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Quinta-feira, Julho 31, 2008

Razões para crer. 3- E para descrer.

«[O] pensamento claro e o respeito por indícios concretos – especialmente os indícios inconvenientes que contrariam os nossos preconceitos – são cruciais para a sobrevivência da espécie humana no século XXI»
Alan Sokal, «O que é a ciência e porque é que isso interessa?»(1)

«Deus que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela.»
João Paulo II, «Fides et ratio»(2)

Alguma da filosofia do último século ajudou a compreender a ciência, especialmente pela demarcação entre o que é e não é ciência. Popper propôs a falsificabilidade como característica fundamental; a hipótese científica tem que admitir que algo observável a possa refutar. Assim o criacionismo fica de fora porque o que quer que se observe é compatível com um criador omnipotente, e a hipótese que permite tudo não serve para nada. Mas Kuhn apontou que falsificar é pouco vulgar na ciência. O mais comum é resolver problemas. Quando um astrólogo falha numa previsão encolhe os ombros e segue para a próxima. Mas um astrónomo, quando falha, tem mecanismos para verificar os cálculos, reconsiderar premissas e confirmar observações até encontrar o problema e resolvê-lo. E só quando o problema é muito profundo é que há uma «mudança de paradigma».

Lakatos tirou a ênfase da hipótese isolada e mudou-a para as hipóteses em conjunto, o «programa de investigação». A biologia tem hipóteses centrais acerca da evolução e parentesco de todos os seres vivos. Estas não costumam ser postas à prova. São as hipóteses periféricas como a existência daquela forma intermédia ou a classificação deste organismo que são normalmente sujeitas a testes directos. Como se pode sempre proteger as hipóteses centrais sacrificando as periféricas, a questão principal não é a falsificação da hipótese isolada mas o desempenho do programa como um todo. Ou seja, se as revisões permitem prever melhor e resolver novos problemas ou se, pelo contrário, apenas disfarçam os falhanços com desculpas retrospectivas.

Isto é um resumo grosseiro de um tema complexo mas serve os objectivos deste post (até porque incluem não adormecer o leitor). Um é mostrar que a ciência é o caminho para o conhecimento. A verdade tem que ser claramente distinta da treta e o conhecimento só o é se resolve problemas ou responde a perguntas. E as hipótese que não se conformam ao que observamos devem ser corrigidas de maneira que permita compreender cada vez mais e cada vez melhor. No conhecimento, e na ciência, não há lugar para mistérios insondáveis, verborreia confusa ou desculpas teimosas em nome da fé.

Outro objectivo é desmascarar o truque de qualificar este conhecimento de “científico” para, enquanto o público olha para essa mão, a outra tirar do bolso o “conhecimento” teológico, transcendente, revelado, a priori ou o que mais calhe. Esses não são conhecimento. A premissa que um Deus perfeito escreveu a Bíblia permite inferir que a Bíblia é a verdade revelada. E as regras do Xadrez permitem inferir que o cavalo anda em L. Nem uma nem outra dizem o que quer que seja acerca da realidade. São meros jogos de lógica abstracta, e o conhecimento tem que ser mais que isso. Tem que confrontar o que observamos, responder a perguntas e levar-nos a compreender coisas que desconhecíamos.

Principalmente, quero contrapor a ideia que não podemos afirmar não haver deuses. Segundo a Enciclopédia Católica, «que tal afirmação é irrazoável e ilógica não precisa de demonstração porque é uma inferência injustificável pelos factos ou pelas leis do pensamento». É exemplo típico de duplicidade de critérios, de terminologia vaga (nunca explicam que “leis” são essas) e um erro flagrante se “leis do pensamento” se referir à atitude crítica e de respeito pelos factos que nos conduz ao conhecimento.

Há uma razão forte para descrer dos deuses. Muito mais forte que qualquer prova deduzida de axiomas tirados do chapéu. É que as hipóteses da existência de deuses só atrapalham. Ou contradizem a realidade ou não dizem nem sim nem não e, quer num caso quer noutro, não servem para compreender nada. Tal como não é preciso uma demonstração matemática para tirar a pedra do sapato, também não é preciso uma prova irrefutável para deitar fora os raciocínios circulares, a retórica obscura e as hipóteses inúteis que dificultam a caminhada. É que mesmo que nunca cheguemos ao conhecimento perfeito só temos a ganhar com os avanços na direcção certa.

1- O texto completo está aqui (em pdf). Recomendo.
2- Texto integral aqui.
Episódios anteriores:
Razões para crer. 1- Conhecimento.
Razões para crer. 2- Dois é companhia.

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Razões para crer. 2- Dois é companhia.

«Convém, agora, fazer uma rápida menção das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é a ordem própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão contidas nas respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições, às questões últimas.» João Paulo II, Fides et Ratio (1)

No sentido filosófico, o conhecimento é uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Num sentido mais pragmático é uma crença que, por ser obtida de forma fiável, julgamos ser verdadeira (2). Este segundo sentido é importante porque, não tendo acesso directo à verdade, na prática não podemos ter a verdade como critério inicial. Qualquer juízo de verdade virá no fim de uma inferência falível e susceptível de erros.

Assim, as “verdades” mencionadas por João Paulo II são apenas crenças que ele julga verdadeiras. As verdades não «assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência». O que tem que assentar num método fiável são as crenças acerca do que é verdade para que sejam conhecimento. João Paulo II propõe três formas de conhecimento: a ciência, que assenta «em evidências imediatas» ou recebe «confirmação da experiência»; a filosofia, que depende da «capacidade especulativa do [nosso] intelecto»; e a teologia contida «nas respostas [das] diversas religiões».

Mas as primeiras são as duas partes do conhecimento. Para formar uma crença por um método fiável precisamos de capacidade especulativa e de confirmação empírica. Precisamos da filosofia e da ciência, e a distinção entre as duas é móvel e ténue. Móvel porque muitos problemas começaram por ser filosóficos e acabaram científicos. Problemas como a composição das estrelas ou a diferença entre ser vivo e inanimado foram abordados primeiro de forma especulativa, argumentando definições e debatendo implicações das ideias, mas eventualmente cristalizaram-se os conceitos e, com a possibilidade de obter dados relevantes, passaram a problemas científicos. É este processo que nos dá conhecimento.

E a distinção é ténue porque os cientistas também fazem filosofia e os filósofos ciência. Em qualquer investigação científica é preciso definir conceitos e argumentar hipóteses especulativas e inferências. E na filosofia é inevitável assentar argumentos em dados empíricos e naquilo que se observa. Até as experiências conceptuais dos filósofos, dos comboios que atropelam escuteiros aos celeiros que só são fachada, têm valor apenas por ser consensual que resultariam se testadas na prática.

A filosofia* e a ciência parecem distintas se virmos apenas os extremos da especulação e teste empírico. Mas na gama intermédia de análise crítica, argumentação, inferência lógica e compreensão de conceitos vemo-las abraçadas, unidas para gerar os meios fiáveis que justificam considerar certas crenças como verdadeiras. Este namoro apaixonado tem sido muito prolífico.

A teologia é o pau de cabeleira. É a tia solteirona, velha chata e meio surda que julga ter sempre razão e só atrapalha. A teologia finge ter uma linha directa para a verdade. Chama-lhe fé, revelação, graça, Espírito Santo, espiritualidade e muitas coisas mas a ideia é sempre a mesma. Quem tem isto, desde que esteja de acordo com a doutrina, tem automaticamente a verdade. Não precisa de justificação nem métodos fiáveis nem nada disso.

Não há «diversas formas da verdade». Há verdades e há tretas. E há poucas tretas maiores que os atalhos para a verdade. Chegar à verdade dá trabalho. É preciso compreender bem o que especulamos ser verdade. É preciso inferir o que distingue as alternativas, verdade ou falsidade. É preciso testar, repetir, confirmar e encaixar cada suposta verdade no puzzle que vamos construindo. E é preciso levar a dúvida para todo o lado porque algumas peças, ou mesmo o puzzle todo, podem estar erradas.

Para a teologia basta a «graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade»(3). Plim, já está. Isso é batota. Pior, é treta.

* Aqui devia distinguir entre filosofia a sério e a poesia pretensiosa a que alguns chamam filosofia. Mas isso seria outro desabafo e mais uma série de posts...

1- Encíclicas, João Paulo II, Fides et Ratio
2- Razões para crer. 1- Conhecimento.
3- Concílio Vaticano II – Dei Verbum

Terça-feira, Maio 27, 2008

Razões para crer. 1- Conhecimento.

Muitos crêem em deuses apenas por fé, o que é indiscutível. A fé é um sentimento privado e não dá um fundamento comum onde assentar argumentos. Uns gostam de baunilha, outros preferem chocolate e não há mais a dizer. Mas precisamente por isto a crença pela fé é pouco persuasiva e no diálogo com quem não partilha a sua fé a teologia cristã alega usar a razão. Ao contrário da fé, do querer crer, a razão é pública, universal e igual para todos. Com isto já se pode conversar. Infelizmente, a teologia parte da «convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé»(1). Não é uma premissa aceitável. Existe um conhecimento que é indivisível e uno mas não tem nada a ver com fé.

