Treta da semana: Homeopatia.
O carro anda a fazer um barulho estranho, e recorro a um tratamento complementar com homeopatia. Molho um guizo num alguidar. Diluo uma gota dessa água noutro alguidar e repito a diluição cinco vezes, agitando vigorosamente. No final tenho o remédio para o carro. Umas gotinhas todas as manhãs e, pelo sim pelo não, levo-o à oficina à mesma. Sucesso garantido.
Os fundamentos da homeopatia são a «lei dos semelhantes», que diz para tratar a doença com algo que reproduza o sintoma, e a teoria que a diluição aumenta os «poderes espirituais» do remédio, O primeiro é um disparate óbvio, refutado por qualquer problema desde a micose à perna partida. O segundo foi posto à prova em 2004, numa tentativa de suicídio por um grupo de cépticos na Bélgica (1). Em protesto contra a cobertura de tratamentos homeopáticos pelas companhias de seguros, os suicidas ingeriram substâncias como arsénico e veneno de cobra com uma potenciação homeopática de 30C. Isto é, uma diluição de um para 1060, um 1 seguido de sessenta zeros. Mil milhões de vezes mais diluído que um átomo num alguidar do tamanho da Terra. Felizmente não houve fatalidades.
Com as diluições típicas dos remédios homeopáticos podemos ter confiança que não ingerimos um único átomo ou molécula da substância activa. E ainda bem. Sai caro para um frasco com água mas ao menos não tem efeitos secundários. Nem primários. Nem quaisquer que seja, excepto na carteira.
A homeopatia foi criada por Samuel Hahnemann no inicio do século XIX segundo o método da medicina alternativa: partir de uma observação, inventar um disparate, gesticular muito e usar palavras sonantes. Hahnemann notou que o remédio usado para a malária (infusões de casca da chinchona) produzia sintomas semelhantes aos da malária em pessoas saudáveis. E pronto. Bastou inventar a regra da diluição para ter o sucesso garantido sem incomodar o paciente.
Devo salientar que, na altura, foi uma boa ideia. Melhor tomar gotinhas de água que se submeter às barbaridades a que chamavam «medicina» nesse tempo. Mas a presente (e crescente) popularidade desta aldrabice deve-se à economia de mercado e não ao seu valor terapêutico.
Antevendo a crítica à analogia do carro, sei que os doentes não são máquinas e devem ser tratados com consideração e simpatia. Mas a analogia é apta porque os tratamentos eficazes assentam na compreensão do mecanismo da doença. Tratar um osso partido, substituir uma válvula no coração, eliminar uma infecção ou corrigir uma deficiência enzimática resolvem um problema material, mecânico. Só trata a desarmonia energética, as vibrações negativas e patetices dessas quem não sabe o que anda a fazer. E para hipocondríacos há coisas mais baratas.
A homeopatia ignora a causa da doença, ignora as leis da física, e ignora toda a evidência que demonstra que a homeopatia é treta. Quem diz que mal não faz que pense no asmático que deixa a bomba em casa porque tem consigo o frasco com água. Ou o doente com cancro que deixa a quimioterapia porque gotas de água têm menos efeitos secundários. E a quem quer acreditar nesta «terapia» e deitar dinheiro ao lixo aconselho: acredite mas não confie. Até as igrejas têm pára-raios...
1- Homeopathic Suicide: Proving that Homeopathic Remedies are Quackery
Mais informação na Wikipedia, sobre homeopatia e Samuel Hahnemann
