David Attenborough Censurado
Sir David Attenborough não defende a violência. Não é racista, não discrimina as mulheres. E quando se mete na vida dos outros é só para nos mostrar como é, não para lhes dizer como deve ser. Apesar destes defeitos o canal evangélico Holandês Evangelische Omroep (EO) transmitiu a série «The Life of Mammals»(1). Mas Attenborough tinha ido longe demais. Nesta série, o conhecido naturalista mostra a natureza como ela é. Não pode. A EO teve que intervir.
O décimo episódio aborda a evolução da nossa espécie, mas não menciona barro, sopro, ou costela. Por isso a série na EO tem nove episódios. Chega bem que o resto está na Bíblia. Mesmo nesses nove episódios havia muita coisa a mais. Por exemplo, no primeiro episódio. Attenborough senta-se, diz-nos que por vezes se encontra fósseis muito bem preservados, e mostra uma mandíbula que descreve em detalhe. É um fóssil com 15 milhões de anos. Um antepassado do ornitorrinco, o Obdurodon, que ainda tinha dentes, ao contrário dos seus descendentes modernos. Depois da descrição, levanta-se e vai-se embora. A versão EO é mais compacta. Attenborough senta-se, diz-nos que por vezes se encontra fósseis muito bem preservados, levanta-se e vai-se embora. Foca o que é importante e não perde tempo com o que não interessa.
A origem dos marsupiais também é simplificada eliminando qualquer referência ao assunto. No original da BBC, depois de mostrar uns cangurus, Attenborough explicava que os marsupiais tinham surgido há 100 milhões de anos, num continente que se dividira dando origem à Antárctica, Austrália e América do Sul, onde hoje em dia ainda se encontram alguns marsupiais na floresta amazónica. A versão EO passa do canguru ao Amazonas, e pronto. A tradução e dobragem da série também é imaginativa. Referências a qualquer número de milhões de anos são traduzidas para o Holandês como «há muito tempo». Fica menos confuso.
E não é só na televisão. Esta cadeia evangélica editou a sua versão melhorada em DVD, e como comprou os direitos exclusivos à BBC é a única cadeia holandesa que pode transmitir ou comercializar esta série. Penso que mencionei que me desagrada o copyright. Aqui está a razão 5,897. Já agora, para esclarecer, não sou contra os direitos de autor. Julgo que proibir que se copie não é direito de ninguém, por isso sou contra a exclusividade de cópia. Mas sou a favor de obrigar estes aldrabões a deixar claro que o que eles apresentam não é o que o David Attenborough fez. Nem devia ser permitido apresentá-lo como documentário. É um Contra Informação, mas sem piada.
Desta vez não vou falar da parvoíce que é o criacionismo. Deixo o leitor imaginar uma floresta tropical e um senhor grisalho de calções, agachado, a dizer num sussurro emocionado:
«[...] when Creationists talk about God creating every individual species as a separate act, they always instance hummingbirds, or orchids, sunflowers and beautiful things. But I tend to think instead of a parasitic worm that is boring through the eye of a boy sitting on the bank of a river in West Africa, [a worm] that's going to make him blind. And [I ask them], 'Are you telling me that the God you believe in, who you also say is an all-merciful God, who cares for each one of us individually, are you saying that God created this worm that can live in no other way than in an innocent child's eyeball? Because that doesn't seem to me to coincide with a God who's full of mercy.» (2).
Cheio de misericórdia não. Mas talvez cheio de treta...
1- BBC, The Life of Mammals
2- Wikipedia, David Attenborough
Fontes:
Swift, 3-8-07, Blatantly Supressing Science
«Songsoverruins», 2-8-07, Burning the temple of god
Este último tem ligações para uns clips no YouTube onde se pode ver as diferenças entre as versões da BBC e da EO.