É conhecimento uma crença verdadeira e justificada*. Tem que ser crença porque não posso saber que algo é verdade sem acreditar que seja. Isso seria contraditório. E tem que ser verdadeira porque uma crença falsa é engano. Estes dois requisitos são aceites por quase todos. O terceiro é mais polémico mas é consensual que é preciso uma justificação. Se alguém lança um dado e eu, ao calhas, me convenço que saiu 6, mesmo que seja verdade dizemos que acertei sem saber e não que eu sabia o número que saiu. Acertar por acaso não é conhecimento.

O problema é decidir o que justifica chamar conhecimento a uma crença verdadeira. Há muitas alternativas mas vou falar só da que eu prefiro. É conhecimento uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Vou ilustrar com um exemplo famoso (2). O Jorge passa de carro por uma zona onde, sem ele saber, é costume construir fachadas de celeiro viradas para a estrada. O Jorge está convencido que são celeiros de verdade e passa por um celeiro encarnado, o único verdadeiro. O Jorge acredita que viu um celeiro encarnado e esta crença é verdadeira. No entanto a forma como obteve esta crença não é fiável naquelas circunstâncias e originou muitas crenças falsas acerca das fachadas que o Jorge acreditou serem celeiros. Por isso o Jorge não tem conhecimento de um celeiro encarnado. O Jorge foi enganado, só que acertou à sorte naquele caso.

Eu rejeito a fé como fonte de conhecimento porque não é fiável. A fé pode ser muita coisa; pode ser confiança, determinação, fidelidade, vontade de acreditar ou até a crença em si. Mas nada disso tende a formar crenças verdadeiras. É tão fácil ter fé numa falsidade como numa verdade. Saliento que não rejeito a fé como fonte de conhecimento por assumir que as crenças religiosas são falsas. Julgo que são, mas até pode haver por aí uma fé que conduza a uma crença verdadeira. Se calhar Shiva existe ou o John Frum era mesmo um deus (3). Mas mesmo assim o crente está como o Jorge. Foi enganado por uma ilusão e só acertou por acaso. Isso não é conhecimento.

Mas o objectivo deste post não é desancar a fé (este é só o primeiro da série, afinal). É apresentar esta noção de conhecimento como ponto de partida para a discussão. Um aspecto importante é que, apesar de só uma crença verdadeira poder ser conhecimento, na prática nunca sabemos definitivamente se algo é verdade. Por isso quando falo de conhecimento normalmente refiro uma crença que se justifica apresentar como verdadeira mas que não posso garantir que o seja. Ou seja, o conhecimento na prática é sempre putativo e provisório.

E um problema de justificar uma crença por um método fiável é que temos que justificar a crença na fiabilidade do método. E para isso precisamos de outro método que cremos fiável, e de justificar essa crença e assim por diante. Parece uma regressão infinita mas tem solução. Para fazer uma escavadora é preciso máquinas especializadas numa fábrica. Para construir a fábrica é preciso escavadoras e para fazer as máquinas é preciso peças feitas por outras máquinas. É um problema análogo que se resolve assentando cada estado num estado anterior menos sofisticado, menos fiável, mas menos exigente. A escavadora originou na pedra lascada ou até antes.

A ciência faz o mesmo. Pelo caminho ficaram os escombros de teorias que se supôs ser conhecimento e eram falsas, mas que serviram de andaimes a teorias mais sofisticadas e a métodos mais fiáveis. As de hoje podem ser falsas também, mas quando o descobrirmos teremos algo melhor. É um processo sem fim que dá trabalho mas que funciona. Funciona melhor que o tal “conhecimento da fé” que faz de conta que uma doutrina sem justificação é necessariamente verdade. Isso é um tiro no escuro. É quase impossível acertar e, mesmo que acerte, será por sorte.

* Isto para conhecer a verdade de proposições. Coisas como andar de bicicleta ou o gosto do café podem ser conhecidas mas não são crenças nem são verdadeiras ou falsas.

A quem gostar destas coisas recomendo os artigos The Analysis of Knowledge e Epistemology na Stanford Encyclopedia of Philosophy.

1- João Paulo II, Fides et Ratio
2- Goldman, Alvin. 1976. "Discrimination and Perceptual Knowledge." The Journal of Philosophy 73, pp. 771-791.
3- Wikipedia, John Frum

Domingo, Abril 27, 2008

Dados e pressupostos.

Supomos que o carro não anda sem combustível. Podíamos supor o contrário, supor que se move a bolachas, a pensamentos positivos ou por obra e graça do espírito santo. Mas embora seja necessário assumir alguma coisa e embora se possa assumir o que quer que seja, o facto é que sem combustível o carro não anda.

“Facto” não implica que seja totalmente objectivo. Extrapolamos que o carro não anda sem combustível baseando-nos na nossa experiência e no que sabemos acerca do carro, o que é quase um raciocínio circular. O comportamento do carro é interpretado assumindo que ele não anda sem combustível e daí se infere que é um facto que ele não anda sem combustível. Mas este raciocínio não é inteiramente circular porque parte do círculo está fora do raciocínio. Está no carro. Se o carro se comportasse de forma diferente o raciocínio seria outro.

O facto também não é definitivo nem irrefutável. É possível que a natureza tenha mudado ou que alguém tenha substituído o motor por um reactor nuclear e o carro agora ande sem combustível. Mas este vestígio de incerteza não elimina a diferença entre as alternativas. Não deixa de haver boas razões para abastecer de vez em quando.

A ciência tem pressupostos destes. Assume que se tem que observar o objecto de estudo, que se tem que quantificar os dados e que as explicações são naturais. Não são pressupostos arbitrários. Inferem-se de experiências passadas. As premissas das próximas iterações são as conclusões das iterações anteriores. Aristóteles tentou fazer uma física qualitativa e não teve sucesso, a especulação sem observação deu sempre mau resultado e o carro do conhecimento anda melhor quando há menos sobrenatural no combustível.

Por ser sempre preciso assumir alguma coisa há quem proponha que é igualmente legítimo partir de outros pressupostos. Enquanto a ciência sabe por observação, defendem, a teologia sabe por outras vias. Enganam-se. Tirar pressupostos do chapéu torna tudo o que se segue num mero reflexo do ponto de partida, torna o raciocínio verdadeiramente circular e torna o alegado conhecimento independente do objecto de estudo.

Isto é evidente quando se considera o que acontece à ciência e à teologia se a realidade não corresponde a uma premissa fundamental. Na ciência isto levou a alterações profundas. Quando se descobriu que a lógica não chegava e era preciso a matemática para quantificar os dados e a estatística para lidar com erros e incertezas. Quando se descobriu que o tempo não é medido da mesma forma em todos os referenciais, que há efeitos sem causa, que não é preciso um criador inteligente nem milagres e assim por diante. A ciência hoje é fundamentalmente diferente da ciência há quinhentos anos atrás e é quase certo que daqui a quinhentos anos seja fundamentalmente diferente da que temos hoje.

A teologia é imune à realidade. Tanto faz se Cristo ressuscitou, se Maria era mesmo virgem ou se existe Deus porque estes pressupostos são tidos como irrefutáveis e não carecendo de justificação. É verdade que os crentes tentam justificá-los apelando à revelação, à fé ou a à experiência pessoal. Dizem ser lógicas diferentes, outras verdades, que Deus é amor e salvação e assim. Mas não são justificações necessárias. À teologia de hoje basta que não se prove a inexistência de Deus, e suspeito que se um dia ficar provado que Deus não existe até desse requisito irão prescindir.

Em suma, a ciência é uma criação intelectual humana. É subjectiva e tem falhas mas gera conhecimento interagindo com os seus objecto de estudo. Os seus pressupostos dependem de como o universo funciona e não reflectem apenas a imaginação humana.

A teologia é uma criação intelectual humana. É subjectiva, também tem falhas mas não interage com o seu presumido objecto de estudo. É auto-contida, circular e arbitrária. Podemos escolher os pressupostos à vontade, mas reconhecer ou ignorar as dicas que o universo nos dá é a diferença entre seguir viagem ou ficar empanado.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Humilde é bom. Honesto é melhor.

No debate de ontem várias pessoas sugeriram que a ciência deve ter a humildade de admitir que Deus é possível. Mas humildade é a «virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza»(1). Fica bem, mas nem é dever (é virtude) nem útil para a ciência. Por isso proponho deixar a humildade ao critério de cada um e invocar, em vez dela, o dever de ser honesto. Esse cabe a todos.

Ninguém honesto se considera infalível, na ciência ou fora dela, e admitir a possibilidade de erro exclui certezas definitivas. Há sempre questões em aberto. Mas apesar da resposta honesta ser provisória a dúvida não precisa paralisar-nos. Na prática, podemos suspender as questões até que se justifique o contrário. Temos a certeza que a casa não está a arder e estragava os nervos a qualquer um questioná-lo a todo o momento. Mas esta certeza é provisória e basta o cheiro a fumo para a desfazer.

A opinião honesta admite que as nossas crenças podem estar erradas, que o que parece às vezes não é e que todas as certezas são questionáveis. A opinião honesta não se baseia em premissas inabaláveis mas sim em perguntas pertinentes. Há quem critique a ciência por ser questionável, por não responder a tudo, por levantar dúvidas ou mudar de ideias mas isso não é defeito. É o preço da honestidade.

