Mostrar mensagens com a etiqueta ciência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ciência. Mostrar todas as mensagens

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Pegas

Se virmos que a figura no espelho tem um autocolante na cabeça facilmente reparamos que está na nossa e o tiramos. Parece trivial mas exige a capacidade de reconhecer que o espelho representa o que nós somos e poucos animais são capazes de o fazer. Até agora, que se saiba, só alguns primatas e as pegas (1).

É fascinante que a inteligência surja de formas tão diversas na natureza. Mas não é de espantar. Também há muitas formas de revestimento da pele, de membros, de comportamentos e metabolismos. Em cada ser vivo combinam-se as características que ajudaram os seus antepassados a reproduzir-se. São tão diversas e tão úteis porque surgem como solução para necessidades também diversas.

Por isso um deus omnipotente ser inteligente faz tanto sentido como um deus omnipotente ter penas. É certo que, da nossa perspectiva, a inteligência é uma grande coisa. Mas se os morcegos tivessem deuses os deles teriam sonar. Deus de peixe sabe nadar. O facto é que a inteligência é apenas mais uma das muitas características que os seres têm porque ajudam a colmatar alguma necessidade. Penas para não ter frio, dentes para morder, cérebros para pensar. Nós e as pegas conseguimos perceber que a imagem no espelho representa o nosso corpo porque um cérebro capaz desse raciocínio ajuda-nos a sobreviver e reproduzir. Mas um ser omnipotente precisa tanto disto como de pêlos no nariz. Se Deus existe, se lhe colarem um autocolante na testa e lhe mostrarem um espelho Ele não vai saber o que fazer. Para que precisa ele de tal capacidade?

O mesmo se passa com as outras características que Lhe atribuem apenas porque as prezamos como humanos. Deus ama, fala, pensa, compadece-se, zanga-se, castiga e uma data de outras coisas que são úteis para macacos tagarelas como nós mas que não servem de nada a um ser eterno e omnipotente.

E mais triste que esta crença incoerente é o que custa querer acreditar que a natureza foi criada de propósito por algo inteligente. Essa luta contra o óbvio impede de ver a riqueza de formas com que a Natureza, sem querer, cria inteligências.

1- BBC, Magpie can 'recognise reflection'

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Spam divino.

O Mats escreveu acerca de um filtro de spam desenvolvido por Alaa Abi-Haidar e Luís Rocha. O filtro (1) baseia-se num modelo da regulação do sistema imunitário de vertebrados (2). Neste modelo, a capacidade do organismo distinguir entre si próprio e invasores emerge da competição entre populações de linfócitos que estimulam (TE) ou reprimem (TR) a resposta do sistema. As referências têm os detalhes mas queria focar o aspecto emergente do mecanismo.

Cada célula reage apenas às condições locais. Um linfócito TE divide-se se encontra o antigénio sozinho ou na companhia de outro TE, aumentando a resposta do sistema. O TR divide-se quando encontra um antigénio na companhia de um TE, inibindo a proliferação do TE e reprimindo a resposta do sistema. Estas populações pendem para uma maioria de TR ou de TE em função da quantidade de antigénio e das quantidades iniciais de cada linfócito. Isto que dá ao nosso sistema imunitário a capacidade de distinguir, na maioria dos casos, entre as nossas células e os agentes infecciosos. Não é um sistema perfeito mas é muito eficaz, e um sistema análogo poderá melhorar os nossos filtros anti-SPAM criando imunidade electrónica a essas pragas. E o interessante é que a propriedade quase inteligente de distinguir o bom e o mau emerge da interacção de agentes, células ou funções, sem qualquer inteligência individual.

O Mats chama a isto «Aprendendo com Deus» (3) porque «os sistemas biológicos não se arquitectaram a si próprios, nem a ciência dentro deles é produto deles mesmos». Eu pedi ao Luís que comentasse esta afirmação do Mats, e ele teve a amabilidade de me escrever: «A minha resposta a este comentário é que quem [o] fez não sabe a diferença entre modelo e realidade. Qualquer modelo é à partida feito por um agente epistémico, por isso, qualquer modelo necessita de ter as suas regras espcificadas pelo modelador. A conclusão de que a realidade será também especificada por um modelador inteligente não pode ser provada ou refutada; necessita de um acto de fé, o que mete a questão fora do âmbito da ciência.»

Sem querer ou de propósito, os criacionistas insistem em confundir o mapa com o território (4). Não há «ciência dentro» do ângulo formado pelos átomos de hidrogénio e o átomo de oxigénio da água, por exemplo. A ciência está em quem quer medir, calcular e compreender porque é que este ângulo tem aquele valor (5). A lagarta come maçã sem saber bioquímica e a chuva chove sem perceber nada do que faz. A ciência é o método pelo qual nós compreendemos os processos.

Eu sou menos generoso que o Luís. A hipótese de um Criador do universo é impossível de refutar, comprovar ou sequer testar. Se só houvesse esta a hipótese não poderíamos concluir nada. Qualquer conclusão seria adivinhar à sorte. Mas há infinitas hipóteses na mesma situação: Deus; a Tia dele; o Supra-Deus que criou Deus; eu, que posso ter criado o universo e depois ter me esquecido, e assim por diante. São todas irrefutáveis e impossíveis de testar. Por isso aceitar uma delas em detrimento das outras é injustificável. Seja por fé seja por um-dó-li-tá. O mais razoável é rejeitá-las todas por omissão até que haja evidências que favoreçam claramente uma delas.

Mas este post é acerca de outra coisa. O objectivo do criacionismo moderno é destruir o “materialismo científico”. «Se virmos a ciência materialista predominante como uma árvore gigante, a nossa estratégia pretende funcionar como uma “cunha” que, mesmo que relativamente pequena, pode rachar o tronco se aplicada nos pontos mais fracos» (6). Isto passa por denegrir o trabalho científico. O Jónatas Machado deu um exemplo com a sua rábula da Mary Schweitzer deixar cair o fóssil ao chão (7) e o Mats quer fazer o mesmo alegando que a ciência está no sistema imunitário.

O sistema imunitário dos vertebrados é interessante porque “aprende” sem qualquer inteligência. Nada neste sistema sugere antecipação inteligente, nem no funcionamento nem na concepção. Pelo contrário; é só geração cega e testes a posteriori. Os genes dos linfócitos são criados ao acaso. Se lhes dá para atacar o nosso corpo são eliminados e se lhes dá para atacar doenças proliferam.

A inteligência está em desvendar e compreender esta complexidade emergente e em abstrair daí modelos que se apliquem a outras situações. Como filtros anti-spam. Os criacionistas querem pôr toda a inteligência no deus deles (e só no deles) e deixar-nos a pasmar boquiabertos. Felizmente ainda há muita gente que prefere pensar que pasmar, senão andávamos a escrever blogs em placas de argila.

1- Abi-Haidar e L.M. Rocha, Adaptive Spam Detection Inspired by a Cross-Regulation Model of Immune Dynamics: A Study of Concept Drift.
2- Jorge Carneiro et al, When three is not a crowd: A crossregulation model of the dynamics and repertoire selection of regulatory CD4 T cells, Immunological Reviews, Volume 216, Number 1, April 2007 , pp. 48-68(21) (preprint em pdf).
3- Mats, 6-8-08, Sistema Imunitário e Spam: Aprendendo com Deus
4- O Mapa e o Território
5- London South Bank University, Water molecule
6- The Wedge Strategy, ver também na Wikipedia.
7- Treta da Semana: Fósseis frescos.. Mas entretanto há indícios que o material orgânico nos fósseis pode ser contaminação bacteriana.

Quinta-feira, Julho 31, 2008

Razões para crer. 3- E para descrer.

«[O] pensamento claro e o respeito por indícios concretos – especialmente os indícios inconvenientes que contrariam os nossos preconceitos – são cruciais para a sobrevivência da espécie humana no século XXI»
Alan Sokal, «O que é a ciência e porque é que isso interessa?»(1)

«Deus que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela.»
João Paulo II, «Fides et ratio»(2)

Alguma da filosofia do último século ajudou a compreender a ciência, especialmente pela demarcação entre o que é e não é ciência. Popper propôs a falsificabilidade como característica fundamental; a hipótese científica tem que admitir que algo observável a possa refutar. Assim o criacionismo fica de fora porque o que quer que se observe é compatível com um criador omnipotente, e a hipótese que permite tudo não serve para nada. Mas Kuhn apontou que falsificar é pouco vulgar na ciência. O mais comum é resolver problemas. Quando um astrólogo falha numa previsão encolhe os ombros e segue para a próxima. Mas um astrónomo, quando falha, tem mecanismos para verificar os cálculos, reconsiderar premissas e confirmar observações até encontrar o problema e resolvê-lo. E só quando o problema é muito profundo é que há uma «mudança de paradigma».

