ligação deveres e direitos que ultrapassam o razoável para o sector privado:

«Making broadband suppliers watch what their customers download on the Internet would be like making postal services open every package. Those who defend creators’ rights should also defend everyone’s right to communicate without surveillance.»(2)

Isto já tenho defendido aqui muitas vezes, mas é bom ver que há países onde os políticos põem a liberdade de expressão e o direito à privacidade acima das vendas de CDs.

Também achei interessante esta forma de discutir as coisas. São artigos assinados colectivamente por vários deputados. Não é um programa eleitoral que ninguém lê nem um artigo de opinião em nome individual. É o partido a responder a críticas, a debater com os eleitores e a enfrentar publicamente as opiniões contrárias. Parece-me bastante melhor que um debate de vez em quando na televisão e dilúvios de discursos demagógicos quando se vota qualquer coisa.

1- Karl Sigrifrid, 7-1-08, Decriminalize File Sharing
2- Karl Sigfrid, 10-1-08 Horace Engdahl pushes for Internet Control