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Terça-feira, Agosto 19, 2008

Pegas

Se virmos que a figura no espelho tem um autocolante na cabeça facilmente reparamos que está na nossa e o tiramos. Parece trivial mas exige a capacidade de reconhecer que o espelho representa o que nós somos e poucos animais são capazes de o fazer. Até agora, que se saiba, só alguns primatas e as pegas (1).

É fascinante que a inteligência surja de formas tão diversas na natureza. Mas não é de espantar. Também há muitas formas de revestimento da pele, de membros, de comportamentos e metabolismos. Em cada ser vivo combinam-se as características que ajudaram os seus antepassados a reproduzir-se. São tão diversas e tão úteis porque surgem como solução para necessidades também diversas.

Por isso um deus omnipotente ser inteligente faz tanto sentido como um deus omnipotente ter penas. É certo que, da nossa perspectiva, a inteligência é uma grande coisa. Mas se os morcegos tivessem deuses os deles teriam sonar. Deus de peixe sabe nadar. O facto é que a inteligência é apenas mais uma das muitas características que os seres têm porque ajudam a colmatar alguma necessidade. Penas para não ter frio, dentes para morder, cérebros para pensar. Nós e as pegas conseguimos perceber que a imagem no espelho representa o nosso corpo porque um cérebro capaz desse raciocínio ajuda-nos a sobreviver e reproduzir. Mas um ser omnipotente precisa tanto disto como de pêlos no nariz. Se Deus existe, se lhe colarem um autocolante na testa e lhe mostrarem um espelho Ele não vai saber o que fazer. Para que precisa ele de tal capacidade?

O mesmo se passa com as outras características que Lhe atribuem apenas porque as prezamos como humanos. Deus ama, fala, pensa, compadece-se, zanga-se, castiga e uma data de outras coisas que são úteis para macacos tagarelas como nós mas que não servem de nada a um ser eterno e omnipotente.

E mais triste que esta crença incoerente é o que custa querer acreditar que a natureza foi criada de propósito por algo inteligente. Essa luta contra o óbvio impede de ver a riqueza de formas com que a Natureza, sem querer, cria inteligências.

1- BBC, Magpie can 'recognise reflection'

Quinta-feira, Julho 31, 2008

Razões para crer. 3- E para descrer.

«[O] pensamento claro e o respeito por indícios concretos – especialmente os indícios inconvenientes que contrariam os nossos preconceitos – são cruciais para a sobrevivência da espécie humana no século XXI»
Alan Sokal, «O que é a ciência e porque é que isso interessa?»(1)

«Deus que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela.»
João Paulo II, «Fides et ratio»(2)

Alguma da filosofia do último século ajudou a compreender a ciência, especialmente pela demarcação entre o que é e não é ciência. Popper propôs a falsificabilidade como característica fundamental; a hipótese científica tem que admitir que algo observável a possa refutar. Assim o criacionismo fica de fora porque o que quer que se observe é compatível com um criador omnipotente, e a hipótese que permite tudo não serve para nada. Mas Kuhn apontou que falsificar é pouco vulgar na ciência. O mais comum é resolver problemas. Quando um astrólogo falha numa previsão encolhe os ombros e segue para a próxima. Mas um astrónomo, quando falha, tem mecanismos para verificar os cálculos, reconsiderar premissas e confirmar observações até encontrar o problema e resolvê-lo. E só quando o problema é muito profundo é que há uma «mudança de paradigma».

Lakatos tirou a ênfase da hipótese isolada e mudou-a para as hipóteses em conjunto, o «programa de investigação». A biologia tem hipóteses centrais acerca da evolução e parentesco de todos os seres vivos. Estas não costumam ser postas à prova. São as hipóteses periféricas como a existência daquela forma intermédia ou a classificação deste organismo que são normalmente sujeitas a testes directos. Como se pode sempre proteger as hipóteses centrais sacrificando as periféricas, a questão principal não é a falsificação da hipótese isolada mas o desempenho do programa como um todo. Ou seja, se as revisões permitem prever melhor e resolver novos problemas ou se, pelo contrário, apenas disfarçam os falhanços com desculpas retrospectivas.

Isto é um resumo grosseiro de um tema complexo mas serve os objectivos deste post (até porque incluem não adormecer o leitor). Um é mostrar que a ciência é o caminho para o conhecimento. A verdade tem que ser claramente distinta da treta e o conhecimento só o é se resolve problemas ou responde a perguntas. E as hipótese que não se conformam ao que observamos devem ser corrigidas de maneira que permita compreender cada vez mais e cada vez melhor. No conhecimento, e na ciência, não há lugar para mistérios insondáveis, verborreia confusa ou desculpas teimosas em nome da fé.

Outro objectivo é desmascarar o truque de qualificar este conhecimento de “científico” para, enquanto o público olha para essa mão, a outra tirar do bolso o “conhecimento” teológico, transcendente, revelado, a priori ou o que mais calhe. Esses não são conhecimento. A premissa que um Deus perfeito escreveu a Bíblia permite inferir que a Bíblia é a verdade revelada. E as regras do Xadrez permitem inferir que o cavalo anda em L. Nem uma nem outra dizem o que quer que seja acerca da realidade. São meros jogos de lógica abstracta, e o conhecimento tem que ser mais que isso. Tem que confrontar o que observamos, responder a perguntas e levar-nos a compreender coisas que desconhecíamos.

Principalmente, quero contrapor a ideia que não podemos afirmar não haver deuses. Segundo a Enciclopédia Católica, «que tal afirmação é irrazoável e ilógica não precisa de demonstração porque é uma inferência injustificável pelos factos ou pelas leis do pensamento». É exemplo típico de duplicidade de critérios, de terminologia vaga (nunca explicam que “leis” são essas) e um erro flagrante se “leis do pensamento” se referir à atitude crítica e de respeito pelos factos que nos conduz ao conhecimento.

Há uma razão forte para descrer dos deuses. Muito mais forte que qualquer prova deduzida de axiomas tirados do chapéu. É que as hipóteses da existência de deuses só atrapalham. Ou contradizem a realidade ou não dizem nem sim nem não e, quer num caso quer noutro, não servem para compreender nada. Tal como não é preciso uma demonstração matemática para tirar a pedra do sapato, também não é preciso uma prova irrefutável para deitar fora os raciocínios circulares, a retórica obscura e as hipóteses inúteis que dificultam a caminhada. É que mesmo que nunca cheguemos ao conhecimento perfeito só temos a ganhar com os avanços na direcção certa.

1- O texto completo está aqui (em pdf). Recomendo.
2- Texto integral aqui.
Episódios anteriores:
Razões para crer. 1- Conhecimento.
Razões para crer. 2- Dois é companhia.

Quarta-feira, Julho 30, 2008

(Mais um) milagre do Sol.

Maria gosta de aparecer no Sol. Pelo menos, é o que disseram em Fátima e em Erumeli, na Índia. Em Fátima tiveram mais sorte, com o dia nublado. Em Erumeli já cinquenta pessoas ficaram cegas com danos irreversíveis na retina por tentar ver a aparição milagrosa no Sol.

Telegraph, Dozens blinded in India looking for Virgin Mary

Domingo, Julho 20, 2008

Treta da Semana: outra vez o propósito...

