«Convém, agora, fazer uma rápida menção das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é a ordem própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão contidas nas respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições, às questões últimas.» João Paulo II, Fides et Ratio (1)
No sentido filosófico, o conhecimento é uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Num sentido mais pragmático é uma crença que, por ser obtida de forma fiável, julgamos ser verdadeira (2). Este segundo sentido é importante porque, não tendo acesso directo à verdade, na prática não podemos ter a verdade como critério inicial. Qualquer juízo de verdade virá no fim de uma inferência falível e susceptível de erros.
Assim, as “verdades” mencionadas por João Paulo II são apenas crenças que ele julga verdadeiras. As verdades não «assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência». O que tem que assentar num método fiável são as crenças acerca do que é verdade para que sejam conhecimento. João Paulo II propõe três formas de conhecimento: a ciência, que assenta «em evidências imediatas» ou recebe «confirmação da experiência»; a filosofia, que depende da «capacidade especulativa do [nosso] intelecto»; e a teologia contida «nas respostas [das] diversas religiões».
Mas as primeiras são as duas partes do conhecimento. Para formar uma crença por um método fiável precisamos de capacidade especulativa e de confirmação empírica. Precisamos da filosofia e da ciência, e a distinção entre as duas é móvel e ténue. Móvel porque muitos problemas começaram por ser filosóficos e acabaram científicos. Problemas como a composição das estrelas ou a diferença entre ser vivo e inanimado foram abordados primeiro de forma especulativa, argumentando definições e debatendo implicações das ideias, mas eventualmente cristalizaram-se os conceitos e, com a possibilidade de obter dados relevantes, passaram a problemas científicos. É este processo que nos dá conhecimento.
E a distinção é ténue porque os cientistas também fazem filosofia e os filósofos ciência. Em qualquer investigação científica é preciso definir conceitos e argumentar hipóteses especulativas e inferências. E na filosofia é inevitável assentar argumentos em dados empíricos e naquilo que se observa. Até as experiências conceptuais dos filósofos, dos comboios que atropelam escuteiros aos celeiros que só são fachada, têm valor apenas por ser consensual que resultariam se testadas na prática.
A filosofia* e a ciência parecem distintas se virmos apenas os extremos da especulação e teste empírico. Mas na gama intermédia de análise crítica, argumentação, inferência lógica e compreensão de conceitos vemo-las abraçadas, unidas para gerar os meios fiáveis que justificam considerar certas crenças como verdadeiras. Este namoro apaixonado tem sido muito prolífico.
A teologia é o pau de cabeleira. É a tia solteirona, velha chata e meio surda que julga ter sempre razão e só atrapalha. A teologia finge ter uma linha directa para a verdade. Chama-lhe fé, revelação, graça, Espírito Santo, espiritualidade e muitas coisas mas a ideia é sempre a mesma. Quem tem isto, desde que esteja de acordo com a doutrina, tem automaticamente a verdade. Não precisa de justificação nem métodos fiáveis nem nada disso.
Não há «diversas formas da verdade». Há verdades e há tretas. E há poucas tretas maiores que os atalhos para a verdade. Chegar à verdade dá trabalho. É preciso compreender bem o que especulamos ser verdade. É preciso inferir o que distingue as alternativas, verdade ou falsidade. É preciso testar, repetir, confirmar e encaixar cada suposta verdade no puzzle que vamos construindo. E é preciso levar a dúvida para todo o lado porque algumas peças, ou mesmo o puzzle todo, podem estar erradas.
Para a teologia basta a «graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade»(3). Plim, já está. Isso é batota. Pior, é treta.
* Aqui devia distinguir entre filosofia a sério e a poesia pretensiosa a que alguns chamam filosofia. Mas isso seria outro desabafo e mais uma série de posts...
1- Encíclicas, João Paulo II, Fides et Ratio
2- Razões para crer. 1- Conhecimento.
3- Concílio Vaticano II – Dei Verbum