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Domingo, Agosto 10, 2008

Treta da Semana: Dr. Karadzic.

Radovan Karadzic foi psiquiatra, activista, presidente da Republica Sérvia, genocida, criminoso procurado e, em paralelo com este último, terapeuta de medicina alternativa numa clinica em Belgrado. Deu palestras como perito em «energia quântica humana» e publicou artigos numa revista da especialidade. Como tinha papeis falsos teve que dizer que tinha deixado o diploma de neuropsiquatria com a ex-mulher. Mas não houve problema. A revista apresentou-o como «investigador espiritual»(1).

Se alguém sem qualificações se faz passar por enfermeiro, cirurgião ou até canalizador topam-no num instante. Mas tretas como a medicina alternativa são mais permissivas. Se não há distinção entre o que funciona e o que não funciona qualquer um pode fazê-lo. É claro que depois de estabelecido o negócio vêm dizer que é preciso “regular” a actividade, “certificar” os praticantes e garantir a “qualidade” da prática. Ou seja, querem tachos. Mas continua a não funcionar.

Quando perguntaram à Sra. Chatfield, da sociedade britânica de homeopatas, se havia alguma forma de distinguir entre medicamentos homeopáticos ela respondeu «só pelo rótulo» (2). É que nestas coisas não há mais nada. O ano passado também apanharam por cá um tal Agostinho Coutinho Caridade que se fazia passar por padre. Celebrava casamentos, baptizados, missas e funerais mas não o descobriram por ter falhado a transubstanciação da hóstia ou por a água que benzia não ficar tão benta como a dos outros. Descobriram que o rótulo era falso (3).

Infelizmente, a dependência do rótulo não se limita a casos em que a imitação e o genuíno são o mesmo. O António Raposo foi professor no ensino secundário durante trinta anos, tendo apresentado um certificado falso de licenciatura em economia(4). Segundo os colegas e alunos, sempre desempenhou as suas funções «na perfeição»(5). Chegou até a presidente do conselho executivo, o que não quer dizer muito mas sugere que não era notavelmente menos competente que os seus pares. Aldrabou, mereceu o castigo, mas preocupa-me que a coisa tenha ficado por aí. Porque o que isto nos diz é que o rótulo não é de fiar.

Se o António era incompetente deixaram-no ensinar durante trinta anos sem notar nada. E se o António era competente então admitir professores no ensino secundário só pelo rótulo talvez seja asneira. Possivelmente a correlação entre uma licenciatura e a capacidade de ensinar crianças é muito ténue. E a matéria leccionada no ensino secundário não exige necessariamente formação superior. O problema não é fácil de resolver. Avaliar a qualidade dos professores é uma tarefa complexa. Mas isso não é desculpa para resolver o problema da forma errada só porque é mais simples.

Moral da história, não se fiem no rótulo. Se a única diferença é o que está no papelinho o mais certo é que o resto seja treta.

1- B92, 22-7-08, Karadžić "practiced alternative medicine"
2- Select Committee on Science and Technology, Examination of Witnesses (Questions 520-539)
3- DN Sapo, Falso padre até a casar era burlão
4- Diário IOL, Falso professor condenado a 18 meses de prisão
5-AEIOU, Falso professor apanha 18 meses de pena suspensa

Quinta-feira, Julho 31, 2008

Razões para crer. 3- E para descrer.

«[O] pensamento claro e o respeito por indícios concretos – especialmente os indícios inconvenientes que contrariam os nossos preconceitos – são cruciais para a sobrevivência da espécie humana no século XXI»
Alan Sokal, «O que é a ciência e porque é que isso interessa?»(1)

«Deus que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela.»
João Paulo II, «Fides et ratio»(2)

Alguma da filosofia do último século ajudou a compreender a ciência, especialmente pela demarcação entre o que é e não é ciência. Popper propôs a falsificabilidade como característica fundamental; a hipótese científica tem que admitir que algo observável a possa refutar. Assim o criacionismo fica de fora porque o que quer que se observe é compatível com um criador omnipotente, e a hipótese que permite tudo não serve para nada. Mas Kuhn apontou que falsificar é pouco vulgar na ciência. O mais comum é resolver problemas. Quando um astrólogo falha numa previsão encolhe os ombros e segue para a próxima. Mas um astrónomo, quando falha, tem mecanismos para verificar os cálculos, reconsiderar premissas e confirmar observações até encontrar o problema e resolvê-lo. E só quando o problema é muito profundo é que há uma «mudança de paradigma».