E a ciência justifica certezas provisórias acerca dos deuses. Não há Zeus no monte Olimpo nem um escaravelho gigante a rebolar o Sol pelo céu. Alguns dirão que isto é diferente do Deus católico porque podemos olhar para o monte Olimpo e para o Sol e ver que não estão lá estes deuses. Mas não é isso. Podemos não ver os outros deuses por erro nosso e se calhar até existem. Não temos uma certeza definitiva. O que justifica suspender a dúvida é a existência destes deuses levantar mais questões sem resposta que a hipótese contrária. Se estão lá porque é que não os vemos? O que é que estão a fazer? Para que servem a hipótese e o que é que explica? Se os rejeitarmos há menos perguntas em aberto.

O Deus transcendente sofre do mesmo problema. É como a possibilidade da casa estar a arder com um fogo invisível e inodoro. Não a rejeitamos por ter provas em contrário mas porque o fogo invisível deixa mais questões em aberto que a hipótese de não haver fogo nenhum. Neste momento passa-se o mesmo com Deus. Pode não ser humilde, mas é honesto da ciência rejeitar Deus por deixar em aberto mais questões que a sua inexistência. A hipótese de Deus não responde a nada que a sua negação não responda igualmente bem e levanta muitas questões acerca do que Ele é, do que faz, porque o faz, qual o seu propósito e assim por diante.

E pode ser humilde acreditar em Deus. Talvez venha daí a virtude que dá a cada um o sentimento da sua fraqueza. Mas o mais honesto é concluir que Ele não existe. A certeza é provisória, admito, mas também não vou gritar “Fogo!” sempre que faltar prova irrefutável do contrário.

1- Priberam, Dicionário

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Como sabemos.

O António Parente questionou se sabemos que Jesus não ressuscitou. Eu sei. Tal como sei que o António não tem 38 narizes. Não conheço o António, nunca vi fotografias dele e não posso provar que não tem 38 narizes. Admito que é possível que tenha 38 narizes, se admitirmos a possibilidade de milagres e afins. Mas, na prática, se me perguntarem “o António tem 38 narizes?” eu não vou encolher os ombros e dizer sei lá, se calhar até tem. Justifica-se afirmar que não, no máximo tem um.

Sei isto por um processo de inferência e revisão. A inferência permite tirar umas pelas outras. Dos axiomas “o António é pessoa” e “cada pessoa tem um nariz” deduz-se que o António tem um nariz. Esta inferência é garantida, mas a conclusão depende da verdade dos axiomas e não é a postular que se faz verdades. Por isso sozinha não vai longe. Com a indução podemos encontrar os axiomas mais fiáveis. Calculo a média de narizes por cabeça nas pessoas que conheço e posso extrapolar com alguma confiança que cada pessoa tem um nariz ou menos.

Mas isto não satisfaz porque as médias de braços, pernas, olhos, dedos e narizes são dados independentes e não explicam nada. Prefiro unificar esta informação e perceber porquê. Ou seja, quero proposições das quais deduza o que foi observado na amostra. Este passo é uma abdução, o inverso da dedução porque procura as premissas que levam a uma conclusão. É um passo arriscado porque há infinitas possibilidades mas, felizmente, não são todas iguais.

“Porque Deus quis” não serve porque daqui não deduzo nada. “Porque Deus quis que cada um tivesse um nariz” já implica um nariz por cabeça mas não unifica os dados por exigir uma premissa diferente para as pernas, outra para os braços, cabeças e assim por diante. “Porque Deus tem um nariz, dois braços, duas pernas, ..., e nos fez à Sua imagem” unifica todas estas observações numa só explicação mas deixa-nos a perguntar como é que ele fez isso. Era melhor se tivesse mais detalhe. Então acrescenta-se “moldando Adão com barro, bafejando-lhe vida e fazendo Eva a partir de uma costela”. Mas mais detalhe levanta mais questões. Foi uma costela, uma pestana ou uma unha? De barro, de folhas secas ou de cascas de laranja? Como é que sabemos que foi assim e não de outra forma? É preferível optar por explicações que assentem em dados observados e que se possam justificar pela sua correspondência à realidade.

É este processo interminável de revisão que põe em causa cada passo, exige justificações, corrige erros e vai aperfeiçoando as explicações para as unificar num corpo coerente e detalhado de onde se possa inferir informação nova. É isto que a ciência tem feito e o resultado permite-me afirmar com confiança que o António Parente não tem 38 narizes e que Jesus não ressuscitou. Há um grande conjunto de dados e explicações detalhadas que suportam esta conclusão. Não é 100% garantido, mas porque as explicações estão interligadas e unificam muitos dados só se justifica admitir o contrário se houver evidências tão fortes que ponham em causa toda esta estrutura interdependente. E para isso é preciso muito mais que um testemunho.

Os religiosos fazem batota de duas maneiras. Guardam um cantinho de milagres onde tudo o que convém à fé pode acontecer isolado do resto. Isto é contrário ao objectivo e à justificação principal do conhecimento, que é o encaixe das explicações umas nas outras. E saltam para os axiomas ignorando o laborioso processo de os justificar. “Cada pessoa tem um nariz” e “cada pessoa tem 38 narizes” são dois axiomas de um conjunto infinito, cada um levando a conclusões diferentes. A escolher ao acaso não nos safamos.

Isto também dá uma resposta ao Timshel e ao Luís. Se queremos saber o que houve antes do universo ou o que acontece depois da morrermos temos que seguir o mesmo processo. Não se justifica afirmar que Deus criou tudo ou que nos vão ressuscitar o cérebro putrefacto só porque há axiomas que suportam estas conclusões. As conclusões que deduzimos são só tão fiáveis como os axiomas em que se baseiam e, parafraseando, axiomas há muitos.

Post relacionado: Inferências

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Nota acerca das verdades

para tentar esclarecer uma dúvida do Timshel em relação ao post anterior. Há uma diferença entre proposições como “x é um número par” e proposições como “Deus criou o universo” ou “a Lua é feita de queijo”. A verdade das duas últimas depende da sua correspondência ao estado real das coisas. A verdade da primeira não depende de haver um objecto “x” que seja um número par porque esta proposição não se refere a um aspecto da realidade. Temos assim duas noções de verdade. A verdade por correspondência, aplicável a qualquer proposição que refira um aspecto da realidade, e a verdade por coerência, aplicável a qualquer proposição no contexto da teoria em que se insere. Para que “a Lua é feita de queijo” seja verdade a Lua tem mesmo que ser feita de queijo. Para que “x é um número par” seja verdade basta que nada na teoria o contradiga.

Se olharmos apenas para a coerência das proposições estou de acordo com o Timshel: «Uma qualquer proposição alternativa à origem do Universo está no mesmo plano (o de um axioma).» Seja qual for a proposição. Seja “Deus criou o universo”, “o Snoopy criou o universo” ou “o universo surgiu por processos naturais sem intervenção divina ou canina”. Se as considerarmos desligadas da realidade, como “x é um número par”, então só interessa se encaixam nas respectivas teorias.

Mas estas proposições só são verdadeiras se corresponderem à realidade. Ou foi Deus, ou foi o Snoopy, ou não foi nenhum deles. Não basta postular uma teoria coerente para que sejam verdade. E para determinar a verdadeira é necessário confrontá-las com os dados e eliminar alternativas. É o que a ciência faz. A axiomática apenas constrói modelos para se ir experimentando, e destes só uma fracção ínfima está minimamente de acordo com a realidade.

Terça-feira, Abril 15, 2008

Axiomas e verdade.

O Dragão conta que os axiomas são «proposições absolutamente intuitivas e indiscutíveis»(1) e dá dois exemplos. Um da matemática, «Se x é um número e y é um número, então x+y é um número», e outro “da religião”, «Deus criou o universo». Deixo para outro post a mania de assumir que “a religião” é só a dele (noutras o universo não foi criado por deus nenhum) e vou só comentar a confusão nos axiomas.

Os axiomas não têm que ser intuitivos nem indiscutíveis. O 5º postulado de Euclides diz que, num plano, dada uma recta e um ponto fora da recta há exactamente uma recta que passa pelo ponto sem intersectar a primeira. É intuitivo mas podemos negá-lo e postular que há infinitas rectas nestas condições ou que não há nenhuma, deduzindo daí geometrias diferentes. Não está em causa se é intuitivo ou discutível. O que importa é que a teoria seja coerente e que corresponda à realidade, o que nos leva a duas noções diferentes de verdade.

O axioma “x=2” não é verdadeiro nem falso por si, mas em conjunto com “x só pode ter um valor” e “x=3” resulta em contradição. Nesse caso podemos dizer que um deles é falso e retirá-lo para resolver a contradição. Esta noção de verdade é importante na lógica e na matemática porque se aplica a conceitos abstractos que não correspondem a algo real, como “x=2” ou “a soma de dois números é um número”. Neste sentido as geometrias euclidianas e não-euclidianas são todas verdadeiras por coerência. Mas esta noção de verdade é só uma parte da história.

Se eu propuser o axioma “a Lua é feita de queijo”, por muito coerente que a teoria seja terá sempre o problema da Lua não ser feita de queijo. É por isso que os axiomas normalmente servem para definir conceitos e não para afirmar algo acerca da realidade. Postular que “a soma de dois números é um número” quando se define a operação “soma” é muito mais seguro que afirmar «Deus criou o universo». O primeiro axioma não depende de qualquer correspondência à realidade e pode ser considerado verdadeiro apenas por coerência com os seus parceiros na teoria. O segundo axioma depende de Deus ter mesmo criado o universo, senão é logo falso.

