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Sexta-feira, Julho 25, 2008

Legal.

Chamam-se SPECS, da empresa Speed Check Services Limited, e são câmaras de vídeo que identificam automaticamente matrículas (1). Colocadas em vários pontos das estradas, enviam esta informação a um servidor central que calcula a velocidade média do veículos que passam por dois pontos de vigilância. Se a velocidade média ultrapassar o limite estipulado a multa segue automaticamente.

É uma boa ideia multar quem conduz depressa demais. O problema é que nada obriga a eliminar estes dados depois de medir a velocidade. E toda a gente fica registada, seja infractor ou não. Este passageiro foi fotografado a mostrar o traseiro e a fotografia divulgada mesmo sem o condutor ter cometido qualquer infracção.

Este tipo de vigilância é cada vez mais comum e, por cá, teremos em breve carros da GNR equipados com reconhecimento automático de matrículas. A notícia diz apenas que «De cada vez que o sistema lê uma matrícula, inicia-se automaticamente uma pesquisa na ou nas bases de dados o que, como é fácil imaginar, acontece em milésimos de segundo.»(2) Não menciona o que acontece com a informação da hora, local e matrícula depois da pesquisa. Mas podemos assumir que, a menos que venha uma lei obrigar a apagá-la vai ser tudo guardado indefinidamente. É o que todos fazem.

Os mais optimistas confiam no sistema judicial para proteger esta informação e evitar abusos. E só confiaria se o sistema fosse muito melhor que o nosso. Com o que temos ficava mais descansado se dessem o equipamento de identificação aos criminosos. Eles vão acabar por ter acesso às bases de dados de qualquer maneira, que assim sempre ficavam fora das mãos da nossa justiça. Um exemplo recente: Bernardo Macambira, segundo a noticia um «Conhecido relações públicas»(3), foi preso porque usou um CD copiado na sua discoteca. Foi julgado à revelia e sentenciado a quatro meses de prisão substituíveis por multa. Como toda a documentação foi enviada para uma morada antiga, quando soube da situação já era tarde demais para se defender e até para pagar a multa. Agora vai preso quatro meses por causa de um CD. Mostra como a justiça é severa*, ajuda a indústria a cativar clientes (literalmente) e incentiva a criatividade. Milhares de artistas vão agora sentir-se mais inspirados para compor graças a esta decisão do tribunal.

E, por falar do assunto, termino com mais dois exemplos de incentivos legais à criatividade. A Comissão Europeia estendeu de 50 para 95 anos o período de “protecção” dos discos (3). Podemos pensar que isto só serve para as discográficas ganharem mais dinheiro mas a justificação oficial é o tal incentivo. Assim qualquer músico que tenha um êxito aos 25 anos já sabe que tem só até fazer 120 para compor outra música senão acaba-se a mama. Outra justificação é que ser artista exige muitos sacrifícios da família, ao contrário das outras profissões todas (para ser artista é preciso ter mais ego que talento, e isso nem sempre é difícil).

Finalmente, a patente concedida em 2005 à empresa Channel Intelligence, por um «Método para configurar uma base de dados para armazenar uma pluralidade de listas contendo informação acerca de uma pluralidade de itens»(4). Proprietários desta arrojada e inovadora invenção, estão agora a proteger o seu investimento processando mais de uma dúzia de pequenas empresas que permitem aos clientes criar listas do que gostariam comprar (5). Só processam as pequenas, é claro. Empresas como a Amazon e a Ebay têm as mesmas listas mas essas têm advogados caros, e esta patente é idiota demais até para um julgamento. Por isso ameaçam só quem prefere pagar o acordo que pagar advogados.

É uma questão de semântica. Uns dizem “propriedade intelectual” e outros “incentivo à criatividade”, mas o que querem todos dizer é “extorsão legalizada”.

SPECS via Schneier on Security, e obrigado ao Leprechaun pela notícia do desgraçado do CD.

* Nem sempre a justiça é tão severa. Um amigo meu foi agredido à porta de um bar por um tipo que lhe bateu e lhe roubou uns trocos do bolso. Fez queixa à polícia e foi chamado uns anos mais tarde a depor em tribunal. O julgamento era só pelo furto porque a agressão tinha prescrito. E o acusado foi ilibado porque a intenção dele era bater e não roubar. Mas agora o meu amigo pode dormir descansado porque há menos um tipo à solta a copiar CDs.»

1- Wikipedia, SPECS
2- Económico.com, Veículos da BT vão ter sistema de identificação de matrículas
3- Miguel Caetano, Remixtures, Comissão Europeia decidida a apoiar os artistas para além da morte
4- Google Patent Search, «Method and apparatus for creation and maintenance of database»
5- Tech Crunch, Channel Intelligence Sues Just About Everyone Who Offers Wishlists

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Treta da Semana: A falta de Olíbano.

A propósito da treta da semana passada, o leitor (leitora?) JATA sugeriu que não era útil criticar o milagre do beato Nuno Álvares Pereira (1). Como este blog é um serviço de utilidade pública sinto-me obrigado a redimir essa falha focando um problema grave que urge resolver. A falta de olíbano, nomeadamente do «verdadeiro Olíbano Somalês»(2). Porque «O Olíbano é o ingrediente central da amarração, é a oferenda que atrairá as entidades e as fará agir da maneira que queremos. Sem ele, elas simplesmente não vão fazer o que queremos, pois não terão razões nem incentivos para isso.»(2)

A amarração «é uma conjura de poderes para persuadir um homem ou uma mulher a desejar a pessoa que faz o feitiço»(3). Escreve-se num papel o nome do visado, faz-se um círculo de sal no chão, junta-se uma fotografia e duas velas negras, queima-se o imprescindível olíbano e profere-se este encantamento intrigante:

«Eu vos conjuro novamente, por todos os nomes secretos de Tetragrammaton, para que envies os teus poderes para oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma de [nome da pessoa desejada aqui], ele(ela) cujo nome aqui esta escrito, (segure o papel) para que ele(ela) venha até mim e concorde de livre vontade com os meus desejos, nunca mais gostando ou amando alguém no mundo que não eu, enquanto eu assim o desejar.”»(3)

Parece contraditória esta noção de «oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma» até que a pessoa «concorde de livre vontade». Mas o Bom Feiticeiro diz que se for «bem-feita, nunca falha», e eu tenho tanto respeito pela sua magia como tenho por qualquer outra “ciência oculta”, seja a astrologia, o pai-nosso ou a previsão do futuro na borra de café. São tudo formas legítimas de contactar a dimensão espiritual, também conhecida como terra do nunca nunca.

Mais a sério, a questão da utilidade de criticar estas coisas é interessante. É certo que o faço mais por gozo que por utilitarismo, mas penso que também é útil. Não por criticar o milagre do salpico ou a amarração em particular – se não fosse isto podia ser outra coisa qualquer – mas pela atitude crítica em si. Essa julgo que é sempre útil mesmo nas coisas mais triviais.