É comum entre religiosos defender que tudo foi criado de propósito excepto um certo deus, apesar de discordarem, por vezes com demasiado zelo, acerca de qual deus é a excepção. Já discutimos aqui vários aspectos desta hipótese. O porquê de ser tão popular (1), inferior às alternativas (2) e ineficaz como explicação para as características dos seres vivos (3). Só faltava discutir porque é que é treta. O Senhor Arquitecto Anónimo Pereira (SAAP) deu o mote notando alguns aspectos importantes desta hipótese (4).

Segundo o SAAP, falta «prova científica» de não termos sido criados para um propósito. Não é claro o que entende por «prova científica», mas não deve ser aquilo que os cientistas procuram (5). E enquanto a falta de «prova científica» é um defeito nas outras hipóteses, aparentemente é virtude na sua. Um post não chega para tanta treta, por isso tenho que me restringir a esta parte da discussão:

«A minha "crendice", como lhe chama, é a Verdade. Pura, simples e perfeita. Por isso resiste a todos os modelos científicos. Sem Deus os seus modelos científicos nunca existiriam, Doutor. Porque foi Deus que fez a ciência e permite ao senhor Doutor efectuar as suas pesquisas e modelos.» (4)

É difícil distinguir os comentadores anónimos interessados mas coibidos por pressões familiares ou profissionais daqueles que defendem desonestamente uma posição que percebem ser ridícula ou que só querem chatear. Os internautas recomendam não alimentar estes últimos, os trolls, mas eu penso que vale a pena se esclarecer algo relevante. E a premissa que deuses e seus propósitos são questões fora da ciência que compete à fé responder é suficientemente comum para não me ralar com o que motiva o SAAP.

Podemos perguntar se uma lasca de sílex é artifício propositado ou se é fruto de um processo natural. Arqueólogos e paleontólogos lidam regularmente com estas questões, e a ciência permite-lhes inferir propósito em alguns casos. Mas é verdade que, formuladas desta maneira, estas hipóteses não são científicas. É preciso detalhar os processos naturais, propósitos e métodos de fabrico que possam ter criado a lasca para poder comparar as hipóteses, confrontá-las com o que observamos e avaliar o mérito relativo de cada uma. E assim já são científicas. Mas se for para dizer que a lasca foi criada para um propósito insondável e por um método misterioso mais vale dizer «não sei». Adianta-se o mesmo poupa-se a má figura.

Tenho insistido, insisto, e voltarei a insistir. As hipóteses saem do âmbito da ciência apenas se não é possível determinar a sua verdade. Por serem mera consequência da definição dos termos (mafaguinhos, ver 5), por serem demasiado vagas (Deus é Amor) ou por permitirem tudo. O SAAP dá um exemplo: «Eu acredito na teoria da evolução. Se o Deus em que acredito é omnipotente, então tenho de olhar para a Natureza e pensar que se todas as coisas foram criadas desse modo então foi porque Deus assim o quis.»

Se eu sou omnipotente então tudo o que acontece é porque eu quero. Se a mosca que está aqui a voar é omnipotente então tudo o que acontece é porque ela quer. Há infinitas hipóteses que não podemos testar porque não dizem nada relevante. São indiferentes à realidade, nenhuma é científica e são todas disparate. Para disfarçar propõem a fé como “teste” da hipótese, mas a fé não tem nada a ver com a verdade da hipótese: «Depois de uns anos com uma vida de total devoção a Deus - sabe que isto dos testes são coisas muito demoradas - volte aqui para conversarmos e indique-me as suas conclusões.»(4)

Podemos também sugerir ao SAAP uns anos de devoção total à mosca até acreditar que a mosca é omnipotente. Um teste perfeitamente inútil porque, qualquer que seja o resultado, não indica nada acerca da omnipotência da mosca.

O SAAP propõe que a sua hipótese está fora do âmbito da ciência e deve ser testada pela fé. A treta é que a hipótese está fora da ciência apenas por não ter ponta por onde se pegue e o teste só testa a credulidade humana, não a hipótese.

Editado: por excesso de zelo na revisão apaguei uma virtude que não devia. Obrigado ao João Vasco pelo aviso.

1- Conspiração, religião, e intenção.
2- Evolução: Como se fosse de propósito
3- Miscelânea Criacionista: O Propósito.
4- O custo da propriedade intelectual, (os comentários não estão relacionados com o post).
5- Provado cientificamente

Sexta-feira, Julho 18, 2008

O Diabo.

Quando se fala de religião é costume falar de Deus. Se existe, se não existe, se é real ou imaginário, se criou o Homem ou vice-versa. Mas este é o meu 666º post. Parece-me mais adequado dedicá-lo ao Seu alter ego.

Tal como com o jovem Clark Kent em Smallville, no princípio era só Ele. Os relatos mais antigos na Bíblia mostram o mal como sendo essencialmente desobedecer a Deus. O resto é tudo Ele. A serpente no Génesis foi mais tarde reinterpretada como Satã, mas no contexto original é mais razoável ver o episódio como uma adaptação do épico sumério de Gilgamesh, a quem o segredo da imortalidade também foi roubado por uma serpente espertalhona. E a serpente era tradicionalmente um símbolo dos aspectos temíveis e misteriosos da Natureza, não necessariamente do mal.

De resto no Êxodo podemos ver que foi Deus que deu a Moisés os poderes mágicos para impressionar o Faraó, foi Deus que mandou as pragas e também foi Deus que «endureceu o coração de Faraó»(Ex, 9:11) para que este não deixasse partir os Judeus. Nesta altura isto parecia justo. Afinal, era Deus, e Deus podia fazer o que bem Lhe apetecesse.

Mais reveladora ainda é a diferença entre os relatos de 2 Samuel e 1 Crónicas acerca do recenseamento que David mandou fazer. Os recenseamentos eram sempre mal vistos. Inevitavelmente, visavam a cobrança de impostos, o recrutamento militar ou ambos. Ninguém gostava quando os reis mandavam fazer um. 2 Samuel foi escrito antes do exílio dos Judeus na Babilónia, e relata que «A ira do Senhor tornou a acender-se contra Israel, e o Senhor incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá.» (2 Sam 24:1).

O contacto com a cultura Persa deu aos Judeus uma visão mais zoroástrica do conflito entre o bem e o mal como a luta constante de duas forças opostas. Esta foi muito mais popular em todos os géneros de ficção, dentro ou fora da religião, e influenciou os autores das Crónicas, escritas após o exílio: «Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel» (1 Cró 21:1). Qual cabine telefónica, este encontro cultural transformou Jeová, que nunca foi propriamente mild mannered, num verdadeiro badass. A partir de agora era a sério.

Durante a idade média muitos e doutos teólogos tentaram perceber quem seria Satanás, porque se teria virado contra Deus e como eram as hierarquias de querubins, serafins e outros perlimpimpins. A Enciclopédia Católica tem um artigo interessante sobre o assunto. Entretém, e dá uma ideia do tempo que se perdeu com este disparate (1).

Mas os tempos mudaram. Hoje em dia os católicos mais esclarecidos vêem o Diabo como uma metáfora para as falhas humanas ou um símbolo para o incompreensível, o absurdo, aquilo que está totalmente fora da razão. Curiosamente parecido com Deus em muitos aspectos. Um regresso às origens, de certa forma.