Os axiomas não precisam ser nem intuitivos nem indiscutíveis. Precisam ser compatíveis, porque da contradição tudo se deriva e uma teoria que só diz sim não serve para nada. A doutrina que Deus é um e Deus é três é exemplo de uma teoria incoerente de onde se deriva resmas de teologia mas só gasta papel.

E se a teoria é coerente temos que determinar em que circunstâncias a podemos aplicar, o que depende dos axiomas. Por exemplo, se um dos axiomas é “a Lua é feita de queijo” a teoria resultante só é aplicável se a Lua for feita de queijo. Caso contrário não se aplica. Ou seja, os axiomas exprimem as condições necessárias para que a teoria se aplique, e é por isso que normalmente não vale a pena discutir os axiomas em si. Ou correspondem à realidade e a teoria aplica-se ou não correspondem e a teoria não serve. O que vale a pena discutir é se os axiomas corresponderem à realidade e em que condições isso acontece.

Muitos crentes confundem isto. Pensam que por postular “Deus criou o universo” se justifica tirar alguma conclusão. Como axioma o seu papel é demarcar as condições em que se pode aplicar a teoria que dele deriva. É errado dizer que «se aceitarmos o axioma ou axiomas basilares, tudo o resto se extrai com perfeita lógica e acompanhado das devidas justificações.»(1) O resto é consequência lógica dos axiomas quer se aceite quer não. Não é uma escolha pessoal. Mas esse resto só corresponde à realidade se os axiomas também corresponderem, e não é por serem postulados ou aceites que se tornam mais verdadeiros.

A melhor forma de compreender um sistema axiomático é pondo um “se” à frente. “Se só uma recta for paralela à outra...”, “se a Lua for feita de queijo...”, “Se Deus tiver criado o Universo...”, “Se a soma de dois números for um número...” e assim por diante. Dessa forma percebe-se logo que o axioma não é algo que se escolha aceitar ou que «uma vez assumido, é inquestionável»(1). O axioma é a condição necessária para que a teoria se aplique.

Se o sinal estiver verde pode avançar. Inferir daqui que o sinal está verde é incorrecto e arriscado.

1- Dragão, 14-4-08, Fratricídios e axiomaquias

Domingo, Abril 13, 2008

1+1=2 (outra vez)

O Dragão traz-me de volta a este tema quando afirma que «Toda a pretensa objectividade da Santa Ciência e respectiva Igreja das Certezinhas Beatas é construída em cima dum andaime puramente metafísico: a matemática»(1) e pergunta «Porque é que 2+2=4?»(2). A discussão acerca da pergunta também inspira o desabafo.

Se juntamos uma laranja e outra laranja ficamos com duas laranjas. 1+1=2 é uma boa maneira de descrever isto pondo de parte a “laranjeza” do problema. Se juntamos um monte de areia a outro monte de areia ficamos com um monte de areia. 1+1=1 é uma boa maneira de o descrever de forma abstracta, e é tão razoável como 1+1=2. 1+1=1 é parte da álgebra de Boole e fundamental na lógica e na computação. E se juntamos uma laranja e um amendoim e queremos manter esta diferença na descrição, em vez de 1+1=2 definimos a soma como a união de conjuntos, {laranja} + {amendoim} = {laranja, amendoim}. Porque é que 2+2=4? Porque em certos casos dá jeito. É um dado empírico que juntar duas laranjas a duas laranjas dá quatro laranjas, desde que não se exagere na força. 2+2=4 é uma forma conveniente de exprimir isso.

A Zazzie comentou que «Segundo o professor Ludovico [devo ser eu] era tudo simbólico, bastaria decorar.» Em parte tem razão. É por isso que a álgebra é tão fácil de mecanizar em ábacos e computadores. Em parte são só regras para manipular símbolos. Mas só em parte, porque também queremos saber o que os símbolos significam e até onde as regras podem levar. É aí que a coisa se complica. Por exemplo, considerem a soma de dois nímeros (3):

a + b = mex( {a’ + b : a’ < a} U {a + b’ : b’ < b} )

Isto dá regras fáceis para uma máquina usar mas perceber o que é um nímero, que raio de coisa se pode descrever com isto e compreender as propriedades formais destas definições é mais difícil. Os nímeros correspondem a jogos imparciais em teoria de jogos e formam uma classe própria (uma colecção de conjuntos que não um conjunto) com propriedades que fascinam matemáticos e me ultrapassam por completo.

O que eu quero dizer com isto é que a matemática não é totalmente metafísica. Como qualquer linguagem, pode ser usada para dizer infinitas coisas mas restringimo-la a um subconjunto finito que serve os nossos propósitos. Mesmo que sejam coisas estranhas como nímeros, acabam por ser conceitos com alguma utilidade para descrever o que observamos. Matematicamente é indiferente definir a operação “+” de forma a que 2+2 seja 4 ou 53.8. A diferença é que 2+2=53.8 não corresponde a nada de interessante.

Ao contrário do que o Dragão defende, o fundamental na ciência é esta correspondência. A ciência assenta nos dados empíricos que prendem à realidade a matemática, o Português ou qualquer outra linguagem. Podemos falar de unicórnios e dragões e calcular hiperesferas a 200 dimensões, mas a ciência filtra essas partes e ocupa-se daquelas que correspondem à realidade que observamos. O subconjunto que a ciência aproveita é mais físico que metafísico porque o objectivo é criar descrições da realidade. E a matemática não é a linguagem preferida por ser mais metafísica que as outras mas por ser mais rigorosa e exprimir melhor modelos quantitativos.

Finalmente, as certezas beatas estão mais no usufruto da ciência que no seu desenvolvimento. Enquanto método, a ciência procura sempre erros para corrigir. A dúvida é o motor do processo. É quem vive em prédios de betão, usa electricidade, toma medicamentos e viaja a alta velocidade em caixas de metal que demonstra pelos seus actos a enorme confiança que tem na ciência. Mesmo que tente negá-lo por palavras.

1- Dragão 8-4-08, A Santa Ciência é uma Crença
2- Dragão, 10-4-08, Pausa lúdica nos confrontos
3- Wikipedia, Nimber

Mais do mesmo:
1+1=2
Senhoras e senhores, a realidade

Quarta-feira, Abril 09, 2008

Moralidade e transcendência.

Muitas vezes defende-se que a moralidade é domínio da religião. A justificação é assentar a moralidade num deus transcendente para que não dependa de factores culturais variáveis. Qual deus? O de quem defende a ideia, claro.

É má escolha. Há pouca coisa que varie mais com a cultura que a religião e os seus preceitos morais. Pior ainda, é muito difícil aos crentes religiosos resolver as suas divergências. Sempre que alguém sugere a religião como fundamento da moral refere-se apenas à sua. As outras, deus me livre. E se calha ser uma religião adepta de bombas, mártires, amputações e coisas que tal só dá chatice.

Outro problema é que fundamentar a moral em algo transcendente é um projecto imoral. Se eu não roubo por medo de ser apanhado estou a agir apenas por interesse próprio. Se não roubo porque os meus pais me ensinaram a não roubar estou a agir por hábito, treino ou costume. É um acto moral porque eu decido e sou responsável por agir desta forma. Mas é uma moralidade defeituosa porque os valores não são responsabilidade minha. São me dados pelas circunstâncias ou pelos outros.

Só é plenamente moral não roubar se eu decidir que não é aceitável fazê-lo nessas circunstâncias. Só assim é que sou responsável tanto pelo acto como pelos valores que o classificam. O fundamento da moral é esta responsabilidade individual por actos e valores, e o outsourcing da moralidade religiosa priva-nos duma parte importante. Deus decide os valores e nós apenas escolhemos se fazemos o que já vem rotulado de “bem” e “mal”. Moralidade light, com metade da responsabilidade. O mesmo se aplica ao sentido da vida, outro valor que a religião nos quer fornecer pré-fabricado. Felizmente, há uma coisa melhor que a religião para resolver estes problemas.

A ciência resolve bem o problema da variação cultural e individual. A física daqui é igual à da China. Mas uma parte importante da ciência é testar hipóteses por observação e isso não se pode fazer com questões de valor. A menos que se reduza todas as questões de valor a questões de facto, o que me parece impossível, nunca poderemos testar por observação se algo se deve fazer ou se deve evitar, se é bom ou mau. Por isto, e apenas por isto, a ciência não serve como método para resolver problemas morais.

Mas não é só por isto que a ciência é um método fiável que reúne tanto consenso. É também por ser um processo aberto à crítica e ao diálogo, por exigir rigor e coerência nas hipóteses, por não aceitar argumentos de autoridade ou afirmações infundadas e por visar o progresso corrigindo os erros do passado. E isto é o que faz a filosofia. A ciência, no fundo, é o que acontece à filosofia quando encontra maneira de testar as hipóteses.

Por isso eu rejeito a ideia de pôr a religião a cargo da moral. Mesmo polidos por séculos de demagogia, não são rituais e superstições que nos vão dizer o que deve ou não deve ser.

Nota pedante: eu prefiro distinguir a moral, o conjunto de valores e normas, da ética, a análise crítica do fundamento da moral. Com essa distinção devia dizer que a religião dá moral à custa da ética. Mas prevejo que quem discordar deste post não vai implicar com isso, portanto corri tudo a “moral” e pronto.

Segunda-feira, Abril 07, 2008

Perguntas ou respostas?

