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Terça-feira, Agosto 19, 2008

Pegas

Se virmos que a figura no espelho tem um autocolante na cabeça facilmente reparamos que está na nossa e o tiramos. Parece trivial mas exige a capacidade de reconhecer que o espelho representa o que nós somos e poucos animais são capazes de o fazer. Até agora, que se saiba, só alguns primatas e as pegas (1).

É fascinante que a inteligência surja de formas tão diversas na natureza. Mas não é de espantar. Também há muitas formas de revestimento da pele, de membros, de comportamentos e metabolismos. Em cada ser vivo combinam-se as características que ajudaram os seus antepassados a reproduzir-se. São tão diversas e tão úteis porque surgem como solução para necessidades também diversas.

Por isso um deus omnipotente ser inteligente faz tanto sentido como um deus omnipotente ter penas. É certo que, da nossa perspectiva, a inteligência é uma grande coisa. Mas se os morcegos tivessem deuses os deles teriam sonar. Deus de peixe sabe nadar. O facto é que a inteligência é apenas mais uma das muitas características que os seres têm porque ajudam a colmatar alguma necessidade. Penas para não ter frio, dentes para morder, cérebros para pensar. Nós e as pegas conseguimos perceber que a imagem no espelho representa o nosso corpo porque um cérebro capaz desse raciocínio ajuda-nos a sobreviver e reproduzir. Mas um ser omnipotente precisa tanto disto como de pêlos no nariz. Se Deus existe, se lhe colarem um autocolante na testa e lhe mostrarem um espelho Ele não vai saber o que fazer. Para que precisa ele de tal capacidade?

O mesmo se passa com as outras características que Lhe atribuem apenas porque as prezamos como humanos. Deus ama, fala, pensa, compadece-se, zanga-se, castiga e uma data de outras coisas que são úteis para macacos tagarelas como nós mas que não servem de nada a um ser eterno e omnipotente.

E mais triste que esta crença incoerente é o que custa querer acreditar que a natureza foi criada de propósito por algo inteligente. Essa luta contra o óbvio impede de ver a riqueza de formas com que a Natureza, sem querer, cria inteligências.

1- BBC, Magpie can 'recognise reflection'

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Spam divino.

O Mats escreveu acerca de um filtro de spam desenvolvido por Alaa Abi-Haidar e Luís Rocha. O filtro (1) baseia-se num modelo da regulação do sistema imunitário de vertebrados (2). Neste modelo, a capacidade do organismo distinguir entre si próprio e invasores emerge da competição entre populações de linfócitos que estimulam (TE) ou reprimem (TR) a resposta do sistema. As referências têm os detalhes mas queria focar o aspecto emergente do mecanismo.

Cada célula reage apenas às condições locais. Um linfócito TE divide-se se encontra o antigénio sozinho ou na companhia de outro TE, aumentando a resposta do sistema. O TR divide-se quando encontra um antigénio na companhia de um TE, inibindo a proliferação do TE e reprimindo a resposta do sistema. Estas populações pendem para uma maioria de TR ou de TE em função da quantidade de antigénio e das quantidades iniciais de cada linfócito. Isto que dá ao nosso sistema imunitário a capacidade de distinguir, na maioria dos casos, entre as nossas células e os agentes infecciosos. Não é um sistema perfeito mas é muito eficaz, e um sistema análogo poderá melhorar os nossos filtros anti-SPAM criando imunidade electrónica a essas pragas. E o interessante é que a propriedade quase inteligente de distinguir o bom e o mau emerge da interacção de agentes, células ou funções, sem qualquer inteligência individual.

O Mats chama a isto «Aprendendo com Deus» (3) porque «os sistemas biológicos não se arquitectaram a si próprios, nem a ciência dentro deles é produto deles mesmos». Eu pedi ao Luís que comentasse esta afirmação do Mats, e ele teve a amabilidade de me escrever: «A minha resposta a este comentário é que quem [o] fez não sabe a diferença entre modelo e realidade. Qualquer modelo é à partida feito por um agente epistémico, por isso, qualquer modelo necessita de ter as suas regras espcificadas pelo modelador. A conclusão de que a realidade será também especificada por um modelador inteligente não pode ser provada ou refutada; necessita de um acto de fé, o que mete a questão fora do âmbito da ciência.»

Sem querer ou de propósito, os criacionistas insistem em confundir o mapa com o território (4). Não há «ciência dentro» do ângulo formado pelos átomos de hidrogénio e o átomo de oxigénio da água, por exemplo. A ciência está em quem quer medir, calcular e compreender porque é que este ângulo tem aquele valor (5). A lagarta come maçã sem saber bioquímica e a chuva chove sem perceber nada do que faz. A ciência é o método pelo qual nós compreendemos os processos.

Eu sou menos generoso que o Luís. A hipótese de um Criador do universo é impossível de refutar, comprovar ou sequer testar. Se só houvesse esta a hipótese não poderíamos concluir nada. Qualquer conclusão seria adivinhar à sorte. Mas há infinitas hipóteses na mesma situação: Deus; a Tia dele; o Supra-Deus que criou Deus; eu, que posso ter criado o universo e depois ter me esquecido, e assim por diante. São todas irrefutáveis e impossíveis de testar. Por isso aceitar uma delas em detrimento das outras é injustificável. Seja por fé seja por um-dó-li-tá. O mais razoável é rejeitá-las todas por omissão até que haja evidências que favoreçam claramente uma delas.

Mas este post é acerca de outra coisa. O objectivo do criacionismo moderno é destruir o “materialismo científico”. «Se virmos a ciência materialista predominante como uma árvore gigante, a nossa estratégia pretende funcionar como uma “cunha” que, mesmo que relativamente pequena, pode rachar o tronco se aplicada nos pontos mais fracos» (6). Isto passa por denegrir o trabalho científico. O Jónatas Machado deu um exemplo com a sua rábula da Mary Schweitzer deixar cair o fóssil ao chão (7) e o Mats quer fazer o mesmo alegando que a ciência está no sistema imunitário.

O sistema imunitário dos vertebrados é interessante porque “aprende” sem qualquer inteligência. Nada neste sistema sugere antecipação inteligente, nem no funcionamento nem na concepção. Pelo contrário; é só geração cega e testes a posteriori. Os genes dos linfócitos são criados ao acaso. Se lhes dá para atacar o nosso corpo são eliminados e se lhes dá para atacar doenças proliferam.