Lakatos tirou a ênfase da hipótese isolada e mudou-a para as hipóteses em conjunto, o «programa de investigação». A biologia tem hipóteses centrais acerca da evolução e parentesco de todos os seres vivos. Estas não costumam ser postas à prova. São as hipóteses periféricas como a existência daquela forma intermédia ou a classificação deste organismo que são normalmente sujeitas a testes directos. Como se pode sempre proteger as hipóteses centrais sacrificando as periféricas, a questão principal não é a falsificação da hipótese isolada mas o desempenho do programa como um todo. Ou seja, se as revisões permitem prever melhor e resolver novos problemas ou se, pelo contrário, apenas disfarçam os falhanços com desculpas retrospectivas.

Isto é um resumo grosseiro de um tema complexo mas serve os objectivos deste post (até porque incluem não adormecer o leitor). Um é mostrar que a ciência é o caminho para o conhecimento. A verdade tem que ser claramente distinta da treta e o conhecimento só o é se resolve problemas ou responde a perguntas. E as hipótese que não se conformam ao que observamos devem ser corrigidas de maneira que permita compreender cada vez mais e cada vez melhor. No conhecimento, e na ciência, não há lugar para mistérios insondáveis, verborreia confusa ou desculpas teimosas em nome da fé.

Outro objectivo é desmascarar o truque de qualificar este conhecimento de “científico” para, enquanto o público olha para essa mão, a outra tirar do bolso o “conhecimento” teológico, transcendente, revelado, a priori ou o que mais calhe. Esses não são conhecimento. A premissa que um Deus perfeito escreveu a Bíblia permite inferir que a Bíblia é a verdade revelada. E as regras do Xadrez permitem inferir que o cavalo anda em L. Nem uma nem outra dizem o que quer que seja acerca da realidade. São meros jogos de lógica abstracta, e o conhecimento tem que ser mais que isso. Tem que confrontar o que observamos, responder a perguntas e levar-nos a compreender coisas que desconhecíamos.

Principalmente, quero contrapor a ideia que não podemos afirmar não haver deuses. Segundo a Enciclopédia Católica, «que tal afirmação é irrazoável e ilógica não precisa de demonstração porque é uma inferência injustificável pelos factos ou pelas leis do pensamento». É exemplo típico de duplicidade de critérios, de terminologia vaga (nunca explicam que “leis” são essas) e um erro flagrante se “leis do pensamento” se referir à atitude crítica e de respeito pelos factos que nos conduz ao conhecimento.

Há uma razão forte para descrer dos deuses. Muito mais forte que qualquer prova deduzida de axiomas tirados do chapéu. É que as hipóteses da existência de deuses só atrapalham. Ou contradizem a realidade ou não dizem nem sim nem não e, quer num caso quer noutro, não servem para compreender nada. Tal como não é preciso uma demonstração matemática para tirar a pedra do sapato, também não é preciso uma prova irrefutável para deitar fora os raciocínios circulares, a retórica obscura e as hipóteses inúteis que dificultam a caminhada. É que mesmo que nunca cheguemos ao conhecimento perfeito só temos a ganhar com os avanços na direcção certa.

1- O texto completo está aqui (em pdf). Recomendo.
2- Texto integral aqui.
Episódios anteriores:
Razões para crer. 1- Conhecimento.
Razões para crer. 2- Dois é companhia.

Terça-feira, Julho 01, 2008

O Carbono-14.

Agradeço esta sugestão da Joaninha porque é um bom exemplo para um post que tenho na calha. O carbono-14 (14C) é um isótopo radioactivo que se transforma espontaneamente em azoto. Em cerca de 5700 anos metade do 14C desaparece por este processo. Mas como o 14C é formado continuamente na atmosfera, em reacções nucleares desencadeadas pelos raios cósmicos, a qualquer momento cerca de um em cada milhão de milhões de átomos de carbono é 14C.

As plantas e algas incorporam-no na fotossíntese, os animais comem-no e, aproximadamente, qualquer ser vivo tem esta pequena fracção de 14C. Mas quando morre deixa de incorporar 14C e, como este decai espontaneamente, perde metade deste isótopo a cada 5730 anos. Isto permite datar a morte do organismo medindo a proporção de 14C para 12C, o isótopo estável e mais comum do carbono. Em teoria é simples.

Na prática é mais complicado. A proporção de 14C para 12C depende do ciclo de carbono. Em ambientes terrestres as plantas incorporam o carbono da atmosfera mas em ambientes marinhos o carbono dissolvido vem em parte da atmosfera e em parte da dissolução de carbonatos mais antigos. Em média, o carbono marinho é cerca de 400 mais “velho” que o terrestre (a contar de quando esteve exposto na atmosfera).

A quantidade de 14C criada na atmosfera também varia ligeiramente com as flutuações no campo magnético da Terra (que deflecte os raios cósmicos). Isto resulta em alguma ambiguidade na datação. Por exemplo, material orgânico de cerca de 1660 não pode ser distinguido de algum material do século XX porque têm a mesma proporção de 14C para 12C. Por outro lado, as bombas nucleares detonadas na atmosfera entre 1945-55 duplicaram a produção de 14C nesse período, permitindo uma datação bastante precisa do material dessa altura. Mas para material antigo o erro é relativamente pequeno. Com valores calibrados pode-se datar pelo 14C materiais com vinte mil anos com uma margem de erro de 15%.

Para calibrar a correspondência entre a proporção de 14C e a idade é preciso amostras com idades conhecidas, que se pode obter das árvores. No inverno a árvore cresce menos que no verão e, como a madeira nova cresce na zona interior à casca, criam-se os conhecidos anéis anuais de crescimento, alternando madeira clara e escura. O espaçamento dos anéis varia de ano para ano com a temperatura e pluviosidade, criando padrões comuns a todas as árvores da mesma região. Estes padrões podem ser sobrepostos em árvores com idades diferentes para seguir a história das árvores até há quase doze mil anos atrás. Outros processos, como a deposição anual de sedimentos ou microorganismos e o decaimento radioactivo de outros isótopos, permitem calibrar a datação por 14C até aos quarenta mil anos antes do presente (1).

Há quatro aspectos aqui que eu queria salientar agora e elaborar num próximo post. Primeiro, todas as hipóteses acerca do decaimento radioactivo, do ciclo do carbono e dos vários processos usados para datar as amostras, são hipóteses testáveis. Não se recorre a milagres ou mistérios. Segundo, estas hipóteses encaixam num sistema que permite resolver problemas e responder perguntas. Se um método dá erros pode-se recorrer a outros para o calibrar. Terceiro, dá-nos informação nova. Não é apenas uma história inventada para enquadrar o que observamos; é uma ferramenta para prever aquilo que ainda não observámos. Finalmente, não há explicação melhor para a coerência destes resultados.

Aqui aponto, mais uma vez, o contraste entre ciência e criacionismo. Os criacionistas não gostam dos métodos de datação porque não encaixam no seu universo com poucos milhares de anos. Por isso alegam que são todos falsos porque talvez o decaimento radioactivo tenha variado ou talvez tenha havido um milagre qualquer e seleccionam alguns casos onde os resultados não foram os esperados. Mas isto só lhes dá um conjunto desconexo de desculpas. Não serve para refutar uma rede interligada de hipóteses e observações que se encaixam tão bem umas nas outras.

Mais informação na Wikipedia e na Universidade de Utrecth.

1- Stein, Goldstein, Schramm, Radiocarbon calibration beyond the dendrochronology range

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Evolução: Imprinting.

O primeiro post desta série foi sobre a forma como a selecção natural obriga os genes a colaborar, mesmo quando em espécies diferentes (1). Os genes para a velocidade da gazela propagaram-se graças aos genes para a velocidade da chita e vice-versa. Mas os exemplos mais extremos de colaboração entre genes são os organismos. Neste momento, as cópias dos genes que eu tenho contribuem igualmente para o meu sucesso reprodutivo. Só assim têm conseguido passar pelas gerações dos meus antepassados durante milhões de anos. Isto fez desta equipa de genes colaboradores natos. Pelo menos agora que sou adulto. Mas durante os primeiros nove meses da minha vida não foi bem assim.