O Timshel perguntou há dias:

«Porque é que a matéria tem condições que permitem a vida?
É assim porque é assim?
Tem algum interesse colocar a questão?»
(1)

Tem interesse, e vamos supor que o interesse é obter a resposta. Para isso precisamos compreender a pergunta. Precisamos saber o que quer dizer “vida”. Se é o conjunto de actos e experiências a que chamo “minha vida”, se é a propriedade de um sistema organizado que se desenvolve, reproduz e responde a estímulos ou se é apenas a mais elementar capacidade de replicação. Podemos escolher só uma ou dividir a pergunta em várias, mas para obter resposta precisamos de uma pergunta bem definida.

Também temos que especificar o que queremos dizer com “condições”. Se considerarmos que a vida surgiu com a primeira célula, as “condições” podem ser os factores que organizaram os constituintes da célula. Ou pode designar a causa última de tudo o que levou à célula, da química, da física, da matéria e assim por diante. No primeiro caso podemos identificar uma resposta se a encontrarmos, mas no segundo não. Mesmo que encontremos a causa última não vamos saber se é mesmo a última ou se há mais alguma. Se for essa a pergunta ficamos sem poder saber se já a respondemos.

Em suma, se nos interessa a resposta temos que formular a pergunta de forma a saber o que estamos a perguntar e de forma a poder identificar uma resposta se a encontrarmos. Sem isso não tem interesse colocar a questão. A menos que nos interesse perguntas sem resposta, como sugere o Dragão: «a propaganda ciêntifica, como literatura, é paupérrima; como religião, é excessivamente supersticiosa»(2).

Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1817, quando a electricidade era adequadamente misteriosa. Se fosse em 1940 tinha que ser radioactividade e hoje só animava o monstro com manipulação genética ou dimensões paralelas. Os electrões do candeeiro que ligamos com o interruptor já não têm o efeito literário que tinham em 1817. Esta literatura precisa de perguntas que aparentem mistérios profundos, o tal “inexplicável”, que sirvam de metáfora para isto ou aquilo e que empilhem significados onde o leitor encontre o que mais lhe agrade. Perguntas claras com respostas concretas não servem.

Na religião o contraste é ainda maior porque a religião já deu respostas. Que a lepra era castigo, que Deus tinha feito montanhas e escaravelhos, que a Terra tinha poucos milhares de anos e os planetas andavam à nossa volta colados a esferas de cristal. Hoje isso é superstição e, vista de fora, a ciência também parece ser só respostas vindas sabe-se lá de onde. Parece «excessivamente supersticiosa». Mas a ciência e a religião divorciaram-se precisamente porque fugiram da superstição em direcções diferentes. A ciência adoptou um método de validação e revisão das respostas. A religião mais esclarecida do ocidente desistiu das respostas e dedicou-se à literatura. Ao mistério das perguntas vagas. Do mal o menos; noutros países e entre fundamentalistas a religião continua tão supersticiosa como antes.

Por isso à terceira pergunta respondo sim. Seja como for, tem interesse. À segunda, depende. Se interessa a resposta então a pergunta tem mesmo que fazer sentido e admitir resposta, senão não vale a pena. E a ciência já tem boas respostas para muitos casos particulares da primeira pergunta, conforme o que se queira dizer por “vida” e “condições”. Mas se só interessa o gostinho a mistério então nem dá jeito que a pergunta faça sentido e é de evitar qualquer possibilidade de resposta.

1- Timshel, 29-3-08, Man's Search for Meaning
2- Dragão, 4-4-08, Kentucky Fried Cience

Sexta-feira, Março 14, 2008

Analogias e exemplos.

Eu costumo dar exemplos quando escrevo. Talvez pelo hábito das aulas, parece-me que tornam a exposição mais clara do que falar apenas em abstracto. Infelizmente, há quem confunda argumentos que contém exemplos com argumentos por analogia. Até agora não dei importância a isso. Mas o Desidério sabe com certeza a diferença e se isto lhe fez confusão o problema é mais sério. Se não deixo clara a estrutura do meu argumento também não se vai perceber o conteúdo. Por isso acho melhor esclarecer. Vou começar, como gosto, por dar exemplos. Mas espero desta vez deixar claro que não estou a argumentar por analogia. Considerem estes dois argumentos:

A árvore é um ser vivo. Tem metabolismo e reproduz-se. O ser humano também. Nisto são semelhantes. Ora se são semelhantes nestas coisas e a árvore cresce podemos concluir que o ser humano também cresce.

A Ana gosta de Mozart, chocolate e de fazer ski. O João também. Como têm estes gostos semelhantes e a Ana gosta de gelados provavelmente o João também gostará.

Estes argumentos estabelecem uma semelhança entre dois casos e inferem da semelhança de certos atributos que os dois casos serão também semelhantes noutro. A premissa implícita é que serem semelhantes numas coisas implica que serão na outra. É esta premissa implícita que os torna argumentos por analogia. Considerem agora estas variantes:

Todos os seres vivos crescem. (A árvore, por exemplo, é um ser vivo. Tem metabolismo, reproduz-se, e cresce.) O ser humano também é um ser vivo e, por isso, o ser humano também cresce.

As pessoas que crescem juntas, como a Ana e o João, tendem a partilhar muitos gostos. (Por exemplo, a Ana e o João gostam de Mozart, chocolate e de fazer ski.) Por isso se a Ana gosta de gelados provavelmente o João também gostará.

Estes argumentos partem de uma afirmação geral, como todos os seres vivos crescem, e da premissa que este é um caso particular, como o ser humano é vivo, e inferem daí o que a regra implica. O ser humano cresce. Coloquei entre parênteses os exemplos para mostrar que não são essenciais à inferência; a árvore apenas ajuda a perceber a premissa. O argumento é simplesmente que os seres vivos crescem e o ser humano é vivo por isso cresce. É muito diferente de um argumento por analogia onde se infere uma semelhança por haver outras semelhanças.

A confusão do Desidério foi esta:

«O outro argumento é o do jardineiro. O Ludwig está sempre a argumentar por analogia a favor do seu ponto de vista, mas as suas analogias raramente são procedentes.» (1)

No meu argumento (2) propus que a melhor forma de remunerar a prestação de serviços difere da melhor forma de remunerar a produção de bens materiais. Como esta premissa é muito abstracta dei o exemplo do agricultor e do jardineiro. Propus também que o autor é um prestador de serviços e não um produtor de bens materiais, e destas duas premissas concluí que não é boa ideia remunerar o autor à peça ou ao quilo. A analogia entre o autor e o jardineiro não é relevante para a inferência. Apenas ilustra a premissa. Este não é um argumento por analogia e é fácil ver que sem o agricultor e o jardineiro a estrutura do argumento é mesma. Mesmas premissas, mesma inferência, mesma conclusão.

Há mais coisas a dizer acerca do post do Desidério, e também do post convidado do Álvaro Santos Pereira (3). Mas isso fica para um próximo episódio. Talvez entretanto eles releiam o que eu escrevi e reconsiderem.

1- Desidério Murcho, 13-3-08,O jardineiro digital
2- Produtos e serviços
3- Álvaro Santos Pereira, 12-3-08, A utopia do custo zero

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Testando deuses.

Os antigos Egípcios adoravam, entre outros, o deus Khepri. Khepri tomava a forma de um escaravelho gigante e rolava o Sol pelo céu. Hoje podemos dizer com confiança que esse Khepri não existe porque não há escaravelho nenhum a rolar o Sol pelo céu. Os antigos Judeus adoravam o deus Jahve. Jahve tinha criado a Terra em seis dias poucos milhares de anos antes. Hoje podemos dizer com confiança que esse Jahve não existe porque a Terra não foi criada em seis dias há poucos milhares de anos.

Mas pode existir à mesma, dirão alguns crentes. Não o Jahve que criou a Terra em seis dias mas um Jahve invisível que tenha criado tudo de forma misteriosa e de maneira que pareça ter surgido por processos naturais. Esse ninguém pode provar que não existe. Pois é. Mas isso também dirão os Egípcios. O Khepri escaravelho gigante não existe, mas Khepri o escaravelho invisível que rola o Sol de forma misteriosa de maneira a parecer ser tudo por processos naturais, esse pode existir. E ninguém pode provar que não existe. O problema é que isto permite tudo. Jahve, Khepri, a Alice, o Humpy-Dumpty, o Chapeleiro e o que mais calhe.

O ideal para os crentes seria uma descrição informativa que correspondesse à realidade e incluísse os seus deuses. O conflito entre a ciência e as religiões surge por ser impossível ter estas três características ao mesmo tempo. Este universo funciona como se não tivesse deuses e, por isso, não conseguimos boas descrições da realidade que incluam deuses. Se queremos descrições informativas que correspondam à realidade, que é o objectivo da ciência, temos que pôr os deuses de parte. Não cabem deuses nos átomos, nas reacções químicas, nos neurónios, nas doenças, nos ecossistemas, ou em canto nenhum deste universo.

Uma alternativa é ter descrições informativas que incluem deuses mas que são contrárias à realidade. Os criacionistas e outros fundamentalistas vão por este caminho. Dizem que a Terra tem seis mil anos de idade, que cada espécie foi desenhada por um ser inteligente e que o Dilúvio cobriu todo o planeta de água durante quarenta dias. Isto é informativo. São afirmações concretas acerca da realidade. Mas são erradas e só com muita ignorância ou uma mente selectiva se consegue manter estas crenças.