A inteligência está em desvendar e compreender esta complexidade emergente e em abstrair daí modelos que se apliquem a outras situações. Como filtros anti-spam. Os criacionistas querem pôr toda a inteligência no deus deles (e só no deles) e deixar-nos a pasmar boquiabertos. Felizmente ainda há muita gente que prefere pensar que pasmar, senão andávamos a escrever blogs em placas de argila.

1- Abi-Haidar e L.M. Rocha, Adaptive Spam Detection Inspired by a Cross-Regulation Model of Immune Dynamics: A Study of Concept Drift.
2- Jorge Carneiro et al, When three is not a crowd: A crossregulation model of the dynamics and repertoire selection of regulatory CD4 T cells, Immunological Reviews, Volume 216, Number 1, April 2007 , pp. 48-68(21) (preprint em pdf).
3- Mats, 6-8-08, Sistema Imunitário e Spam: Aprendendo com Deus
4- O Mapa e o Território
5- London South Bank University, Water molecule
6- The Wedge Strategy, ver também na Wikipedia.
7- Treta da Semana: Fósseis frescos.. Mas entretanto há indícios que o material orgânico nos fósseis pode ser contaminação bacteriana.

Terça-feira, Agosto 12, 2008

A Resposta ao falhanço do naturalismo ateu.

Um texto de Constâncio Ladainha, criacionista e gertrudista.

O estimado Perspectiva comentou aqui neste blogue um post do De Rerum Natura (1). Vem a propósito porque ambos os blogues são da autoria de naturalistas ateus e, por isso, compreende-se a resposta num ao que está escrito no outro. Não é, de forma alguma, tentativa de protagonismo. E apesar de não ter nada a corrigir ao comentário esclarecedor do Perspectiva, excepto talvez ele ter omitido Gertrudes, a quarta Pessoa Divina e veículo da criação do Pai, como sei que o dogma naturalista dificulta a compreensão da Palavra achei por bem frisar alguns aspectos que me parecem especialmente notáveis.

O mais importante é que a Bíblia, a nossa Fé, e a Revelação, são a via certa para a Resposta. A Verdade é só uma e, por isso, todas as perguntas têm que ter a mesma resposta. A saber, que é assim pela vontade de Deus e por intermédio de Gertrudes. O post original enumerava alguns mistérios da ciência, questões que a ciência não sabe responder mas que têm uma resposta clara e evidente. Passo a citar o excelente comentário do meu caro Perspectiva:

«1. Porque há qualquer coisa em vez do nada?
Porque tudo o que existe foi criado por um Deus infinito[...]
2. Como surgiu a vida?
Ela foi criada pela Palavra de Deus [...]
Quando Deus criou as galinhas [...]
A consciência [...] é um reflexo do facto de termos sido criados à imagem de Deus [...]
O nosso mundo depende [...] da informação que lhe é fornecida por Deus[...]
O tempo é uma criação de um Deus eterno»


E assim por diante. É esta a resposta: Foi Deus. O Mats, que também tem tentado ajudar o Ludwig e outros ateus a compreender os erros do evolucionismo, salientou várias vezes que as ciências naturalistas usam métodos diferentes para abordar problemas diferentes. Ou seja, a fé no naturalismo faz com que perguntas diferentes tenham respostas diferentes. É uma confusão.

E as respostas científicas são contingentes. Só parecem acertar e ter alguma utilidade porque o Universo é assim como é. Mas se não fosse não serviam para nada. Por exemplo, os evolucionistas alegam que os mamíferos não têm guelras porque os seus antepassados comuns mais recentes já não as tinham. É uma história bonita mas só porque não há mamíferos com guelras. Se houvesse golfinhos ou baleias com guelras o disparate seria óbvio e toda a gente veria esta hipótese como ridícula. É por causa desta fragilidade que as ciências têm que a mudar as explicações com tanta frequência, como se a verdade fosse uma num dia e outra no dia seguinte.

Não é. A Verdade é sempre a mesma. Foi Deus, por intermédio de Gertrudes. Se não há golfinhos com guelras é porque Deus não quis. E se houvesse golfinhos com guelras, pois seria porque Deus queria. Esta é uma hipótese que só pode ser verdadeira. Vou explicar melhor com uma analogia. As ciências tentam construir um modelo da realidade usando várias hipóteses como ferramentas. São chaves de fendas, serrotes, martelos e alicates, cada uma para o seu propósito, cada uma usada se servir ou deitada fora se não for adequada. Mas o criacionismo é Verdade. Serve em todo o lado e molda-se perfeitamente à realidade qualquer que esta seja. É como uma bola de plasticina. Haverá ferramenta melhor do que esta?

1- Os dez maiores enigmas da ciência, no De Rerum Natura, e Até um relógio parado, aqui.

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Até um relógio parado

está certo duas vezes por dia. O Mats, no seu blog “Darwinismo”, escreveu:

«Não contentes com as já existentes e mutuamente exclusivas teorias naturalistas sobre a origem da vida, os evolucionistas avançam com mais uma para a colecção. (Alguma há-de estar certa!)»(1)

Ora aí está. A “teoria” que o Mats refere é uma hipótese especulativa. Investigadores na universidade de Ulm demonstraram que a superfície do diamante catalisa a formação de moléculas orgânicas complexas em presença de hidrogénio (2). Isto levou-os a propor que este processo terá originado a vida na Terra. É uma hipótese ainda com muito trabalho pela frente.

Mas o Mats tem razão. Os cientistas avançam sempre com muitas hipóteses. Quanto mais melhor. Porque querem encaixá-las umas nas outras e nos factos e precisam de muitas porque as que não encaixam vão fora. E um puzzle tão complexo como a Natureza precisa de muitas peças até que se perceba o boneco. Infelizmente, o mérito é mesmo só das horas. O Mats, como outros criacionistas, desaprova desta coisa de fazer puzzles encaixando muitas peças diferentes. Para eles o puzzle bom só tem uma peça, graças a Deus.

1- Mats, Diamantes e a Origem da Vida
2- Earth Times, We all started out as diamonds in the rough, German scientists say

Quinta-feira, Julho 24, 2008

Prova irrefutável.

Esqueçam os desenhos de dinossauros que os criacionistas usam para provar que a Terra tem menos de dez mil anos de idade, como estas gravuras do século XV.