As equipas de genes nos meus antepassados femininos, da minha mãe aos primeiros mamíferos, foram pressionadas pela competição para controlar o tamanho do feto. Um bebé enfezado tem menos probabilidade de sobreviver, mas se cresce demais tira demasiados nutrientes à mãe e reduz-lhe a possibilidade de ter mais descendentes. Em contraste, os genes nos meus antepassados masculinos tinham vantagem em fetos maiores. A mãe não poder ter mais filhos não os afectava porque o pai podia à mesma. E filhos maiores têm mais probabilidade de sobreviver, favorecendo a propagação dos genes do pai. O resultado é que nos primeiros nove meses da minha vida alguns dos meus genes estavam a “tentar” fazer-me crescer mais do que aquilo que outros dos meus genes “queriam”*.

Um problema é que os genes estão misturados no zigoto e os do pai até podem ser cópias idênticas aos da mãe. A pressão selectiva para que actuassem de formas diferentes no embrião originou o imprinting, uma modificação química selectiva que altera ligeiramente o ADN naqueles genes conforme vem do pai ou da mãe. Quase todos os genes afectados intervêm no crescimento embrionário e na formação da placenta.

Por exemplo, um factor de crescimento semelhante à insulina (IGF2, de insulin-like growth factor 2) é produzido em grandes quantidades por genes que vêm do pai enquanto os seus homólogos herdados da mãe ficam inactivos. Por outro lado, o repressor IGF2R, que se liga ao IGF2 e o inactiva, é produzido em grandes quantidades apenas pelos genes herdados da mãe. O resultado foi uma guerra aberta entre os genes dos meus pais durante o meu desenvolvimento embrionário. E se um dos lados se descuidasse eu tinha morrido ou ficado seriamente deformado**.

O imprinting genómico ilustra vários pontos importantes. Mostra que não podemos levar à letra a metáfora do ADN como código ou linguagem. Ao contrário das palavras escritas ou faladas, no ADN conta a caligrafia e a pronúncia. São moléculas, reagem, e mesmo que os genes tenham a mesma sequência pequenas alterações químicas fazem diferença. Mostra também como a competição entre genes nas populações dá origem a redes complexas de relações de colaboração e competição entre organismos e até dentro de cada organismo, com equipas de genes a mudar alianças mesmo durante a vida de um indivíduo.

E é um bom exemplo da capacidade da teoria da evolução para explicar e prever observações. A hipótese que o conflito entre os genes dos progenitores dá origem a esta marcação do ADN prevê que haja imprinting nos organismos em que o embrião consegue afectar os nutrientes que recebe da progenitora. Isto acontece nos mamíferos e nas plantas que produzem sementes, e em ambos os casos há imprinting de genes que regulam o desenvolvimento embrionário (2). Prevê também que não haja imprinting destes genes nas aves. Como o ovo já está formado quando o embrião se começa a desenvolver a quantidade de nutrientes que a progenitora investe é controlada exclusivamente pelos genes que estão na progenitora. O embrião não tem voto na matéria, por isso não é preciso distinguir de onde vêm os genes que regulam o seu crescimento. Essa previsão também foi confirmada (3).

Os criacionistas podem vasculhar a Bíblia de ponta a ponta que não vão encontrar explicação para as guerras de genes dentro dos embriões. Dirão que é o pecado mas isso serve para tudo. Não é explicação; é desculpa. E nem num mês de Domingos com missas de manhã à noite se vão inspirar para prever detalhes destes. Para ideias vagas e confusas o criacionismo parece ser adequado. Mas para perceber os detalhes é preciso a teoria da evolução

* Como mencionei no segundo post desta série, estas perspectivas intencionais ou de design propositado dão explicações confortáveis. Mas para que não vá um criacionista rechaçar a explicação e converter este blog em criacionismo deixo esta nota para esclarecer. Os genes não fazem de propósito. É apenas o resultado de só terem sobrado os que o faziam enquanto os outros ficaram pelo caminho.
** A barriga que tenho agora, admito, é culpa minha.

1- Evolução: A selecção natural.
2- Wikipedia, Genomic Imprinting
3- Nolan CM, Killian JK, Petitte JN, Jirtle RL, Imprint status of M6P/IGF2R and IGF2 in chickens. Dev Genes Evol. 2001 Apr;211(4):179-83. Sumário

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Evolução: Como se fosse de propósito.

William Paley propôs a famosa analogia do relojoeiro. Se encontramos um relógio inferimos que foi criado por um relojoeiro porque algo tão complexo só pode resultar de um projecto inteligente executado de propósito. Pela mesma razão, argumentou Paley, o universo tem que ter um criador inteligente que planeou isto tudo. Antes de olhar para os problemas da analogia quero salientar que esta visão teleológica pode ser útil.

Podemos descobrir muito acerca de algo sem conhecer detalhes se o imaginarmos como criado de propósito para desempenhar uma função, o que o Daniel Dennett chama design stance. Obviamente, funciona melhor quando é verdade. Usamos computadores, torradeiras, televisões e automóveis sem nos preocuparmos com os detalhes da maquinaria ou da física porque sabemos que propósito servem. Para usar um despertador basta saber para que serve e inferir daí que tem que ter algo que indique as horas, algo para as acertar e algo para marcar a hora de despertar.

Mas o truque funciona mesmo quando não há propósito. Sabendo que asas servem para voar, mesmo sem saber aerodinâmica posso inferir que o pássaro voa. Sabendo que o pêlo dos animais serve para os aquecer penso num casaco de peles. Os nossos antepassados descobriram como usar sementes, domesticar animais, processar alimentos e tratar feridas sem conhecer os detalhes. Só com o truque de imaginar que cada coisa servia um propósito, ou até de imaginá-las com propósitos próprios*. É uma forma simples de lidar com coisas complexas. Talvez por isso muitos julgam que a complexidade só vem da criação propositada, mesmo sendo óbvia a contradição quando constatamos que o relojoeiro é ainda mais complexo que o relógio. Mas há outra maneira de gerar complexidade funcional e uma maneira melhor de distinguir o que é feito de propósito.

Sabemos que o relógio é feito de propósito porque sabemos que há relojoeiros que fazem relógios para servir aos relojoeiros. Mas não se justifica inferir que o tronco de uma árvore foi feito de propósito apesar de ser fácil imaginar que o tronco foi concebido para segurar a copa lá em cima e imaginar que alguém criou o tronco para esse fim. A analogia é errada porque não temos indícios que alguém faça troncos de árvore com inteligência e propósito. Pior ainda, o tronco não faz sentido como propósito de um análogo do relojoeiro.

Os relógios servem os propósitos dos relojoeiros mas se o tronco serve algum propósito é um propósito da árvore e não de um hipotético criador, sendo alto e forte para que a árvore não fique à sombra das outras. E a árvore só precisa de um tronco alto e forte porque as outras árvores também têm troncos altos e fortes. Numa floresta tropical as árvores têm 30 a 35 metros de altura, dez andares de tronco só porque as árvores que têm menos morrem á sombra das outras. A função do tronco é competir num conflito que não sugere qualquer inteligência. Um engenheiro inteligente impunha um limite razoável de meia dúzia de metros para os troncos. Todas as árvores tinham sol à mesma e poupava-se imenso em custos metabólicos. Não só não há vestígios do relojoeiro como não há vestígio de um propósito inteligente para troncos de 30 metros.

A alternativa faz mais sentido. As árvores têm troncos com dez andares porque é o máximo que compensa ter pesando o tempo de crescimento, a resistência da madeira e a competição por um lugar ao sol. Não resulta de um plano deliberado mas da eliminação natural das árvores atarracadas, de crescimento lento ou que se partem ao primeiro vendaval. O resultado é semelhante a algo feito de propósito por um criador inteligente, e isto explica a utilidade do truque. É um truque tão bom que até os biólogos aproveitam. Dizem que a lisozima serve para atacar a parede celular de algumas bactérias e que as bactérias gram-negativas têm a parede celular coberta de lipopolissacarídeos para resistir à lisozima.