A terceira opção é incluir deuses e não contradizer a realidade não dizendo nada de concreto. Deus é amor, por exemplo. É uma afirmação perfeitamente segura porque não faz qualquer diferença se Deus é amor, indigestão ou limpa-vidros. Este tipo de afirmação não refere nada que a possa confirmar ou contradizer mas também não nos diz nada de informativo.

Isto é para responder à Abobrinha, que afirmou «Deus não se mediu. Não se pôs como hipótese.» Pôs sim. As hipóteses de Khepri rolar o Sol pelo céu, Jahve criar a Terra em seis dias e tantas outras como estas foram postas, confrontadas com dados e medições e refutadas por contradizer as evidências. A ciência testou tantas hipóteses com deuses que hoje já não há qualquer explicação com deuses que rivalize as que não têm deuses. Esta é uma dica importante que o Universo nos dá e que não devíamos ignorar.

É claro que resta sempre a terceira opção, favorita dos teólogos. Dizer muita coisa que não quer dizer nada. O leitor que assina «Leprechaun» costuma dar bons exemplos: «Falamos aqui daquilo que existe para além e antes desses 2 únicos binómios que conhecemos racionalmente. E para ir até esse Vazio imaterial é indispensável focar a Consciência no centro de Si Mesmo.» Ora isso a ciência não testa. Mas não faz mal porque é perfeitamente indiferente se é verdade ou mentira.

Sábado, Janeiro 12, 2008

Propriedades e existência.

Uma das «provas» que Deus existe assenta em confundir a existência com uma propriedade. Anselmo (1033-1109) disse que Deus é aquilo que é mais perfeito que qualquer outra coisa. Como um Deus que não existe será menos perfeito que um Deus que existe, segundo Anselmo, Deus tem que ter a propriedade de existir. O problema é que existência não é uma propriedade.

Imaginem um Ludwig idêntico a mim em tudo. Mesmo tamanho, forma, pensamentos, e que até está no mesmo sítio que eu ao mesmo tempo que eu a fazer o mesmo que eu. Evidentemente, não pode ser outra coisa senão eu. Se a existência for uma propriedade e esse Ludwig não existir então pode ser outra coisa porque já tem uma propriedade diferente. Um é o Ludwig que existe, o outro é exactamente igual só que não existe. Mas isso é absurdo. É igual a mim e está onde eu estou a fazer o mesmo que eu mas não existe? Não faz sentido.

Faz mais sentido considerar a existência como sendo a instanciação de propriedades em vez de uma propriedade em si. Isto não resolve o problema de saber o que é a realidade, pois continua por definir o que é isso da instanciação. Mas torna o conceito de existência mais claro. Por exemplo, mostra que não faz sentido falar em dois Ludwig exactamente iguais em tudo excepto que um existe e outro não. Se todas as propriedades estão instanciadas então existe. Se não estão, então não existe. Seja como for, se é igual em tudo é o mesmo e não dois.

Também é útil para sair de labirintos retóricos como os do leitor JC, que entre muitas outras coisas escreveu:

«Você cai numa flagrante contradição negando ao imaginado a condição de existente só porque o imaginado pode não existir na realidade empírica, fora da mente. Mas, afinal, mesmo que apenas na mente, o imaginado existe ou não existe?»(1)

O Homem Aranha existe? Se «Homem Aranha» designa um personagem fictício de banda desenhada, então sim. Todas as propriedades de tal personagem estão instanciadas, tais como estar desenhado em livros, ter sido inventado por alguém, fazer parte de histórias e assim por diante. E se as suas propriedades estão instanciadas então essa coisa existe. Existe um personagem de banda desenhada chamado Homem Aranha. Mas se «Homem Aranha» designa um ser humano com poderes de aranha então não existe. As propriedades dessa coisa não estão instanciadas num ser.

O mesmo se passa com Deus ou o bicho papão. Em muitas cabeças há cérebros a instanciar as propriedades de ideias acerca de tais entes. São pensados, sentidos, temidos, e assim por diante. As ideias existem. Mas as propriedades de um bicho que rapta as crianças que se portam mal ou de um deus que criou o universo não estão instanciadas. Essas coisas não existem.

Isso da realidade empírica e não empírica é só para baralhar. Há uma realidade. Os cérebros existem, os pensamentos existem, a fantasia existe. A confusão também existe. Aos montes. Mas fazer confusão e pensar que existe aquilo acerca do qual se tem fantasias não justifica inventar uma “realidade” à parte só para disfarçar a confusão.

1- 9-1-08, Ciência e as outras coisas.

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Ciência e as outras coisas.

Nesta discussão com o Desidério concordamos numa coisa importante, mas como interessava mais discutir o que discordamos isto ficou para trás:

«há uma acepção de “ciência”, que é até prévia à revolução científica e que corresponde ao sentido de “episteme” usado pelos gregos, segundo a qual a filosofia, a história e outras disciplinas deste género são tão científicas quanto a física ou a matemática.»(1)

Os comentários do António e do Francisco Saraiva de Sousa (2) trazem-me de volta a este ponto para explicar o que me motiva a discutir isto (além do prazer de discordar). Isto não é apenas uma acepção de “ciência”. Isto é o fundamental, ao contrário do que escreve o Desidério a seguir: «Não concordo com a ideia de que isto invalide distinções iluminantes entre diferentes ciências».

Não há ciências. Há ciência. Dizer que a química é uma ciência e a astronomia ou filosofia outra ciência é como dizer que a base é uma pizza, a cobertura é outra pizza e cada fatia é uma pizza. Estas disciplinas são partes da ciência, colaboram na procura sistemática do conhecimento e têm em comum a forma cíclica de observação e manipulação de conceitos que caracteriza a ciência. A física, a matemática, a psicologia e até parte da filosofia são formalmente idênticas neste aspecto. Dentro de cada uma e entre todas adquire-se informação por observação e usa-se essa informação para criar modelos conceptuais.

Há quem considere a matemática uma excepção porque demonstrar teoremas não exige observação, mas é um erro. Há uns séculos os matemáticos calculavam tabelas de logaritmos, resolviam equações à mão, fartavam-se de fazer contas. Hoje é o computador que faz contas, que não tem nada que saber. Demonstrar teoremas é mais complexo, mas também não passa de aplicar regras para substituir símbolos, e isso os computadores fazem cada vez melhor. Em breve os matemáticos farão tantas demonstrações à mão como hoje fazem contas de dividir, e poderão dedicar mais tempo a compreender o significado do que demonstram e como isso corresponde à realidade. Porque isso é que interessa, e nisso a matemática é como qualquer outra parte da ciência.

A unidade da ciência também é evidente no conteúdo. Todo o conhecimento está interligado. A filosofia não pode contradizer a física nem a matemática contrariar a biologia. Se o biólogo diz que um rebanho mais um rebanho dá um rebanho e o matemático diz que não pode ser porque um mais um é sempre dois temos um problema que tem que ser resolvido. O matemático George Boole inventou uma álgebra em que um mais um dá um. Não é usada para contar rebanhos mas é importante na lógica e fundamental na informática.

Interessa-me focar este aspecto porque ajuda a separar a ciência (e o conhecimento) de outras coisas. Como a ética, estética e política, por exemplo, que também dependem de conhecimento mas vão além deste, incluindo escolhas, actos e expressões. O que sabemos e o que fazemos são coisas diferentes.

Mas especialmente porque compreender a coesão do conhecimento e da forma de o obter revela logo muita da treta que há por aí. A teologia, que diz conhecer pela fé; as “ciências ocultas”, que se apoiam na intuição; as inúmeras patetices da nova era, cada uma com o seu “método”. Nada disso serve. Não é assim que se obtém conhecimento. E, ao contrário do que acontece entre as partes da ciência, estes não se importam com contradições. Os homeopatas não se incomodam se a sua doutrina contradiz a acupunctura. A medicina tradicional chinesa, o tarot da Maia e a reflexologia podem contradizer-se à vontade. Os astrólogos até têm orgulho nas várias astrologias incompatíveis entre si. E as religiões é o que se vê...

A ideia que há várias formas de conhecer, como a ideia que há várias realidades, é errada e enganadora. Para conhecer algo temos que o examinar e pensar racionalmente acerca do que observamos. Não adianta ficar a olhar para o umbigo, ajoelhado a rezar ou sentado na poltrona com o cachimbo no canto da boca.

1- Desidério Murcho, 27-12-07, “Ciência” na acepção ampla
2- 6-1-08, Conhecimento

Domingo, Janeiro 06, 2008

Conhecimento.

Nesta última rodada o Desidério deixou-me um pouco confuso. Começa por afirmar que «Uma verdade é analítica se, e só se, podemos saber a priori que é verdadeira.»(1) Fiquei surpreendido mas estou de acordo. É isso mesmo. Só é verdade a priori se for analítica, e vice versa. Mas baralhou-me que o parágrafo seguinte afirmasse «Pode ser que todo o conhecimento a priori seja conhecimento de verdades analíticas, mas tal coisa não se segue dos conceitos de a priori e de analiticidade.» Parece-me contradizer o «se, e só se».