Dinos

Agora temos provas irrefutáveis que a Terra afinal foi criada em 1956. Os auto-intitulados “peritos” alegam que esta figura tem cerca de dois mil anos de idade e que fazia parte da decoração de um caixão “Romano”. Esta é uma de muitas "civilizações" que inventaram para defender a premissa naturalista de uma Terra mais antiga que o Rock ‘n’ Roll. Um absurdo. Que propósito serviria criar isto tudo sem Rock ‘n’ Roll? E não disse o Rei claramente, no lado B de Heartbreak Hotel: «I was the One»?

As provas estão aqui. Só não vê quem não quiser. Devemos aceitar o Rei no nosso coração, abraçar o Rock ‘n’ Roll e redimir a Humanidade do pecado do Disco e das abominações que se seguiram.


O Rei

Está aqui um relato naturalista e ateu desta magnífica descoberta.

Quinta-feira, Julho 03, 2008

Miscelânea Criacionista: a areia, o umbigo, e a infância de Adão.

Um argumento criacionista comum é que os seres vivos são tão complexos que não se podem ter formado gradualmente. Como um relógio ou um rádio, é preciso ter todos os componentes no sítio certo, coração, pulmões, fígado, tudo bem encaixado e coordenado senão morremos. Treta. Ao contrário do relógio, nós crescemos. Começámos numa célula que se dividiu em muitas que depois se diferenciaram. Gradualmente. O cérebro humano, que os criacionistas alegam ser a máquina mais complexa do universo*, começa como uma massa de neurónios imaturos e só com os anos é que vai adquirindo essa complexidade. Muitos anos, em alguns casos. No meu já lá vão 36 e, segundo a minha mulher, tenho menos juízo que os nossos filhos.

O desenvolvimento não é o mesmo que a evolução mas dá um exemplo imediato de como o complexo emerge naturalmente do simples. E estamos cá para ver gaivotas a surgirem cada uma de uma célula de gaivota. Os criacionistas dizem que isto não conta porque já lá está o ADN cheio de informação codificada. Mas o ADN é só uma molécula. É uma molécula grande e complexa mas muito mais simples que uma gaivota ou um cérebro humano. A informação no meu ADN cabe num CD; só em fotografias dos miúdos tenho dez vezes isso. E se a máquina mais complexa do universo surge naturalmente de uma molécula temos que aceitar a possibilidade dessa molécula ter uma origem mais humilde que o acto infinitamente inteligente de um deus todo poderoso. Então gaivotas dão gaivotas mas montanhas dão ratos?

Sermos o produto do nosso desenvolvimento originou importantes discussões teológicas acerca do umbigo de Adão** e a famosa hipótese onfálica de Philip Gosse (1). Segundo esta, Deus teria criado Adão com umbigo e os estratos geológicos com fósseis para dar a aparência que Adão tinha antepassados e a Terra era mais antiga. Uma versão extrema desta hipótese, o ultima-quinta-feirismo, defende que o universo foi criado instantaneamente na quinta feira passada, incluindo umbigos, fósseis e todas as memórias de tempos anteriores (2).

Os criacionistas não chegam a este extremo, até porque estão ocupados com outros, e muitos cristãos defendem que Adão não tinha umbigo. Mas isso não resolve o problema dos músculos, flora intestinal, anticorpos e inúmeras características que adquirimos pelo desenvolvimento. E Adão sabia andar e falar. No conto criacionista, Adão é um humano intelectualmente mutilado pois sabe coisas sem a experiência de as aprender. Ou então Deus enganou-o com memórias falsas da sua infância, de gatinhar e dizer as primeiras palavras.

Não é só o desenvolvimento de cada organismo que é histórico e gradual, com cada passo partindo do anterior. No outro lado da escala vemos o mesmo. A areia é composta, em grande parte, por fragmentos de conchas. Se Deus criou a Terra há seis mil anos só com rocha vulcânica não havia tempo para se formar a areia das praias e do fundo do mar nem as rochas sedimentares. Então a Terra já tinha areia com pedaços de conchas que nunca existiram e rochas sedimentares formadas pela compressão fictícia de areia que nunca o foi. O mesmo para os ecossistemas. Uma floresta não é só organismos vivos. Tem troncos a apodrecer, folhas mortas, húmus e uma data de restos essenciais ao funcionamento do sistema.

É claro que se admitimos milagres então vale tudo. Se no Paraíso os leões comiam brócolos também as árvores podiam crescer no basalto e a areia aparecer por magia. Ou o universo pode ter sido criado na quinta feira passada. Nada disto se pode provar ser falso. Mas o que importa é que, tal como o crescimento dos organismos, a formação das rochas e o desenvolvimento de ecossistemas, também a evolução das espécies mostra esta complexidade especial. A complexidade da árvore, da mente humana e da montanha, a complexidade que resulta de uma transformação gradual e cumulativa. Não é a complexidade artificial do relógio ou da caneca das Caldas.

* O universo dos criacionistas é só a Terra e os animais nem contam.
** E ainda dizem que a teologia não serve para nada...

Editado para trocar a fauna por flora no intestino do Adão. Obrigado Bruce.

1- Wikipedia, Omphalos
2- The Church of Last Thursday

Terça-feira, Julho 01, 2008

O Carbono-14.

Agradeço esta sugestão da Joaninha porque é um bom exemplo para um post que tenho na calha. O carbono-14 (14C) é um isótopo radioactivo que se transforma espontaneamente em azoto. Em cerca de 5700 anos metade do 14C desaparece por este processo. Mas como o 14C é formado continuamente na atmosfera, em reacções nucleares desencadeadas pelos raios cósmicos, a qualquer momento cerca de um em cada milhão de milhões de átomos de carbono é 14C.

As plantas e algas incorporam-no na fotossíntese, os animais comem-no e, aproximadamente, qualquer ser vivo tem esta pequena fracção de 14C. Mas quando morre deixa de incorporar 14C e, como este decai espontaneamente, perde metade deste isótopo a cada 5730 anos. Isto permite datar a morte do organismo medindo a proporção de 14C para 12C, o isótopo estável e mais comum do carbono. Em teoria é simples.

Na prática é mais complicado. A proporção de 14C para 12C depende do ciclo de carbono. Em ambientes terrestres as plantas incorporam o carbono da atmosfera mas em ambientes marinhos o carbono dissolvido vem em parte da atmosfera e em parte da dissolução de carbonatos mais antigos. Em média, o carbono marinho é cerca de 400 mais “velho” que o terrestre (a contar de quando esteve exposto na atmosfera).

