Treta da Semana: Dr. Karadzic.
Radovan Karadzic foi psiquiatra, activista, presidente da Republica Sérvia, genocida, criminoso procurado e, em paralelo com este último, terapeuta de medicina alternativa numa clinica em Belgrado. Deu palestras como perito em «energia quântica humana» e publicou artigos numa revista da especialidade. Como tinha papeis falsos teve que dizer que tinha deixado o diploma de neuropsiquatria com a ex-mulher. Mas não houve problema. A revista apresentou-o como «investigador espiritual»(1).
Se alguém sem qualificações se faz passar por enfermeiro, cirurgião ou até canalizador topam-no num instante. Mas tretas como a medicina alternativa são mais permissivas. Se não há distinção entre o que funciona e o que não funciona qualquer um pode fazê-lo. É claro que depois de estabelecido o negócio vêm dizer que é preciso “regular” a actividade, “certificar” os praticantes e garantir a “qualidade” da prática. Ou seja, querem tachos. Mas continua a não funcionar.
Quando perguntaram à Sra. Chatfield, da sociedade britânica de homeopatas, se havia alguma forma de distinguir entre medicamentos homeopáticos ela respondeu «só pelo rótulo» (2). É que nestas coisas não há mais nada. O ano passado também apanharam por cá um tal Agostinho Coutinho Caridade que se fazia passar por padre. Celebrava casamentos, baptizados, missas e funerais mas não o descobriram por ter falhado a transubstanciação da hóstia ou por a água que benzia não ficar tão benta como a dos outros. Descobriram que o rótulo era falso (3).
Infelizmente, a dependência do rótulo não se limita a casos em que a imitação e o genuíno são o mesmo. O António Raposo foi professor no ensino secundário durante trinta anos, tendo apresentado um certificado falso de licenciatura em economia(4). Segundo os colegas e alunos, sempre desempenhou as suas funções «na perfeição»(5). Chegou até a presidente do conselho executivo, o que não quer dizer muito mas sugere que não era notavelmente menos competente que os seus pares. Aldrabou, mereceu o castigo, mas preocupa-me que a coisa tenha ficado por aí. Porque o que isto nos diz é que o rótulo não é de fiar.
Se o António era incompetente deixaram-no ensinar durante trinta anos sem notar nada. E se o António era competente então admitir professores no ensino secundário só pelo rótulo talvez seja asneira. Possivelmente a correlação entre uma licenciatura e a capacidade de ensinar crianças é muito ténue. E a matéria leccionada no ensino secundário não exige necessariamente formação superior. O problema não é fácil de resolver. Avaliar a qualidade dos professores é uma tarefa complexa. Mas isso não é desculpa para resolver o problema da forma errada só porque é mais simples.
Moral da história, não se fiem no rótulo. Se a única diferença é o que está no papelinho o mais certo é que o resto seja treta.
1- B92, 22-7-08, Karadžić "practiced alternative medicine"
2- Select Committee on Science and Technology, Examination of Witnesses (Questions 520-539)
3- DN Sapo, Falso padre até a casar era burlão
4- Diário IOL, Falso professor condenado a 18 meses de prisão
5-AEIOU, Falso professor apanha 18 meses de pena suspensa