Lakatos tirou a ênfase da hipótese isolada e mudou-a para as hipóteses em conjunto, o «programa de investigação». A biologia tem hipóteses centrais acerca da evolução e parentesco de todos os seres vivos. Estas não costumam ser postas à prova. São as hipóteses periféricas como a existência daquela forma intermédia ou a classificação deste organismo que são normalmente sujeitas a testes directos. Como se pode sempre proteger as hipóteses centrais sacrificando as periféricas, a questão principal não é a falsificação da hipótese isolada mas o desempenho do programa como um todo. Ou seja, se as revisões permitem prever melhor e resolver novos problemas ou se, pelo contrário, apenas disfarçam os falhanços com desculpas retrospectivas.

Isto é um resumo grosseiro de um tema complexo mas serve os objectivos deste post (até porque incluem não adormecer o leitor). Um é mostrar que a ciência é o caminho para o conhecimento. A verdade tem que ser claramente distinta da treta e o conhecimento só o é se resolve problemas ou responde a perguntas. E as hipótese que não se conformam ao que observamos devem ser corrigidas de maneira que permita compreender cada vez mais e cada vez melhor. No conhecimento, e na ciência, não há lugar para mistérios insondáveis, verborreia confusa ou desculpas teimosas em nome da fé.

Outro objectivo é desmascarar o truque de qualificar este conhecimento de “científico” para, enquanto o público olha para essa mão, a outra tirar do bolso o “conhecimento” teológico, transcendente, revelado, a priori ou o que mais calhe. Esses não são conhecimento. A premissa que um Deus perfeito escreveu a Bíblia permite inferir que a Bíblia é a verdade revelada. E as regras do Xadrez permitem inferir que o cavalo anda em L. Nem uma nem outra dizem o que quer que seja acerca da realidade. São meros jogos de lógica abstracta, e o conhecimento tem que ser mais que isso. Tem que confrontar o que observamos, responder a perguntas e levar-nos a compreender coisas que desconhecíamos.

Principalmente, quero contrapor a ideia que não podemos afirmar não haver deuses. Segundo a Enciclopédia Católica, «que tal afirmação é irrazoável e ilógica não precisa de demonstração porque é uma inferência injustificável pelos factos ou pelas leis do pensamento». É exemplo típico de duplicidade de critérios, de terminologia vaga (nunca explicam que “leis” são essas) e um erro flagrante se “leis do pensamento” se referir à atitude crítica e de respeito pelos factos que nos conduz ao conhecimento.

Há uma razão forte para descrer dos deuses. Muito mais forte que qualquer prova deduzida de axiomas tirados do chapéu. É que as hipóteses da existência de deuses só atrapalham. Ou contradizem a realidade ou não dizem nem sim nem não e, quer num caso quer noutro, não servem para compreender nada. Tal como não é preciso uma demonstração matemática para tirar a pedra do sapato, também não é preciso uma prova irrefutável para deitar fora os raciocínios circulares, a retórica obscura e as hipóteses inúteis que dificultam a caminhada. É que mesmo que nunca cheguemos ao conhecimento perfeito só temos a ganhar com os avanços na direcção certa.

1- O texto completo está aqui (em pdf). Recomendo.
2- Texto integral aqui.
Episódios anteriores:
Razões para crer. 1- Conhecimento.
Razões para crer. 2- Dois é companhia.

Domingo, Julho 27, 2008

Treta da Semana: Kryon.

Recebi um email da Casa Índigo a anunciar que a passada sexta feira foi um dia fora do tempo e que ontem começou o Ano Tormenta Eléctrica Azul (1). Agora estamos na Lua Magnética do Morcego, que dura até 22 de Agosto. Depois começa a Lua Lunar do Escorpião. O adjectivo «Lunar» é para distingui-la das de Azeitão, Cabra Transmontana, Rabaçal ou Tipo Serra.

À frente da Casa Índigo está Tereza Guerra, que além de licenciada em filosofia é «Kin 212: Humano Auto Existente Amarelo» e está a tirar um doutoramento em «Educação de Crianças Índigo». É pena não dizer onde nem com quem porque eu gostava de fazer umas perguntas ao seu orientador (nomeadamente, WTF?!?)*

Mas a fonte desta sabedoria é Lee Carroll, que, segundo o próprio, «canalizou» Kryon, uma «entidade extra-física [...] do "Serviço Magnético", oriunda do Sol Central». Não é o que estão a pensar. Quando li isto também imaginei um ser invisível com milhões de braços espalhados pelo mundo a segurar bonequinhos aos frigoríficos. Mas não. A missão de Kyron é «alterar o alinhamento magnético do nosso planeta» e «elevar o planeta a um nível vibratório superior» (3). Caro senhor Kryon, isto não me parece boa ideia.