Por um lado porque estas coisas são triviais e inofensivas apenas se não as levarmos a sério. Milagres, magias e essas tretas têm uma grande influência na vida de quem acredita nelas e uma atitude crítica pode poupar muita chatice. E, por outro lado, é útil para não julgar estas coisas apenas pela primeira impressão ou sem impressão nenhuma. Quer a rejeição gratuita quer o politicamente correcto “respeito pela crença dos outros” desprezam a questão que a atitude crítica nos força a considerar: será que isto é verdade?

No caso da amarração e do olíbano não é preciso pensar muito. Não há vestígio dessas entidades que pretendem conjurar. E mesmo que existissem espíritos com a inteligência para identificar a pessoa visada e perceber o encantamento, e com o poder de a fazer amar alguém, o mais certo era desmancharem-se a rir do pateta que espalha sal no chão e lhes dá ordens enquanto queima olíbano. Mas até nestes casos de disparate óbvio parece-me que é útil perder alguns segundos a perguntar porque é que o consideramos um disparate.

E se isto não vos convence, deixo aqui alguns dos comentários ao post da amarração (3):

« Estou a confiar muito nesta amarração tendo em conta que já gastei milhares de Euros e o meu problema ainda não foi resolvido.»

« A foto pode ser substituida por outra coisa? Como um fio de cabelo,ou o esperma dele?»

« Bom Feiticeiro, o Sre. tem outro feitiço para ensinar, porque eu sou candidata a Vereadora e quero ganhar a Eleição e a Eleição é esse ano em Outubro.»

«FIZ TUDO COM MUITO AFINCO E INFELIZMENTE ONTEM VI O MEU AMOR RINDO E BRINCANDO MUITO COM OUTRAS MULHERES EM SALAS DE BATE PAPO, ENTÃO ISSO SIGNIFICA QUE NÃO DEU
CERTO? ME RESPONDA POR FAVOR, SE PREFERIR PODE ME RESPONDER POR E-MAIL, POIS HJ ESTOU PROFUNDAMENTE DEPRIMIDA E CHORANDO PELO QUE VI ONTEM.»


Obrigado ao leitor Quetretófilo pela sugestão do tema.

1- Treta da Semana: A crise chega aos milagres.
2- Bom Feiticeiro, Erro Número 1: Falta de Olíbano.
3- Bom Feiticeiro, Amarração explicada incluindo as dúvidas dos leitores.

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Contas estranhas.

No De Rerum Natura, a Palmira Silva repete umas contas suspeitas que andam por aí a propósito da proposta de banir os aquecedores de pátio. Estes aquecedores a gás estão a tornar-se muito populares no Reino Unido para aquecer as esplanadas durante a noite e no inverno.

«Em relação às emissões de CO2, cuja «poupança» tanto preocupa os eurodeputados, os aquecedores são responsáveis por uma infíma fatia destas - cerca de 0.002% em Inglaterra onde há actualmente cerca de 1.2 milhões destes equipamentos, muito menos que as emissões provenientes de televisores (que emitem cerca de 210 vezes mais CO2).»(1)

Seguindo a fonte que a Palmira refere temos que «Government figures showed that emissions from all domestic patio heaters amounted to 22,200 tons of carbon dioxide - only 0.002 per cent of the total UK CO2 emissions»(2). Um milhão de aquecedores, vinte e duas mil toneladas por ano, cerca de vinte quilos de emissão de CO2 por aquecedor por ano. Será que aquecer uma esplanada consome meia bilha de gás por ano? Isso é que é eficiência...

Infelizmente, não. Lendo com mais atenção vemos que este valor se refere aos «domestic patio heaters». Estes dados são baseados na venda de bilhas de Gás de Petróleo Liquefeito (GPL) para uso doméstico (3). O uso doméstico de aquecedores de pátio é de cerca de 21 horas por ano por aparelho, em média. É isto que explica a emissão de 22 mil toneladas por ano para os cerca de 600 mil aparelhos em uso doméstico na altura em que estes dados foram recolhidos (2006).

Neste momento há cerca do dobro dos aparelhos em uso, estima-se que o número ultrapassará os dois milhões no próximo ano e há um uso crescente em estabelecimentos comerciais. Um aquecedor numa esplanada não vai ser usado apenas 21 horas por ano. Por isso a estima-se em cerca de duzentas mil toneladas de emissões de CO2 na industria de restauração devido a este tipo de aquecimento, ou cerca de 2% do total das emissões desta indústria (2, pg 7).

É verdade que é menos que as quatro milhões de toneladas de emissões devido a sessenta milhões de televisores no Reino Unido. Ou as dezoito milhões de toneladas de CO2 que a população do Reino Unido emite anualmente só por respirar. Comparado com isto, duzentas mil toneladas não parece muito. Mesmo assim, é muito combustível e CO2 só para ficar na rua sem casaco. Seria mais razoável cortar nisto que na respiração. Mas para a Palmira esta proibição tem um objectivo mais sinistro:

«...considerando a cruzada anti-tabaco da eurodeputada e a constatação de que estes equipamentos são maioritariamente utilizados, pelo menos em Inglaterra, para tornar menos desagrável a vida dos fumadores, diria que o seu problema com os aquecedores de pátio não são as suas ridículas emissões mas sim o facto de mitigarem o ordálio dos fumadores.»

É uma conspiração. Uma perseguição. Os coitados dos fumadores cada vez têm mais dificuldade em mandar fumo para cima dos outros. Se isto continua assim «praticamente apenas se poderá fumar em casa». Em casa. É terrível. E não é só o tabaco. Não se admirem se qualquer dia escarrar para o chão na paragem do autocarro for visto como má educação, ou se os mais aflitos tiverem que ir para trás de uma árvore para não salpicar as calças dos outros. Querem tirar-nos o direito de incomodar, e já nem se pode poluir o ar com duzentas mil toneladas de CO2 para fumar em conforto.

1- Palmira Silva, Europa quer banir aquecedores de pátio
2- Daily Mail, EU bid to ban patio heaters (even though they don't harm the planet)
3- DEFRA’s Market Transformation Programme

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

O que o Cristianismo nos trouxe.

Segundo o Bernardo Motta (1), sem o Cristianismo estávamos tramados. Jesus, ao morrer na cruz e ressuscitar, trouxe a todos os homens a

«1. Verdade objectiva: o verdadeiro é o adequado ao real»

Antes do sacrifício do Deus encarnado em homem ninguém se tinha lembrado de separar a verdade da mentira conforme o que se adequava ao real. Foi um período de grande confusão, como devem imaginar. Era ventiras e merdades e ninguém se entendia. O que safou foi São Aristóteles, aquele grande Cristão, escrever que «Dizer do que é que não é ou dizer do que não é que é, é falso, enquanto dizer do que é que é e do que não é que não é, é verdadeiro». Graças a Deus.

Outra coisa que o Cristianismo nos deu foi:

«2. Confiança nos sentidos: o mundo é cognoscível e estável, com leis boas porque feitas por um Deus bom»

Foi um alívio. Desde o paleolítico inferior que o pessoal andava atrapalhado com isto. Cada vez que se atirava uma pedra ninguém sabia se ia cair, ficar no ar ou transformar-se num burro falante. Andava tudo com úlceras só dos nervos. A crucifixão de Jesus deu logo a todos uma grande confiança nos sentidos e mostrou como o mundo é cognoscível e estável («always look on the bright side of life...»). Excepto a Santíssima Trindade. E os milagres, claro. E os Mistérios. E a fé, a Verdade transcendente, o supra-empírico, o... enfim, o facto é que desde que Jesus morreu que as pedras têm caído para baixo, e é assim que deve ser.