Mas nada disto surgiu “para” seja o que for. Tal como o tronco das árvores, estas características propagaram-se a posteriori por conferir vantagens à sua propagação. Não foram concebidas a priori com o intuito de cumprir uma finalidade. O truque de imaginar um propósito é útil mas às vezes por ser verdade e outras porque a evolução cria algo parecido. O primeiro caso identifica-se pelos indícios independentes de criação inteligente e pelo ajuste do propósito aparente com os objectivos do criador. Os relojoeiros, que sabemos que existem, fazem relógios para ver as horas, que é o propósito aparente do relógio. O segundo revela-se pela ausência de um criador e por uma aparêhcia de propósito que não faz sentido como propósito inteligente mas só como o resultado de competir pela reprodução.

* A ideia que os frutos foram criados de propósito para nos alimentar parece justificar porque mudam de cor quando estão maduros, por exemplo. Atribuir essa intenção à árvore em vez de a atribuir a um criador da árvore é diferente mas parece estar no mesmo contínuo de possibilidades. Ver este artigo sobre a classificação que Dennet dá e, já gora, o post anterior.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Conspiração, religião, e intenção.

O nosso cérebro é enorme. Com quase quilo e meio, usa cerca de um quinto das calorias que consumimos em repouso. Mas não recebemos esta herança por ter ajudado os nossos antepassados a fugir de predadores ou encontrar alimento. Outros animais fazem-no com recursos mais modestos. Nem foi pela tecnologia, que veio mais tarde. O sucesso do nosso cérebro veio da vantagem em prever o que vai em cérebros semelhantes, um truque que ajudou os nossos antepassados a deixar mais descendentes que os seus contemporâneos.

E é um órgão especializado. Um computador pode calcular a trajectória de cada um dos flocos de cereais despejados para uma taça. O nosso cérebro não dá para isso. Mas basta olhar para alguém a despejar os cereais para percebermos, pelo contexto, se prepara o seu pequeno almoço, o dos filhos ou se os despeja porque o pacote se rasgou. Estamos longe de pôr um computador a fazer isso e mais longe ainda de o programar para perceber o enredo de uma novela ou de inferir algo do vizinho do sexto sair da casa da vizinha do quarto apertando o cinto das calças.

Mas não há bela sem senão. Com um martelo tão sofisticado é inevitável procurarmos pregos em todo o lado. O propósito da nossa existência, a razão para a criação do universo, o plano para isto tudo. Para o nosso cérebro, moldado durante milhões de anos de evolução para modelar actos inteligentes, custa aceitar que algo simplesmente aconteça. Do criacionismo às teorias da conspiração, muitos disparates vivem desta tendência. Uma sombra estranha na fotografia de um astronauta pode ser o reflexo de um aparelho fora da imagem, um defeito no filme ou algo igualmente acidental. Kennedy e Connally podem ter sido atingidos pela mesma bala se estavam, por acaso, alinhados na sua trajectória. Mas o nosso cérebro percebe melhor a relação entre os familiares no jantar de Natal do que a trajectória das bolas de snooker. Mesmo que esta última seja muito mais simples de modelar. E uma conspiração com fotografias forjadas, atiradores escondidos e falsas informações, se bem que mais complexa e irrealista, está mesmo à medida do nosso apetite enredos de intenções.

A religião vai beber à mesma fonte. Do bispo católico ao shaman tribal vemos a tentativa de lidar com a natureza como lidamos uns com os outros. Com promessas, alianças, pedidos, negociações e alguma bajulação. Sempre a procurar o propósito inteligente por trás de cada acontecimento. A insistência da teologia cristã numa relação pessoal com Deus é outra consequência desta especialização do nosso cérebro, tal como a procura de um propósito para a nossa existência e de um sentido transcendente para isto tudo.

É inegável que este truque do nosso cérebro é útil e precioso. É a base da sociedade, da política, literatura, das histórias, da linguagem. De ser humano. Mas as tempestades, as doenças, as florestas e até o nosso nascimento e morte não são parte de um plano cósmico. Isto não é um conto épico ou uma telenovela. Fora da minúscula fatia onde nos damos uns com os outros há um enorme universo que não conspira contra nós, que não ouve as nossas preces e que não tem propósito nem intenção. Para o compreender temos que usar o cérebro de uma forma desconfortável e contra-intuitiva mas que vale bem o esforço. Porque mesmo que a oração nos faça sentir mais seguros durante a trovoada é o pára-raios que nos protege.

Terça-feira, Junho 03, 2008

Explorando a origem da vida.

A quem se interessar pela investigação acerca da origem da vida recomendo uma visita ao «Exploring Life’s Origins». Cientificamente está muito bom e graficamente está espectacular.

Via Panda’s Thumb.

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Contas.

A Science desta semana publicou um artigo alegando uma correlação inversa entre o desempenho académico das raparigas relativo ao dos rapazes e a discriminação sexual na sua sociedade. Especificamente, entre os dados do Programme for International Student Assessment (PISA) 2003 e o Gender Gap Index (GGI) do World Economic Forum. Segundo os autores os dados mostram que a vantagem das raparigas na leitura aumenta com a redução na discriminação sexual, de 20 pontos na Turquia até 60 pontos na Islândia, e que a desvantagem na matemática inverte-se, de -20 pontos na Turquia a +10 na Islândia. A conclusão é que as raparigas são por natureza melhores na leitura, como já era aceite, e que, ao contrário do que se julgava, também são naturalmente melhores na matemática. O que baixa o seu desempenho em relação ao dos rapazes é apenas a discriminação sexual porque esta diferença, alegam, desaparece nos países com menos discriminação.

O Desidério criticou este artigo como «ciência ideológica, ciência politicamente correcta, ciência baseada numa mentira política.»(1) A minha primeira reacção foi responder que isso é irrelevante porque o que importa são os dados. Se há realmente uma correlação tanto faz a ideologia ou a política. A menos que tenham aldrabado. Por isso fui ver o artigo (2) e os dados. Achei estranho num artigo de 2008 usarem os dados do PISA 2003 quando temos o PISA 2006 (3). Também estranhei mostrarem um gráfico bonito com dez países quando os dados cobrem quase cinquenta. Finalmente, usarem uma análise estatística rebuscada quando o que afirmam é simplesmente a correlação de dois valores: desempenho académico e índice de discriminação. Cheirou-me a treta.

Depois de olhar para o material suplementar que acompanha o artigo, e cujos gráficos são bastante menos impressionantes por incluírem mais que os dez países escolhidos a dedo, decidi cruzar o PISA 2006 (3) com o GGI 2007 (4) a ver o que dava. O gráfico abaixo mostra no eixo horizontal o GGI, com valores maiores indicando sociedades mais igualitárias, e no eixo vertical a diferença entre o desempenho na matemática dos jovens do sexo masculino e feminino, com números menores indicando menor vantagem dos rapazes e valores negativos indicando vantagem para as raparigas.

Cartaz Jornadas

Considerando os dados não me parece razoável a afirmação dos autores que «the gender gap in math scores disappears in countries with a more gender-equal culture.» Até porque os países em que as raparigas superam os rapazes na matemática são Islândia, Azerbaijão, Bulgária, Jordânia, Catar e Tailândia.

Não concluo daqui que a diferença seja biológica, até porque é uma questão difícil de formular de forma a fazer sentido. Mas concluo que o artigo é treta. Não é nada claro que a discriminação sexual explique as diferenças no desempenho académico. Concordo com o Desidério que a publicação deste artigo deveu mais à politiquice que à ciência e que isto é preocupante. Sugere que muitos julgam que se justifica combater a discriminação porque, em média, os sexos são iguais ou as raparigas são melhores que os rapazes. É um disparate nefasto porque devemos combater a discriminação precisamente para que não se julgue indivíduos pela média do grupo a que pertencem, seja qual for o grupo ou a média.

1- Desidério Murcho, 31-5-08, Pontapés na ciência
2- Guiso, Monte, Sapienza, Zingales, DIVERSITY: Culture, Gender, and Math, Science, Vol. 320. no. 5880, pp. 1164 – 1165 (só para assinantes, mas o material suplementar parece ser de acesso livre).
3- PISA 2006 (xls)
4 The Global Gender Gap Index 2007 (pdf)

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Razões para crer. 2- Dois é companhia.

