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Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Treta da Semana: o cliente é sempre ladrão.

Antigamente o cliente tinha sempre razão. Agora processam os fãs, “protegem” os CDs para instalar coisas que não queremos e não nos deixar ouvir a música como quisermos (1). As músicas compradas online vem com sistemas de “gestão de direitos” para eles gerirem os nossos direitos por nós. E se a loja fecha temos que comprar tudo outra vez (2).

Os DVDs também nos “protegem” de ver na Europa um filme comprado nos Estados Unidos (3). A premissa é sempre que os clientes são ladrões. O site da FEVIP, e os DVDs que compramos por cá, fazem questão de passar filmes a acusar-nos de ladroagem ou, pior, com um rato a chamar-nos idiotas (4).

O software que compramos vem com dezenas de páginas de “licença” a dizer o que não podemos fazer e o que nos fazem se o fizermos. Acho. Como todos, eu também não leio os EULA. Mas, por norma, estamos proibidos sequer de descobrir o que é que o programa faz ao nosso PC. Nada de bisbilhotar.

Os jogos vêm com sistemas de protecção diabólica (5) e obrigam a deixar o DVD a rodopiar no leitor só para o estragar mais depressa, e pagamos dezenas de euros por uma rodela de plástico. Dizem que o dinheiro é pela licença de utilização, mas um risco na rodela e são mais umas dezenas de euros para uma “licença” nova. Não há protecção contra riscos, mas está tudo protegido contra o cliente que o comprou. Ladrão. E a moda agora já nem é só no digital. Do campo pequeno à costa são cinco módulos mas para a FCT são só quatro. Quando pico um bilhete de quatro módulos o motorista pergunta sempre “Para onde vai?” Compreendo. Devo ter cara de ladrão.

No tempo das disquetes dizia-se que o software original era mais seguro. As cópias podiam ter vírus. Hoje o melhor é deixar o original no pacote e usar a versão pirata- Não “gere direitos”, permite fazer cópias pelo seguro e não pede activações, verificações e afins. Instala-se e funciona. O software original primeiro quer garantias que não somos ladrões. Os filmes sacados da Internet não têm ratinhos idiotas no inicio, mas os DVDs comprados na loja obrigam a gramar idiotices e insultos antes de mostrar o filme pelo qual pagámos. E a música sacada em mp3 toca em todo o lado, sem licenças, incompatibilidads ou “gestão de direitos”.

A semana passada pensei que isto tinha mudado. Sins of a Solar Empire (6) é um jogo de estratégia como eu gosto. Além disso não tem sistemas de protecção e quando fui ver o preço ao site tinha a opção para comprar por download directo. Um click, 25 euros, e tinha o jogo. Foi preciso instalar um programa de distribuição (7), mas isso pode facilitar a vida a quem não se quer preocupar com actualizações ou outros detalhes. E como permite fazer cópias de segurança dos jogos instalados, comprei e descarreguei o jogo.

Mas quando o tentei instalar no PC que usamos para jogos descobri que para recuperar a cópia de segurança também é preciso “validar” o instalador com uma ligação à Internet. Que aquele computador não tem. Após umas voltas descobri que o arquivo é apenas um zip com extensão diferente e cifrado com uma palavra passe que é o nome do utilizador (deve ser mesmo só para chatear). Mas é uma imagem do jogo como está instalado e uns ficheiros à parte com a informação do registo, bibliotecas no sistema e coisas dessas. Vinte e cinco euros, um giga de download e uma carga de trabalhos para pôr aquilo a funcionar onde quero. Felizmente há o Pirate Bay (8).

O problema não é competirem com o gratuito. O problema é serem chatos como o raio. Não me custa dar o preço de um jantar por um jogo que me vai entreter dezenas de horas (se vou ter tempo para o jogar é outro problema...). Mas custa-me esbarrar com obstáculos idiotas ou exigências disparatadas apenas porque assumem que sou ladrão. Ainda por cima sabendo que se não lhes pagar tenho todo o proveito sem nenhuma chatice.

A maior ameaça à economia de informação não é a quebra dos monopólios. É tornarem o comércio, que era uma troca voluntária para beneficio mutuo, em algo mais parecido com cobrança de impostos ou rusga policial. Os videos da FEVIP dizem que «combater a pirataria é um dever cívico». Treta. Dever cívico é não aceitar que vendam carros que só andam à quarta feira ou televisores que só funcionam na cozinha. É exigir que quando pagamos por algo o possamos usar como entendemos. E é não lhes comprar mais porcaria nenhuma enquanto não respeitarem os clientes.