«3. Amor à investigação natural: o mundo não é uma criação maligna de uma entidade gnóstica, mas sim a criação boa de um Deus bom»

Muito melhor que a regra antiga. Ninguém ligava a «3. Amor à investigação natural: saber que as bagas são venenosas é mais útil antes de as comer», e é por isso que antes do nascimento milagroso do Salvador ninguém se tinha incomodado a descobrir seja o que fosse. Podem imaginar o frenesim naquele primeiro Natal, com tudo a correr a inventar a pedra lascada, como fazer fogueiras e trabalhar o bronze e o ferro, a domesticar animais, construir pirâmides e assim por diante. Até os desgraçados dos reis se atrasaram quase duas semanas porque tiveram que descobrir a mirra, o ouro e o incenso pelo caminho. Felizmente, tudo acabou bem («always look on the bright side of life...»).

«4. Primado da razão: Deus não é irracional, porque o irracional é uma violação do intelecto, e o intelecto humano é feito à imagem e semelhança do intelecto divino»

O primado da razão ficou demonstrado quando Deus fez um filho a uma virgem, encarnou no seu próprio filho e deixou-se torturar até à morte para ressuscitar ao fim de três dias e desaparecer outra vez, sendo esta a única forma de perdoar aos homens os pecados dos seus antepassados. O comércio de drogas psicotrópicas e o sucesso das religiões comprovam que o intelecto humano é feito à imagem e semelhança do intelecto divino.

O António Parente aconselhou-me a preceder todas as afirmações com «eu penso que», não vá alguém julgar que isto se escreveu sozinho ou coisa que o valha. Lamento, mas não posso escrever o que penso destas quatro proposições num blog acessível a menores.


1- 18-1-08, O cristianismo e a Europa.

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Tantos anos para isto...

Um comentador anónimo repreendeu-me pelas críticas que teci ao Paulo Cardoso e à astrologia (1). No comentário lê-se: «eu estudo astrologia há muitos anos,....e posso garantir que é extraordinário!!». Seria de esperar que eu aceitasse a afirmação sem reservas. Afinal, é há muitos anos e ainda por cima com dois pontos de exclamação. Mas sou céptico até ao tutano e fiz o curso de Teimosia Avançada da Abobrinha (por correspondência). Nem com meia dúzia de pontos de exclamação me convencia.

Mas o defensor (defensora?) da astrologia recorre a uma táctica pouco usada neste meio. Suporta a sua posição com uma afirmação concreta e testável. «Podem verificar que existem mais nascimentos na lua cheia, a taxa de suicídio também aumenta nessa altura...e estou a falar apenas da lua, e de 2 exemplos comprováveis!». Infelizmente, há uma razão forte para os astrólogos evitarem esta táctica. É que invariavelmente lixam-se com isto. É treta. A Lua não faz nada disso, como já referi em Agosto (2).

Talvez este comentador anónimo estude astrologia «há muitos anos» como eu. Foi já há muitos anos a primeira vez que me ri destes disparates. Mas se foi com mais dedicação, a confiar nestas coisas da Lua e afins, parece-me que desperdiçou o seu tempo.

Mesmo assim, no espirito de abertura à critica, deixo aqui um pedido. Urano, Neptuno e Plutão foram descobertos nos últimos dois séculos, aproximadamente. Deve haver bons registos do trabalho dos astrólogos para determinar as influências destes planetas na nossa saúde, romance e vida profissional. Agradecia que partilhasse a sua sabedoria e explicasse o método que os astrólogos usaram e os resultados em que se baseiam para estimar os efeitos destes planetas. Já agora, podia também esclarecer porque é que os astrólogos consideram Plutão importante mas ignoram Eris, que é maior, e Ceres, que está muito mais próximo de nós. Ou Titã, a maior lua de Júpiter, que tem mais do dobro do diâmetro de Plutão e é maior que Mercúrio.

Finalmente, outra coisa curiosa... Compreendo que quem bebe urina ou anda com sabonete na micose prefira o anonimato (3). Mas se eu escrevesse aqui uma asneira acerca da física (já aconteceu), astronomia, biologia ou algo do género, o perito que me viesse pôr nos eixos não o faria anonimamente. Porque será que os peritos do criacionismo, astrologia, e ciências paratrêticas afins, têm tanta vergonha de dizer quem são?...

(só para que não haja dúvidas, a pergunta é retórica)

1- 11-12-07, Treta da Semana: Paulo Cardoso na Praça da Alegria.
2- 7-8-07, Treta da Semana: O Efeito da Lua.
3- 30-12-07, O post do ano de 2007.

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

Concentrado rende mais.

E a treta não é excepção. No site português da Pro Music vários artistas partilham a sua visão dos direitos de cópia. Na dissertação mais recente a Luciana Abreu segue a análise de pensadores como Luís Represas e Boss AC, cujo estudo revelou que copiar um CD é o mesmo que roubar carros ou calças. Mas Luciana vai mais longe, proferindo num curto parágrafo mais disparates que os seus doutos colegas em textos muito mais longos.

«Se tal fosse possível, não me imaginaria a copiar um pão para comer, ou fazer download de gasolina para o meu carro… tudo isto representa o trabalho de alguém para que tu possas usufruir de algo. Qual a diferença com a música? Nenhuma! É a profissão de muitos… Não colabores com a pirataria, ajuda a desenvolver respeito pelo trabalho dos artistas.»(1)

Traduzindo. O copyright é mais importante que acabar com a fome. Os derivados do petróleo são uma obra a proteger. O pão, que foi inventado no neolítico, ainda não está no domínio público. E isto não tem diferenças com a música. Nem sem a música. Não podemos usufruir sem pagar porque alguém trabalha para que possamos usufruir. E partilhar sem pagar é pirataria. Sabe-se hoje que o maior flagelo do alto mar é precisamente a partilha gratuita de composições artísticas. No sentido lato.

É super-hiper-mega-ri-treta.

1- Pro-Music, Luciana Abreu. e também outras opiniões

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

Treta da Semana: Isabel Leal.

«Em busca de respostas a inquietações profundas descobriu o poder de algumas formas de cura alternativas como Reiki, Karuna Reiki, Meditação, Jin Shin Jyutsu, Crystal Healing, A caracterização do Ser humano segundo a coloração da aura bem como as compatibilidades entre cada cor/aura humana.[...] Iniciou os estudos sobre o fenómeno Índigo e Cristal em Portugal e mais recentemente nos EUA. [...] É com base nos estudos que tem desenvolvido que dá apoio a estas crianças e suas famílias numa clinica em Lisboa.[...] »(1)

Este post foi difícil de escrever. Nem sabia para onde me virar. Curas alternativas? Crianças Índigo e Cristal? Caracterizar pela cor-barra-aura*? Decidi dividir isto em várias partes e dedicar este primeiro post à Isabel Leal, que será a minha musa inspiradora nas próximas semanas.