A história do Diabo dá-me esperança. No princípio não se distinguia de Deus. O bem e o mal eram o mesmo, o que importava era saber quem mandava. Mais tarde alguém desconfiou que isso não estava certo e separaram as personificações. O muito bom de um lado, o bicho papão do outro, mas nós ainda cá em baixo acagaçados. Com o evoluir das ideias deu-se mais um passo. O mal afinal é um conceito, uma falha, um símbolo. Não é um ser com existência autónoma. Não é um tipo encarnado de cornos e barbas com quem se possa ter uma relação pessoal, pedir coisas e prometer outras em troca.

A esperança é que dêem o próximo passo neste raciocínio e vejam que Deus está na mesma categoria. É uma ideia, um símbolo, uma marca do limite das nossas capacidades. Nada mais. Se compreendem que o Super-Homem não existe deve ser fácil perceber que o Clark Kent também é fantasia.

Editado para corrigir uma gralha e alterar as tags. Obrigado ao António e à Granada pelas sugestões.

1- Catholic Encyclopedia, Devil

Quinta-feira, Julho 17, 2008

Deus vai vos...

... bem, é melhor ouvir a canção...

Domingo, Julho 06, 2008

Treta da Semana: A crise chega aos milagres.

As coisas já não são como no tempo de Nuno Álvares Pereira, quando o barril de petróleo nem um cêntimo valia e ninguém se queixava do preço da electricidade. Hoje vivemos uma crise que afecta tudo e todos. Beatificado em 1918 pela piedade com que fustigou nuestros hermanos, Dom Nuno passou quase um século a interceder junto ao Altíssimo para que Este concedesse um milagre, requisito sine qua non para que a Igreja Católica admita um beato ao restrito clube de setecentos santos de reconhecida eficácia intercessora.

Maria teve um filho ainda virgem e fez bailar o Sol no céu. Fernando, mais conhecido por António, deu uma lição no seu mosteiro ao mesmo tempo que pregava na igreja de São Pedro em Limoges e convenceu um burro e centenas de peixes a adorar Deus. Ao Nuno, coitado, calhou-lhe um milagre em tempo de crise. A Sra. Dona Guilhermina de Jesus, uma sexagenária de Vila Franca de Xira, estava a fritar peixe quando um salpico de óleo lhe caiu no olho esquerdo. «O olho deveria ficar tapado de forma a não ser sujeito à luminosidade do sol e a senhora era obrigada a tomar medicamentos diários na tentativa de debelar a queimadura. “Mas mesmo com esses tratamentos não havia garantia de cura e a solução poderia ser um transplante de córnea”, explicou à Agência LUSA o Pe. Francisco Rodrigues»(1).

Sem garantia de cura, de olho tapado e medicada, a Sra. Dona Guilhermina recorreu à única hipótese que restava. O único que a poderia curar. O beato Nuno Álvares Pereira, comandante do exército Português, vitorioso de Aljubarrota e flagelo dos castelhanos. «Depois de várias novenas»(1), e passados três meses, começou a ver novamente do olho que o peixe tão traiçoeiramente, qual invasor espanhol, lhe havia salpicado. Esta cura «foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram miraculosa.» Só podia ser. Nunca, sem garantias de cura, podia a medicação e tratamentos ter reparado os danos causados por um salpico de óleo.

E por aqui também se vê a excelência destes médicos e teólogos. Dominam não só tudo o que a ciência sabe acerca da fisiologia ocular como também tudo o que a ciência algum dia poderá saber. É este conhecimento total sobre a ciência de hoje e do futuro que lhes permite identificar o carácter milagroso da cura do salpico, cientificamente inexplicável.

Graças a este trabalho, o processo de canonização irá avançar e em breve teremos mais um intercessor a quem pedir ajustes ao Plano Divino. Deus é omnisciente e todo-poderoso, o universo segue um plano traçado desde a Criação e tudo foi criado com um Propósito que é por nós insondável. Mas se alguém se magoa, tem um exame importante ou perde as chaves do carro não custa nada pedir um jeitinho. E tanto melhor se conhecermos alguém bem colocado lá dentro. Todos sabem que é assim que as coisas funcionam. É a diferença entre esperar três meses que a papelada fique pronta ou ser amigo da secretária do director.

1- Ecclesia, Beato Nuno Álvares Pereira
2- Ecclesia, Papa reconhece milagre do Beato Nuno de Santa Maria

Sábado, Junho 28, 2008

Treta da Semana: A Escola Bíblica Maná.

Sem inspiração para esta semana, andava à cata de borras no fundo da Internet quando encontrei a Escola Bíblica Maná (EBM), «um departamento da Igreja Maná, que tem como objectivo ensinar os alunos a edificar a sua vida em Jesus e a vencer o mundo o diabo e as circunstâncias adversas.»(1) Um curso para vencer o mundo, tirado em casa pela Internet e por apenas 600€ é um bom negócio.

O corpo docente é liderado pelo Apóstolo Jorge Tadeu, um engenheiro civil que «Conheceu Jesus Cristo na África do Sul»(2), mas a directora da EBM é a Bispo Gisela Rodrigues, licenciada em educação física e «pastora da Igreja do Tojal juntamente com o seu esposo, o Bispo José Manuel Rodrigues,» esposo este que também lecciona na EBM. Juntamente com a Pastora Christel Tadeu, apresentada apenas como "Esposa do Apóstolo Jorge Tadeu", com aspas no original. Que coincidência, tantos casais com o mesmo tacho. Digo, profissão. Como o mundo é pequeno. Mas isto seria uma treta corriqueira não fosse o protocolo entre a EBM e a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia:

«Os alunos da Escola Bíblica Maná com o 12º ano de Escolaridade completo e o curso da Escola Bíblica entram directamente para o terceiro ano universitário do Curso de Licenciatura em Ciências das Religiões, nos termos do protocolo estabelecido entre estas duas entidades. O Curso consta de quatro anos. Destes, os alunos farão apenas os dois últimos, o 3º e 4º.»(3)

Esta informação parece estar desactualizada porque licenciatura agora é um primeiro ciclo de Bolonha e dura 3 anos. A página na Lusófona também não menciona o acordo com a EBM, e «a única licenciatura laica sobre o fenómeno religioso» tem um corpo docente bastante mais qualificado, com alguns doutorados e estudantes de doutoramento em história e sociologia (4). O estudo cientifico das religiões é um tema interessante, se bem que me pareça mais apropriado para um mestrado ou doutoramento onde os alunos já tenham uma formação científica de base. A presença no corpo docente de um pastor evangélico «Especialista em questões relativas ao Pensamento Contemporâneo», «Empresário da área da Comunicação Social» e apenas com o grau de licenciado levanta-me algumas dúvidas, mas a licenciatura foi aprovada pela DGES (5), pelo que confio que esteja ao nível do ensino superior privado em Portugal.

Mas parece-me que o corpo docente da EBM não garante o mesmo nível, e preocupa-me se for verdade o que está na página da Igreja Maná. Mais até do que se for aldrabice. Um curso por Internet ministrado pelo Apóstolo Jorge Tadeu dar aos alunos a equivalência a dois terços de uma licenciatura demonstra o espírito empreendedor do Apóstolo mas não abona em favor do ensino superior português.

1- Escola Bíblica Maná, Valor do Curso.
2- Escola Bíblica Maná, Corpo Docente.
3- Escola Bíblica Maná, Protocolo Universidade.
4- Universidade Lusófona, Ciência das Religiões
5- Direcção Geral do Ensino Superior, Oferta Formativa

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Como definirias “ateísmo”?