1- Wikipedia, Sony BMG CD copy prevention scandal
2- Miguel Caetano, Remixtures, Yahoo reembolsa clientes que compraram música com DRM
3- About.com, DVD Region Codes - What You Need To Know
4- FEVIP. Façam refresh no site para ver outro filme. Há 3 diferentes, passam ao acaso.
5- Boing-Boing, Anti-copying malware installs itself with dozens of games
6- www.sinsofasolarempire.com
7- Wikipedia, Impulse
8- Pirate Bay

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Vou estar

no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, em Évora, no dia 5 de Setembro, às 11:30 para falar sobre pensamento crítico. A participação no encontro custa 30€, 15€ para estudantes da Universidade de Évora.

Cartaz ENPF

E no dia 18 de Outubro vou estar novamente em Braga, na Jornada Fé e Ciência, onde vou falar sobre «A hipótese de Deus perante a ciência». A entrada é livre.

Jornada Fe Ciencia

Domingo, Maio 11, 2008

Milagre da medicina veterinária.

Hoje os miúdos vieram acordar-nos às sete da manhã numa grande excitação, em contraste com as vezes que nos acordam às sete da manhã só porque lhes apetece. A nossa porquinha da Índia, que já há uns tempos parecia estar um bocado gorda, teve três crias. Há umas semanas ainda tínhamos duas porquinhas. Infelizmente, a outra sempre foi doente e acabou por morrer. Mas não pode ter sido responsável porque os vários veterinários que a examinaram garantiram ser também fêmea.

Trata-se pois de um milagre, um Mistério insondável que a medicina (veterinária) nunca poderá explicar. Como as pessoas alegadamente diagnosticadas por médicos infalíveis, que sofrem anos de uma doença incurável e depois se curam por milagre.

Mas se apanho o santo milagreiro que fez isto vai ouvir das boas...

Sábado, Maio 10, 2008

Associação Ateísta Portuguesa, continuação.

Hoje almocei com algumas das pessoas que estão a formar a AAP e o consenso é que a associação tentará representar todos os ateus ou, pelo menos, a grande maioria. É uma intenção que subscrevo e apoio. Não sei se vamos conseguir mas se isso fosse razão para não tentar ainda hoje usava fraldas (não uso, para quem não sabe, e normalmente safo-me bem). Mas escrevo este post principalmente por duas razões. Primeiro, para assegurar (ou desiludir) os leitores que o encontro com o Luís Grave Rodrigues não deixou ninguém incapacitado para blogar. E, segundo, para esclarecer o sentido desta associação, que é o contrário do que alguns julgam ser.

Os crentes religiosos procuram uma religião que os guie e lhes diga como viver enquanto crentes. O sentido é da associação, tradição e comunidade religiosa para o indivíduo. O ateu, seja porque razão o for, assume individualmente a responsabilidade pela forma como vive a sua vida. Uma associação não lhe vai dizer como ser ateu. Isso já o ateu sabe. Mas muitos fazem uma confusão semelhante à que baralha as leis humanas com as leis da Natureza e faz pensar que há um Legislador. As nossas leis são normativas; funcionam da lei para o legislado dizendo o que este último deve fazer. Mas as leis da Natureza são descritivas e formam-se no sentido inverso. A Natureza faz o que faz e nós limitamo-nos a descrever o que quer que isso seja.

Analogamente, não queremos uma associação ateísta para dizer aos ateus como ser ateu. Não é legislação nem religião; o seu sentido é o oposto. Queremos uma associação que descreva o que os ateus são e que mostre as preocupações e interesses de quem é ateu. E daqui vem a maior dificuldade. Enquanto os crentes se associam facilmente porque cada crente sente necessidade da sua religião, os ateus não sentem necessidade de se associar porque já têm todo o ateísmo que precisam. Os benefícios da associação são só indirectos, a longo prazo e mais a nível social que individual, beneficiando todos os ateus sejam sócios ou não.

Os crentes que interpretem esta associação como fanatismo ateu podem ficar descansados. Não queremos uma igreja ateísta que ponha todos os ateus na mesma linha. Queremos apenas algo que explique à sociedade o que nós somos. E os ateus que não sentirem necessidade de se associar para ser ateus têm razão. A associação é que precisa deles para poder representá-los correctamente. Mas todos os ateus têm a ganhar se a sociedade compreender e reconhecer a legitimidade deste modo de vida.

Sábado, Maio 03, 2008

Uma sexta na quinta dimensão.