Na sua clínica, a Isabel Leal dá consultas de:

«Acompanhamento de casos que necessitam de melhoria no rendimento escolar, resolução de terrores nocturnos, dificuldades do sono, desequilíbrios alimentares e comportamentais.
Expansão da área criativa e energética.
Consultas de apoio familiar a:
* Crianças Índigo e familiares
* Crianças Cristal e familiares
* Crianças Arco Íris e familiares»
(2)

Se questionam as suas habilitações para resolver os terrores nocturnos e os desequilíbrios alimentares das crianças, fiquem descansados. A Isabel «é licenciada em Gestão e trabalhou por 20 anos em empresas nacionais e multinacionais»(1). E é tão rigorosa no diagnóstico que pede aos pais para trazer «a hora/local de nascimento da criança»(2), porque «É estudante de astrologia, pois acredita que esta ferramenta é bastante útil na definição do perfil da criança»(1).

E vê-se que é escritora. «Convidada de diversos de programas de televisão, rádio e media em geral, leva esta nova experiência a quem lida com crianças no dia a dia procurando dar a mais recente energia de informação e de regeneração a todos os interessados nestas matérias.»(1)

A mais recente energia de informação e regeneração. Não vou comentar, mas queria saborear isto. A mais recente energia de informação e regeneração.

A Isabel Leal, além de terapeuta, dá cursos de Crystal Healing, Reiki, e Karuna Reiki, e é autora de dois livros intitulados As Crianças de um Novo Mundo: os Índigo, e os Cristal. São crianças sobredotadas. As Índigo são capazes de ver espectros de luz. O que dá jeito para não ser cego. As Cristal têm uma energia de grande amplitude espiritual que é fundamental para operar a transição da era de Peixes para a de Aquário (3). Aparentemente, a precessão dos equinócios não é um fenómeno físico. É trabalho infantil. Eu voto que se acabe com isto. É que não compensa o esforço destas crianças só para vermos o Sol a 50,3 segundos de arco da posição que tinha no equinócio do ano anterior. Deixem os miúdos brincar à vontade. Logo se preocupam com a orientação do eixo da Terra quando forem crescidos.

Deixo aqui um muito obrigado à Isabel Leal pela sua extraordinária imaginação. Parece-me que até ao Natal já não vou precisar de procurar temas para esta rubrica.

*A Isabel Leal usa a expressão cor/aura, mas não sei se a barra se faz com um gesto da mão numa curta pausa entre cor e aura ou se é suposto ler a barra. Como neste post não se vê os gestos que faço com a mão (felizmente...) decidi escrever assim.

1- Biografia de Isabel Leal.
2- Consultas
3- Livros Publicados

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Tudo doido...

Inicialmente concebido para incentivar a criatividade, o copyright tornou-se numa forma de proteccionismo, uma ferramenta legal de supressão da inovação e, finalmente, numa doidice pegada.

Nos EUA cinco pessoas foram presas por tentar gravar o filme Transformers no cinema (1). Com telemóveis. Até um ano de prisão e multas até 2,500 dólares. Dan Glickman, director da MPAA (Motion Picture Association of America), disse que isto servia para lembrar os criminosos que serão presos sempre que tentarem «roubar filmes do ecrã». Antigamente o homem civilizado ria-se da superstição de julgavar que a fotografia roubava a alma. Agora prende quem rouba o filme com um telemóvel.

Na Austrália os bares e discotecas vão pagar pela música €0.7 (1 dólar australiano) por dia por cada cliente (2), um aumento para mais de dez vezes o valor anterior. Além disso esta taxa será calculada pela capacidade do estabelecimento, e não pela ocupação. Quem organizar uma bailarico tem que pagar €2 por pessoa, quinze vezes mais que o valor anterior. A indústria discográfica não se quer afundar sem primeiro chatear o máximo possível.

Também nos EUA, a You Tube apagou cerca de 100 vídeos de um professor de guitarra, David Taub, porque uma editora se queixou que num desses vídeos o criminoso ensinava a tocar a música Brown Sugar dos Rolling Stones (3). Com estas coisas tem que se cortar o mal pela raiz. Se o pessoal se põe a cantar e a tocar deixa de comprar discos e deixa de haver música. É o fim da civilização.

E, já agora, Portugal. O site Português da Pro-Music, sempre fonte de humor e boa disposição, tem uma secção na primeira página onde nos dá as últimas «notícias sobre música online». A mais recente tem quase oito meses, e intitula-se «Evadido do EP de Alcoentre detido na sequência de queixa da AFP»(4). Evadido. Detido. Isto da música online é muito perigoso. Ou talvez não. Além de dar poucas notícias (em 8 meses não terá acontecido mais nada com a música online?) esta é acerca de um tipo que tinha sido preso por contrabando de droga, fugiu da cadeia, e foi apanhado com outro a fazer contrafacção de CDs e DVDs. Fica aqui a lição aos jovens. Muito cuidado. Se fizerem contrabando de droga, forem presos, fugirem, arranjarem 59 gravadores de DVD e começarem a vender filmes na feira a Lei há de vos apanhar. Provavelmente. Pensem bem nisto quando fizerem o download da última música da Britney Spears.

1- Zeropaid, Theater employees and PATRONS team up to help bust pirates across the country.
2- The Australian Nation, Royalty enters nightclubs to pay for play
3- Miguel Caetano, 10-7-07, Professor de guitarra obrigado a retirar vídeos do YouTube
4- Pro-Music, 6-12-06, Evadido do EP de Alcoentre detido na sequência de queixa da AFP.

Quarta-feira, Junho 20, 2007

O caso do criacionista anónimo.

Era uma tarde chuvosa de Junho. Estranho, mas era mesmo. Chover em Junho, vejam lá. Mais estranho ainda, entre as duas e um quarto e as duas e meia surgiram sete comentários anónimos a defender o criacionismo. Bem, três. É que um foi repetido cinco vezes, num abuso característico do copy-paste. Incluindo duas vezes como comentário ao mesmo post. Um post com mais de dois meses. Só notei porque recebo os comentários por email. Há coisas difíceis de compreender. E não me refiro à chuva em Junho...

Ah, nada como um pouco de spam criacionista depois do almoço. Isto foi ontem. Hoje, de novo à carga. Ao menos num post mais recente (1), e já sem copy-paste. Progresso, sem dúvida. Evolução, diria mesmo. O conteúdo, infelizmente, não sai da cepa torta:

«Eles afirmam que o Universo surgiu por acaso, mas a ciência não consegue discernir a causa do hipotético Big Bang.»

Meu caro anónimo criacionista. Decida-se. Ou nos acusa de dizer que foi por acaso, ou nos exige que expliquemos as causas. Os dois ao mesmo tempo é que não. É contradição, e isso é convosco. Se querem causas para o acaso procurem na arca de Noé, nos bolsos da senhora que se transformou em sal ou na corneta de Jericó. E se não encontrarem, inventem. Não seria a primeira vez...