Mas deixo ao Desidério explicar na próxima rodada se há proposições sintéticas cuja verdade seja justificável a priori, e aproveito para resumir a minha posição e tentar esclarecer as dúvidas do António e do Francisco Saraiva de Sousa (2). Eu proponho que o conhecimento diz respeito* à adequação do modelo simbólico** àquilo que se quer conhecer. Para conhecer X temos que criar um modelo que descreva adequadamente X, e quanto mais adequado for o modelo melhor conhecemos X. Para isto precisamos de raciocínio, porque é preciso lidar com o modelo simbólico, e precisamos de observações (experiências, dirá talvez o Desidério) para que o modelo de X não acerte ou falhe só por sorte. Todo o conhecimento é uma conjunção destes dois aspectos.

A primeira objecção, a que o Desidério levantou, é que há frases cuja verdade é justificável por mais nada que o seu significado. «Nenhum casado é solteiro», por exemplo. E há outras que exigem algo mais, como «nenhum casado é feliz». Eu concordo com a distinção, mas em ambos os casos precisamos de conhecimento para decidir. Precisamos saber o que é solteiro, casado, feliz, ser, e assim por diante. E todo esse conhecimento é do mesmo tipo. Ser a priori ou a posteriori apenas caracteriza a frase conforme o seu significado é suficiente ou insuficiente para determinar a sua verdade. Mas isto não sugere que haja tipos diferentes de conhecimento. Afinal, o conhecimento do significado da frase é do mesmo tipo que qualquer outro conhecimento.

Outra objecção é a matemática. Uma demonstração matemática é uma sequência de passos que substituem expressões por expressões sinónimas. É tudo a priori, no sentido de que a expressão final é equivalente à inicial. E é evidente que a matemática nos dá conhecimento. O erro é pensar que a matemática é só isto.

Imaginem que um génio louco inventa um conjunto de símbolos e regras para os manipular. Dedica a vida a demonstrar complexas transformações, propriedades de famílias de sequências e combinações de regras duma complexidade mirabolante. Por si só, isto não é conhecimento. É tudo a priori, é tão complexo quanto quisermos, mas se não tem significado nenhum não é conhecimento.

É óbvio que a matemática não é assim. O “2” e o “+” e o “=” não são apenas símbolos mas têm significado. E esse significado depende de algo empírico. De contar coisas ou agrupar coisas em conjuntos ou de palavras que se referem a coisas e acontecimentos. A matemática é conhecimento porque é raciocínio e observação, senão era como o jogo do génio maluco. O conhecimento matemático é conhecimento porque é tão empírico como qualquer outro.

Este é um ponto importante, e recorrente, nesta discussão com o Desidério. No último post ele afirma «Por exemplo, não se consegue tornar verdade por estipulação que dois mais dois é sete. O que podemos tornar verdade por estipulação é que a palavra “sete” quer dizer quatro, e nesse caso dois mais dois é sete, mas isto é uma confusão entre linguagem e referência porque "sete" agora quer dizer quatro.»(2). Não é confusão nenhuma. É isso mesmo. Sem o aspecto empírico dos símbolos (o seu significado) não há conhecimento. Nem sequer verdade no sentido que interessa.

Em suma, estes dois aspectos, a observação e a manipulação dos símbolos e conceitos, são indissociáveis no conhecimento. São aspectos diferentes e podemos distinguir exemplos de um e de outro, mas não há dois tipos de conhecimento porque não há conhecimento sem a conjugação de ambos.

* Este “diz respeito” é propositadamente vago. Podemos discutir se o conhecimento é o modelo adequado, se é a adequação do modelo ou se é a informação que nos permite tornar o modelo adequado. Por enquanto não me interessa esmiuçar isto porque, para este efeito, tanto faz.

** Simbólico porque estamos a falar apenas daquele conhecimento explícito que codificamos em palavras, equações, etc. Não estou a falar de saber digerir uma maçã ou saltar à corda. Peço desculpa pelas notas de rodapé, mas na filosofia um tipo tem que ter muito cuidado com o que diz.

1- Desidério Murcho, 5-1-08, Linguagem e a priori
2- A priori, só depois...

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

A priori, só depois...

No seguimento da nossa conversa sobre o conhecimento, a realidade, a ciência e o que mais calhar, o Desidério apresentou duas frases para ilustrar dois tipos diferentes de conhecimento. O empírico e outro em que «basta raciocinar» (1):

«1) Se Sócrates era um ser humano, era um ser humano.
2) Sócrates era mais pesado do que Platão.»


A verdade da segunda tem que ser determinada pela experiência, de forma empírica. Eu prefiro “observação”, no sentido de «examinar com atenção e minúcia». Uns têm ideia que “empírico” ou “experimental” é só no laboratório, e outros que “experiência” pode ser uma mera sensação. Isto atrapalha a discussão com criacionistas (não se pode criar a vida em laboratório) ou malta new age (eu sinto que funciona e assim está provado por experiência). O conceito de exame atento e minucioso é fundamental nestes casos. Mas numa companhia mais sã aceito o termo “experiência”, e concordo que é necessária para saber se Sócrates pesa mais que Platão.

O problema é a distinção entre as duas frases: «a partir do momento em que as pessoas aprendem a pensar e falar português, basta pensar para saberem que a afirmação 1 é verdadeira.» Sim, mas a partir do momento em que saibam que Sócrates pesa 75 kg e Platão 62 kg também basta pensar para saberem que a afirmação 2 é verdadeira. Em ambos os casos têm que saber algo sobre o qual possam pensar, e esse algo, seja o que for, vem da experiência.

A experiência pode vir muito antes do raciocínio, e até sem conhecimento. Foi a ideia mais revolucionário do século XIX. Talvez de sempre. Antes de Darwin assumia-se que o pensamento vinha primeiro. A Palavra tinha criado tudo, e essas coisas. Darwin mostrou que primeiro foi um processo experimental de tentativa cega e muito erro, mas capaz de aproveitar o que, por acaso, acertava. A evolução não é conhecimento mas gera, testa, experimenta e produz mecanismos que têm conhecimento e discutem conhecimento em blogs.

Em última análise a evolução é a base experimental da minha afirmação que não há conhecimento sem experiência. O a priori do Desidério deve-se a décadas de aprendizagem, à sua experiência, e a quatro mil milhões de anos de experiências cegas que produziram o cérebro humano. Mas isso é irrelevante:

«O que Ludwig afirma é que mesmo para saber que 1 é verdadeira, tenho de saber o significado das palavras, conhecimento este que é claramente empírico. Pois é. Só que isso é irrelevante. Seria como afirmar que para fazer matemática temos de beber biberão.»

O biberão não faz parte da matemática, enquanto que o Português inclui forçosamente o significado das palavras. Mas percebo a ideia. A verdade de uma proposição é determinada a priori se segue do que está na proposição, sem precisar de mais nada. Aceito a definição de bom grado. Mas isto não é acerca do conhecimento. É acerca das proposições e da linguagem.

Imaginem uma língua na qual “Sócrates” refere um filósofo com 75 kg e «Platão» outro filósofo com 62 kg. A verdade da frase 2 é a posteriori em Português mas a priori nessa língua. Qualquer pessoa que saiba essa língua sabe o peso dos seres que as palavras referem, pois faz parte do sentido das palavras. E em Português a verdade de «Um filósofo com 75 kg é mais pesado que um filósofo com 62 kg» podia ser determinada a priori. Mas o conhecimento é o mesmo. Só muda o que está incluído em cada afirmação ou o que fica de fora.

A distinção que o Desidério defende é útil, e determinar o que é verdade a priori pode ser difícil ou até impossível, como Gödel provou (a priori). Mas “verdades” a priori é o que os computadores calculam. As linguagens de programação, a lógica e a matemática destacam-se porque, nestas, o que se prova a priori prova-se seguindo regras simples de manipulação de símbolos sem exigir conhecimento. O conhecimento só vem quando damos significado aos símbolos ligando-os à realidade. E isso é sempre a posteriori.

Se o “Sócrates” da frase 1 for o meu cão a frase 1 é à mesma verdadeira a priori. Mas é inútil enquanto conhecimento porque não corresponde à realidade.

1- Desidério Murcho, 2-1-08, Conhecimento não empírico

Sábado, Dezembro 29, 2007

Senhoras e senhores, a realidade.

Boa. Eu e o Desidério já discordamos outra vez. Mas temo que seja apenas um mal entendido. Segundo o Desidério eu penso «que a realidade se esgota no que pode ser observado» (1). Não penso isso. O que penso é que não faço ideia do que é a realidade fora daquilo que pode ser observado. Estou a discutir como podemos conhecer a realidade. O que a realidade é, e onde se esgota, tenho que deixar para depois.

Por isso não é «a própria noção de realidade que está em causa». Tão-pouco proponho que nada haja «na realidade que não tenha localização espaciotemporal.» Se alguma teoria das cordas estiver correcta isso do espaço e do tempo até pode ser pouco mais que uma convenção, como desenhar os mapas com o Norte para cima. Eu não estou a mandar no que a realidade é. Na gíria filosófica, o problema é a epistemologia. A ontologia vai ter que esperar.

O exemplo do quarto chinês (2) mostra um requisito do conhecimento*. É preciso símbolos, mas «çlkwljkfwa» não é conhecimento. É preciso regras de sintaxe, como as tabelas no quarto chinês, mas «pai_de(jor_el,kal_el)» não é conhecimento por si só. É este o nível em que os computadores (hoje) operam. Um interpretador de Prolog aceita aquele predicado mas não faz ideia do que quer dizer. Com a semântica, quando ligamos a linguagem a algo fora desta, já se pode ter conhecimento. O Jor El é pai do Kal El. Mas só é conhecimento se o Jor El for mesmo pai do Kal El. Se não for, então não é conhecimento. É fantasia ou engano.