Ontem andei a passear pelos comentários do Dragoscópio. Sítio estranho. Todas as portas vão dar ao mesmo quarto, ninguém sabe onde é para cima nem para baixo e há uma dúzia de pessoas iguais, a maioria assinando «zazie», todas a falar ao mesmo tempo. Mas tudo muito simpático e bem ensaiado. Os insultos saem com a fluidez de muito treino mas parecem frescos e feitos especialmente para o insultado. Dão a agradável sensação de um atendimento personalizado. E os ataques pessoais são mesmo pessoais. Salvo raras excepções, não atacam a profissão, as ideias, nem sequer o que se escreve. Ali é a pessoa que importa. O anfitrião até dedicou um post aos alemães por minha causa(1). É tocante.

E relaxante. Naquela caixa de comentários apercebi-me do stress que é escrever. Se a ideia é mesmo esta, se é clara, se estou a considerar as objecções do outro, que outras objecções pode suscitar e assim por diante. São preocupações que o hábito disfarça mas que estão sempre presentes. Excepto no Dragoscópio. Lá ninguém se importa com o que eu escrevo e acolhem tudo da mesma maneira. É um peso que sai dos ombros. Bem haja a todos.

Infelizmente, não pode ser todos os dias porque aquilo é viciante. Mas foi um bom descanso e já me deu ideias para uns posts. Vou continuar a visitar de vez em quando e até passar lá um bocado sempre que tiver saudades de preservativos na mioleira e outras especialidades da casa.

1- Dragão, 3-5-08, Bunker, sweet bunker.

Terça-feira, Abril 29, 2008

Associação Ateísta Portuguesa

Daqui a cerca de um mês será a escritura de constituição da Associação Ateísta Portuguesa. Quem quiser estar presente pode seguir os desenvolvimentos no Random Precision ou no Diário Ateísta.

O que une os associados é não confiar em coisas do outro mundo, pelo que no resto haverá muita diversidade de opiniões, atitudes e formas de estar. O que é bom. Enquanto os crentes se identificam pelos preceitos da sua religião, cada ateu tem que mostrar o ateísmo apenas na sua maneira de ser e pode ser útil mostrar uma referência mais desligada das idiossincrasias de cada um. Por outro lado, uma associação ateísta é como um rebanho de gatos e a predisposição para o pensamento independente não é uma cola forte.

Mas porque concordo com os objectivos vou-me fazer sócio. E porque não deve haver referendos sobre o aborto nos próximos anos talvez a minha participação até seja pacífica.

«A Associação tem por objectivos:
1. Fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida;
2. A representação dos legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática;
3. A promoção e a defesa da laicidade do Estado e da igualdade de todos os cidadãos independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural;
4. A despreconceitualização do ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social;
5. Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.»


Os estatutos estão disponíveis aqui

Sábado, Abril 26, 2008

XX Jornadas Teológicas, the movie.

A pedido do público, aqui vai a adaptação cinematográfica da minha apresentação. Não sei se eventualmente será possível publicar o debate todo.

Parte 1:


Parte 2:


E parte 3:


Se quiserem descarregar o vídeo, está aqui um avi (Xvid, MP3) com 18Mb.

Posts relacionados: XX Jornadas Teológicas

Sexta-feira, Abril 25, 2008

Treta da Semana: Fósseis frescos.

No debate (1) do dia 23, o Jónatas Machado contou como os paleontólogos deixaram cair um osso de Tiranossauro, o osso partiu-se e «Mary Schweitzer da North Carolina State University» exclamou que o osso estava tão fresco que parecia não ter mais de nove dias. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais é pura coincidência.

A experiência não foi atirar o osso ao chão. No laboratório da Mary Schweitzer verdadeira, mais competente que a protagonista da história do Jónatas, trataram amostras do osso fossilizado com soluções alcalinas durante uma semana para dissolver todo o conteúdo mineral. Como se julgava que um fóssil com esta idade estaria totalmente mineralizado o resultado esperado era não sobrar nada, razão pela qual não se tinha ainda feito buracos em fósseis valiosos para testar esta hipótese. A surpresa foi que, afinal, sobraram vestígios de tecidos orgânicos com estrutura preservada e proteínas.

A personagem do Jónatas exclamou que o osso parecia ter «nove dias». A Mary Schweitzer verdadeira sabe que os ossos não fossilizam em nove dias e explica que a descoberta dela não põe em causa a idade deste fóssil (3). O “homem de gelo” de Bolzano tem cinco mil anos, há mamutes perfeitamente preservados com vinte mil anos de idade e já foi possível extrair e sequenciar fragmentos de ADN de um fóssil de Neanderthal com 38 mil anos. O trabalho de Schweitzer não mostra que a Terra tem seis mil anos. Mostra que substimámos a resistência da matéria orgânica e dá-nos uma técnica promissora para estudar espécies antigas (4).