A quantidade de 14C criada na atmosfera também varia ligeiramente com as flutuações no campo magnético da Terra (que deflecte os raios cósmicos). Isto resulta em alguma ambiguidade na datação. Por exemplo, material orgânico de cerca de 1660 não pode ser distinguido de algum material do século XX porque têm a mesma proporção de 14C para 12C. Por outro lado, as bombas nucleares detonadas na atmosfera entre 1945-55 duplicaram a produção de 14C nesse período, permitindo uma datação bastante precisa do material dessa altura. Mas para material antigo o erro é relativamente pequeno. Com valores calibrados pode-se datar pelo 14C materiais com vinte mil anos com uma margem de erro de 15%.

Para calibrar a correspondência entre a proporção de 14C e a idade é preciso amostras com idades conhecidas, que se pode obter das árvores. No inverno a árvore cresce menos que no verão e, como a madeira nova cresce na zona interior à casca, criam-se os conhecidos anéis anuais de crescimento, alternando madeira clara e escura. O espaçamento dos anéis varia de ano para ano com a temperatura e pluviosidade, criando padrões comuns a todas as árvores da mesma região. Estes padrões podem ser sobrepostos em árvores com idades diferentes para seguir a história das árvores até há quase doze mil anos atrás. Outros processos, como a deposição anual de sedimentos ou microorganismos e o decaimento radioactivo de outros isótopos, permitem calibrar a datação por 14C até aos quarenta mil anos antes do presente (1).

Há quatro aspectos aqui que eu queria salientar agora e elaborar num próximo post. Primeiro, todas as hipóteses acerca do decaimento radioactivo, do ciclo do carbono e dos vários processos usados para datar as amostras, são hipóteses testáveis. Não se recorre a milagres ou mistérios. Segundo, estas hipóteses encaixam num sistema que permite resolver problemas e responder perguntas. Se um método dá erros pode-se recorrer a outros para o calibrar. Terceiro, dá-nos informação nova. Não é apenas uma história inventada para enquadrar o que observamos; é uma ferramenta para prever aquilo que ainda não observámos. Finalmente, não há explicação melhor para a coerência destes resultados.

Aqui aponto, mais uma vez, o contraste entre ciência e criacionismo. Os criacionistas não gostam dos métodos de datação porque não encaixam no seu universo com poucos milhares de anos. Por isso alegam que são todos falsos porque talvez o decaimento radioactivo tenha variado ou talvez tenha havido um milagre qualquer e seleccionam alguns casos onde os resultados não foram os esperados. Mas isto só lhes dá um conjunto desconexo de desculpas. Não serve para refutar uma rede interligada de hipóteses e observações que se encaixam tão bem umas nas outras.

Mais informação na Wikipedia e na Universidade de Utrecth.

1- Stein, Goldstein, Schramm, Radiocarbon calibration beyond the dendrochronology range

Segunda-feira, Junho 23, 2008

O melhor argumento criacionista.

Domingo, Junho 22, 2008

Treta da Semana: Ciência Evangélica.

O leitor Barba Rija criticou-me por dedicar posts inteiros a certos disparates evangélicos, conferindo-lhes «uma dignidade que não compreendo de onde nasceu.» Admito que dou alguma visibilidade a estas coisas, mas 400 visitas diárias não devem fazer muita diferença. E pode ser que seja melhor ignorar e esperar que passe sozinho. Mas eu prefiro enfrentar o disparate, expô-lo e criticá-lo. Porque a treta é como a barata; prefere deixar-se ver só pelo canto do olho. E porque é mais divertido. Barba Rija, se não fosse tanta gente que acredita, estas coisas eram de chorar a rir.

Por isso o prémio desta semana vai para a secção «Observatório-Textos-Ciência» do Portal Evangélico (1). Julgo pelo conteúdo que o segundo “-“ se deve ler “menos”: «Encontrado O Carimbo De Jezabel»; «A Historicidade Do Dilúvio»; «Físico E Pesquisador De Origem Síria Defende Criacionismo E Aponta Erros Do Darwinismo E Do Evolucionismo Teísta» (sim, isto é um título).

Este último ilustra a estratégia criacionista do «se não tens razão repete mentiras até que peguem». O físico e pesquisador de origem síria, qualificações indispensáveis para criticar a biologia moderna, aponta que «Nunca foi constatada evolução de uma espécie para outra», o que é falso (2); «as descobertas de fósseis de elos perdidos são farsas», o que ou é falso (3) ou é disparate, visto que só são perdidos até serem descobertos; «Até hoje nenhum cientista conseguiu simular a origem da vida em laboratório», o que representa de forma enganadora a investigação nesta área (4); e que «Isso nunca será possível, pois a vida não é um fenómeno da natureza, mas um milagre que somente Deus pode operar.» A tese do milagre, presume-se, foi demonstrada cientificamente. Mas não nos explica como.

No texto «A Historicidade do Dilúvio», Claudionor Corrêa de Andrade explica que o «Dilúvio pode ser comprovado tanto histórica quanto cientificamente.» E dá-nos as provas. Primeiro, pela definição etimológica e teológica das palavras. Depois pelo relato no Génesis, corroborado pelo livro de Isaias, o evangelho de Mateus e o livro de Jó. A isto chama «Evidências bíblicas do dilúvio universal». A isto chamo “ouvi dizer”.

Depois vêm as «Evidências científicas e históricas». Dados concretos e sólidos como numa «série de tijolinhos, gravados em caracteres cuneiformes, uma narrativa bastante similar à do dilúvio bíblico», ou «relatos de aviadores, indicando a presença de um grande barco na região de Ararate, onde pousou a Arca de Noé». E este, especialmente engraçado:

«Argumentam ainda alguns pseudo-cientistas que seria impossível cobrir altos montes como o Everest, cujo topo ultrapassa os 7 mil metros. Todavia, a altitude média do planeta é de apenas 800 metros acima do nível do mar, ao passo que a profundidade média dos oceanos é de 4 mil metros.»