É assim que a realidade se apresenta. A direcção até é contrária ao que eu descrevi. Os homens primitivos não começaram por inventar símbolos, depois regras para os compor em «1+1=2» e finalmente dar-lhe um significado. Primeiro a realidade deu-lhes coisas para contar, e foi isso que eventualmente os fez inventar uma linguagem que o descreva. Aristóteles não tinha feito nada com a lógica sem reparar que há proposições verdadeiras e outras falsas. Euclides afirmou que só há uma recta que passa num ponto e é paralela a outra recta. Não por dedução matemática mas porque era evidente (para ele). No principio era a observação. A palavra veio depois. Na verdade, veio muitos milhões de anos depois.

Eu e o Desidério concordamos que não há observação “pura”. Toda a observação exige um modelo prévio daquilo que se está a observar. A evolução produziu muitos destes, dos modelos mais simples nas bactérias até ao cérebro humano que inventa modelos simbólicos aos montes. O que eu proponho é que isto funciona nos dois sentidos. Não se pode criar um modelo simbólico que seja conhecimento sem depender da observação. Sem observação não se pode dar significado aos símbolos nem saber se esse significado corresponde ao que queremos que corresponda. Seja somar uma coisa a outra seja o pai do Kal El.

É arriscado afirmar que não há conhecimento que não dependa de observação. Basta um exemplo contrário para refutar esta hipótese. Por isso proponho Desidério que me dê um exemplo de conhecimento que se possa obter sem qualquer observação. Ficarei (agradavelmente) surpreendido se ele conseguir, porque só vejo duas possibilidades. Ou algo como «P», em que «P» é uma proposição verdadeira mas que não é conhecimento porque não sabemos o que «P» é. Ou algo como «nenhum número ímpar é par», que depende de observação para dar significado a estas palavras.

* O conhecimento explícito, que representamos em equações e palavras e discutimos na filosofia. Mas o fundamental aplica-se também a saber tocar viola ou digerir uma maçã, só que não posso enfiar tudo num post...

1- Desidério Murcho, 29-12-07, O que é a realidade?
2- Eu, Ciência às fatias.

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Ciência às fatias.

Infelizmente, parece que eu e o Desidério discordamos cada vez menos. Mas acho que consigo esticar um pouco mais a conversa. Concordamos com uma acepção mais abrangente de ciência que não a caracteriza por um método ou tema particular, mas o Desidério escreveu:

«Não concordo com a ideia de que isto invalide distinções iluminantes entre diferentes ciências (e talvez Ludwig não queira dizer exactamente isto, apesar de o parecer). A matemática ou a lógica, assim como a filosofia, ocupam-se daquela parte (talvez irritante) da realidade que não parece poder ser estudada pela observação, pela medição, pelos métodos empíricos, enfim, que muitas pessoas identificam com a ciência.»(1)

As distinções são muito importantes. Hoje em dia. Não se pode contribuir para o avanço da ciência sem saber o que já foi feito e o que há por fazer. Não vale a pena inventar a roda todas as semanas; a partir da quarta ou quinta vez já não dá para publicar. E como o conhecimento moderno é tão vasto e avança tão rapidamente ninguém consegue manter-se a par de mais que uma pequena fracção do que a ciência produz. Mesmo quando não tem pilhas de trabalhos para corrigir. No seu tempo, Galileu estudava óptica, cinemática, astronomia, e o que mais calhasse, e era uma autoridade em todas. Mais tarde foi preciso dividir os esforços entre química, física, biologia e assim.

Hoje as fatias são muitas e muito finas. Genética de populações, bioquímica estrutural, biologia molecular, cristalografia, bioinorgânica e milhares de outras. Eu uso algumas técnicas de inteligência artificial para modelar estruturas de proteínas. Nem sequer uma fatia me calhou. É uma azeitona daqui e meia rodela de tomate dali. Mas esta divisão não é uma característica da ciência; é uma consequência das nossas limitações. Se a nossa espécie fosse muito mais inteligente eu investigava ciência e dava aulas de ciência no departamento de ciência da faculdade de ciência.

Até aqui deve ser pacífico. Agora vem a parte engraçada. Eu proponho que é contraditório afirmar que se estuda a realidade sem ser pela observação. O conhecimento exige sempre observação. Na filosofia, e até na lógica e na matemática. A filosofia é muitas vezes empírica, mesmo no sentido restrito de fazer experiências. Não chegam a atropelar os escuteiros com o combóio mas, de resto, está lá tudo. E em casos como a filosofia da mente, por exemplo, a filosofia propõe experiências e depende dos seus resultados. Na lógica e na matemática esta dependência é menos evidente porque são linguagens, esquemas para fazer afirmações e não as afirmações em si. Mas mesmo assim não são conhecimento sem observação. Vou aproveitar o “quarto chinês” de Searle para ilustrar.

Uma pessoa está fechada num quarto cheio de tabelas. Quando chega um papel escrito em chinês ela procura os símbolos nas tabelas, copia os símbolos que a tabela indica e devolve o papel pela ranhura. Lá fora todos pensam que ela sabe chinês porque responde correctamente a todas as perguntas. Mas nem sabe chinês nem pode aprender porque não consegue descobrir o que os símbolos significam. Até pode saber de cor todas as tabelas. Nesse caso sabe as tabelas (que aprendeu por observação) mas continua sem saber chinês.

Mesmo em linguagens como a lógica ou a matemática, além de manipular os símbolos é preciso saber o seu significado. É preciso saber o que quer dizer um e dois, verdadeiro e falso, senão não serve de nada. E só a observação pode conseguir isto. Não há maneira de definir o significado de um símbolo recorrendo só a outros símbolos, sem que algum aponte para fora da linguagem.

Acho inútil, e até enganador, distinguir entre ciência empírica e não empírica. Em primeiro lugar porque todo o conhecimento depende de observação. E em segundo lugar porque a filosofia, a lógica e a matemática não são actividades isoladas mas partes do processo de adquirir conhecimento. São muito prolíficas a descrever possibilidades, mas se não as confrontamos com observações acabamos com plantas para casas em 38 dimensões, barbeiros que barbeiam todos os que não se barbeiam e flechas mais lentas que tartarugas.

1- Desidério Murcho, 27-12-07, “Ciência” na acepção ampla

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Demarcações.

Vou aproveitar que o Desidério ainda não fez a jogada dele para apontar um defeito na minha caracterização de ciência. Dizer que visa descrever correctamente a realidade não ajuda a demarcá-la da muita treta que há por aí a fazer-se passar por ciência. Seria preciso determinar objectivamente se uma actividade progride nesse sentido ou não, e isso requer muito mais detalhe.

E é importante demarcar a ciência da pseudo-ciência porque essa demarcação afecta o financiamento da investigação, a educação e a forma como são recebidas certas notícias e publicações. Além disso, há cursos e serviços de astrologia, licenciaturas em medicina tradicional, teólogos a pronunciar-se acerca da legislação sobre a reprodução humana, e é importante determinar quem é que tem legitimidade de ser reconhecido como um perito, e em quê. Mas não é isso que eu quero resolver nesta discussão. Esse problema ataco-o um bocadinho por semana e uma treta de cada vez.

O que quero com esta ideia vaga da ciência é ultrapassar outras demarcações que estão a mais. Eu trabalho na «Faculdade de Ciências e Tecnologia», nome que admite haver uma tecnologia mas insiste em várias ciências. O leitor Pedro Galvão comentou que «a ciência esgota a racionalidade» é uma afirmação que «não é científica -- é uma tese filosófica sobre a racionalidade. Mas, se não é científica, então, pelo que diz, não é racional». Não vejo porque é que ser filosófica impede que seja científica, ou vice-versa. Um leitor anónimo que assina “curioso” comentou que «o método cientifico é extremamente limitado uma vez que exige um controlo absoluto de todas as variáveis que poderão influenciar um determinado fenómeno», que é mais um mal entendido, fruto do excesso de zelo em demarcar a ciência.

Isolar a ciência pelos temas ou técnicas perde o que é fundamental na ciência. Faz sentido fazer experiências quando se pode e, das outras vezes, amanhar-se de outra maneira. A matemática é uma linguagem poderosa, mas a lógica e a linguagem natural também servem quando é preciso. E é sempre preciso. Mesmo os modelos matemáticos da física têm unidades que significam coisas não matemáticas como tempo, energia, distância, etc. A ciência pode ser mais especulativa se não há dados suficientes e mais argumentativa quando há várias hipóteses suportadas pelas observações. Chama-se filosofia nesses casos, mas não deixa de ser ciência.

Por isso não faz sentido separar “ciências” em empíricas e não empíricas, em qualitativas ou quantitativas, ou mesmo separar a filosofia da ciência. Estes termos descrevem as ferramentas com as quais se aborda um tema num dado momento mas não dizem nada de fundamental acerca da ciência enquanto forma de adquirir conhecimento.

O fundamental na ciência é tentar descrever a realidade como ela é. Os detalhes, os processos, as regularidades que houver. O que quer que seja. A realidade pode ser átomos e o vazio ou pode ser deuses e demónios, mas para a descrever vamos ter que usar observação, raciocínio, e tudo o mais que vier a jeito. E é isso que é ciência.