Não quero acusar o Jónatas de ter mentido deliberadamente porque não tenho provas disso, e a mera suspeita não justifica a acusação. Mas defendo que o Jónatas foi irresponsável ao afirmar este disparate num debate público sem ter confirmado a história. A caricatura dos paleontólogos a deixar cair o osso é ridícula e denigre um trabalho sério de grande qualidade científica. As imagens que o Jónatas mostrou, sem escala, davam a ideia falsa que os fragmentos de alguns milímetros eram grandes nacos de carne. E o osso parecer ter nove dias é simplesmente mentira. Era um fóssil.

É por causa destas coisas que muitos recomendam não debater com criacionistas. A audiência assume que os participantes falam do que sabem e que são honestos e responsáveis nas suas alegações. Por isso acusar o outro de mentir dá a impressão de recorrer a ataques pessoais por falta de argumentos. Quando o Jónatas disse que os cientistas agora põem o chimpanzé a descender do Homem em vez do Homem a descender do chimpanzé eu contrapus que era um mal-entendido. É apenas o bipedalismo nos primatas que parece ser mais antigo do que se julgava e isto não altera o consenso acerca de um ancestral comum aos humanos e chimpanzés. Mas no caso do osso calei-me porque não conseguia desmontar a patranha em poucas frases.

Como a Abobrinha notou, sou menos agressivo nos debates que nestes textos. Aqui posso dar referências, explicar as coisas e ter confiança que uma pessoa razoável vai ficar satisfeita com as evidências que apresento. Num debate posso ser interrompido a qualquer momento, não posso dar material adicional para as pessoas lerem e uma acusação mal fundamentada é sempre vista como um ataque injusto. Mas isso não justifica recusar o debate. Apenas exige que se debata os criacionistas de forma selectiva, tentando explicar o que se pode explicar no debate e deixando para outros meios a refutação detalhada das patranhas que eles despejam.

Este é o 52º post desta rubrica. Um ano seria causa de celebração se não tivesse a sensação de ter que rolar novamente a pedra até ao cimo do monte.

1- XX Jornadas Teológicas, XX Jornadas Teológicas, actualização, XX Jornadas Teológicas, como correu?
2- Science News, Old Softy: Tyrannosaurus fossil yields flexible tissue
3- Nova, Ask Mary Schweitzer
4- Biology News Net, Protein fragments sequenced in 68 million-year-old Tyrannosaurus rex

Quinta-feira, Abril 24, 2008

XX Jornadas Teológicas, como correu?

Eu gostei. Gostei de conhecer em pessoa alguns comentadores aqui do blog, o Jónatas Machado, o Marcos Sabino e o Pedro Romano. Gostei da conversa ao jantar e a organização foi excelente. Pelas perguntas da audiência, relevantes e interessantes, penso que o debate foi esclarecedor. Entre o Jónatas e eu não houve surpresas, visto já andarmos nisto há uns tempos, mas fiquei agradavelmente surpreendido com a recepção aos nossos argumentos.

Em retrospectiva faz sentido. Eu estava com algum receio por ser o ateu no meio dos crentes mas como falei de ciência a minha falta de crença não incomodou. E parece-me que, para o crente moderado, enquanto o ateu está apenas fora da religião o fundamentalista deturpa-a. Penso que foi por isto que a tarefa do Jónatas foi mais difícil.

Não sei quando vão disponibilizar a gravação, nem com que restrições, mas eu gravei a minha apresentação e quando chegar a casa cozinho um vídeo com os slides e a voz. Aproveito para agradecer o convite, o jantar, a moderação e toda a organização, com um obrigado especial ao João Paulo Costa pela sua simpatia e pela paciência de responder aos muitos emails que lhe enviei. Mas o objectivo principal deste post é convidar os comentários de quem assistiu e tinha uma perspectiva menos enviesada do que a minha. Como correu?

Domingo, Abril 20, 2008

XX Jornadas Teológicas, actualização.

Já confirmei alguns detalhes com os organizadores. A entrada vai ser livre, por isso se estiverem em Braga sem nada para fazer na próxima quarta feira à noite dêem um salto à Faculdade de Teologia e venham assistir ao debate entre evolução e criacionismo.

Se não vierem perdem o espectáculo ao vivo mas o debate vai ser gravado. A publicação da gravação depende da autorização dos intervenientes mas penso que pelo menos a minha apresentação poderei disponibilizar.