A altitude média é de 800 metros mas para cobrir o Everest é preciso elevar o nível do mar 7 mil metros. Como os oceanos cobrem 70% da superfície da Terra, isto exige mais do dobro da água que agora temos. O problema não é só estas alegadas evidências serem ridículas e as evidências contra um dilúvio universal serem tantas e tão sólidas (5). O maior problema é pôr tanta gente a acreditar que a ciência é esta fantochada. Se a investigação científica assentasse em tijolinhos cuneiformes e relatos de aviadores tínhamos rezas em vez de antibióticos e sacrifícios em vez da meteorologia. Mas é mesmo isso que eles querem...

1- Portal Evangélico, Observatório-Textos-Ciência
2- Joseph Boxhorn, Talkorigins.org, Observed Instances of Speciation
3- Wikipedia, Transitional Fossil
4- Albrecth Moritz, Talkorigins.org, The Origin of Life
5- Mark Isaak, Talkorigins, Problems with a Global Flood

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Evolução: Imprinting.

O primeiro post desta série foi sobre a forma como a selecção natural obriga os genes a colaborar, mesmo quando em espécies diferentes (1). Os genes para a velocidade da gazela propagaram-se graças aos genes para a velocidade da chita e vice-versa. Mas os exemplos mais extremos de colaboração entre genes são os organismos. Neste momento, as cópias dos genes que eu tenho contribuem igualmente para o meu sucesso reprodutivo. Só assim têm conseguido passar pelas gerações dos meus antepassados durante milhões de anos. Isto fez desta equipa de genes colaboradores natos. Pelo menos agora que sou adulto. Mas durante os primeiros nove meses da minha vida não foi bem assim.

As equipas de genes nos meus antepassados femininos, da minha mãe aos primeiros mamíferos, foram pressionadas pela competição para controlar o tamanho do feto. Um bebé enfezado tem menos probabilidade de sobreviver, mas se cresce demais tira demasiados nutrientes à mãe e reduz-lhe a possibilidade de ter mais descendentes. Em contraste, os genes nos meus antepassados masculinos tinham vantagem em fetos maiores. A mãe não poder ter mais filhos não os afectava porque o pai podia à mesma. E filhos maiores têm mais probabilidade de sobreviver, favorecendo a propagação dos genes do pai. O resultado é que nos primeiros nove meses da minha vida alguns dos meus genes estavam a “tentar” fazer-me crescer mais do que aquilo que outros dos meus genes “queriam”*.

Um problema é que os genes estão misturados no zigoto e os do pai até podem ser cópias idênticas aos da mãe. A pressão selectiva para que actuassem de formas diferentes no embrião originou o imprinting, uma modificação química selectiva que altera ligeiramente o ADN naqueles genes conforme vem do pai ou da mãe. Quase todos os genes afectados intervêm no crescimento embrionário e na formação da placenta.

Por exemplo, um factor de crescimento semelhante à insulina (IGF2, de insulin-like growth factor 2) é produzido em grandes quantidades por genes que vêm do pai enquanto os seus homólogos herdados da mãe ficam inactivos. Por outro lado, o repressor IGF2R, que se liga ao IGF2 e o inactiva, é produzido em grandes quantidades apenas pelos genes herdados da mãe. O resultado foi uma guerra aberta entre os genes dos meus pais durante o meu desenvolvimento embrionário. E se um dos lados se descuidasse eu tinha morrido ou ficado seriamente deformado**.

O imprinting genómico ilustra vários pontos importantes. Mostra que não podemos levar à letra a metáfora do ADN como código ou linguagem. Ao contrário das palavras escritas ou faladas, no ADN conta a caligrafia e a pronúncia. São moléculas, reagem, e mesmo que os genes tenham a mesma sequência pequenas alterações químicas fazem diferença. Mostra também como a competição entre genes nas populações dá origem a redes complexas de relações de colaboração e competição entre organismos e até dentro de cada organismo, com equipas de genes a mudar alianças mesmo durante a vida de um indivíduo.

E é um bom exemplo da capacidade da teoria da evolução para explicar e prever observações. A hipótese que o conflito entre os genes dos progenitores dá origem a esta marcação do ADN prevê que haja imprinting nos organismos em que o embrião consegue afectar os nutrientes que recebe da progenitora. Isto acontece nos mamíferos e nas plantas que produzem sementes, e em ambos os casos há imprinting de genes que regulam o desenvolvimento embrionário (2). Prevê também que não haja imprinting destes genes nas aves. Como o ovo já está formado quando o embrião se começa a desenvolver a quantidade de nutrientes que a progenitora investe é controlada exclusivamente pelos genes que estão na progenitora. O embrião não tem voto na matéria, por isso não é preciso distinguir de onde vêm os genes que regulam o seu crescimento. Essa previsão também foi confirmada (3).

Os criacionistas podem vasculhar a Bíblia de ponta a ponta que não vão encontrar explicação para as guerras de genes dentro dos embriões. Dirão que é o pecado mas isso serve para tudo. Não é explicação; é desculpa. E nem num mês de Domingos com missas de manhã à noite se vão inspirar para prever detalhes destes. Para ideias vagas e confusas o criacionismo parece ser adequado. Mas para perceber os detalhes é preciso a teoria da evolução

* Como mencionei no segundo post desta série, estas perspectivas intencionais ou de design propositado dão explicações confortáveis. Mas para que não vá um criacionista rechaçar a explicação e converter este blog em criacionismo deixo esta nota para esclarecer. Os genes não fazem de propósito. É apenas o resultado de só terem sobrado os que o faziam enquanto os outros ficaram pelo caminho.
** A barriga que tenho agora, admito, é culpa minha.

1- Evolução: A selecção natural.
2- Wikipedia, Genomic Imprinting
3- Nolan CM, Killian JK, Petitte JN, Jirtle RL, Imprint status of M6P/IGF2R and IGF2 in chickens. Dev Genes Evol. 2001 Apr;211(4):179-83. Sumário

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Evolução: Como se fosse de propósito.

William Paley propôs a famosa analogia do relojoeiro. Se encontramos um relógio inferimos que foi criado por um relojoeiro porque algo tão complexo só pode resultar de um projecto inteligente executado de propósito. Pela mesma razão, argumentou Paley, o universo tem que ter um criador inteligente que planeou isto tudo. Antes de olhar para os problemas da analogia quero salientar que esta visão teleológica pode ser útil.