O Helder passou-me um questionário com dez perguntas (1), mas esta interessa-me mais que as outras. À letra, parece perguntar o que eu faria se decidisse como definir “ateísmo”. Não definia. A palavra “sinistrado” é útil mas não precisamos de uma palavra para quem não teve um acidente. Da mesma forma, basta conceitos como cristianismo, budismo e hinduismo para designar o atropelamento por uma dessas religiões. Não é preciso um termo para quem se safa.

Mas a palavra já foi definida pelos crentes e carrega séculos de preconceitos. A questão agora é explicar o que é que “ateísmo” tem a ver comigo, visto que já não me safo da etiqueta. Para os gregos, o ateu estava privado de deuses, coitado, e na idade média o ateísmo era a ruptura deliberada da relação com Deus. Não admira que até ao século XVII, “ateu” fosse sempre uma acusação que se fazia aos outros e nunca algo que se assumisse. Até porque seria arriscado. Do século XVIII para cá a convivência de muitas culturas e a liberalização de algumas sociedades mudou a situação mas permanece o problema de acharem que o ateísmo é um ismo acerca de deuses (2). Foi uma palavra mal escolhida e enviesada à partida.

Um ismo fundamenta-se numa premissa saliente, que considera inegável, mas que é disputada por outros ismos. Cristianismo, judaísmo, budismo, marxismo, e assim por diante. Por isso não é de estranhar que julguem que o ateísmo se fundamenta na premissa que deus não existe. Mas a inexistência de deuses não é premissa nem fundamento do ateísmo. O fundamento do ateísmo é a distinção clara entre o que é, o que julgamos ser, e o que gostaríamos que fosse. O resto é consequência de compreender que estes três conceitos são distintos. Se acham que isto é tão banal que não merece um nome, muito menos um ismo, estou de acordo. É como ter uma palavra para quem não foi atropelado. Mas as consequências desta distinção são significativas.

Porque a realidade e o que penso dela são coisas diferentes posso exigir que toda a afirmação de factos tenha um fundamento empírico. Alguns interpretam esta exigência como dizendo que só o observável é real, mas não é isso. Admito a possibilidade de haver coisas que não podemos observar. Simplesmente não devemos afirmar que alguma dessas coisas exista porque isso é especular sem fundamento. Isto é consensual para unicórnios invisíveis ou extraterrestres de outras dimensões. Podem existir, mas se não se observam não se justifica afirmar que existem. Só que alguns chamam-me ateu porque aplico o mesmo critério ao que me dizem dos seus deuses.

Porque distingo o que julgo ser verdade daquilo que gostaria que fosse a minha confiança em cada hipótese depende das evidências que a destacam das alternativas. Por isso rejeito a astrologia e acho o criacionismo um disparate. E é também por isso que não tenho fé. A fé faz do desejo uma opinião na qual se confia mais do que merece. Os que professam uma religião focam este detalhe e chamam-me ateu por não partilhar a fé deles.

E a distinção entre realidade e desejo deixa-me insatisfeito com mistérios. Para pôr a realidade como eu quero tenho que perceber primeiro como ela funciona. Por isso não gasto dinheiro no professor Bambo e prefiro ciência em vez de bruxaria. E muitos crentes concordam com isto. Mas chamam-me ateu porque também rejeito o hocus-pocus na hóstia, os milagres a as missas.

A palavra já está definida mas, infelizmente, foca uma parte insignificante daquilo que refere. Sim, discordo que haja deuses. Mas mudava de ideias se o Sol nunca nascesse quando o faraó fizesse greve ou se em cada trovoada visse um tipo de toga a atirar raios cá para baixo. Não é isso que importa. A questão da existência de alguns deuses só vem à baila por causa dos que insistem que o seu é que é verdadeiro. Há imensos deuses que se pode rejeitar sem ninguém achar nada de estranho.

Por isso, a quem quiser perceber o ateísmo recomendo que esqueça a parte dos deuses. Esqueça até a palavra, que só engana. Ateísmo é só usar o bom senso que todos têm, mas sem abrir excepções para a religião que saiu na rifa.

1- Helder Sanches, 15-6-08, O Meme Ateísta
2- Wikipedia, Atheist

Domingo, Junho 22, 2008

Treta da Semana: Ciência Evangélica.

O leitor Barba Rija criticou-me por dedicar posts inteiros a certos disparates evangélicos, conferindo-lhes «uma dignidade que não compreendo de onde nasceu.» Admito que dou alguma visibilidade a estas coisas, mas 400 visitas diárias não devem fazer muita diferença. E pode ser que seja melhor ignorar e esperar que passe sozinho. Mas eu prefiro enfrentar o disparate, expô-lo e criticá-lo. Porque a treta é como a barata; prefere deixar-se ver só pelo canto do olho. E porque é mais divertido. Barba Rija, se não fosse tanta gente que acredita, estas coisas eram de chorar a rir.

Por isso o prémio desta semana vai para a secção «Observatório-Textos-Ciência» do Portal Evangélico (1). Julgo pelo conteúdo que o segundo “-“ se deve ler “menos”: «Encontrado O Carimbo De Jezabel»; «A Historicidade Do Dilúvio»; «Físico E Pesquisador De Origem Síria Defende Criacionismo E Aponta Erros Do Darwinismo E Do Evolucionismo Teísta» (sim, isto é um título).

Este último ilustra a estratégia criacionista do «se não tens razão repete mentiras até que peguem». O físico e pesquisador de origem síria, qualificações indispensáveis para criticar a biologia moderna, aponta que «Nunca foi constatada evolução de uma espécie para outra», o que é falso (2); «as descobertas de fósseis de elos perdidos são farsas», o que ou é falso (3) ou é disparate, visto que só são perdidos até serem descobertos; «Até hoje nenhum cientista conseguiu simular a origem da vida em laboratório», o que representa de forma enganadora a investigação nesta área (4); e que «Isso nunca será possível, pois a vida não é um fenómeno da natureza, mas um milagre que somente Deus pode operar.» A tese do milagre, presume-se, foi demonstrada cientificamente. Mas não nos explica como.

No texto «A Historicidade do Dilúvio», Claudionor Corrêa de Andrade explica que o «Dilúvio pode ser comprovado tanto histórica quanto cientificamente.» E dá-nos as provas. Primeiro, pela definição etimológica e teológica das palavras. Depois pelo relato no Génesis, corroborado pelo livro de Isaias, o evangelho de Mateus e o livro de Jó. A isto chama «Evidências bíblicas do dilúvio universal». A isto chamo “ouvi dizer”.

Depois vêm as «Evidências científicas e históricas». Dados concretos e sólidos como numa «série de tijolinhos, gravados em caracteres cuneiformes, uma narrativa bastante similar à do dilúvio bíblico», ou «relatos de aviadores, indicando a presença de um grande barco na região de Ararate, onde pousou a Arca de Noé». E este, especialmente engraçado:

«Argumentam ainda alguns pseudo-cientistas que seria impossível cobrir altos montes como o Everest, cujo topo ultrapassa os 7 mil metros. Todavia, a altitude média do planeta é de apenas 800 metros acima do nível do mar, ao passo que a profundidade média dos oceanos é de 4 mil metros.»