O debate vai ser moderado pelo director da Faculdade de Filosofia da UCP, que nos sugeriu elaborar uma página resumindo os três pontos principais dos nossos argumentos. Achei a ideia excelente e deixou-me mais optimista. Apesar de violar o meu limite auto-imposto para o tamanho dos posts, decidi pôr aqui o meu resumo na integra.

Teorias e Evolução


Há séculos que a descoberta de explicações naturais tem criado conflitos entre a ciência e religiões que propõem explicações sobrenaturais alternativas. Saliente na nossa sociedade é o conflito entre a ciência e o criacionismo evangélico cristão, que defende uma interpretação literal da Bíblia. Esta doutrina alega que o “Darwinismo” é uma filosofia naturalista e propõe substituí-la pelo criacionismo ou design inteligente. O criacionismo assenta num entendimento incorrecto da ciência enquanto método, enquanto corpo de conhecimento e da forma como a teoria da evolução se insere na ciência moderna.


O naturalismo científico.


Não foi por dogmatismo ou premissa que a ciência rejeitou as explicações sobrenaturais. Pelo contrário, no passado a intervenção divina foi a explicação fundamental para muitos fenómenos e a teologia era a “rainha das ciências”. O criacionismo bíblico foi aceite pela biologia até ao século XIX e Newton explicou a gravitação universal pela acção de Deus. Sem esta, defendia Newton, a matéria inanimada nunca poderia atrair-se à distância.


Quando a relatividade de Einstein substituiu a teoria de Newton fê-lo por explicar fenómenos que a última não cobria e por fazer previsões correctas onde a teoria de Newton falhava. E, ao mesmo tempo, fez desaparecer o mistério que Newton explicava pela acção de Deus. Esta tem sido a norma na ciência dos últimos séculos. Novas teorias científicas vingam por prever melhor e com mais rigor gamas mais abrangentes de fenómenos e por se integrarem melhor umas com as outras. E sempre, até agora, as teorias melhores são as que têm menos de sobrenatural.


Nada obriga a ciência a rejeitar Deus a priori. Foi a sistemática demonstração que as teorias naturalistas são melhores modelos deste Universo fez cair da ciência o sobrenatural.


A evolução da teoria.


Darwin deu um contributo importante à biologia. A teoria da selecção natural elucidou o mecanismo que guia a variação de características numa população tornando os organismos mais aptos a prosperar no seu meio ambiente e substituiu a ideia de espécie como um arquétipo fixo pela noção de espécie como conjunto fluido de populações.


Mas em século e meio muito mudou. A selecção natural de Darwin é hoje uma pequena peça numa teoria da evolução que inclui genes, efeitos moleculares, deriva, mutações neutras e modelos matemáticos detalhados. Darwin não podia imaginar os enormes avanços na microbiologia, genética, bioquímica e biologia molecular que confirmaram e expandiram a sua teoria. Enquanto o criacionismo opõe um mito com vinte e cinco séculos a uma teoria com 150 anos, a teoria da evolução cresceu muito para além da ideia inicial e continua a expandir-se, a revelar novas questões e a desvendar novos mistérios.


A unidade da ciência moderna.


O progresso científico não tem dado apenas explicações melhores e mais detalhadas. Igualmente importante tem sido a unificação das várias áreas do conhecimento. A teoria atómica juntou a química à física. A síntese de compostos orgânicos e a biologia molecular mostraram que a matéria viva se rege pelas mesmas leis naturais que a matéria inanimada. A descoberta da radioactividade resolveu os conflitos entre a astronomia, a geologia e a biologia. São apenas alguns exemplos do encaixe firme entre as teorias científicas modernas. O criacionismo não se opõe apenas à teoria de Darwin mas a toda a biologia moderna, à bioquímica, à física que determina a idade das rochas, à geologia, até à astronomia que nos mostra estrelas cuja luz viaja à milhares de vezes o tempo que o criacionismo permite.


Este conflito desigual põe de um lado a interpretação literal de um mito antigo e, do outro, todo o edifício da ciência moderna, um edifício construído ao longo de séculos de investigação cuidadosa, análise crítica e testes rigorosos às hipóteses propostas.



Post relacionado: XX Jornadas Teológicas

Sexta-feira, Março 28, 2008

Debater ou não debater.

Em Abril do ano passado a Rampant Films pediu entrevistas ao Richard Dawkins, ao P.Z. Myers e à Eugenie Scott para o filme «Crossroads: The Intersection of Science and Religion», aparentemente um documentário sobre ciência e criacionismo. Uns meses mais tarde esta produtora anunciou a participação destes biólogos no filme «Expelled», uma propaganda criacionista acerca de como a ciência proíbe qualquer menção de deuses (1). Do «Crossroads» nunca mais se ouviu. E a sacanice continuou, acompanhada de ironia.