Podemos descobrir muito acerca de algo sem conhecer detalhes se o imaginarmos como criado de propósito para desempenhar uma função, o que o Daniel Dennett chama design stance. Obviamente, funciona melhor quando é verdade. Usamos computadores, torradeiras, televisões e automóveis sem nos preocuparmos com os detalhes da maquinaria ou da física porque sabemos que propósito servem. Para usar um despertador basta saber para que serve e inferir daí que tem que ter algo que indique as horas, algo para as acertar e algo para marcar a hora de despertar.

Mas o truque funciona mesmo quando não há propósito. Sabendo que asas servem para voar, mesmo sem saber aerodinâmica posso inferir que o pássaro voa. Sabendo que o pêlo dos animais serve para os aquecer penso num casaco de peles. Os nossos antepassados descobriram como usar sementes, domesticar animais, processar alimentos e tratar feridas sem conhecer os detalhes. Só com o truque de imaginar que cada coisa servia um propósito, ou até de imaginá-las com propósitos próprios*. É uma forma simples de lidar com coisas complexas. Talvez por isso muitos julgam que a complexidade só vem da criação propositada, mesmo sendo óbvia a contradição quando constatamos que o relojoeiro é ainda mais complexo que o relógio. Mas há outra maneira de gerar complexidade funcional e uma maneira melhor de distinguir o que é feito de propósito.

Sabemos que o relógio é feito de propósito porque sabemos que há relojoeiros que fazem relógios para servir aos relojoeiros. Mas não se justifica inferir que o tronco de uma árvore foi feito de propósito apesar de ser fácil imaginar que o tronco foi concebido para segurar a copa lá em cima e imaginar que alguém criou o tronco para esse fim. A analogia é errada porque não temos indícios que alguém faça troncos de árvore com inteligência e propósito. Pior ainda, o tronco não faz sentido como propósito de um análogo do relojoeiro.

Os relógios servem os propósitos dos relojoeiros mas se o tronco serve algum propósito é um propósito da árvore e não de um hipotético criador, sendo alto e forte para que a árvore não fique à sombra das outras. E a árvore só precisa de um tronco alto e forte porque as outras árvores também têm troncos altos e fortes. Numa floresta tropical as árvores têm 30 a 35 metros de altura, dez andares de tronco só porque as árvores que têm menos morrem á sombra das outras. A função do tronco é competir num conflito que não sugere qualquer inteligência. Um engenheiro inteligente impunha um limite razoável de meia dúzia de metros para os troncos. Todas as árvores tinham sol à mesma e poupava-se imenso em custos metabólicos. Não só não há vestígios do relojoeiro como não há vestígio de um propósito inteligente para troncos de 30 metros.

A alternativa faz mais sentido. As árvores têm troncos com dez andares porque é o máximo que compensa ter pesando o tempo de crescimento, a resistência da madeira e a competição por um lugar ao sol. Não resulta de um plano deliberado mas da eliminação natural das árvores atarracadas, de crescimento lento ou que se partem ao primeiro vendaval. O resultado é semelhante a algo feito de propósito por um criador inteligente, e isto explica a utilidade do truque. É um truque tão bom que até os biólogos aproveitam. Dizem que a lisozima serve para atacar a parede celular de algumas bactérias e que as bactérias gram-negativas têm a parede celular coberta de lipopolissacarídeos para resistir à lisozima.

Mas nada disto surgiu “para” seja o que for. Tal como o tronco das árvores, estas características propagaram-se a posteriori por conferir vantagens à sua propagação. Não foram concebidas a priori com o intuito de cumprir uma finalidade. O truque de imaginar um propósito é útil mas às vezes por ser verdade e outras porque a evolução cria algo parecido. O primeiro caso identifica-se pelos indícios independentes de criação inteligente e pelo ajuste do propósito aparente com os objectivos do criador. Os relojoeiros, que sabemos que existem, fazem relógios para ver as horas, que é o propósito aparente do relógio. O segundo revela-se pela ausência de um criador e por uma aparêhcia de propósito que não faz sentido como propósito inteligente mas só como o resultado de competir pela reprodução.

* A ideia que os frutos foram criados de propósito para nos alimentar parece justificar porque mudam de cor quando estão maduros, por exemplo. Atribuir essa intenção à árvore em vez de a atribuir a um criador da árvore é diferente mas parece estar no mesmo contínuo de possibilidades. Ver este artigo sobre a classificação que Dennet dá e, já gora, o post anterior.

Quinta-feira, Maio 22, 2008

Cdesign Proponentsists

Um exemplo eloquente da integridade, competência e incansável luta pela verdade que caracterizam o movimento criacionista.



Via Pharyngula, e mais detalhes na Wikipedia

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Miscelânea Criacionista: O código genético, parte 2.

Em Outubro de 1953, meses depois de Watson e Crick descobrirem a estrutura do ADN, George Gamow propôs que as proteínas eram sintetizadas pelo contacto ordenado de aminoácidos com o ADN. A sequência do ADN determinaria a forma de pequenas bolsas à superfície da molécula e cada uma dessas bolsas atrairia um aminoácido específico, determinando assim a sequência da proteína. A hipótese foi rapidamente refutada mas, com isto, Gamow inventou o código genético. O seu esquema abstraiu da complexidade das reacções químicas uma relação simbólica entre sequências e esta metáfora da síntese de proteínas como o descodificar de uma mensagem facilitou a compreensão do processo. Infelizmente, também baralhou os criacionistas. Ainda hoje confundem a evolução natural destes mecanismos químicos com a forma inteligente como os cientistas os desvendaram.

O entusiasmo com o paradigma do código estimulou a criação de códigos verdadeiramente inteligentes. Rapidamente ficou estabelecido que cada um de vinte aminoácidos diferentes seria especificado por um codão, uma sequência de três nucleótidos no ADN. No final dos anos 50 tinha-se a ideia que o ADN era copiado para ARN ao qual se ligavam moléculas transportando os vários aminoácidos. Estas moléculas de transporte alinhavam-se na sequência certa ligando-se aos seus codões respectivos, o que levantava dois problemas. Primeiro, com 4 nucleótidos (A, C, G, U) há 64 codões diferentes, mas sabia-se de apenas 20 aminoácidos. Segundo, se uma molécula de transporte se ligasse desalinhada alteraria toda a sequência. Imaginem que na sequência ACG-GGU-CGG uma molécula se liga ao primeiro CGG que surge a seguir ao A (A-CGG-UCG-G). Isto alterava as ligações das moléculas que viessem a seguir e a sequência da proteína resultante.