O campo magnético da Terra é gerado por correntes de magma no interior do planeta. Como a espessura da parte sólida que habitamos é apenas umas milésimas do total eu preferia que o Sr. Kryon deixasse tudo como está. Porque se se descuida a mexer nas correntes de magma ainda ficamos todos a nadar em lava. E, já agora, também prefiro que não ponha o planeta num nível vibratório superior. A isso chamamos sismos e não nos dão jeito nenhum.

E porquê “Kryon”? «Se você pega as letras do meu nome em TOM – KRYON, e assinala os números a cada letra do alfabeto ocidental – A=1 B=2 Z=26 etc., depois soma estes números, você terá como resultado 83, o qual também somado resulta 11.[...] Este número 11 dirá a você mais do meu caráter. Quando você multiplica este número pela força vibratória 3, o resultado é 33 que lhe dará o insight de meu serviço. Eu vou lhe dar uma importante fórmula de poder: 9944. Seu discernimento e intuição eventualmente o levará ao significado dela, mas ela é importante na transmutação de energia.» (4). Ah... OK...

Como o cozido à portuguesa está para as couves, carnes e enchidos, assim as “canalizações” de Kryon estão para os disparates, parvoíces e tretas. E na Casa Índigo também há muitos ingredientes. A Marta Modas (5), além de formada em psicologia e «Kin 214, Mago Rítmico Branco», tem o 2º nível de «Reiki Galáctico e MultiDimensional» e faz «Meditação Galáctica» regularmente. A Susana Pinho (Kin 160: Sol Auto Existente Amarelo) lê auras e descobriu que a Cristina Gonçalves (Kin 238: Espelho Auto-existente Branco) «tem energia índigo.» Licenciada em Engenharia Física, a Cristina é também formada em Reiki e Programação Neurolinguística, Tai-Chi, Chi Kung e pratica «Meditação Galáctica» frequentemente.

Se forem a esta página podem calcular o vosso Kin, a vossa assinatura galáctica e onda encantada e até ver o aspecto tridimensional do tempo (num ecrã a duas dimensões, tal é a façanha...). Presumo que isto seja útil para quem tiver o campo magnético alinhado num estado vibracional superior. E com mais um euro já dá para uma bica.

*O Carlos Fiolhais também escreveu sobre isto no De Rerum Natura: Grandes Erros: Dia Fora do Tempo.

1- Casa Índigo, agenda
2- www.terezaguerra.com
3- Loja Índigo, Kryon - Livro I
4- Luz de Gaia, Quem é Kryon?
5- Casa Índigo, Marta Modas

Domingo, Julho 20, 2008

Treta da Semana: outra vez o propósito...

É comum entre religiosos defender que tudo foi criado de propósito excepto um certo deus, apesar de discordarem, por vezes com demasiado zelo, acerca de qual deus é a excepção. Já discutimos aqui vários aspectos desta hipótese. O porquê de ser tão popular (1), inferior às alternativas (2) e ineficaz como explicação para as características dos seres vivos (3). Só faltava discutir porque é que é treta. O Senhor Arquitecto Anónimo Pereira (SAAP) deu o mote notando alguns aspectos importantes desta hipótese (4).

Segundo o SAAP, falta «prova científica» de não termos sido criados para um propósito. Não é claro o que entende por «prova científica», mas não deve ser aquilo que os cientistas procuram (5). E enquanto a falta de «prova científica» é um defeito nas outras hipóteses, aparentemente é virtude na sua. Um post não chega para tanta treta, por isso tenho que me restringir a esta parte da discussão:

«A minha "crendice", como lhe chama, é a Verdade. Pura, simples e perfeita. Por isso resiste a todos os modelos científicos. Sem Deus os seus modelos científicos nunca existiriam, Doutor. Porque foi Deus que fez a ciência e permite ao senhor Doutor efectuar as suas pesquisas e modelos.» (4)

É difícil distinguir os comentadores anónimos interessados mas coibidos por pressões familiares ou profissionais daqueles que defendem desonestamente uma posição que percebem ser ridícula ou que só querem chatear. Os internautas recomendam não alimentar estes últimos, os trolls, mas eu penso que vale a pena se esclarecer algo relevante. E a premissa que deuses e seus propósitos são questões fora da ciência que compete à fé responder é suficientemente comum para não me ralar com o que motiva o SAAP.