Estou disposto e interessado em discutir o criacionismo. Merece ser debatido, para que se veja bem o que é. Mas se quer colar cinco vezes o mesmo texto de 500 palavras (o dobro deste post), sugiro que crie um blog para esse efeito e volte aqui quando estiver mais aliviado e disposto a um diálogo produtivo.

1- Diálogo difícil, parte 2

Sábado, Abril 21, 2007

Crianças mortas suspiram de alívio.

A Igreja Católica aboliu oficialmente o limbo. Não a dança, que ainda é tolerada, mas aquele sofre que não sofre onde ficavam as almas das crianças que morriam sem baptismo.

A notícia no Público (1) não diz como se determinou o destino destas almas. Experimentalmente, parece difícil. Mas as fontes asseguram-nos que «os factores analisados oferecem suficiente base teológica e litúrgica para acreditar que as crianças que morrem sem ser baptizadas "se salvarão e gozarão da visão beatífica"». Ora bem. Se os factores oferecem suficiente base teológica, a conclusão deve ser sólida e fiável.

E esperemos que tenha efeito retroactivo. No tempo de Santo Agostinho essas crianças iam para o inferno. Deve-se agora rever os seus processos e compensá-las pelos séculos de sofrimento indevido, talvez com um gozo acrescido da visão beatífica.

Mas nem tudo é bom nesta decisão. Também se aplica aos «que não nasceram ao serem vítimas de abortos». Um gesto simpático mas que cria um dilema doloroso aos pais católicos. Abortar o feto garante-lhe a salvação, mas deixar a criança nascer expõe-na à possibilidade de pecar e de ser condenada ao sofrimento eterno. Eterno. Porque, a menos que uns bispos mudem outra regra qualquer, quem vai para o inferno nunca mais de lá sai.

Mas os pais que optem pela única forma segura e legal de garantir o paraíso aos seus filhos serão condenados ao inferno. O que será pior? Sofrer eternamente sabendo que todos os filhos estão no paraíso, ou estar no paraíso sabendo que, para lá chegar, pode ter condenado os filhos ao sofrimento eterno?

Quanto mais aprendo sobre religião mais me agrada o ateísmo.

1- O Público, 20-04-07, Igreja Católica elimina o limbo para crianças que morrem por baptizar

Quarta-feira, Abril 04, 2007

Páscoas Felizes.

Vou estar offline uns dias, mas antes de ir ter com a família à terrinha quero desejar a todos uma boa Páscoa. Ou duas. Ao contrário do que muitos julgam, a Páscoa não é só aquele episódio confuso do senhor que morre, desmorre, morre de novo, volta a aparecer, diz que já vem, manda um pentecostes e dois mil anos depois ainda nada. Não. A Páscoa é também pessach, a passagem, que os Judeus celebram por ser uma das poucas vezes que escaparam por pouco. É que das outras vezes nem isso. Apesar de serem o povo escolhido não têm muita sorte, por isso celebram o que podem. E estas duas Páscoas mostram-nos o fundamento do Cristianismo. Mas começo pela história mais antiga.

Em traços largos, eis o que se passou. O Faraó viu que os Judeus eram mais e mais fortes que os Egípcios, então decidiu escravizá-los. Não é claro como o conseguiu, sendo mais e mais fortes. Mas foi assim e pronto. Ora Deus não gostou da brincadeira, e o incidente com os tijolos foi a última palha. Chamou Moisés, sentaram-se à volta da fogueira e traçaram um plano. Moisés ameaçava com pragas se o Faraó não deixasse o povo partir. Deus ficava escondido, não deixava o Faraó libertá-los, e depois era pragas em cima dele. «Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó e multiplicarei na terra do Egipto os meus sinais e as minhas maravilhas.»(Ex. 7:3). Foi dito e feito. Ele foi bruxarias, rãs, moscas, gafanhotos, sangue, trovoada, doenças. Enfim, um festival.

No meio disto tudo o Faraó bem tentava dizer «Porra, leva lá essa gente que eu já tenho um monte de tijolos tão grande que até os turistas vêm tirar fotografias!». Mas Deus só o deixava dizer «Hmmm! Hmm hmm hm hmm! A... ma...nhã...» e ele não conseguia acabar com aquela praga. Literalmente. Até vir a décima. Esta teve que ser bem planeada. É certo que Deus é omnipotente e omnisciente, e tinha a obrigação de distinguir os Judeus dos Egípcios. Afinal, tinha-os escolhido... Mas nisto de matar primogénitos todo o cuidado é pouco. Por isso combinaram que cada família matava um carneiro e pintava os umbrais das portas com o sangue do bicho. Pouco higiénico, é verdade, mas estavam de partida. Os Egípcios depois que limpassem.

E assim foi. Hoje celebramos esta enorme partida em que um Deus todo poderoso se divertiu durante dez dias à custa do Faraó, dos Judeus a quem podia ter poupado dez dias de escravidão, e dos primogénitos todos que quinaram. Dá logo uma razão para nos alegrarmos: não sermos Egípcios.

Mas comparem as duas Páscoas. Numa Deus comete atrocidades, por culpa Dele o Faraó não pode libertar os Judeus, e no fim mata os filhos inocentes de uma data de gente. Na outra os homens cometem atrocidades, Deus é um primogénito inocente, e por culpa dos homens é torturado e morto na cruz. Em ambas mata-se carneiros.

Parecem contraditórias, mas une-as algo profundo, algo que define a religião Judaico-Cristã. O Amor. Não parece amor, mas o Amor Divino não é como o amor humano. O Amor que chacinou os primogénitos do Egipto não foi o amor dos namorados. O Amor que condena ao inferno quem não acreditar em torturar inocentes para redimir os culpados não é o amor que os pais sentem pelos filhos.

Este Amor Divino é tão diferente do nosso que só se compreende pelo símbolo comum às duas histórias: o carneiro. O Amor que Deus sente por nós é o amor com que degolamos o bicho, o enfiamos no forno e o comemos com arroz.

Até para a semana, porque não devo conseguir ligar-me à net antes de segunda feira. Felicidades a todos e boa Páscoa... Páscoas.

Sábado, Março 31, 2007

Jónatas Machado e a Filosofia da Ciência.

Num artigo no Ciência Hoje (1), Jónatas Machado (JM) resume em apenas 3,145 palavras (contou-as o Santiago, em 2) o que outros diriam em mais de três: «Deus não é explicação». Tão sucinto foi que, naturalmente, algumas coisas ficaram menos claras. São essas pequenas falhas que tentarei colmatar.

Primeiro, JM diz que a ciência parte de uma premissa naturalista. Faltou aqui dizer que a ciência parte sempre de muitas premissas. Chamam-se hipóteses, e o objectivo é encontrar as que melhor correspondem ao que observamos. Há uns séculos, a ciência favorecia a hipótese de Deus como explicação. Mas o sucesso de alternativas mais detalhadas que «ah, isso foi Deus» favoreceu essas hipóteses naturalistas. Não por uma limitação do método científico, mas pelas mesma razão que quando o carro não pega o levamos ao mecânico em vez de rezar para que Deus mude as velas. O naturalismo corresponde melhor à realidade do que criacionismo do judeo-cristianismo evangélico literalista bíblico.