A altitude média é de 800 metros mas para cobrir o Everest é preciso elevar o nível do mar 7 mil metros. Como os oceanos cobrem 70% da superfície da Terra, isto exige mais do dobro da água que agora temos. O problema não é só estas alegadas evidências serem ridículas e as evidências contra um dilúvio universal serem tantas e tão sólidas (5). O maior problema é pôr tanta gente a acreditar que a ciência é esta fantochada. Se a investigação científica assentasse em tijolinhos cuneiformes e relatos de aviadores tínhamos rezas em vez de antibióticos e sacrifícios em vez da meteorologia. Mas é mesmo isso que eles querem...

1- Portal Evangélico, Observatório-Textos-Ciência
2- Joseph Boxhorn, Talkorigins.org, Observed Instances of Speciation
3- Wikipedia, Transitional Fossil
4- Albrecth Moritz, Talkorigins.org, The Origin of Life
5- Mark Isaak, Talkorigins, Problems with a Global Flood

Quinta-feira, Junho 19, 2008

A vingança do impotente.

As religiões cristãs e muçulmanas vivem muito do alegado castigo eterno que alguns terão no final da vida. O Jónatas Machado explicou que «A violação das normas de um Deus eterno tem, logicamente, consequências eternas. A violação das normas de um Deus infinito tem, naturalmente, consequências infinitas.»(1)

É tão absurdo como propor que roubar €20 a um rico merece mais castigo que roubar €20 a um pobre. As leis servem para proteger a sociedade e os mais fracos, e os castigos são necessários porque temos que dissuadir o que somos incapazes de prevenir. Mas um deus omnipotente não precisa de protecção e se quer impor uma norma fica imposta e pronto. Qual é o castigo para quem fizer a gravidade decair mais que com o quadrado da distância? Nenhum. Se Ele diz que decai com o quadrado da distância é assim e pronto.

A desculpa da vontade livre não serve. Dizem que Deus quer que os humanos ajam livremente e por isso impõe regras que se pode transgredir. É uma justificação estranha. Por um lado pelas situações a que se aplica. Não somos livres de viver da luz do Sol nem de transformar a faca do assaltante em espaguete, mas somos livres de roubar para comer ou de matar outro à facada. Por outro lado, é liberdade com castigo. Somos livres de decidir com quem temos relações sexuais a vida toda mas depois de morrermos somos condenados ao sofrimento eterno se escolhemos a porta errada. Isto não faz sentido.

Um castigo pode educar e a ameaça pode dissuadir mas o inferno não serve nem para um nem para o outro. O sofrimento eterno não tem valor pedagógico e ameaçar sem evidências castigar depois da morte é ineficaz. O castigo deve imediato, inevitável e evidente. Dêem as voltas que derem, o pagamento hipotético daqui a cinquenta anos pelos pecados de agora não é boa justiça. Vão pensar que Ele recorre aos tribunais portugueses.

Em suma, o inferno não faz sentido como pedagogia, dissuasão ou retribuição. Não há mal que possamos fazer a um ser eterno e omnipotente que justifique um castigo destes. É pior que torturar uma criança só porque me pisou um pé. Mas o Jónatas Machado dá uma pista para compreender o fenómeno: «A gravidade das consequências é proporcional à dignidade e autoridade das normas violadas.» (1)

É verdade. Bater num polícia em serviço ou desobedecer à sua ordem para parar o carro têm consequências mais graves do que se fosse com outra pessoa qualquer. Mas o Jónatas inverte a relação causal. A desobediência não é mais grave porque o polícia tem mais autoridade. É o contrário. O polícia tem mais autoridade porque a lei pune mais severamente quem lhe desobedece. É a lei que dá autoridade ao cargo e não o cargo que dá autoridade à lei*.

Nos lobos o chefe é chefe porque é o mais forte. A posição deriva da sua autoridade inata. Nos chimpanzés e em tribos humanas pequenas, o chefe é chefe em grande parte pela sua autoridade mas também pela autoridade que lhe concedem. Tem que ter aliados e amigos para se aguentar como chefe. Conforme o grupo cresce aumenta o contributo da convenção. Certamente que a maior parte da autoridade de quem liderou a construção de Stonehenge, Ur ou da Grande Pirâmide lhe foi concedida pelo cargo e não o contrário, e numa sociedade moderna isto é mais evidente que nunca. José Sócrates tem autoridade por ser o Primeiro Ministro. Não é o Primeiro Ministro que tem autoridade por ser o José Sócrates.

Em paralelo com esta inversão de poder veio a burocratização e os intermediários. O chefe da tribo era o mais forte ou carismático e presidia aos julgamentos, arbitrava conflitos e até dava uns sopapos quando era preciso. Agora temos tribunais, advogados, julgamentos que duram anos, leis, parlamento para fazer as leis, ASAE para confiscar bolas de Berlim e assim por diante. E padres. A religião é o culminar deste processo. Na religião o cargo supremo é pura convenção. Nem há lá ninguém.

Se Deus existisse primeiro explicava-me pessoalmente o que eu devia fazer. Um deus omnipotente não precisa de burocratas ou intermediários. E dava-me um carolo cada vez que eu escrevesse uma heresia ou tivesse um pensamento lascivo. Tau! Era logo. À força das mazelas fazia-me santo em poucos meses. Bem... poucos anos. Mas isto de serem os padres a dizer o que Deus quer, de um castigo que só vem sabe-se lá quando e que tem que ser terrível para proteger a dignidade do cargo só me sugere uma coisa. É tudo treta.

*O que dá autoridade à lei é a pistola do polícia e a convenção, não o cargo.

1- Em comentários ao post ”Mete medo...”, sob o pseudónimo de Perspectiva.

Terça-feira, Junho 17, 2008

Mete medo...

Vi este vídeo no blog do Mats, Darwinismo. A mensagem, para quem não tiver paciência, é que os cristãos devem impingir a sua religião aos outros porque se não o fizerem os outros vão para o inferno.



O vídeo tenta ser assustador mas acaba por não ser o vídeo que assusta. O estilo tragico-patético destas coisas não impressiona. O que assusta é haver gente que pensa ser justo torturar alguém por toda a eternidade só porque se esqueceram de lhe falar de Jesus.

E depois dizem que o ateísmo é imoral...

Sábado, Junho 14, 2008

Treta da Semana: Procurar pela negativa.

Na homilia do Domingo passado, em Fátima, o bispo Serafim Ferreira e Silva comentou a constituição da Associação Ateísta Portuguesa (AAP). Concedeu que «até sob o aspecto constitucional, pode ser legítimo». Tem razão; é legítimo. Mas comentou que «por paradoxal que pareça, esta possível associação acaba por procurar Deus. Pela negativa, quer declarar que Ele não existe, mas, cria-se um vazio, e, pelo aspecto filosófico, a reflexão humana, nós quase que precisamos de descobrir alguém que seja o criador, o salvador, o Senhor Deus» (1).

A “procura pela negativa” não faz sentido. É como dizer que quem não gosta de apanhar sol procura bronzear-se pela negativa. Mas dou ao bispo o benefício da dúvida e interpreto-o como dizendo que os ateus também falam de Deus. Não que o procurem mas que o consideram, mesmo estando contra. Assim, em vez de descartar a afirmação do bispo como mera demagogia, sempre tenho desculpa para discutir esta confusão. Nem sempre os ateus consideram Deus. Nem mesmo pela negativa. Mas vou começar por uma expressão do Alfredo Dinis que já foi debatida aqui nos comentários e que ilustra este problema.