«Convém, agora, fazer uma rápida menção das diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é a ordem própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da capacidade especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades religiosas, que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão contidas nas respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições, às questões últimas.» João Paulo II, Fides et Ratio (1)

No sentido filosófico, o conhecimento é uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Num sentido mais pragmático é uma crença que, por ser obtida de forma fiável, julgamos ser verdadeira (2). Este segundo sentido é importante porque, não tendo acesso directo à verdade, na prática não podemos ter a verdade como critério inicial. Qualquer juízo de verdade virá no fim de uma inferência falível e susceptível de erros.

Assim, as “verdades” mencionadas por João Paulo II são apenas crenças que ele julga verdadeiras. As verdades não «assentam em evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência». O que tem que assentar num método fiável são as crenças acerca do que é verdade para que sejam conhecimento. João Paulo II propõe três formas de conhecimento: a ciência, que assenta «em evidências imediatas» ou recebe «confirmação da experiência»; a filosofia, que depende da «capacidade especulativa do [nosso] intelecto»; e a teologia contida «nas respostas [das] diversas religiões».

Mas as primeiras são as duas partes do conhecimento. Para formar uma crença por um método fiável precisamos de capacidade especulativa e de confirmação empírica. Precisamos da filosofia e da ciência, e a distinção entre as duas é móvel e ténue. Móvel porque muitos problemas começaram por ser filosóficos e acabaram científicos. Problemas como a composição das estrelas ou a diferença entre ser vivo e inanimado foram abordados primeiro de forma especulativa, argumentando definições e debatendo implicações das ideias, mas eventualmente cristalizaram-se os conceitos e, com a possibilidade de obter dados relevantes, passaram a problemas científicos. É este processo que nos dá conhecimento.

E a distinção é ténue porque os cientistas também fazem filosofia e os filósofos ciência. Em qualquer investigação científica é preciso definir conceitos e argumentar hipóteses especulativas e inferências. E na filosofia é inevitável assentar argumentos em dados empíricos e naquilo que se observa. Até as experiências conceptuais dos filósofos, dos comboios que atropelam escuteiros aos celeiros que só são fachada, têm valor apenas por ser consensual que resultariam se testadas na prática.

A filosofia* e a ciência parecem distintas se virmos apenas os extremos da especulação e teste empírico. Mas na gama intermédia de análise crítica, argumentação, inferência lógica e compreensão de conceitos vemo-las abraçadas, unidas para gerar os meios fiáveis que justificam considerar certas crenças como verdadeiras. Este namoro apaixonado tem sido muito prolífico.

A teologia é o pau de cabeleira. É a tia solteirona, velha chata e meio surda que julga ter sempre razão e só atrapalha. A teologia finge ter uma linha directa para a verdade. Chama-lhe fé, revelação, graça, Espírito Santo, espiritualidade e muitas coisas mas a ideia é sempre a mesma. Quem tem isto, desde que esteja de acordo com a doutrina, tem automaticamente a verdade. Não precisa de justificação nem métodos fiáveis nem nada disso.

Não há «diversas formas da verdade». Há verdades e há tretas. E há poucas tretas maiores que os atalhos para a verdade. Chegar à verdade dá trabalho. É preciso compreender bem o que especulamos ser verdade. É preciso inferir o que distingue as alternativas, verdade ou falsidade. É preciso testar, repetir, confirmar e encaixar cada suposta verdade no puzzle que vamos construindo. E é preciso levar a dúvida para todo o lado porque algumas peças, ou mesmo o puzzle todo, podem estar erradas.

Para a teologia basta a «graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade»(3). Plim, já está. Isso é batota. Pior, é treta.

* Aqui devia distinguir entre filosofia a sério e a poesia pretensiosa a que alguns chamam filosofia. Mas isso seria outro desabafo e mais uma série de posts...

1- Encíclicas, João Paulo II, Fides et Ratio
2- Razões para crer. 1- Conhecimento.
3- Concílio Vaticano II – Dei Verbum

Terça-feira, Maio 27, 2008

Razões para crer. 1- Conhecimento.

Muitos crêem em deuses apenas por fé, o que é indiscutível. A fé é um sentimento privado e não dá um fundamento comum onde assentar argumentos. Uns gostam de baunilha, outros preferem chocolate e não há mais a dizer. Mas precisamente por isto a crença pela fé é pouco persuasiva e no diálogo com quem não partilha a sua fé a teologia cristã alega usar a razão. Ao contrário da fé, do querer crer, a razão é pública, universal e igual para todos. Com isto já se pode conversar. Infelizmente, a teologia parte da «convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé»(1). Não é uma premissa aceitável. Existe um conhecimento que é indivisível e uno mas não tem nada a ver com fé.

É conhecimento uma crença verdadeira e justificada*. Tem que ser crença porque não posso saber que algo é verdade sem acreditar que seja. Isso seria contraditório. E tem que ser verdadeira porque uma crença falsa é engano. Estes dois requisitos são aceites por quase todos. O terceiro é mais polémico mas é consensual que é preciso uma justificação. Se alguém lança um dado e eu, ao calhas, me convenço que saiu 6, mesmo que seja verdade dizemos que acertei sem saber e não que eu sabia o número que saiu. Acertar por acaso não é conhecimento.

O problema é decidir o que justifica chamar conhecimento a uma crença verdadeira. Há muitas alternativas mas vou falar só da que eu prefiro. É conhecimento uma crença verdadeira obtida de forma fiável. Vou ilustrar com um exemplo famoso (2). O Jorge passa de carro por uma zona onde, sem ele saber, é costume construir fachadas de celeiro viradas para a estrada. O Jorge está convencido que são celeiros de verdade e passa por um celeiro encarnado, o único verdadeiro. O Jorge acredita que viu um celeiro encarnado e esta crença é verdadeira. No entanto a forma como obteve esta crença não é fiável naquelas circunstâncias e originou muitas crenças falsas acerca das fachadas que o Jorge acreditou serem celeiros. Por isso o Jorge não tem conhecimento de um celeiro encarnado. O Jorge foi enganado, só que acertou à sorte naquele caso.

Eu rejeito a fé como fonte de conhecimento porque não é fiável. A fé pode ser muita coisa; pode ser confiança, determinação, fidelidade, vontade de acreditar ou até a crença em si. Mas nada disso tende a formar crenças verdadeiras. É tão fácil ter fé numa falsidade como numa verdade. Saliento que não rejeito a fé como fonte de conhecimento por assumir que as crenças religiosas são falsas. Julgo que são, mas até pode haver por aí uma fé que conduza a uma crença verdadeira. Se calhar Shiva existe ou o John Frum era mesmo um deus (3). Mas mesmo assim o crente está como o Jorge. Foi enganado por uma ilusão e só acertou por acaso. Isso não é conhecimento.

Mas o objectivo deste post não é desancar a fé (este é só o primeiro da série, afinal). É apresentar esta noção de conhecimento como ponto de partida para a discussão. Um aspecto importante é que, apesar de só uma crença verdadeira poder ser conhecimento, na prática nunca sabemos definitivamente se algo é verdade. Por isso quando falo de conhecimento normalmente refiro uma crença que se justifica apresentar como verdadeira mas que não posso garantir que o seja. Ou seja, o conhecimento na prática é sempre putativo e provisório.

E um problema de justificar uma crença por um método fiável é que temos que justificar a crença na fiabilidade do método. E para isso precisamos de outro método que cremos fiável, e de justificar essa crença e assim por diante. Parece uma regressão infinita mas tem solução. Para fazer uma escavadora é preciso máquinas especializadas numa fábrica. Para construir a fábrica é preciso escavadoras e para fazer as máquinas é preciso peças feitas por outras máquinas. É um problema análogo que se resolve assentando cada estado num estado anterior menos sofisticado, menos fiável, mas menos exigente. A escavadora originou na pedra lascada ou até antes.

A ciência faz o mesmo. Pelo caminho ficaram os escombros de teorias que se supôs ser conhecimento e eram falsas, mas que serviram de andaimes a teorias mais sofisticadas e a métodos mais fiáveis. As de hoje podem ser falsas também, mas quando o descobrirmos teremos algo melhor. É um processo sem fim que dá trabalho mas que funciona. Funciona melhor que o tal “conhecimento da fé” que faz de conta que uma doutrina sem justificação é necessariamente verdade. Isso é um tiro no escuro. É quase impossível acertar e, mesmo que acerte, será por sorte.