Em segundo lugar, JM parece confundir a evolução com a teoria da evolução. É o que dá resumir tudo tão resumidinho. Há tantas observações a apoiar a evolução que a consideramos um facto, como a gravidade ou a Terra orbitar o Sol. A Terra tem biliões de anos, havia espécies que se extinguiram, as espécies modernas descendem de espécies antigas, e o governo não se vai esquecer de cobrar o IRS este ano. São factos. Contem com isso. E a teoria da evolução é a teoria que explica o facto (facto!) de as espécies terem evoluído e continuarem a evoluir. A tarefa do criacionismo é difícil. Não só querem refutar uma das teorias mais sólidas da ciência moderna, como querem refutar os factos que a teoria explica. É como ser tão contra a relatividade que nem sequer se aceita que haja gravidade.

Em terceiro lugar, JM fala da «evolução aleatória». Um termo estranho. Se fosse aleatória não precisávamos de a explicar. A biologia moderna reduzia-se a um conveniente «Olha, calhou». Mas a noção de evolução aleatória sugere uma solução para este debate. Se Deus criou as bactérias sensíveis à penicilina, e se a evolução aleatória não pode criar informação, então não pode haver agora bactérias que resistam à penicilina. Basta os criacionistas se recusarem a tomar qualquer outro antibiótico que a controvérsia acaba em duas ou três décadas.

Em quarto lugar, JM dá um salto de fé ao propor que toda a biologia moderna deriva de assumir que não foi deus que fez isto:

«Se a possibilidade de uma criação sobrenatural é excluída à partida, então a única possibilidade admissível é a evolução cósmica e biológica aleatória. Só pode. Não é?»

Não. Há a possibilidade de criação por um ser natural, de geração espontânea, de evolução por herança de características adquiridas, de ter sido sempre assim, e uma infinidade de outras. A alternativa a “ah, isso foi Deus” não tem que ser forçosamente a teoria da evolução como temos hoje. O que nos trouxe aqui não foi uma premissa pequenina, mas uma enorme montanha de observações e experiências que o universo nos deu.

Mas no título JM acertou em cheio: «O paradigma naturalista». A ciência já explorou muitos paradigmas: os quatro elementos, o vitalismo, o catastrofismo, a mecânica de Newton, o calórico, etc. A maioria foi como veio, sobrenaturais ou naturais. No século XIX havia o éter, um fluido que permeava todo o universo, que não se via nem se sentia, mas milhões de vezes mais rígido que o aço, e que vibrava à frequência da luz. Para mim, isso é que é sobrenatural. Hoje temos o princípio de incerteza de Heisenberg, que aceitamos como natural mas que deveria parecer sobrenatural a alguém do século XIX. A noção de natural muda conforme muda a percepção da natureza.

Hoje aceitamos que a natureza é natural. É o paradigma vigente, e não porque o método o obrigue. Pelo contrário, só recentemente é que a ciência o aceitou. Teve que ser. O universo refutou todas as alternativas com que desesperadamente tentámos salvar as nossas superstições. Foram-se os dragões, os unicórnios, os anjinhos e os deuses. Nem o Pai Natal resistiu ao limite de velocidade que a relatividade impôs.

(700 palavras... por favor leiam quatro vezes para ficar mais ao nível do texto do Jónatas Machado)

1 - Jónatas Machado, 29-3-07, O paradigma naturalista
2 – Santiago, 29-3-07, Ciência Anteontem...

Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

A vaca, pelo sim.

Hoje não estou muito inspirado. Levantei-me às 5:00, tive reuniões e trabalho o dia todo, e ainda me falta fazer umas coisas antes de poder ir dormir. Mas o último post e o comentário do Ricardo Carvalho fez me lembrar esta. E isto não pode ser sempre filosofias profundas; é o meu blog, posso avacalhar de vez em quando

- Então compadre, essas vacas são boas?
- A branca é...
- Então e a preta?
- A preta também.
- Ah... e dão muito leite?
- A branca dá.
- Então e a preta?
- A preta também.
- E, diga-me lá. São boas de tratar?
- A branca é.
- Então e a preta?
- A preta também.
- Mas porque é que diz sempre que a branca é que é boa, e dá muito leite e assim, se a preta também?
- É que a branca é minha.
- Então e a preta?
- A preta também.

Ao menos...

A lei é ineficaz. O acto é privado, e a investigação uma intromissão humilhante na vida íntima de quem se vê envolvido no processo. Quase nunca há denúncias e, das poucas vezes que as há, quase nunca há condenações. Muitos dizem até que não é crime. Que é mau todos concordam mas para muitos é assim que as coisas são. Há que aceitar. E não é algo que se faça de cabeça fria, a pensar nos detalhes da lei ou na possibilidade de ir para a prisão. Faz-se sem pensar, por impulso, e muitas vezes arrependendo-se depois, quando é tarde demais. Não é um parágrafo no código penal que vai impedir alguém de o fazer.

Há apenas uma coisa boa no meio disto tudo. Ao menos ainda não se lembraram os políticos de tentar marcar pontos com a despenalização da violência doméstica.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Canadá: terra sem lei.

Advertência: este texto pode conter vestígios de sarcasmo.

O Canadá está na lista negra dos EUA, e é merecido. Esse tal Canadá faz-se passar por um país civilizado, mas é uma terra sem ordem nem respeito pelo direito fundamental de cobrar dinheiro pelo entretenimento. No Canadá pode-se gravar um filme no cinema e nem se vai preso. Doug Frith, presidente da Canadian Motion Picture Distributors Association, exprime bem o desespero da situação (1):

«Front-line employees catch a guy sitting in the front row camcording Mission: Impossible III, they call police and they're told it's a matter for the RCMP because [the] Copyright [Act] is federal. [...] We don't want to have to prove the economic loss from distribution. We want it to be a Criminal Code activity to be caught camcording. Period.»

Nos EUA, desde 2005 que é crime usar uma câmara de vídeo no cinema (2), punível com até três anos de prisão, ou seis se o criminoso reincidir. No Canadá os pobres distribuidores sofrem enquanto criminosos perigosos gravam filmes impunemente. A lei Canadiana parece até troçar das vítimas, ao exigir que provem que sofreram prejuízos se quiserem meter alguém na cadeia.

Mas os EUA ameaçam retaliar com medidas drásticas, atrasando uma ou duas semanas as estreias dos filmes no Canadá. E tudo isto por culpa de legisladores que julgam que a arte é um fenómeno de criatividade cultural, e que pode sobreviver sem dinheiro para advogados, acordos de licenciamento, gestores de direitos, e legislação especial.

1- Gayle MacDonald, Pirates of the Canadians

2- Wikipedia, Family Entertainment and Copyright Act

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

Golpe de Vista.

