De livre vontade.
Temos vontade livre? A resposta é simples. Sim. A pergunta é que é complicada...
Para muitos a pergunta é acerca de uma vontade que é livre por não haver causa que a determine, seja neurónio, gene, educação ou o que for. Se há uma causa para que a vontade seja exercida desta forma, uma causa para este acto, escolha ou decisão, então dizem que não é livre porque é apenas consequência da causa. Assim, quem procura este tipo de vontade livre não aceita que a mente seja uma actividade do cérebro. Isso reduz a vontade a uma cadeia de causa e efeito e essa, dizem, não é livre.
Mas isto não faz sentido porque algo que ocorre sem causa não é vontade. É acaso. Um acto de vontade tem causas. São causas de um tipo especial, a que chamamos razões, mas são causas. Quando decido, de livre vontade, levar o guarda chuva é por causa de prever que vai chover, por causa de não me querer molhar, por causa de não poder ficar em casa. Esta vontade livre sem causas é um conceito incoerente e disparatado. Se me der de repente para andar com o guarda chuva sem que nada cause essa decisão não é um acto de vontade. É parvoíce.
Concordo que não é vontade livre levar o guarda chuva porque um neurónio disparou sem mais nem menos. Mas levar o guarda chuva por julgar que é a melhor opção é um exercício de vontade livre, mesmo que este juízo seja uma actividade dos neurónios, e mesmo que a escolha seja causada por esta actividade. É vontade livre porque o acto é causado por uma razão.
A vontade livre só faz sentido num acto racional. Um doido não tem vontade livre, por muito que seja imprevisível ou que faça coisas sem causa nenhuma. E só faz sentido ao serviço de um objectivo que não é escolhido livremente. Um ser livre de escolher tudo o que sente, pensa, tudo o que se lembra ou prefere, acaba por não ter vontade. A vontade é livre quando há alguma liberdade de agir, mas só é vontade se houver algo que a motive. É de vontade livre que escolho o pequeno almoço porque posso escolher e porque tenho fome. Sem essa motivação não há vontade.
Em suma, a vontade livre é a capacidade de seleccionar racionalmente possibilidades de acordo com a nossa motivação. E a motivação é nossa simplesmente por provir de nós. É a minha fome, a minha paixão, a minha preocupação com tanta treta que há por aí, mesmo sem uma liberdade metafísica de escolher se me preocupo ou se sinto fome.
Esta combinação de motivos e razões é compatível com uma mente biológica. Podia ser a alminha a fazer milagres, mas não precisamos disso. Nem precisamos que tudo o que o cérebro faz seja vontade livre. Um ataque epiléptico causa uma acção que não é razão, por isso esta acção não é por vontade livre. Mas se um pensamento é razão para agir e causa um acto então é um acto de vontade livre. Foi causado pelos neurónios, mas como parte da selecção consciente e racional de alternativas.
Esta vontade livre não só é coerente como é útil ao organismo. Ajuda a sobreviver e reproduzir. À alma imortal de nada serve. Isto mostra que a vontade livre não precisa surgir por milagre nem faz sentido como milagre. É um atributo daqueles que a evolução aproveita. Além de ser útil, há uma gama contínua de vontades e liberdades entre alguns organismos que vivem agora e os seus antepassados. A complexidade das motivações, a capacidade de processar informação, a própria racionalidade, são atributos quantitativos dos quais se pode ter mais ou menos. Um longo período de pequenos incrementos gerou algumas linhagens especialistas nisto. Gostamos de destacar a nossa ao ponto de presumir que somos únicos nisto e fundamentalmente diferentes, mas não é verdade.
O processo que nos gerou foi natural e gradual, por mecanismos conhecidos da evolução. Para explicar a nossa origem não precisamos da feitiçaria dos deuses nem de plantar almas nos nossos antepassados primatas.