«A omnipotência divina só pode ser bem entendida se for contextualizada numa realidade feita de relações interpessoais no interior das quais Deus pode criar seres dotados de tanta autonomia e responsabilidade quanto lhe permitir a sua natureza. É neste Deus que acredito.»(2)

A primeira frase é só o contexto; os atributos que enumera podem variar de crença para crença. É a segunda que interessa, onde diz «neste Deus que acredito» em vez de “acredito que Deus é assim”. Apresenta Deus como um dado adquirido enquanto que “acredito que Deus é assim” admitiria a possibilidade de ele ser de outra forma ou mesmo nem existir. Existir um deus no qual alguns acreditam é diferente de alguns acreditarem num deus que pode nem existir. E dificulta o diálogo que crentes falem duma quando os ateus se referem à outra. Como Serafim Ferreira e Silva demonstra a seguir:

«Nós os cristãos temos uma ajuda, que é a chamada Revelação, a Bíblia ou Sagrada Escritura. E constatamos que, no âmago, no interior de cada um de nós, há um chamamento. E também verificamos, sendo crentes e praticantes, na coerência, (que) podemos ser mais irmãos, na justiça e na verdade. Procuremos Deus, o Senhor. [...S]e quisermos buscar a verdade, praticar a justiça, fazer o perdão, [se] seguirmos o caminho da rectidão, encontraremos Deus, o Salvador» (1).

Quando se questiona estas afirmações, o bispo, como muitos crentes, assume que estamos a rejeitar a Revelação, o Deus e o chamamento. Mas apesar do ateísmo rejeitar estas hipóteses em abstracto, neste caso concreto o que está em causa nem chega a ser o deus da religião, o poder mágico dos rituais ou o acesso especial à revelação divina. O que o ateísmo questiona primeiro é a crença nestas coisas. Se o deus do bispo existe ou não é uma questão interessante mas a crítica é que não se justifica acreditar nele.

Eu não procuro Deus nem me preocupo com Deus, Shiva ou o Pai Natal. Não existem, não me chateiam. Preocupa-me é crenças infundadas e procuro crenças com mais fundamento que as do bispo Ferreira e Silva. Em vez de me fiar na Revelação conto com a dúvida para corrigir os erros que vou cometendo. Se sinto um chamamento no meu âmago não concluo que veio de fora do meu âmago. E pelo que observo parece-me que quem busca a verdade, pratica a justiça, faz o perdão e segue o caminho da rectidão pode muito bem acabar com uma religião diferente da do bispo Ferreira da Silva. Ou até sem religião nenhuma. Isto não é uma crítica aos deuses; é uma crítica às crenças.

Em suma, o ateísmo não se obtém pelo simétrico da crença religiosa, mantendo o deus mas trocando “existe” por “não existe”. O ateísmo vem de perceber que quando alguém afirma “Deus é” diz apenas “acredito que seja” sem justificar a crença. Quando rejeitamos crenças injustificadas, neste universo, ficamos ateus.

1- Agência Ecclesia, Bispo Emérito de Leiria-Fátima comenta constituição de associação ateísta
2- Num comentário a este post no Portal Ateu.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Conspiração, religião, e intenção.

O nosso cérebro é enorme. Com quase quilo e meio, usa cerca de um quinto das calorias que consumimos em repouso. Mas não recebemos esta herança por ter ajudado os nossos antepassados a fugir de predadores ou encontrar alimento. Outros animais fazem-no com recursos mais modestos. Nem foi pela tecnologia, que veio mais tarde. O sucesso do nosso cérebro veio da vantagem em prever o que vai em cérebros semelhantes, um truque que ajudou os nossos antepassados a deixar mais descendentes que os seus contemporâneos.

E é um órgão especializado. Um computador pode calcular a trajectória de cada um dos flocos de cereais despejados para uma taça. O nosso cérebro não dá para isso. Mas basta olhar para alguém a despejar os cereais para percebermos, pelo contexto, se prepara o seu pequeno almoço, o dos filhos ou se os despeja porque o pacote se rasgou. Estamos longe de pôr um computador a fazer isso e mais longe ainda de o programar para perceber o enredo de uma novela ou de inferir algo do vizinho do sexto sair da casa da vizinha do quarto apertando o cinto das calças.

Mas não há bela sem senão. Com um martelo tão sofisticado é inevitável procurarmos pregos em todo o lado. O propósito da nossa existência, a razão para a criação do universo, o plano para isto tudo. Para o nosso cérebro, moldado durante milhões de anos de evolução para modelar actos inteligentes, custa aceitar que algo simplesmente aconteça. Do criacionismo às teorias da conspiração, muitos disparates vivem desta tendência. Uma sombra estranha na fotografia de um astronauta pode ser o reflexo de um aparelho fora da imagem, um defeito no filme ou algo igualmente acidental. Kennedy e Connally podem ter sido atingidos pela mesma bala se estavam, por acaso, alinhados na sua trajectória. Mas o nosso cérebro percebe melhor a relação entre os familiares no jantar de Natal do que a trajectória das bolas de snooker. Mesmo que esta última seja muito mais simples de modelar. E uma conspiração com fotografias forjadas, atiradores escondidos e falsas informações, se bem que mais complexa e irrealista, está mesmo à medida do nosso apetite enredos de intenções.

A religião vai beber à mesma fonte. Do bispo católico ao shaman tribal vemos a tentativa de lidar com a natureza como lidamos uns com os outros. Com promessas, alianças, pedidos, negociações e alguma bajulação. Sempre a procurar o propósito inteligente por trás de cada acontecimento. A insistência da teologia cristã numa relação pessoal com Deus é outra consequência desta especialização do nosso cérebro, tal como a procura de um propósito para a nossa existência e de um sentido transcendente para isto tudo.

É inegável que este truque do nosso cérebro é útil e precioso. É a base da sociedade, da política, literatura, das histórias, da linguagem. De ser humano. Mas as tempestades, as doenças, as florestas e até o nosso nascimento e morte não são parte de um plano cósmico. Isto não é um conto épico ou uma telenovela. Fora da minúscula fatia onde nos damos uns com os outros há um enorme universo que não conspira contra nós, que não ouve as nossas preces e que não tem propósito nem intenção. Para o compreender temos que usar o cérebro de uma forma desconfortável e contra-intuitiva mas que vale bem o esforço. Porque mesmo que a oração nos faça sentir mais seguros durante a trovoada é o pára-raios que nos protege.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Com todo o respeito que merece (e há que dizê-lo com frontalidade)

Na homilia de Natal, o cardeal de Lisboa José Policarpo disse que «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade»(1). Hoje, em resposta à carta que a AAP dirigiu à Conferência Episcopal Portuguesa (2), assegurou «que a Igreja respeita os ateus e espera o mesmo respeito por parte destes»(3).

Tenho ouvido muitos apelos ao respeito quando converso com pessoas religiosas. Continuo sem perceber o que querem dizer com o termo. A maioria dos significados no dicionário está fora de questão. Reverência, deferência, apreço, importância e submissão não parecem atitudes da Igreja para com os ateus. Temor talvez ande mais perto da realidade mas não será coisa que admitam ou da qual peçam reciprocidade. Sobra consideração. A julgar pelas palavras de José Policarpo a Igreja considera-nos o «maior drama da humanidade»

Não posso prometer o mesmo respeito. Considero a Igreja Católica um inconveniente, mas está muito longe das piores religiões e nem sequer me parece que a religião em si seja o maior drama da humanidade. E a consideração e estima que sinto é pelas pessoas, não por dogmas, doutrinas ou organizações.