Podemos perguntar se uma lasca de sílex é artifício propositado ou se é fruto de um processo natural. Arqueólogos e paleontólogos lidam regularmente com estas questões, e a ciência permite-lhes inferir propósito em alguns casos. Mas é verdade que, formuladas desta maneira, estas hipóteses não são científicas. É preciso detalhar os processos naturais, propósitos e métodos de fabrico que possam ter criado a lasca para poder comparar as hipóteses, confrontá-las com o que observamos e avaliar o mérito relativo de cada uma. E assim já são científicas. Mas se for para dizer que a lasca foi criada para um propósito insondável e por um método misterioso mais vale dizer «não sei». Adianta-se o mesmo poupa-se a má figura.

Tenho insistido, insisto, e voltarei a insistir. As hipóteses saem do âmbito da ciência apenas se não é possível determinar a sua verdade. Por serem mera consequência da definição dos termos (mafaguinhos, ver 5), por serem demasiado vagas (Deus é Amor) ou por permitirem tudo. O SAAP dá um exemplo: «Eu acredito na teoria da evolução. Se o Deus em que acredito é omnipotente, então tenho de olhar para a Natureza e pensar que se todas as coisas foram criadas desse modo então foi porque Deus assim o quis.»

Se eu sou omnipotente então tudo o que acontece é porque eu quero. Se a mosca que está aqui a voar é omnipotente então tudo o que acontece é porque ela quer. Há infinitas hipóteses que não podemos testar porque não dizem nada relevante. São indiferentes à realidade, nenhuma é científica e são todas disparate. Para disfarçar propõem a fé como “teste” da hipótese, mas a fé não tem nada a ver com a verdade da hipótese: «Depois de uns anos com uma vida de total devoção a Deus - sabe que isto dos testes são coisas muito demoradas - volte aqui para conversarmos e indique-me as suas conclusões.»(4)

Podemos também sugerir ao SAAP uns anos de devoção total à mosca até acreditar que a mosca é omnipotente. Um teste perfeitamente inútil porque, qualquer que seja o resultado, não indica nada acerca da omnipotência da mosca.

O SAAP propõe que a sua hipótese está fora do âmbito da ciência e deve ser testada pela fé. A treta é que a hipótese está fora da ciência apenas por não ter ponta por onde se pegue e o teste só testa a credulidade humana, não a hipótese.

Editado: por excesso de zelo na revisão apaguei uma virtude que não devia. Obrigado ao João Vasco pelo aviso.

1- Conspiração, religião, e intenção.
2- Evolução: Como se fosse de propósito
3- Miscelânea Criacionista: O Propósito.
4- O custo da propriedade intelectual, (os comentários não estão relacionados com o post).
5- Provado cientificamente

Quinta-feira, Julho 17, 2008

Confiar no sistema.

Várias pessoas têm discordado de mim em questões como a censura de injúrias, o copyright e a retenção de dados pessoais por parte de empresas. O que é bom porque obriga a repensar as coisas e torna os problemas mais claros. E o problema comum a estes casos parece-me ser o excesso de confiança no sistema e nas pessoas.

Um dos riscos de ceder poder a um sistema é que o sistema é controlado por pessoas falíveis, nem sempre fiáveis e muitas vezes com objectivos diferentes daqueles de quem nelas confia. A rede FiberWAN é um sistema informático de milhões de dólares que gere os pagamentos a funcionários públicos, registos de investigações policiais e comunicações electrónicas oficiais na cidade de São Francisco. Um técnico, por receber uma avaliação negativa, instalou programas para permitir a intercepção de mensagens por alguém que esteja fora da rede e alterou as passwords de administração (1). Sujeita-se a até sete anos de prisão mas se não der as passwords vai ser muito dispendioso recuperar o sistema. E não se sabe o que acontece entretanto à informação confidencial lá guardada.