No tempo das disquetes preferíamos os originais, porque programas copiados podiam trazer vírus e dar chatices. Nessa altura os distribuidores não desconfiavam dos clientes. Mas as coisas mudaram. Hoje, quem tem um disco de 200Gb e compra um DVD de 4Gb tem a expectativa de instalar os 4Gb algures nos 200Gb e arrumar o DVD. Nada disso. O distribuidor quer se certificar que o cliente não é aldrabão, por isso cada vez que joga ou usa o programa tem de enfiar a bolacha na gaveta e estragar mais um pouco o DVD e o leitor. Nem pode fazer uma cópia de segurança. Esta protecção de lucro alastrou aos CDs, filmes, músicas, e tudo o que se compra que pode ser usado num computador. O bom cliente sujeita-se a encher o PC de tralha que não quer, como os clientes da Sony BMG (1).

Muitos passaram a «ir à ‘net» buscar um programa para retirar a protecção e evitar a chatice. Ou a ir à 'net em vez de ir à loja. As versões «pirata» não trazem perna de pau, nem pala no olho, nem chatices. Alguns distribuidores começaram a desconfiar que incomodar o cliente não ajuda nas vendas. Urgia mudar a estratégia. Assim nasceu o Windows Vista.

Este sistema operativo foi buscar aos estúdios de cinema e discográficas o espírito progressista e visão clara do potencial das novas tecnologias, e à Microsoft a capacidade de criar aplicações leves, eficientes, e economicamente acessíveis. Será fantástico quando, por pouco menos de €300 (e um PC novo, provavelmente), um utilizador do Windows XP pode fazer o upgrade para o Vista e ganhar um efeito de transparência nas janelas. É certo que janelas opacas não era o maior problema das edições anteriores do Windows. Mas sem dúvida que todos preferimos janelas transparentes.

Mas o mais revolucionário foi o objectivo audacioso do VIsta: permitir ao utilizador descodificar conteúdos sem permitir que o utilizador descodifique esses conteúdos. Mentes mais humildes diriam «Impossível!», mas os verdadeiros visionários não desmotivam tão facilmente. E por isso o Vista é o sistema operativo mais seguro que a Microsoft já criou. O que não diz muito. Mas há aspectos impressionantes, bem documentados por Peter Gutmann (2) (um obrigado ao meu irmão Miguel pela referência, e pelas gargalhadas que a leitura proporcionou).

No Vista toda a comunicação pode ser encriptada, desde o leitor de DVDs às colunas ou monitor. O hardware tem que cumprir especificações rígidas para não permitir intercepção de conteúdo descodificado, e o sistema operativo desactiva os periféricos que não cumpram os requisitos sempre que o conteúdo vier marcado como exigindo segurança. Não para banalidades como passwords, documentos confidenciais ou extractos bancários. Quem quiser proteger esses pague mais €200 e compre a edição Ultimate do Vista. Refiro-me aqui ao importante: filmes do Rato Mickey, músicas da Shakira, e assim.

Infelizmente, não encontraram forma de obrigar a comprar filmes que não se consegue ver, e por isso têm que dar as chaves para quebrar a encriptação. No próprio DVD ou CD vêm as chaves que são combinadas com a chave do leitor para descodificar o conteúdo. Por outras palavras, escrevem o PIN no cartão multibanco, pois de outra forma ninguém conseguia acesso ao conteúdo. Assim, o cliente vai gastar imenso dinheiro em equipamento e software para ter um sistema em que metade do poder de computação é dedicado a esconder dele o filme que está a ver. Por metade do preço pode ter o mesmo desempenho se usar conteúdo desprotegido, disponível gratuitamente na internet após a meia hora que um miúdo de 16 anos em Hong Kong leva a retirar a protecção do DVD.

Se eles quisessem fazer dinheiro a vender conteúdo isto seria um disparate. Mas consideremos o ponto forte que têm em comum os estúdios de cinema, as discográficas, e a Microsoft. Exacto. Os advogados. Competir no mercado exige oferecer ao cliente um produto superior ou mais barato que a concorrência. Sacar uns milhares de euros a um desgraçado requer apenas ameaçá-lo com um processo e umas dúzias de advogados. Como bónus, todas as despesas de investigação para descobrir as vítimas saem do erário público.

O modelo de negócio é genial. Penaliza-se pesadamente os poucos tansos que caírem na asneira de comprar um original. Não são rentáveis. Recheia-se os bolsos dos legisladores para tornar ilegal sequer espreitar para dentro do leitor com o DVD lá dentro. Espera-se que um miúdo descodifique um sistema absurdamente inseguro e espalhe cópias pela internet, e pronto. Os primeiros acordos legais pagam o investimento em advogados e os restantes são lucro.

1- Wikipedia, 2005 Sony BMG CD copy protection scandal

2- Peter Gutmann, A Cost Analysis of Windows Vista Content Protection

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Ciência e Religião.

O professor Dom Mário Neto volta a contribuir para este blog, após o texto que aqui publicou anonimamente Introdução à Blinologia. No texto que se segue, Dom Mário Neto aprofunda alguns aspectos da Blinologia e disserta sobre o aparente conflito entre a ciência e o revelatum Blínico.

A filosofia natural e o estudo do Sagrado foram inseparáveis durante quase toda a história da humanidade. O conhecimento prático da natureza auxiliava o ritual religioso, desde o cálculo do calendário e dos dias de celebração à construção dos templos. E apesar da filosofia especulativa apresentar algumas hipóteses contrárias ao cânon religioso, até recentemente não eram suportadas por evidências concretas, pelo que os doutos blinólogos tinham liberdade de escolher as doutrinas filosóficas de acordo com as Escrituras. O mérito de filósofos como Platão, Epicuro, Aristóteles ou São Jacinto da Carrasqueira era medido pela concordância com a Palavra dos Blin, ou mesmo com a Frase e o Parágrafo.

No período áureo da escolástica blínica, esta visão de uma relação intima entre Natureza e Escritura levou mesmo à formulação duma noção basilar da blinologia: «A verdade não contradiz a verdade». Alguns críticos acusam-na de ser trivial e inútil, mas esta ideia rapidamente se espalhou pela cultura Europeia, sendo até adoptada por outra religião em voga nessa altura. E, no estudo do Sagrado, muitas vezes o que parece óbvio é profundamente misterioso, como atestam as famosas palavras do imperador Jin Tai aos missionários: «Se essa bolacha é Deus eu sou o rei da China».

Mas nos últimos séculos a experiência prática gradualmente se fundiu com a filosofia especulativa, gerando o que conhecemos hoje como ciência, o que levantou problemas à ideia de uma Revelação única de todos os aspectos da Criação. O relato da origem do mundo na Blínia Sagrada, «No início os Blin criaram a papa de aveia e a Terra», era interpretado literalmente, e a cosmologia blínica descrevia a Terra como flutuando num imenso mar de papa de aveia. Mas, no século XII, Barnabé da Eritreia relatou experiências, com vários tipos de rocha e receitas de papa, que demonstravam a impossibilidade física de tal interpretação. Foi executado em 1198 por heresia, e o Barnabismo foi perseguido com alguma violência, mas a Igreja Blínica sempre foi célere em admitir os seus erros. Mal passados oito séculos e Barnabé foi perdoado e, em parte por estar extinto mas em parte pelo progresso doutrinal da Igreja, o Barnabismo já não é um culto perseguido.