1- DN, 16-12-07, Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus
2- Carta da AAP ao Presidente da CEP
3- Agência Ecclesia, Igreja respeita ateus e espera ser respeitada.

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Razões para crer. 2- Dois é companhia.

«Convém, agora, fazer uma rápida menção das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é a ordem própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão contidas nas respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições, às questões últimas.» João Paulo II, Fides et Ratio (1)

No sentido filosófico, o conhecimento é uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Num sentido mais pragmático é uma crença que, por ser obtida de forma fiável, julgamos ser verdadeira (2). Este segundo sentido é importante porque, não tendo acesso directo à verdade, na prática não podemos ter a verdade como critério inicial. Qualquer juízo de verdade virá no fim de uma inferência falível e susceptível de erros.

Assim, as “verdades” mencionadas por João Paulo II são apenas crenças que ele julga verdadeiras. As verdades não «assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência». O que tem que assentar num método fiável são as crenças acerca do que é verdade para que sejam conhecimento. João Paulo II propõe três formas de conhecimento: a ciência, que assenta «em evidências imediatas» ou recebe «confirmação da experiência»; a filosofia, que depende da «capacidade especulativa do [nosso] intelecto»; e a teologia contida «nas respostas [das] diversas religiões».

Mas as primeiras são as duas partes do conhecimento. Para formar uma crença por um método fiável precisamos de capacidade especulativa e de confirmação empírica. Precisamos da filosofia e da ciência, e a distinção entre as duas é móvel e ténue. Móvel porque muitos problemas começaram por ser filosóficos e acabaram científicos. Problemas como a composição das estrelas ou a diferença entre ser vivo e inanimado foram abordados primeiro de forma especulativa, argumentando definições e debatendo implicações das ideias, mas eventualmente cristalizaram-se os conceitos e, com a possibilidade de obter dados relevantes, passaram a problemas científicos. É este processo que nos dá conhecimento.

E a distinção é ténue porque os cientistas também fazem filosofia e os filósofos ciência. Em qualquer investigação científica é preciso definir conceitos e argumentar hipóteses especulativas e inferências. E na filosofia é inevitável assentar argumentos em dados empíricos e naquilo que se observa. Até as experiências conceptuais dos filósofos, dos comboios que atropelam escuteiros aos celeiros que só são fachada, têm valor apenas por ser consensual que resultariam se testadas na prática.

A filosofia* e a ciência parecem distintas se virmos apenas os extremos da especulação e teste empírico. Mas na gama intermédia de análise crítica, argumentação, inferência lógica e compreensão de conceitos vemo-las abraçadas, unidas para gerar os meios fiáveis que justificam considerar certas crenças como verdadeiras. Este namoro apaixonado tem sido muito prolífico.

A teologia é o pau de cabeleira. É a tia solteirona, velha chata e meio surda que julga ter sempre razão e só atrapalha. A teologia finge ter uma linha directa para a verdade. Chama-lhe fé, revelação, graça, Espírito Santo, espiritualidade e muitas coisas mas a ideia é sempre a mesma. Quem tem isto, desde que esteja de acordo com a doutrina, tem automaticamente a verdade. Não precisa de justificação nem métodos fiáveis nem nada disso.

Não há «diversas formas da verdade». Há verdades e há tretas. E há poucas tretas maiores que os atalhos para a verdade. Chegar à verdade dá trabalho. É preciso compreender bem o que especulamos ser verdade. É preciso inferir o que distingue as alternativas, verdade ou falsidade. É preciso testar, repetir, confirmar e encaixar cada suposta verdade no puzzle que vamos construindo. E é preciso levar a dúvida para todo o lado porque algumas peças, ou mesmo o puzzle todo, podem estar erradas.

Para a teologia basta a «graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade»(3). Plim, já está. Isso é batota. Pior, é treta.

* Aqui devia distinguir entre filosofia a sério e a poesia pretensiosa a que alguns chamam filosofia. Mas isso seria outro desabafo e mais uma série de posts...

1- Encíclicas, João Paulo II, Fides et Ratio
2- Razões para crer. 1- Conhecimento.
3- Concílio Vaticano II – Dei Verbum

Terça-feira, Maio 27, 2008

Razões para crer. 1- Conhecimento.

Muitos crêem em deuses apenas por fé, o que é indiscutível. A fé é um sentimento privado e não dá um fundamento comum onde assentar argumentos. Uns gostam de baunilha, outros preferem chocolate e não há mais a dizer. Mas precisamente por isto a crença pela fé é pouco persuasiva e no diálogo com quem não partilha a sua fé a teologia cristã alega usar a razão. Ao contrário da fé, do querer crer, a razão é pública, universal e igual para todos. Com isto já se pode conversar. Infelizmente, a teologia parte da «convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé»(1). Não é uma premissa aceitável. Existe um conhecimento que é indivisível e uno mas não tem nada a ver com fé.

É conhecimento uma crença verdadeira e justificada*. Tem que ser crença porque não posso saber que algo é verdade sem acreditar que seja. Isso seria contraditório. E tem que ser verdadeira porque uma crença falsa é engano. Estes dois requisitos são aceites por quase todos. O terceiro é mais polémico mas é consensual que é preciso uma justificação. Se alguém lança um dado e eu, ao calhas, me convenço que saiu 6, mesmo que seja verdade dizemos que acertei sem saber e não que eu sabia o número que saiu. Acertar por acaso não é conhecimento.

O problema é decidir o que justifica chamar conhecimento a uma crença verdadeira. Há muitas alternativas mas vou falar só da que eu prefiro. É conhecimento uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Vou ilustrar com um exemplo famoso (2). O Jorge passa de carro por uma zona onde, sem ele saber, é costume construir fachadas de celeiro viradas para a estrada. O Jorge está convencido que são celeiros de verdade e passa por um celeiro encarnado, o único verdadeiro. O Jorge acredita que viu um celeiro encarnado e esta crença é verdadeira. No entanto a forma como obteve esta crença não é fiável naquelas circunstâncias e originou muitas crenças falsas acerca das fachadas que o Jorge acreditou serem celeiros. Por isso o Jorge não tem conhecimento de um celeiro encarnado. O Jorge foi enganado, só que acertou à sorte naquele caso.

Eu rejeito a fé como fonte de conhecimento porque não é fiável. A fé pode ser muita coisa; pode ser confiança, determinação, fidelidade, vontade de acreditar ou até a crença em si. Mas nada disso tende a formar crenças verdadeiras. É tão fácil ter fé numa falsidade como numa verdade. Saliento que não rejeito a fé como fonte de conhecimento por assumir que as crenças religiosas são falsas. Julgo que são, mas até pode haver por aí uma fé que conduza a uma crença verdadeira. Se calhar Shiva existe ou o John Frum era mesmo um deus (3). Mas mesmo assim o crente está como o Jorge. Foi enganado por uma ilusão e só acertou por acaso. Isso não é conhecimento.

Mas o objectivo deste post não é desancar a fé (este é só o primeiro da série, afinal). É apresentar esta noção de conhecimento como ponto de partida para a discussão. Um aspecto importante é que, apesar de só uma crença verdadeira poder ser conhecimento, na prática nunca sabemos definitivamente se algo é verdade. Por isso quando falo de conhecimento normalmente refiro uma crença que se justifica apresentar como verdadeira mas que não posso garantir que o seja. Ou seja, o conhecimento na prática é sempre putativo e provisório.