* Isto para conhecer a verdade de proposições. Coisas como andar de bicicleta ou o gosto do café podem ser conhecidas mas não são crenças nem são verdadeiras ou falsas.

A quem gostar destas coisas recomendo os artigos The Analysis of Knowledge e Epistemology na Stanford Encyclopedia of Philosophy.

1- João Paulo II, Fides et Ratio
2- Goldman, Alvin. 1976. "Discrimination and Perceptual Knowledge." The Journal of Philosophy 73, pp. 771-791.
3- Wikipedia, John Frum

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Marte.

Esta noite a Phoenix aterrou (amartou, melhor dizendo) sã e salva. Até já mandou postais e tudo.

Marte

Para celebrar deixo uma graçola que vem só um pouco a propósito mas que encaixa noutras discussões deste blog.

Ciência e Religião

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Miscelânea Criacionista: O código genético, parte 2.

Em Outubro de 1953, meses depois de Watson e Crick descobrirem a estrutura do ADN, George Gamow propôs que as proteínas eram sintetizadas pelo contacto ordenado de aminoácidos com o ADN. A sequência do ADN determinaria a forma de pequenas bolsas à superfície da molécula e cada uma dessas bolsas atrairia um aminoácido específico, determinando assim a sequência da proteína. A hipótese foi rapidamente refutada mas, com isto, Gamow inventou o código genético. O seu esquema abstraiu da complexidade das reacções químicas uma relação simbólica entre sequências e esta metáfora da síntese de proteínas como o descodificar de uma mensagem facilitou a compreensão do processo. Infelizmente, também baralhou os criacionistas. Ainda hoje confundem a evolução natural destes mecanismos químicos com a forma inteligente como os cientistas os desvendaram.

O entusiasmo com o paradigma do código estimulou a criação de códigos verdadeiramente inteligentes. Rapidamente ficou estabelecido que cada um de vinte aminoácidos diferentes seria especificado por um codão, uma sequência de três nucleótidos no ADN. No final dos anos 50 tinha-se a ideia que o ADN era copiado para ARN ao qual se ligavam moléculas transportando os vários aminoácidos. Estas moléculas de transporte alinhavam-se na sequência certa ligando-se aos seus codões respectivos, o que levantava dois problemas. Primeiro, com 4 nucleótidos (A, C, G, U) há 64 codões diferentes, mas sabia-se de apenas 20 aminoácidos. Segundo, se uma molécula de transporte se ligasse desalinhada alteraria toda a sequência. Imaginem que na sequência ACG-GGU-CGG uma molécula se liga ao primeiro CGG que surge a seguir ao A (A-CGG-UCG-G). Isto alterava as ligações das moléculas que viessem a seguir e a sequência da proteína resultante.

Em 1957 Crick propôs uma solução genial. O código tinha que ser tal que só pudesse ser lido com o alinhamento certo. Por exemplo, se houvesse moléculas de transporte para as sequências AGA e UGA não podia haver nem para GAU nem para AUG. Desta forma o trecho AGA-UGA nunca poderia ser “lido” como A-GAU-GA ou AG-AUG-A porque não haveria moléculas que se encaixassem nos codões GAU nem AUG. Eliminando os codões que poderiam induzir erros, dos 64 só restavam 20. Exactamente o número de aminoácidos diferentes. Foi uma festa. Tinham decifrado o código genético.

A festa durou pouco. O “código” não é “lido” da forma rápida e eficiente que se julgava em 1957, com as moléculas de transporte a ligar-se em paralelo ao ARN. É lido passo a passo por enzimas que percorrem o ARN um codão de cada vez. A cada passo têm que esperar que o aminoácido certo venha parar ao sítio certo pelo movimento aleatório das moléculas em solução. Os criacionistas apregoam a densidade de informação do ADN mas esquecem-se de mencionar que essa informação é “lida” ao ritmo de 15 aminoácidos por segundo. É cinco milhões de vezes mais lento que um disco rígido num computador pessoal.

Além disso o código genético é confuso e nada elegante. A tabela abaixo mostra a correspondência entre os vinte aminoácidos e os seus codões no código padrão (1), mas há 23 variantes conhecidas deste código (2). A maioria têm diferenças pequenas mas alguns incluem aminoácidos adicionais como a selenocisteína e a pirrolisina.

Ala/AGCU, GCC, GCA, GCGLeu/LUUA, UUG, CUU, CUC, CUA, CUG
Arg/RCGU, CGC, CGA, CGG, AGA, AGGLys/KAAA, AAG
Asn/NAAU, AACMet/MAUG
Asp/DGAU, GACPhe/FUUU, UUC
Cys/CUGU, UGCPro/PCCU, CCC, CCA, CCG
Gln/QCAA, CAGSer/SUCU, UCC, UCA, UCG, AGU, AGC
Glu/EGAA, GAGThr/TACU, ACC, ACA, ACG
Gly/GGGU, GGC, GGA, GGGTrp/WUGG
His/HCAU, CACTyr/YUAU, UAC
Ile/IAUU, AUC, AUAVal/VGUU, GUC, GUA, GUG
STARTAUGSTOPUAG, UGA, UAA


Esta confusão surpreendeu os cientistas que procuravam um código inteligente para traduzir ADN em proteínas. Não porque assumissem um Criador inteligente mas pelo entusiasmo com que abraçaram a metáfora da mensagem em código. O “código” verdadeiro não foi optimizado para transmitir mensagens mas sim moldado pela selecção natural que o forçou a minimizar os efeitos das mutações. A redundância faz com que muitas mutações não afectem a sequência da proteína e o padrão das correspondências faz com que as mutações que afectam a proteína tendam a trocar aminoácidos semelhantes. Isto não é particularmente inteligente ou eficiente mas é o reflexo do processo de mutação e selecção que gerou este mecanismo.


Os criacionistas apresentam o código genético como um jardim setecentista, podado e arranjado com cada folha no seu sítio e testemunho de um Jardineiro inteligente. A realidade é diferente. Este código é um emaranhado de ervas daninhas e silvas, caótico, sem ordem aparente mas com a robustez e determinação cega de algo que sobreviveu a milhares de milhões de anos de adversidade.


A minha fonte principal foi o artigo The Invention of the Genetic Code, de Brian Hayes.

1- Wikipedia, The Genetic Code
2- NCBI, The Genetic Codes

Terça-feira, Maio 13, 2008

13 de Maio.

Há quase 100 anos, neste mesmo dia, um acontecimento mudou a vida de muitos milhões de pessoas. A 13 de Maio de 1913, Igor Ivanovich Sikorsky pilotou o S-21 Russky Vityaz, o primeiro avião quadrimotor de sempre e que ele próprio concebera. Foi o percursor dos bombardeamentos estratégicos e da aviação comercial moderna. Para bem ou para mal, a criação de aviões de grande porte teve consequências profundas para a nossa civilização.

Todos os anos um milhão e meio de crentes comungam em Fátima. São movidos pela fé e pela crença que a mãe do seu deus veio ali dar uma mensagem de importância suprema. Para quem não acredita a mensagem é críptica e inconsequente, mas estas coisas são assim mesmo. São só para quem tem fé.

E todos os dias três milhões de pessoas e centenas de milhares de toneladas de carga voam por todo o mundo. São movidas pelo trabalho de pessoas como Sikorsky, mas a maioria nem sequer ouviu falar deste pioneiro da aviação. Não faz diferença. Os aviões funcionam bem sem fé.

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Fundamentos.

No Companhia dos Filósofos o Bruno escreveu um post interessante sobre ciência e religião (1). Estou de acordo que a ciência também tenta «responder às tais grandes questões da nossa existência» e concordo que a questão fundamental no debate entre ciência e religião é se o universo se deve a «algo ou alguém?», se a causa é um mecanismo ou uma pessoa.

Mas o Bruno vira subtilmente o argumento quando afirma, mais adiante, que a «grande questão [é] o tipo de fundamento que estamos dispostos a procurar: pessoal ou impessoal». Não pode ser. A questão é o fundamento em si e não a nossa disposição. Não devemos confundir o que é com o que gostaríamos que fosse. Além disso, “procurar” tem aqui dois sentidos muito diferentes.