Não proponho que se processe pagamentos e registos policiais à mão, ou que se abandone ambos por completo, porque há casos em que vale a pena correr o risco. Mas o risco de ter pessoas a gerir qualquer sistema tem que ser contabilizado nos custos. E quando se trata de pôr o juiz a decidir o que é ou não é ofensivo ou de guardar dados pessoais para se por ventura alguém for criminoso o risco ultrapassa os benefícios.

Outro problema é confiar no sistema. Até se apregoa muitas vezes a confiança na justiça, na polícia, nos legisladores e afins. É um erro, e é fugir à nossa responsabilidade. Numa democracia nós não temos apenas o direito de votar. Temos o dever de fiscalizar estes sistemas. A semana passada houve tiroteios e motins na Apelação. O artigo 302º do Código Penal pune com até um ano de prisão quem participar em «motim durante o qual forem cometidas colectivamente violências contra pessoas ou contra a propriedade». O artigo 303º agrava a pena a até dois anos se houver pessoas armadas no motim. O artigo 339º pune com até dois anos de prisão a fraude em eleição, quer pelo voto múltiplo quer pela falsificação dos resultados. Faz sentido que ofensas graves à ordem pública e ameaças ao sistema democrático sejam punidas com severidade.

O artigo 197º do código de direitos de autor pune com até três anos de prisão a distribuição não autorizada de uma obra protegida, ou até seis anos de prisão no caso de reincidência. A maioria dos que defendem que partilhar músicas seja crime foge à responsabilidade de fiscalizar este sistema. Matar de forma premeditada dá até vinte anos de cadeia; detonar explosivos pondo em perigo a vida de outros dá até dez; dois por falsificar eleições e um a quem se juntar com umas dezenas de amigos para bater em pessoas e partir coisas. Neste contexto partilhar ficheiros mp3 nem devia ser crime. Devia ser uma questão para tribunais civis. E estar entre a fraude eleitoral e o ataque terrorista demonstra a nossa irresponsabilidade enquanto cidadãos, porque me parece que o acordo tácito de muitos com este estado de coisas é mais fruto da ignorância da lei do que de um juízo ponderado em favor deste sistema.

Qualquer sistema, seja legislação, bases de dados ou o que for, tem como desvantagem dar a alguém o poder de o gerir. E o nosso papel numa democracia não é confiar nos sistemas mas desconfiar deles. Os custódios dos custódios somos nós, com a responsabilidade última por aquilo que a nossa sociedade for. Pelo bom e pelo mau.

Por isso proponho que não se defenda estas coisas sem considerar duas questões. Se vale a pena pôr esse poder nas mãos de alguém e se estamos a avaliar com diligência aquilo que defendemos. E nunca defender um sistema por confiar nele. Defendê-lo só apesar de desconfiar dele.

1- InfoWorld, Report: IT admin locks up San Francisco's network

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Treta da Semana: A falta de Olíbano.

A propósito da treta da semana passada, o leitor (leitora?) JATA sugeriu que não era útil criticar o milagre do beato Nuno Álvares Pereira (1). Como este blog é um serviço de utilidade pública sinto-me obrigado a redimir essa falha focando um problema grave que urge resolver. A falta de olíbano, nomeadamente do «verdadeiro Olíbano Somalês»(2). Porque «O Olíbano é o ingrediente central da amarração, é a oferenda que atrairá as entidades e as fará agir da maneira que queremos. Sem ele, elas simplesmente não vão fazer o que queremos, pois não terão razões nem incentivos para isso.»(2)

A amarração «é uma conjura de poderes para persuadir um homem ou uma mulher a desejar a pessoa que faz o feitiço»(3). Escreve-se num papel o nome do visado, faz-se um círculo de sal no chão, junta-se uma fotografia e duas velas negras, queima-se o imprescindível olíbano e profere-se este encantamento intrigante:

«Eu vos conjuro novamente, por todos os nomes secretos de Tetragrammaton, para que envies os teus poderes para oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma de [nome da pessoa desejada aqui], ele(ela) cujo nome aqui esta escrito, (segure o papel) para que ele(ela) venha até mim e concorde de livre vontade com os meus desejos, nunca mais gostando ou amando alguém no mundo que não eu, enquanto eu assim o desejar.”»(3)

Parece contraditória esta noção de «oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma» até que a pessoa «concorde de livre vontade». Mas o Bom Feiticeiro diz que se for «bem-feita, nunca falha», e eu tenho tanto respeito pela sua magia como tenho por qualquer outra “ciência oculta”, seja a astrologia, o pai-nosso ou a previsão do futuro na borra de café. São tudo formas legítimas de contactar a dimensão espiritual, também conhecida como terra do nunca nunca.