E um problema de justificar uma crença por um método fiável é que temos que justificar a crença na fiabilidade do método. E para isso precisamos de outro método que cremos fiável, e de justificar essa crença e assim por diante. Parece uma regressão infinita mas tem solução. Para fazer uma escavadora é preciso máquinas especializadas numa fábrica. Para construir a fábrica é preciso escavadoras e para fazer as máquinas é preciso peças feitas por outras máquinas. É um problema análogo que se resolve assentando cada estado num estado anterior menos sofisticado, menos fiável, mas menos exigente. A escavadora originou na pedra lascada ou até antes.

A ciência faz o mesmo. Pelo caminho ficaram os escombros de teorias que se supôs ser conhecimento e eram falsas, mas que serviram de andaimes a teorias mais sofisticadas e a métodos mais fiáveis. As de hoje podem ser falsas também, mas quando o descobrirmos teremos algo melhor. É um processo sem fim que dá trabalho mas que funciona. Funciona melhor que o tal “conhecimento da fé” que faz de conta que uma doutrina sem justificação é necessariamente verdade. Isso é um tiro no escuro. É quase impossível acertar e, mesmo que acerte, será por sorte.

* Isto para conhecer a verdade de proposições. Coisas como andar de bicicleta ou o gosto do café podem ser conhecidas mas não são crenças nem são verdadeiras ou falsas.

A quem gostar destas coisas recomendo os artigos The Analysis of Knowledge e Epistemology na Stanford Encyclopedia of Philosophy.

1- João Paulo II, Fides et Ratio
2- Goldman, Alvin. 1976. "Discrimination and Perceptual Knowledge." The Journal of Philosophy 73, pp. 771-791.
3- Wikipedia, John Frum

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Marte.

Esta noite a Phoenix aterrou (amartou, melhor dizendo) sã e salva. Até já mandou postais e tudo.

Marte

Para celebrar deixo uma graçola que vem só um pouco a propósito mas que encaixa noutras discussões deste blog.

Ciência e Religião

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Sei que Deus não existe.

Isto não pretende provar definitivamente o que quer que seja. Eu digo que sei algo quando tenho razões válidas para o aceitar como verdadeiro mesmo sem prova definitiva. Sei que não fui adoptado e que não vou ser despedido hoje, por exemplo. Por “Deus” refiro aqui o deus cristão mas o meu argumento aplica-se igualmente bem a outros, e “existe” é um termo difícil de esmiuçar mas uso-o num sentido relativamente simples. Algo existe se forem verdadeiras todas as proposições que o caracterizam. Por exemplo, existe uma aranha encarnada no tecto do meu quarto se for verdade que é aranha, que é encarnada e que está no tecto do meu quarto. Se uma destas for falsa então não existe uma aranha encarnada no tecto do meu quarto. Em suma, sei que o Deus cristão não existe porque tenho razões para concluir que nem todas as proposições que o caracterizam são verdadeiras.

Algumas parecem claramente falsas. Tudo indica ser impossível que algo imaterial seja consciente. Seria mais fácil ensinar uma mosca a ler; ao menos tem estruturas que permitem processar informação. É contraditório ser omnisciente e livre ou agir quando se existe fora do tempo. A doutrina da trindade não faz sentido nem é razoável aceitar que Deus é Jesus, que nasceu de uma virgem, ressuscitou, salvou todos pelo seu sacrifício e assim por diante. Vejo boas razões para rejeitar muitas das proposições que caracterizam Deus por serem incoerentes ou contrárias às evidências. É principalmente por isso que sei que ele não existe.

Mas os cristãos defendem que o seu deus é excepção e não pode ser conhecido pela ciência. Ou seja, nenhuma das propriedades de Deus pode se inferida daquilo que observamos. Como qualquer diálogo tem que partir de um ponto comum vou começar por este aspecto que, felizmente, me parece suficiente.

Vamos supor que alguém tenta adivinhar os objectos que tenho no meu quarto. Mesmo sem ver o meu quarto acerta facilmente em coisas como almofadas, cama, candeeiro ou livros. São uma inferência razoável daquilo que já observou acerca de quartos em geral. Mas quanto mais sair deste âmbito menos provável é acertar. Adivinhar os títulos dos livros seria muito difícil. Adivinhar que tenho uma fotografia minha com os meus filhos ao colo tirada na casa dos meus pais e presa com um íman a um suporte de metal com ursinhos azuis seria praticamente impossível a menos que tivesse examinado o meu quarto primeiro.

A teologia explica que quartos e almofadas existem no espaço e no tempo enquanto que Deus está totalmente fora desta realidade, mas isso só põe o alvo mais longe. Se eu fosse um extraterrestre de uma dimensão fora do espaço e do tempo seria mais difícil, e não mais fácil, adivinhar os objectos que tenho no quarto. Postular que Deus está fora de tudo o que conhecemos e é uma excepção a qualquer inferência torna impossível determinar as suas propriedades.

E isto é reconhecido por todos, sejam ateus, cristãos ou crentes de qualquer religião. Qualquer cristão rejeita as hipóteses que Deus ditou o Corão, que Deus é um Boddisatva, que Deus é Vishnhu ou Rama ou Odin. Não porque as possa refutar, pois estão todas igualmente fora daquilo que se pode testar. Mas porque são mera especulação e a probabilidade de acertar nisto à sorte é ridiculamente pequena. Eu aplico o mesmo princípio às hipóteses que Deus inspirou a Bíblia, que encarnou em Jesus, que nos deu mandamentos e assim. É tudo pura especulação e vai tão longe do que se justificaria inferir que não merece qualquer confiança. Posso afirmar que isso está errado e que esse deus, definido dessa forma, não existe.

Se os cristãos rejeitam a possibilidade de testar as suas hipóteses alegando que não se pode confrontá-las com a nossa experiência então já sei que são falsas. É a classificação mais prudente para a especulação infundada. Se querem defender que há evidências a favor das suas conclusões então têm que prescindir da alegada imunidade aos factos observáveis e avaliar cada hipótese à luz daquilo que conhecemos. Nesse caso ainda mais razões tenho para rejeitar a maioria delas.

Mas é preciso escolher à partida se vamos jogar este ténis intelectual com rede ou sem rede. Não se pode pôr a rede quando é um a servir e depois tirá-la quando chega a vez do outro.

Terça-feira, Maio 13, 2008

13 de Maio.

Há quase 100 anos, neste mesmo dia, um acontecimento mudou a vida de muitos milhões de pessoas. A 13 de Maio de 1913, Igor Ivanovich Sikorsky pilotou o S-21 Russky Vityaz, o primeiro avião quadrimotor de sempre e que ele próprio concebera. Foi o percursor dos bombardeamentos estratégicos e da aviação comercial moderna. Para bem ou para mal, a criação de aviões de grande porte teve consequências profundas para a nossa civilização.

Todos os anos um milhão e meio de crentes comungam em Fátima. São movidos pela fé e pela crença que a mãe do seu deus veio ali dar uma mensagem de importância suprema. Para quem não acredita a mensagem é críptica e inconsequente, mas estas coisas são assim mesmo. São só para quem tem fé.

E todos os dias três milhões de pessoas e centenas de milhares de toneladas de carga voam por todo o mundo. São movidas pelo trabalho de pessoas como Sikorsky, mas a maioria nem sequer ouviu falar deste pioneiro da aviação. Não faz diferença. Os aviões funcionam bem sem fé.