Em 1957 Crick propôs uma solução genial. O código tinha que ser tal que só pudesse ser lido com o alinhamento certo. Por exemplo, se houvesse moléculas de transporte para as sequências AGA e UGA não podia haver nem para GAU nem para AUG. Desta forma o trecho AGA-UGA nunca poderia ser “lido” como A-GAU-GA ou AG-AUG-A porque não haveria moléculas que se encaixassem nos codões GAU nem AUG. Eliminando os codões que poderiam induzir erros, dos 64 só restavam 20. Exactamente o número de aminoácidos diferentes. Foi uma festa. Tinham decifrado o código genético.

A festa durou pouco. O “código” não é “lido” da forma rápida e eficiente que se julgava em 1957, com as moléculas de transporte a ligar-se em paralelo ao ARN. É lido passo a passo por enzimas que percorrem o ARN um codão de cada vez. A cada passo têm que esperar que o aminoácido certo venha parar ao sítio certo pelo movimento aleatório das moléculas em solução. Os criacionistas apregoam a densidade de informação do ADN mas esquecem-se de mencionar que essa informação é “lida” ao ritmo de 15 aminoácidos por segundo. É cinco milhões de vezes mais lento que um disco rígido num computador pessoal.

Além disso o código genético é confuso e nada elegante. A tabela abaixo mostra a correspondência entre os vinte aminoácidos e os seus codões no código padrão (1), mas há 23 variantes conhecidas deste código (2). A maioria têm diferenças pequenas mas alguns incluem aminoácidos adicionais como a selenocisteína e a pirrolisina.

Ala/AGCU, GCC, GCA, GCGLeu/LUUA, UUG, CUU, CUC, CUA, CUG
Arg/RCGU, CGC, CGA, CGG, AGA, AGGLys/KAAA, AAG
Asn/NAAU, AACMet/MAUG
Asp/DGAU, GACPhe/FUUU, UUC
Cys/CUGU, UGCPro/PCCU, CCC, CCA, CCG
Gln/QCAA, CAGSer/SUCU, UCC, UCA, UCG, AGU, AGC
Glu/EGAA, GAGThr/TACU, ACC, ACA, ACG
Gly/GGGU, GGC, GGA, GGGTrp/WUGG
His/HCAU, CACTyr/YUAU, UAC
Ile/IAUU, AUC, AUAVal/VGUU, GUC, GUA, GUG
STARTAUGSTOPUAG, UGA, UAA


Esta confusão surpreendeu os cientistas que procuravam um código inteligente para traduzir ADN em proteínas. Não porque assumissem um Criador inteligente mas pelo entusiasmo com que abraçaram a metáfora da mensagem em código. O “código” verdadeiro não foi optimizado para transmitir mensagens mas sim moldado pela selecção natural que o forçou a minimizar os efeitos das mutações. A redundância faz com que muitas mutações não afectem a sequência da proteína e o padrão das correspondências faz com que as mutações que afectam a proteína tendam a trocar aminoácidos semelhantes. Isto não é particularmente inteligente ou eficiente mas é o reflexo do processo de mutação e selecção que gerou este mecanismo.


Os criacionistas apresentam o código genético como um jardim setecentista, podado e arranjado com cada folha no seu sítio e testemunho de um Jardineiro inteligente. A realidade é diferente. Este código é um emaranhado de ervas daninhas e silvas, caótico, sem ordem aparente mas com a robustez e determinação cega de algo que sobreviveu a milhares de milhões de anos de adversidade.


A minha fonte principal foi o artigo The Invention of the Genetic Code, de Brian Hayes.

1- Wikipedia, The Genetic Code
2- NCBI, The Genetic Codes

Terça-feira, Maio 06, 2008

Nós, chimpanzés e vírus.

O leitor J.H. recomendou este vídeo que agradeço e recomendo também. É de notar o contraste com a “interessante teoria” que o abacate faz bem às grávidas porque se pode desenhar bébés lá dentro (1).



1- Este não é a gozar

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Este não é a gozar

mas é como se fosse...



Este design não é meramente inteligente:

«Every whole food has a pattern that resembles a body organ. This could only be achieved by intellectual design.» (Página do video).

Aquilo do aipo e dos ossos serem 23% sódio penso que se refere à mulher de Lot.

Outros links:
GodTube
Blow the Trumpet

Via Pharyngula

Treta da Semana: O Princípio Antrópico.

É uma treta engraçada que baralha muita gente. De todo o universo, eu habito logo no sítio com as condições necessárias para eu sobreviver. Fantástico. Não vivo chamuscado no Sol, espremido em Júpiter, sufocado na Lua, congelado em Plutão ou esborrachado num buraco negro. Sorte? Mão de Deus? Não. É a lógica trivial que faz com que o tipo que não tem emprego esteja desempregado. Se eu existo tem de haver condições que permitam a minha existência.

Chama-se princípio antrópico fraco, não por ter defeito mas por confusão. Quando observamos algo devemos considerar que estamos cá para o observar e admitir que estes factores possam estar relacionados. Inicialmente, foi formulado para contrapor a teoria do estado estacionário. Esta defendia que não podemos assumir que vivemos numa época privilegiada e, por isso, o universo tinha que ser sempre como é agora. O princípio antrópico permite rejeitar esta premissa. Se cá estamos tem de haver condições para cá estarmos e se a única época que o permite é esta é nesta que temos de existir.

Este “ter de” fez a confusão que levou ao principio antrópico forte: porque nós existimos o universo tem de ter sido criado de forma a permitir a nossa existência. Mas quem não tem emprego tem de estar desempregado apenas no sentido da conclusão seguir da premissa. Nada o obriga ao desemprego nem implica que esteja predestinado a estar desempregado.

Há uns tempos o Timshel escreveu que «O mais poderoso argumento do ateísmo contra o princípio antrópico e a existência de uma intencionalidade transcendental que presidiria à existência do Universo e da vida (nomeadamente da vida humana) é que, num sistema em que o tempo e o espaço sejam infinitos, tudo pode acontecer (até este nosso mundo).»(1)

O principio antrópico fraco é razoável, mas diz apenas que a probabilidade condicional do universo permitir a nossa existência sabendo que existimos é de 100%. E o princípio antrópico forte é treta. Confunde a probabilidade condicional com a probabilidade, à partida, de existirmos e é daí que infere que o universo teve que ser criado à nossa medida. É usado como argumento para uma criação inteligente mas é como o desempregado concluir que um deus criou o universo só para lhe tirar o emprego. Compreende-se por frustração ou desespero mas não se justifica pela razão.