A semana passada Myers foi expulso do cinema onde ia ver o filme «Expelled», no qual participara enganado. A audiência era por convite pedido na página do filme. O P.Z. Myers deu o nome na página, marcou lá que levava mais 3 pessoas e recebeu os quatro convites. Mas quando estava na fila para entrar um segurança mandou-o sair imediatamente do cinema. O engraçado neste episódio vergonhoso é que os 3 acompanhantes eram a mulher e a filha de Myers e o Richard Dawkins (2). Como não pediam os nomes dos acompanhantes o produtor não sabia que o Dawkins ia lá estar e quase lhe dá uma coisa má quando, na sessão de perguntas, o Dawkins se levanta e pergunta porque expulsaram Myers (3).

Seguiram-se desculpas esfarrapadas, tretas e muita gargalhada à custa da maldade mesquinha destes criacionistas. Imaginem o Deus do antigo testamento, que transforma a mulher em sal, arrasa cidades ou inunda o planeta inteiro só porque lhe apetece. Agora imaginem o mesmo personagem mas sem os poderes...

É por coisas como esta que a Palmira considera «que não é boa ideia debates que põem ao mesmo nível evolucionismo e criacionismo como [...] o que acontecerá em Braga para o mês que vem no âmbito das XX Jornadas Teológicas e em que o Ludwig debaterá com Jónatas Machado» (4). Sim... mas não...

A hipótese que um deus criou os seres vivos é uma hipótese científica. Pode-se debater, já se debateu, e foi mesmo por isso que a ciência a rejeitou em benefício de uma hipótese melhor. É isso que eu vou debater em Braga. É importante explicar a teoria da evolução, como ela encaixa na ciência moderna e o que ela esclarece acerca de detalhes que nem se imaginava nos tempos da outra hipótese. E estão ao mesmo nível. É verdade que as evidências contrariam a primeira e que, por isso, a segunda se desenvolveu e é uma explicação muito melhor. Mas são duas tentativas legítimas de descrever a realidade e merecem o mesmo tratamento. Merecem ser confrontadas com o que observamos, independentemente do que queremos que seja verdade.

Este criacionismo moderno do Jónatas Machado é diferente. Não é explicação nem hipótese nem admite alternativas. É fé. É o desejo irrecusável que aquela crença seja verdade. Isso concordo que não vale a pena debater, e estou ciente que o debate vai ser assimétrico. Para o criacionismo moderno vale tudo na defesa da fé.

1- P.Z. Myers, 22-8-07, I'm gonna be a ☆ MOVIE STAR ☆
2- P.Z. Myers, 20-3-08, Expelled!
3- Richard Dawkins, 23-3-08, Lying for Jesus?
4- Palmira Silva, 22-3-08, O regresso de Adão – II

Quarta-feira, Março 19, 2008

Arthur C. Clarke

faleceu esta semana, com 90 anos de idade. Mais uma pessoa a quem devo uma boa parte da minha juventude. Não só pelos livros. O programa dele foi a primeira vez que me lembro de notar que as coisas misteriosas ainda são mais interessantes quando as compreendemos (1).

BBC, Writer Arthur C Clarke dies at 90

1- Wikipedia, Arthur C. Clarke's Mysterious World

XX Jornadas Teológicas

Vou estar em Braga a 23 de Abril para um debate com o Jónatas Machado. O título é estranho, «Razão da Criação ou Fé na Evolução». É como razão da bruxaria ou fé no antibiótico. Mas deve ser um debate interessante.

Cartaz Jornadas

Domingo, Fevereiro 24, 2008

Snowboard.

O meu irmão Bruno pratica snowboard, já foi instrutor de snowboard (1) (mais ou menos) e agora participa num concurso de design de snowboards. Estes são os desenhos com que concorreu.



Agora só precisa de votos para ganhar um Suzuki Grand Vitara e não ter que pedir boleia aos amigos para fazer snowboard. A votação é até dia 28. Se quiserem dar uma ajudinha ou se isto vos interessa é só seguir as ligações que ele dá no KrippArt.

1- Bruno Krippahl, 27-1-08, Guia do Basófias

Sábado, Fevereiro 16, 2008

Acerca dos comentários.

O leitor que assina «Perspectiva» perguntou:

«O Ludwig Krippahl quer agora os participantes do blogue se identifiquem. Provavelmente vai requerer informação biográfica, biométrica e biológica. Vai exigir currículo, fazer um scanning da íris e criar uma base de dados de DNA. [...] A que se deve esta súbita preocupação securitária?»