A religião procura o fundamento da realidade como o corredor de maratona procura a meta. Com dedicação e esforço, ou por gosto, mas sempre com aquele resultado em vista e o trajecto traçado. Não volta atrás, não explora alternativas nem reconsidera premissas. É movida pela firme convicção que a meta está ali e o que importa é chegar lá. A ciência procura como um detective. Tem suspeitas em vez de fé, tem sempre caminhos por percorrer e o resultado só se sabe no fim. Move-se pela necessidade de esclarecer cada dúvida. Parece-me que enquanto não conhecermos o fundamento último do universo é insensato escolher uma direcção e desatar a correr sem olhar para trás.

Talvez por este uso ambíguo de “procurar”, o Bruno limita a ciência ao materialismo, como se a ciência também corresse só em frente:

«Enquanto numa visão materialista este fundamento último se reduz a um algo que podemos conhecer cientificamente, as grandes religiões monoteístas procuram e acreditam num Deus que é Alguém e não uma coisa, e que não é, portanto, totalmente cognoscível pelo método da ciência. Tentar aplicar a Deus o método científico não resulta, tal como não resulta utilizar o método científico para me relacionar com um amigo (a menos que queira também reduzi-lo a uma caixa de acção reacção)»

O materialismo é o principal suspeito. Pessoalmente, considero-o mesmo culpado de fundamentar o universo. Mas não é o único suspeito e se houver evidências que é inocente a ciência procurará noutros lados como já fez no passado. Por confundir o materialismo com a ciência, ou o suspeito com a investigação, o Bruno conclui que a ciência não nos ajuda numa relação com um amigo «a menos que queira também reduzi-lo a uma caixa de acção reacção». Não é verdade.

Podemos estudar psicologia, arqueologia ou primatas sem reduzir tudo a meros mecanismos desprovidos de intenção. O essencial para a ciência é a experimentação, e essa também é fundamental nas relações humanas. Desde que nascemos que fazemos experiências com os outros. Cada sorriso, cada birra, cada carinho e exigência dá-nos dados para reformular hipóteses. Não são hipóteses formais mas qualquer ser humano privado destes resultados experimentais não vai conseguir sequer formar modelos intuitivos que permitam relacionar-se com os outros.

Concordo que a questão importante é o tipo de fundamento que o universo tem mas não confio nas religiões para o descobrir porque assumem que já o conhecem em grande detalhe. Sabem pormenores acerca dos seus deuses que nem os deuses desconfiam. Mesmo que este fundamento seja um deus pessoal é a ciência que o vai encontrar. É a única que procura em vez de julgar que encontrou. Finalmente, é a experiência que nos ensina a relacionarmo-nos com outros. Tanto que as religiões projectam nos seus deuses o que aprendem com humanos. O deus pessoal é humano, criado à nossa imagem. Ama, condena, castiga, regozija, aprova, reprova, descansa ao Sábado e até gosta de ouvir louvores.

Antes de podermos desenvolver uma relação com o hipotético criador do universo temos que aprender algo acerca dele. Temos que o tornar objecto de ciência. Mas antes disso há que determinar se o universo de formou por algo, por alguém ou por outra coisa qualquer que ainda não imaginámos. Não vejo em nenhuma fase desta investigação um papel útil para as religiões

1- Bruno, 30-4-08, O fundamento último da existência: algo ou alguém?

Quarta-feira, Maio 07, 2008

Evolução: A selecção natural.

A sobrevivência do mais apto traz à mente a chita a caçar a gazela, com a chita obviamente mais apta e a gazela o sacrifício à cruel selecção. É uma metáfora muito mal compreendida. No que toca à selecção natural, as chitas e as gazelas até estão a colaborar. Melhor dizendo, as características das chitas que caçam gazelas cooperam com as características das gazelas que escapam, eliminando as características das gazelas apanhadas e das chitas que morrem à fome. Mas é melhor explicar.

Primeiro, as ideias fundamentais. A evolução é a variação das características na população e a selecção natural é apenas um dos mecanismos que as faz variar. Mas este mecanismo é complexo e poderoso porque opera na relação de quatro níveis de organização: o gene, o organismo, a população e o ecossistema. A selecção natural guia a evolução da população agindo sobre cada organismo* mas o que persiste são as características herdadas pela cópia dos genes.

Cada chita e gazela é uma equipa de genes. São estas equipas que participam nas eliminatórias. Mas a competição não é ganha por equipas. A cada geração as equipas desfazem-se, cópias dos genes formam novas equipas e o que perdura são as características transmitidas pela replicação do ADN**. A competição, na realidade, é entre características, e a evolução é a variação da distribuição destas características na população. Como há um número limitado de cópias de cada gene de chita, mais cópias de genes para músculos rápidos implica menos cópias de genes para músculos lentos. Nesta competição, os genes das gazelas rápidas prejudicam os genes de chita para músculos lentos e, por isso, beneficiam os genes de chita para músculos rápidos.

Um gene sozinho não faz nada, e só prevalecem na competição com outras variantes os genes que formam boas equipas. Mas o interessante é que a variante (o alelo) que torna o músculo da chita mais rápido não forma equipa apenas com outros genes da chita, os que fazem articulações flexíveis, dentes afiados e assim por diante. De uma forma menos directa mas igualmente relevante, forma equipa com os genes para a rapidez da gazela que o ajudam a eliminar os genes que fazem chitas mais lentas.

A evolução ocorre na população, quem compete por lugares na próxima geração são os genes e as eliminatórias são entre equipas de genes que colaboram para vencer outros genes. Estas equipas correspondem aproximadamente a organismos, mas não totalmente, o que faz uma grande diferença. Os genes de fungos e algas fazem equipa nos líquenes. Os genes das mitocôndrias juntam-se aos genes das nossas células, os genes dos pais fazem parceria com as suas cópias nos filhos e os genes das formigas colaboram no formigueiro. Do cérebro humano ao endoesporo e do vírus ao cachalote há uma imensidão de produtos da colaboração de genes obrigados a trabalhar em equipa pela eliminação implacável dos genes menos aptos.

E tudo isto sem pinga de inteligência. Só tempo e a paciência característica da matéria inconsciente. Copiam-se uns, perdem-se muitos e repete-se, repete-se, repete-se enquanto o Sol durar. Há quem diga que isto rouba sentido à nossa existência. Disparate. Como se um sopro no barro rivalizasse a magnificência deste processo. Os genes da minha equipa venceram milhões de torneios sem uma única derrota. São de origem humilde mas chegaram cá pelo seu mérito, sem milagres nem favores de Ninguém.

É pena que tantos se esforcem por não perceber a selecção natural. A pensar na dentada da chita passa-lhes despercebida a rede de colaborações que liga todo o ecossistema, todas as espécies presentes e passadas e que gerou até uma espécie capaz de compreender este processo. Quando se esforça. Infelizmente, uma boa parte dessa espécie usa o cérebro, que demorou quatro mil milhões de anos a aperfeiçoar, só para viver no engano e enganar os outros.

* Ou grupos de organismos em casos excepcionais como parasitas num hospedeiro ou populações que colonizam ilhas.
** E mais uma data de coisas como ARN, proteínas, membranas celulares, organelos... mas isto tem que caber num post.

Terça-feira, Maio 06, 2008

Nós, chimpanzés e vírus.

O leitor J.H. recomendou este vídeo que agradeço e recomendo também. É de notar o contraste com a “interessante teoria” que o abacate faz bem às grávidas porque se pode desenhar bébés lá dentro (1).



1- Este não é a gozar

Quarta-feira, Abril 30, 2008

Os malefícios da trigonometria.

A segunda guerra mundial matou setenta milhões de pessoas e a trigonometria foi instrumental nessa tragédia. Usaram-na para projectar armas, construir tanques, apontar artilharia, guiar bombardeiros e enviar ordens por rádio. Sem a trigonometria milhões de pessoas teriam sobrevivido. Mesmo assim é razoável culpar os governos e as ideologias dos dirigentes em vez da trigonometria. A razão é simples. As ideologias foram escolhidas mas o quadrado da hipotenusa não pode ser senão a soma dos quadrados dos catetos.

É isto que muitos esquecem quando apontam os malefícios da ciência. O investigador pode ser imoral, os resultados da ciência podem ser usados para fins imorais e a tecnologia em si, bombas ou instrumentos de tortura, pode ser imoral. Mas a realidade não é à nossa vontade. Há modelos que correspondem aos dados e há outros que não correspondem. Isto não escolhemos. O máximo que podemos fazer é tentar descobrir quais são quais.