Mais a sério, a questão da utilidade de criticar estas coisas é interessante. É certo que o faço mais por gozo que por utilitarismo, mas penso que também é útil. Não por criticar o milagre do salpico ou a amarração em particular – se não fosse isto podia ser outra coisa qualquer – mas pela atitude crítica em si. Essa julgo que é sempre útil mesmo nas coisas mais triviais.

Por um lado porque estas coisas são triviais e inofensivas apenas se não as levarmos a sério. Milagres, magias e essas tretas têm uma grande influência na vida de quem acredita nelas e uma atitude crítica pode poupar muita chatice. E, por outro lado, é útil para não julgar estas coisas apenas pela primeira impressão ou sem impressão nenhuma. Quer a rejeição gratuita quer o politicamente correcto “respeito pela crença dos outros” desprezam a questão que a atitude crítica nos força a considerar: será que isto é verdade?

No caso da amarração e do olíbano não é preciso pensar muito. Não há vestígio dessas entidades que pretendem conjurar. E mesmo que existissem espíritos com a inteligência para identificar a pessoa visada e perceber o encantamento, e com o poder de a fazer amar alguém, o mais certo era desmancharem-se a rir do pateta que espalha sal no chão e lhes dá ordens enquanto queima olíbano. Mas até nestes casos de disparate óbvio parece-me que é útil perder alguns segundos a perguntar porque é que o consideramos um disparate.

E se isto não vos convence, deixo aqui alguns dos comentários ao post da amarração (3):

« Estou a confiar muito nesta amarração tendo em conta que já gastei milhares de Euros e o meu problema ainda não foi resolvido.»

« A foto pode ser substituida por outra coisa? Como um fio de cabelo,ou o esperma dele?»

« Bom Feiticeiro, o Sre. tem outro feitiço para ensinar, porque eu sou candidata a Vereadora e quero ganhar a Eleição e a Eleição é esse ano em Outubro.»

«FIZ TUDO COM MUITO AFINCO E INFELIZMENTE ONTEM VI O MEU AMOR RINDO E BRINCANDO MUITO COM OUTRAS MULHERES EM SALAS DE BATE PAPO, ENTÃO ISSO SIGNIFICA QUE NÃO DEU
CERTO? ME RESPONDA POR FAVOR, SE PREFERIR PODE ME RESPONDER POR E-MAIL, POIS HJ ESTOU PROFUNDAMENTE DEPRIMIDA E CHORANDO PELO QUE VI ONTEM.»


Obrigado ao leitor Quetretófilo pela sugestão do tema.

1- Treta da Semana: A crise chega aos milagres.
2- Bom Feiticeiro, Erro Número 1: Falta de Olíbano.
3- Bom Feiticeiro, Amarração explicada incluindo as dúvidas dos leitores.

Domingo, Julho 06, 2008

Treta da Semana: A crise chega aos milagres.

As coisas já não são como no tempo de Nuno Álvares Pereira, quando o barril de petróleo nem um cêntimo valia e ninguém se queixava do preço da electricidade. Hoje vivemos uma crise que afecta tudo e todos. Beatificado em 1918 pela piedade com que fustigou nuestros hermanos, Dom Nuno passou quase um século a interceder junto ao Altíssimo para que Este concedesse um milagre, requisito sine qua non para que a Igreja Católica admita um beato ao restrito clube de setecentos santos de reconhecida eficácia intercessora.

Maria teve um filho ainda virgem e fez bailar o Sol no céu. Fernando, mais conhecido por António, deu uma lição no seu mosteiro ao mesmo tempo que pregava na igreja de São Pedro em Limoges e convenceu um burro e centenas de peixes a adorar Deus. Ao Nuno, coitado, calhou-lhe um milagre em tempo de crise. A Sra. Dona Guilhermina de Jesus, uma sexagenária de Vila Franca de Xira, estava a fritar peixe quando um salpico de óleo lhe caiu no olho esquerdo. «O olho deveria ficar tapado de forma a não ser sujeito à luminosidade do sol e a senhora era obrigada a tomar medicamentos diários na tentativa de debelar a queimadura. “Mas mesmo com esses tratamentos não havia garantia de cura e a solução poderia ser um transplante de córnea”, explicou à Agência LUSA o Pe. Francisco Rodrigues»(1).