É o mesmo mal-entendido que levou este leitor a comentar «Porque este blogue é (ainda) um espaço de liberdade, deixo aqui o meu repto ao Desidério Murcho, o mesmo que deixei no Rerum Natura». Este blog não é um «espaço de liberdade», e nunca foi. Não é um jardim onde cada um sobe para o seu caixote e desabafa. Isso é o Blogger. Se o «Perspectiva» quer espaço para a sua liberdade crie um blog e desabafe à vontade. É de graça.

Este é o meu blog pessoal onde eu exponho as minhas ideias à consideração de quem se interessar e onde me disponho a dialogar com quem quiser falar comigo. Um blog pessoal de ideias pessoais e diálogos pessoais. Como tal, espero que não se escondam no anonimato ou atrás de pseudónimos descartáveis, tal como se me telefonassem ou me escrevessem uma carta.

Não exijo identificação, nem ADN nem sequer o nome verdadeiro. Basta uma alcunha estável que me permita ter uma ideia de quem se dirige a mim e com quem estou a dialogar. Por uma questão prática, porque é mais fácil discutir um assunto se sei a quem me dirijo. Não vou discutir genética da mesma forma com um bioquímico e com um jovem de doze anos. E porque um diálogo exige um mínimo de confiança. Não me interessa perder tempo com quem apenas finge dialogar mas só quer chatear dizendo a mesma coisa sob pseudónimos diferentes.

E mesmo este mínimo não é uma exigência. É uma preferência. Quem vem aqui sabe quem eu sou e gostaria que falassem comigo em igualdade de circunstâncias. Se não querem, paciência. Podem comentar à mesma. Não proíbo nem exijo nada. Mas peço que tenham em consideração que estão a falar comigo no meu cantinho. Sintam-se como se estivessem em vossa casa, mas ajam como convidados na minha.

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Obrigado a todos

pelas rezas, mezinhas, energias positivas, bruxarias e votos de melhoras. A infestação parece já estar controlada, porque hoje já não tive febre. Agora resta-me quatro dias de agradáveis efeitos secundários do antibiótico até acabar o tratamento. Até agora só me calharam os mais comuns: náuseas, diarreia e fadiga. Mas a lista é longa e variada, da «ruptura parcial completa do tendão (predominantemente do tendão de aquiles)» à «psicose» passando pela «necrose hepática (muito raramente pode progredir para insuficiência hepática potencialmente fatal)». À parte duma coisa qualquer na vagina que acho improvável que me afecte, ainda muita coisa pode acontecer até terça feira...

Respondendo à pergunta do leitor Zeca Diabo, não faço ideia porque me receitaram ciprofloxacina. Ou a médica do CATUS achou que eu estava a morrer ou então achou bem fazer por isso. À minha mulher receitou claritromicina, um antibiótico de menina que nem sequer faz cair os braços, e os miúdos estão a amoxicilina (Augmentin), os mariquinhas. Parece que só eu é que sou macho para cambalear para a casa de banho a cada meia hora.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Fechado para desinfestação...

Tenho estado a poucos metros do computador mas a febre, indisposição, noites mal dormidas, dores no corpo, tosse e muita ranhoca têm conspirado para me drenar a inspiração. Agora a ciprofloxacina deu-me também diarreia, mas se é para matar a bicharada que anda aqui por dentro já estou por tudo. Espero que nos próximos dias já esteja capaz de dizer mal de alguma treta.

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

Desejos de um bom período arbitrário de 366 dias a começar amanhã.

Um ano sideral é o tempo que a Terra demora a dar uma volta ao Sol, em relação às estrelas. Trezentos e sessenta e cinco dias, seis horas e nove minutos. Aproximadamente. O ano tropical é o período dos solstícios e equinócios. As quatro estações. É vinte minutos mais curto que o ano sideral.

Hoje não se celebra nada disto.

Hoje à meia noite é (aproximadamente) a hora em que o observatório de Greenwich está de costas para o Sol. Como nós estamos perto desse meridiano vai ser a essa hora que vamos todos contar os segundos, abrir garrafas de champanhe e gritar Iééée! Uma contagem decrescente para o momento exacto de... bem, de coisa nenhuma.

Mas que a minha falta de vontade de cumprir a obrigação de “festejar” a entrada neste período arbitrário de tempo não vos estrague a diversão. Desejo a todos uma boa noite e que os próximos 366 dias vos corram bem.

Domingo, Dezembro 30, 2007

O post do ano de 2007.