O trabalho de grandes cientistas, de Barnabé a Heisenberg e Einstein, mostrou à Igreja Blínica que temos que considerar verdades a níveis diferentes, se bem que a verdade nunca contradiga a verdade, mesmo que se contradigam. Parte do revelatum blínico está contido no universo em si. Treze mil e quinhentos milhões de anos, incontáveis estrelas e planetas, uma imensidão inimaginável de processos todos organizados de acordo com princípios regulares. Sem ambiguidades, sem margem para interpretações subjectivas, e onde tudo é desvendado objectivamente, sem considerar credo, raça, ou cultura. A compreensão deste universo duplicou a esperança média de vida, permite-nos comunicar instantaneamente com qualquer pessoa e mesmo explorar outros planetas.

No entanto, este universo comporta-se como se não existissem Blins, como se não tivesse sido criado por uma inteligência superior. Pior ainda, toda a ciência moderna indica que o universo não pode ter sido criado, que surgiu por um acontecimento quântico que não pode ter causa. Como sabemos que a verdade não contradiz a verdade, e como sabemos que os Blins criaram o universo, é evidente que o estudo do universo em si não pode revelar toda a verdade. Temos por isso que separar dois tipos diferentes de verdade. Isto é revelado a todos os que estudam o Sagrado, mesmo os que desconhecem o verdadeiro caminho dos Blins e seguem outras religiões. Dou aqui como exemplo as palavras de Joseph Ratzinger(1), líder religioso de um culto semi-monoteísta (os três deuses principais vivem como um só numa espécie de simbiose metafísica):

«One answer was already worked out some time ago, as the scientific view of the world was gradually crystallizing[...]. It says that the Bible is not a natural science textbook, nor does it intend to be such. It is a religious book, and consequently one cannot obtain information about the natural sciences from it.»

Evidentemente, isto não pode ser tudo. Como reconhece o próprio Ratzinger, e todas as religiões em geral, não basta separar o conhecimento da natureza do conhecimento espiritual. Há que juntá-los de novo numa síntese que abarque quer a nossa natureza física quer o aspecto blínico da nossa existência. Temos assim que considerar uma hierarquia de verdades. No nível inferior temos todo o universo, milhares de milhões de anos de imensidão, e toda a ciência e tecnologia que permite a nossa vida e sociedade moderna. No nível superior, a Blínia Sagrada, compilação da tradição oral de uma tribo do deserto e que, ao contrário de outras compilações de tradições orais de outras tribos do deserto, nos mostra a Verdade e todo o mistério do Sagrado.

1 - Joseph Ratzinger, "In the Beginning...." A Catholic Understanding of the Story of Creation and the Fall

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

A costela, pois claro!...

Não devia escrever a esta hora. Devia fazê-lo só com calma para poder rever bem o texto antes de publicar. Mas temo que não vá conseguir dormir se não mandar já isto. Aqui está o comentário do Jónatas Machado:

«E, para informação do Ludwig Krippahl, deve dizer-se que Adão recuperou a sua costela. É verdade. O Ludwig devia saber que em caso de acidentes os cirurgiões recorrem todos os dias às costelas para retirar osso (v.g. para reconstrução facial) porque sabem que, mantendo intacto o periosteum, o osso da costela volta a crescer. Essa técnica foi descoverta há poucas décadas. No entanto, Deus utilizou-a para criar Eva, garantindo desse modo que em toda a família humana corre o mesmo sangue. O facto de Deus ter utilizado uma técnica que os modernos cirurgiões utilizam diariamente desde há algumas décadas só atesta a plausibilidade do relato do Génesis.»

Ora bem. Deus pega num pedaço de barro, faz um milagre, e aparece Adão. Manda-lhe um sono profundo, tira-lhe uma costela, e enche o buraco de carne. Duma costelita faz Eva que, presume-se, teria mais que meio palmo de estatura. Outro milagre. Mas perfeitamente plausível porque a costela regenera.

Coitado do Adão. Se Deus escolheu a costela porque a costela regenera sozinha, então fez estes milagres todos mas deixou o desgraçado com dores até recuperar. E se o curou por milagre lá se vai a plausibilidade toda, visto não ser essa uma «técnica que os modernos cirurgiões utilizam diariamente».

E se lá estivesse escrito úmero ou clavícula em vez de costela, será que os evangélicos já iam pensar que era fantasia?

E como é que sabem se Deus removeu o periosteum ou não, e se a costela regenerou? Essa parte não vem na Bíblia.

Há coisas que é o melhor é mesmo acreditar. Se tentamos compreender só dá dor de cabeça. Vou-me é deitar. Boa noite.

Domingo, Dezembro 24, 2006

Votos de...

 A Igreja Católica está muito preocupada com o que está a acontecer ao Natal (1). Desta vez, vou dou-lhes razão. Não se admite que uma tradição tão antiga seja perdida, ou que se descure o seu significado religioso. É certo que vivemos num país laico, e que não era esta a religião original dos povos Ibéricos do neolítico, nem dos Celtas que os substituíram, nem dos Romanos que vieram depois. Mas é esta religião que está na base, na raiz mais antiga, da nossa cultura Europeia. E esta cultura é de todos, não só dos crentes.

Dizem que foi milagre o que aconteceu naquela noite de inverno, e devemos respeitar esta tradição cultural e religiosa. Celebremos por isso o deus que fez o óleo de um dia arder durante oito. Que este milagre da poupança vos sirva de exemplo nesta quadra, e um feliz Hanukkah para todos.

1- O Natal cristão ofende?


Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

A tradição já não é o que era (mas anda lá perto)

Segundo a Agência Ecclesia (1), menos de metade das crianças britânicas entre os 7 e os 11 anos sabe que o Natal é a celebração do nascimento de Jesus. A culpa parece ser do carteiro:

«Os protestos viraram-se, em boa parte, contra o Royal Mail, serviço postal britânico que este ano eliminou qualquer referência cristã dos seus selos: só há renas, árvores de Natal, bonecos de neve e pais natais. Nenhuma imagem lembra, como em ocasiões anteriores, o Nascimento de Cristo.»

Qualquer dia até ensinam às crianças que já havia um festival Romano celebrado nesta semana muito antes do Cristianismo. Dedicado ao deus Saturno, incluía um período de férias escolares, troca de presentes, muita bebida, comida, alegria, e um mercado especial da época. Até o cariz comercial do Natal antecede o Cristianismo. Eventualmente os Cristãos aproveitaram o festival para os seus propósitos. Espetaram uma missa no fim, substituíram Saturno por Jesus, e acabaram com a tradição de ir tudo cantar nu para a rua. Esta última talvez a única melhoria; para cantar nu na rua é mesmo melhor esperar pelo tempo mais quente.

Mas agora voltamos às origens. Dezasseis séculos depois da usurpação Cristã o Natal é finalmente o que era: comer, beber, gastar rodos de dinheiro, e divertir-se à brava quer se queira quer não. Jesus nasceu? Boa! Junte-se à festa, que quantos mais, melhor.

1- Católicos e muçulmanos procuram «salvar» o Natal na Inglaterra