Sem garantia de cura, de olho tapado e medicada, a Sra. Dona Guilhermina recorreu à única hipótese que restava. O único que a poderia curar. O beato Nuno Álvares Pereira, comandante do exército Português, vitorioso de Aljubarrota e flagelo dos castelhanos. «Depois de várias novenas»(1), e passados três meses, começou a ver novamente do olho que o peixe tão traiçoeiramente, qual invasor espanhol, lhe havia salpicado. Esta cura «foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram miraculosa.» Só podia ser. Nunca, sem garantias de cura, podia a medicação e tratamentos ter reparado os danos causados por um salpico de óleo.

E por aqui também se vê a excelência destes médicos e teólogos. Dominam não só tudo o que a ciência sabe acerca da fisiologia ocular como também tudo o que a ciência algum dia poderá saber. É este conhecimento total sobre a ciência de hoje e do futuro que lhes permite identificar o carácter milagroso da cura do salpico, cientificamente inexplicável.

Graças a este trabalho, o processo de canonização irá avançar e em breve teremos mais um intercessor a quem pedir ajustes ao Plano Divino. Deus é omnisciente e todo-poderoso, o universo segue um plano traçado desde a Criação e tudo foi criado com um Propósito que é por nós insondável. Mas se alguém se magoa, tem um exame importante ou perde as chaves do carro não custa nada pedir um jeitinho. E tanto melhor se conhecermos alguém bem colocado lá dentro. Todos sabem que é assim que as coisas funcionam. É a diferença entre esperar três meses que a papelada fique pronta ou ser amigo da secretária do director.

1- Ecclesia, Beato Nuno Álvares Pereira
2- Ecclesia, Papa reconhece milagre do Beato Nuno de Santa Maria

Sábado, Junho 28, 2008

Treta da Semana: A Escola Bíblica Maná.

Sem inspiração para esta semana, andava à cata de borras no fundo da Internet quando encontrei a Escola Bíblica Maná (EBM), «um departamento da Igreja Maná, que tem como objectivo ensinar os alunos a edificar a sua vida em Jesus e a vencer o mundo o diabo e as circunstâncias adversas.»(1) Um curso para vencer o mundo, tirado em casa pela Internet e por apenas 600€ é um bom negócio.

O corpo docente é liderado pelo Apóstolo Jorge Tadeu, um engenheiro civil que «Conheceu Jesus Cristo na África do Sul»(2), mas a directora da EBM é a Bispo Gisela Rodrigues, licenciada em educação física e «pastora da Igreja do Tojal juntamente com o seu esposo, o Bispo José Manuel Rodrigues,» esposo este que também lecciona na EBM. Juntamente com a Pastora Christel Tadeu, apresentada apenas como "Esposa do Apóstolo Jorge Tadeu", com aspas no original. Que coincidência, tantos casais com o mesmo tacho. Digo, profissão. Como o mundo é pequeno. Mas isto seria uma treta corriqueira não fosse o protocolo entre a EBM e a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia:

«Os alunos da Escola Bíblica Maná com o 12º ano de Escolaridade completo e o curso da Escola Bíblica entram directamente para o terceiro ano universitário do Curso de Licenciatura em Ciências das Religiões, nos termos do protocolo estabelecido entre estas duas entidades. O Curso consta de quatro anos. Destes, os alunos farão apenas os dois últimos, o 3º e 4º.»(3)

Esta informação parece estar desactualizada porque licenciatura agora é um primeiro ciclo de Bolonha e dura 3 anos. A página na Lusófona também não menciona o acordo com a EBM, e «a única licenciatura laica sobre o fenómeno religioso» tem um corpo docente bastante mais qualificado, com alguns doutorados e estudantes de doutoramento em história e sociologia (4). O estudo cientifico das religiões é um tema interessante, se bem que me pareça mais apropriado para um mestrado ou doutoramento onde os alunos já tenham uma formação científica de base. A presença no corpo docente de um pastor evangélico «Especialista em questões relativas ao Pensamento Contemporâneo», «Empresário da área da Comunicação Social» e apenas com o grau de licenciado levanta-me algumas dúvidas, mas a licenciatura foi aprovada pela DGES (5), pelo que confio que esteja ao nível do ensino superior privado em Portugal.