Podemos usar o princípio antrópico fraco para explicar porque é que este universo é assim. Se não fosse não estávamos cá. E esta explicação precisa que existam outros universos diferentes do nosso, o tal «tudo pode acontecer» do Timshel. Mas o raciocínio é simplesmente que se houver infinitos universos o princípio antrópico fraco explica que este é assim porque se não fosse estaríamos noutro. Não é daqui que se infere a existência de outros universos; isso tem que vir de outras teorias. E nada disto sugere que possam ocorrer milagres neste.

Em suma, o princípio antrópico é um favorito dos crentes, especialmente dos criacionistas, mas invocam sempre o errado. Quando uma coisa acontece podemos inferir com confiança que é possível acontecer. Isto até é um argumento contra os milagres. Mas é insensato quando algo acontece inferir que o universo foi feito de propósito para que isso acontecesse.

1- Timshel, 13-4-08, A propósito da Ressurreição

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Refutando o tectonicismo.

Porque ninguém estava lá para ver.



Obrigado ao Pedro Amaral Couto pelo achado.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

XX Jornadas Teológicas: o rescaldo.

Alfredo Dinis, o moderador do debate, escreveu no Companhia dos Filósofos algumas considerações sobre o criacionismo e o debate do dia 23 (1). Em geral concordo com as suas críticas ao criacionismo. O Jónatas Machado frisou várias vezes que a palavra do deus dele é infalível mas eu só ouvia as palavras do Jónatas Machado. Mesmo que o deus fosse infalível não segue que a interpretação do Jónatas também seja, e não vi nada que justificasse a premissa. No entanto, argumentar que o criacionismo interpreta incorrectamente a Bíblia levanta o problema de determinar a interpretação correcta. O Alfredo escreve que:

«a narração cristã tradicional sobre a origem do universo e da vida não poderá continuar a ignorar os progressos da ciência e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.»

De acordo, mas na prática omite-se o mais importante no progresso científico. Esta abertura do catolicismo à ciência limita-se ao corpo de teorias que a ciência propõe e deixa de lado o método. A maior descoberta científica nestes últimos séculos foi a necessidade de considerar hipóteses alternativas e distingui-las pelo exame meticuloso dos dados, e neste momento não há dados que justifiquem a extrema confiança que o catolicismo deposita na existência daquele deus em particular, na inexistência de qualquer outro deus e num grande número de milagres que fundamentam esta religião. Ter em conta o progresso científico exige admitir que a hipótese cristã é, no máximo, uma questão em aberto e muito especulativa. Mas como isto é discussão para vários posts passo a estas frases:

«Tive o prazer de moderar o debate, no qual intervieram os Profs. Ludwig Krippahl, da Universidade Nova de Lisboa, e. Jónatas Machado, da Universidade de Coimbra. O primeiro defendeu o evolucionismo, o segundo o criacionismo.»

Eu não quis defender um ismo. Há uma diferença fundamental entre a ciência e a fé numa interpretação literal do Genesis. Chamar evolucionismo à primeira é como chamar martelismo à carpintaria. A teoria da evolução é uma ferramenta conceptual integrada na ciência moderna. É constantemente aperfeiçoada, testada e aplicada onde demonstra ser apropriado, estimula avanços noutras áreas e é guiada por essas descobertas. Martelismo é dar martelada a tudo só porque se tem um martelo, seja prego ou parafuso, e isso é o que os criacionistas fazem com a Bíblia.

1- Alfredo Dinis, 27-4-08, XX Jornadas Teológicas em Braga

Domingo, Abril 27, 2008

Modelação estrutural por homologia.

Isto vem a propósito de uma afirmação e pergunta do Mats, «Nada no criacionismo vai contra a bioquímica. Talvez o Ludwig possa dar um exemplo?» (1). Posso sim. Há vários, mas este é simples de explicar, está dentro do que eu faço profissionalmente e já tenho uma imagem feita de um post anterior (2).

As proteínas são moléculas grandes formadas pela ligação de aminoácidos em longas sequências. A imagem abaixo mostra três estruturas de mioglobina, uma proteína que armazena oxigénio nos músculos. As estruturas são da mioglobina de humano, foca e tartaruga, e são muito semelhantes.

mioglobina

A laranja estão marcados os aminoácidos que diferem da mioglobina humana. A mioglobina de foca é cerca de 85% idêntica e a de tartaruga cerca de 70% idêntica à nossa. Com esta semelhança química pode-se usar uma estrutura para modelar a outra porque são estruturalmente quase iguais. Este método de modelação por homologia é muito usado em bioquímica estrutural e pode funcionar até quando as proteínas têm apenas 25% dos aminoácidos em comum.

O interessante é que a estrutura de uma proteína é muito sensível à sequência de aminoácidos. Alterar um ou dois pode alterar profundamente a estrutura. Se alterarmos 48, que é a diferença entre a mioglobina humana e a de tartaruga, é quase certo que a estrutura seja completamente diferente. Para explicar porque se pode modelar por homologia proteínas que diferem em tantos aminoácidos é preciso a teoria da evolução.

As diferenças de aminoácidos entre a mioglobina de tartaruga, foca e humano resultam da acumulação gradual de mutações nestas linhagens que originaram num ancestral comum. Neste longo processo as mutações que alteraram significativamente a estrutura da mioglobina afectaram a sua função, tornando esses organismos inviáveis. Todas essas mutações foram eliminadas pela selecção natural. Só passaram o crivo da selecção aquelas mutações que preservaram a estrutura quase sem alterações. É por isso que a modelação por homologia funciona.

Este é um exemplo entre muitos de como a teoria da evolução é fundamental na ciência moderna. E é um exemplo entre muitos de como a ignorância dos detalhes é fundamental para o criacionismo.

1- Mats, 21-4-08, Jornadas Naturalistas - Ludwig - Parte 4
2- O que as proteínas nos dizem.

Sábado, Abril 26, 2008

XX Jornadas Teológicas, the movie.

A pedido do público, aqui vai a adaptação cinematográfica da minha apresentação. Não sei se eventualmente será possível publicar o debate todo.

Parte 1:


Parte 2:


E parte 3:


Se quiserem descarregar o vídeo, está aqui um avi (Xvid, MP3) com 18Mb.

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