Criacionistas e afins entretêm-se a associar a teoria da evolução ao nazismo, a Hitler e aos movimentos eugénicos e a apontar o racismo de Darwin. Como se isso fosse relevante para a teoria da evolução. A trigonometria não seria menos válida se Pitágoras violasse crianças nem a química passa a estar errada quando uma bomba mata inocentes. A teoria da evolução diz que se os hemofílicos morrerem haverá menos hemofílicos nas próximas gerações e a medicação poderá aumentar a incidência desta doença. Isto descreve a realidade, não é imoral. Imoral seria matar os hemofílicos em vez de aumentar a produção dos medicamentos ou ignorar os factos por nos parecerem desagradáveis.

O curioso é que são crentes religiosos quem alega que há modelos científicos imorais. Os modelos científicos são o que a realidade os força a ser, dentro do que conseguimos descobrir, e moralmente neutros como o teorema de Pitágoras. Os preceitos religiosos é que são os que se quiser. Escolha não falta e quem não encontrar uma religião a gosto pode fazer como o Jorge Tadeu, o Joseph Smith ou o David Koresh e inventar a sua. É a religião que pode ser imoral porque podemos criá-la à nossa vontade.

Aceito que, pela mesma razão, a religião também possa ser moralmente boa. Em teoria. O problema aqui é de ordem prática. Escolher por escolher é arriscado porque há muito mais maneiras de fazer mal do que de fazer bem. Na prática, só escolhe preceitos religiosos moralmente bons quem já é capaz de agir moralmente bem sem eles.

Religiões acusarem modelos científicos de serem imorais é um disparate porque ninguém tem culpa que haja gravidade, triângulos ou evolução, porque conhecer a realidade é um requisito para agir moralmente e porque as religiões só não são totalmente imorais porque muitos crentes são moralmente superiores às religiões que têm.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Porquês.

Segundo alguns, a ciência diz-nos como as coisas acontecem e a religião diz porquê. Não me parece, mas antes de elaborar quero esclarecer como entendo esta alegada diferença: os porquês são razões e propósito; os “comos” são causas e efeitos. Na pedrada que parte o vidro vemos uma relação entre causa e efeito que explicamos com um como. É a isso que querem restringir a ciência. No homem a correr para a casa de banho vemos um acto motivado por razões que se explica com porquês. A proposta é que mesmo que a ciência explique todas as relações de causa e efeito que originaram o universo ainda resta à religião dizer o porquê. Porque é que isto existe, qual é a razão, motivação e propósito disto tudo.

Eu proponho que razões e causas são fundamentalmente o mesmo. A quem discorda peço paciência, já passo à justificação. Mas primeiro quero explorar a hipótese que nós inventamos porquês para simplificar relações causais que não compreendemos. A pressão da urina activa nervos nos músculos da bexiga, os sinais chegam ao cérebro e causam padrões de actividade que constituem aquela sensação desconfortável e alteram o comportamento do homem. Falta-nos os detalhes do como e por isso simplificamos a coisa com um porquê. Correu para a casa de banho porque estava aflito.

Esta hipótese explica o desaparecimento de muitos porquês. Antigamente procurava-se porquês para a chuva e para a seca, para as doenças, os sismos, até para uns serem reis e outros escravos. A vontade dos deuses e o destino explicavam por razões aquilo cujas causas se desconhecia. Mas com a compreensão os porquês deram lugar aos comos. Não há razões e propósitos nas doenças ou no clima. Há causas e mecanismos. Até as desigualdades sociais deixaram de ser justificadas com porquês e passaram a ser descritas como efeitos de inúmeras causas.

Esta hipótese também explica a origem dos porquês. O desafio principal aos cérebros dos nossos antepassados era modelar os cérebros dos seus contemporâneos. Prever o que eles iam fazer e como iam reagir. Mas as relações causais no cérebro humano são tão complexas que nem hoje as compreendemos e um modelo mental de causas e efeitos não ia longe. A solução foi inventar os porquês, uma ilusão útil para simplificar problemas demasiado complexos. Não precisamos saber a anatomia da bexiga ou a fisiologia dos neurónios para perceber o porquê da pressa do homem, mas só com os detalhes é que poderemos compreender o como.

Uma justificação para a hipótese que os porquês se reduzem a causas e efeitos quando bem compreendidos é precisamente o seu poder explicativo. A hipótese alternativa não explica porque é que os porquês desaparecem assim que se compreende o como. Outra justificação é a incoerência de uma razão sem causa. O homem tem razões para ter pressa, mas essas razões são efeito de causas fisiológicas sem as quais não haveria razão para pressas. Uma razão por acaso parece contraditória. Por isto proponho que os porquês são uma questão falsa. São apenas uma invenção do nosso cérebro para cortar caminho por problemas complexos.

Mas admitamos que algures há porquês verdadeiros. Talvez no comportamento humano ou na criação divina do universo. Mesmo assim é incorrecto expulsar a ciência desse problema porque a ciência lida bem com porquês. Os arqueólogos tentam inferir as razões e propósitos por trás dos artefactos e construções. Os psicólogos lidam com porquês constantemente e a neuropsicologia tem feito grandes progressos na unificação de modelos de comos e modelos de porquês.

Finalmente, discordo que a religião seja apropriada para resolver este problema. É verdade que a religião ajuda a criar porquês. No fundo, inventámos os deuses para poder aplicar à natureza o mesmo modelo com que prevemos as acções do vizinho. Com razões, intenções, propósitos e todos esses atalhos mentais que evitam os detalhes de causas e efeitos. No entanto, os porquês que as várias religiões continuam a defender parecem tão ilusórios e desnecessários como os muitos que estas criaram no passado e que já ficaram pelo caminho.

Em suma, sou contra a ideia de dar os porquês à religião porque não é claro que o porquê sobreviva ao esclarecimento do como, porque a ciência também pode lidar com esses modelos e porque nada indica que a religião seja um método fiável para responder a estas questões.

XX Jornadas Teológicas: o rescaldo.

Alfredo Dinis, o moderador do debate, escreveu no Companhia dos Filósofos algumas considerações sobre o criacionismo e o debate do dia 23 (1). Em geral concordo com as suas críticas ao criacionismo. O Jónatas Machado frisou várias vezes que a palavra do deus dele é infalível mas eu só ouvia as palavras do Jónatas Machado. Mesmo que o deus fosse infalível não segue que a interpretação do Jónatas também seja, e não vi nada que justificasse a premissa. No entanto, argumentar que o criacionismo interpreta incorrectamente a Bíblia levanta o problema de determinar a interpretação correcta. O Alfredo escreve que:

«a narração cristã tradicional sobre a origem do universo e da vida não poderá continuar a ignorar os progressos da ciência e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.»

De acordo, mas na prática omite-se o mais importante no progresso científico. Esta abertura do catolicismo à ciência limita-se ao corpo de teorias que a ciência propõe e deixa de lado o método. A maior descoberta científica nestes últimos séculos foi a necessidade de considerar hipóteses alternativas e distingui-las pelo exame meticuloso dos dados, e neste momento não há dados que justifiquem a extrema confiança que o catolicismo deposita na existência daquele deus em particular, na inexistência de qualquer outro deus e num grande número de milagres que fundamentam esta religião. Ter em conta o progresso científico exige admitir que a hipótese cristã é, no máximo, uma questão em aberto e muito especulativa. Mas como isto é discussão para vários posts passo a estas frases:

«Tive o prazer de moderar o debate, no qual intervieram os Profs. Ludwig Krippahl, da Universidade Nova de Lisboa, e. Jónatas Machado, da Universidade de Coimbra. O primeiro defendeu o evolucionismo, o segundo o criacionismo.»

Eu não quis defender um ismo. Há uma diferença fundamental entre a ciência e a fé numa interpretação literal do Genesis. Chamar evolucionismo à primeira é como chamar martelismo à carpintaria. A teoria da evolução é uma ferramenta conceptual integrada na ciência moderna. É constantemente aperfeiçoada, testada e aplicada onde demonstra ser apropriado, estimula avanços noutras áreas e é guiada por essas descobertas. Martelismo é dar martelada a tudo só porque se tem um martelo, seja prego ou parafuso, e isso é o que os criacionistas fazem com a Bíblia.

1- Alfredo Dinis, 27-4-08, XX Jornadas Teológicas em Braga