Foi o sexto post da rubrica «Treta da Semana», a 28 de Maio. Com mais de meio ano ainda é a página mais visitada deste blog em muitos dias. Cerca de metade das visitas ao meu blog são via pesquisas por “kevin trudeau”, “curas naturais” e afins. Tem 74 comentários, o último colocado hoje. E apesar de não ser o mais comentado, tem muitos comentários que merecem destaque. Deixo aqui alguns excertos.

«Eu usei a água oxigenada nos pés para eleiminar odores, e realmente funcionou...» (eu uso água com sabonete e também resulta bem).

«Não vamos ser ingênuos, Papai do Céu fez tudo certinho... Quando fez a natureza, Ele sabia que nós poderíamos usufruir de toda ela para nosso prazer e saúde!!!» (certo... não vamos ser ingénuos).

«não sou médico diploamdo nem algo assim mas em certa ocasião peguei um virus ou coisa assim. Muito parecido com essa tal de Herpes, vi as fotos na internet [...]. Eu aplicava sabão neutro nas referidas partes intimas até fazer muita mas muita espuma e saia para trabalhar sem emxaguar com o sabão a secar na pele. »

«O modo que esse Kevin falou foi tão lógico que me fez calar a boca, ou melhor, o pensamento.»

«ele diz a verdade !!!!!!!!!!» (citado na íntegra...)

«PSORÍASE – [...] Alguém me sugeriu que fizesse o método amaroli (tomar a própria urina) [...] o tratamento é tão simples que eu resumo em uma frase: Evitar o excesso de carnes vermelhas que dão gosto ruim a urina e comer mais frutas e verduras, e então passar a tomar a sua própria urina (eu dispensava o primeiro jato que é o que limpa o canal da uretra).»

«Os americanos bloqueiam qualquer coisa que possa desbancar os remédios das Indústrias farmacêuticas. Uma ocasião importei um remédio chamado ESSIAC que tirou muita gente da fase terminal de câncer, mas tive que encomendar do canadá porque se viesse dos EEUU eles abrem e mexem na composição para não fazer efeito.»

Mais em Treta da Semana: Kevin Trudeau

Não o nomeio post do ano de 2007 apenas pela popularidade, mas principalmente porque, quando o escrevi, não sabia como era possível o Kevin Trudeau fazer tanto dinheiro com esta treta.

Agora já sei...

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Mas religião não...

Hoje de manhã tivemos uma reunião com a professora dos miúdos (primeira classe). Ela sugeriu que os pais fossem lá falar à turma. Ao longo do ano lectivo, em cada semana o pai ou a mãe de um dos alunos vai lá falar meia hora sobre qualquer coisa. Será bom os miúdos verem os pais a participar no seu ensino, e a professora disse que podemos falar sobre o trabalho, ou valores cívicos, ou até ir lá a avó dizer como eram as coisas antigamente. Tudo. Menos religião.

Bolas. Até compreendo a professora. Se deixasse o pessoal falar de religião ia haver chatice com os pais. Os crentes, claro, porque aos ateus tanto faz. Se fosse lá um evangélico falar aos miúdos já tínhamos com que nos entreter lá em casa. Era risada até à meia noite. E eu concordo com o Daniel Dennett que a educação religiosa devia ser obrigatória desde a primeira classe. Não a fantochada que nós temos, com diferentes programas para os miúdos conforme a religião que calhou aos pais, mas uma educação religiosa igual para todos, consistindo do que é consensual acerca das religiões.

Não há consenso acerca da ressurreição de Jesus ou da natureza divina de Siddharta Gautama. Uns acreditam, outros nem por isso. Mas é consensual que os Cristãos acreditam que Jesus ressuscitou, que os Muçulmanos veneram Allah, que os Judeus dizem ser o povo escolhido e que os Hindus chamam sagrado ao que nós chamamos gado. São factos, é útil sabê-los e devíamos ensiná-los às crianças para saberem o que é a religião antes de decidirem se faz sentido para elas. E isto choca muitos crentes.

Choca porque não é propriamente a doutrina que torna a criança num crente. O factor principal é a criança ignorar as alternativas. Os pais têm que proteger o rebento de ideias diferentes para já estar encarrilado quando tiver idade para o mistério da Trindade ou o dever da peregrinação a Meca. Nessa altura Já a religião “certa” lhe parece natural e as outras um bocado estranhas. O medo do crente é que a criança descubra que as religiões são todas um bocado estranhas.

Agora tenho que arranjar um tema inofensivo que não tenha nada a ver com religião. Evolução? Pensamento crítico?