Mas parece-me que o corpo docente da EBM não garante o mesmo nível, e preocupa-me se for verdade o que está na página da Igreja Maná. Mais até do que se for aldrabice. Um curso por Internet ministrado pelo Apóstolo Jorge Tadeu dar aos alunos a equivalência a dois terços de uma licenciatura demonstra o espírito empreendedor do Apóstolo mas não abona em favor do ensino superior português.

1- Escola Bíblica Maná, Valor do Curso.
2- Escola Bíblica Maná, Corpo Docente.
3- Escola Bíblica Maná, Protocolo Universidade.
4- Universidade Lusófona, Ciência das Religiões
5- Direcção Geral do Ensino Superior, Oferta Formativa

Domingo, Junho 22, 2008

Treta da Semana: Ciência Evangélica.

O leitor Barba Rija criticou-me por dedicar posts inteiros a certos disparates evangélicos, conferindo-lhes «uma dignidade que não compreendo de onde nasceu.» Admito que dou alguma visibilidade a estas coisas, mas 400 visitas diárias não devem fazer muita diferença. E pode ser que seja melhor ignorar e esperar que passe sozinho. Mas eu prefiro enfrentar o disparate, expô-lo e criticá-lo. Porque a treta é como a barata; prefere deixar-se ver só pelo canto do olho. E porque é mais divertido. Barba Rija, se não fosse tanta gente que acredita, estas coisas eram de chorar a rir.

Por isso o prémio desta semana vai para a secção «Observatório-Textos-Ciência» do Portal Evangélico (1). Julgo pelo conteúdo que o segundo “-“ se deve ler “menos”: «Encontrado O Carimbo De Jezabel»; «A Historicidade Do Dilúvio»; «Físico E Pesquisador De Origem Síria Defende Criacionismo E Aponta Erros Do Darwinismo E Do Evolucionismo Teísta» (sim, isto é um título).

Este último ilustra a estratégia criacionista do «se não tens razão repete mentiras até que peguem». O físico e pesquisador de origem síria, qualificações indispensáveis para criticar a biologia moderna, aponta que «Nunca foi constatada evolução de uma espécie para outra», o que é falso (2); «as descobertas de fósseis de elos perdidos são farsas», o que ou é falso (3) ou é disparate, visto que só são perdidos até serem descobertos; «Até hoje nenhum cientista conseguiu simular a origem da vida em laboratório», o que representa de forma enganadora a investigação nesta área (4); e que «Isso nunca será possível, pois a vida não é um fenómeno da natureza, mas um milagre que somente Deus pode operar.» A tese do milagre, presume-se, foi demonstrada cientificamente. Mas não nos explica como.

No texto «A Historicidade do Dilúvio», Claudionor Corrêa de Andrade explica que o «Dilúvio pode ser comprovado tanto histórica quanto cientificamente.» E dá-nos as provas. Primeiro, pela definição etimológica e teológica das palavras. Depois pelo relato no Génesis, corroborado pelo livro de Isaias, o evangelho de Mateus e o livro de Jó. A isto chama «Evidências bíblicas do dilúvio universal». A isto chamo “ouvi dizer”.

Depois vêm as «Evidências científicas e históricas». Dados concretos e sólidos como numa «série de tijolinhos, gravados em caracteres cuneiformes, uma narrativa bastante similar à do dilúvio bíblico», ou «relatos de aviadores, indicando a presença de um grande barco na região de Ararate, onde pousou a Arca de Noé». E este, especialmente engraçado:

«Argumentam ainda alguns pseudo-cientistas que seria impossível cobrir altos montes como o Everest, cujo topo ultrapassa os 7 mil metros. Todavia, a altitude média do planeta é de apenas 800 metros acima do nível do mar, ao passo que a profundidade média dos oceanos é de 4 mil metros.»

A altitude média é de 800 metros mas para cobrir o Everest é preciso elevar o nível do mar 7 mil metros. Como os oceanos cobrem 70% da superfície da Terra, isto exige mais do dobro da água que agora temos. O problema não é só estas alegadas evidências serem ridículas e as evidências contra um dilúvio universal serem tantas e tão sólidas (5). O maior problema é pôr tanta gente a acreditar que a ciência é esta fantochada. Se a investigação científica assentasse em tijolinhos cuneiformes e relatos de aviadores tínhamos rezas em vez de antibióticos e sacrifícios em vez da meteorologia. Mas é mesmo isso que eles querem...

1- Portal Evangélico, Observatório-Textos-Ciência
2- Joseph Boxhorn, Talkorigins.org, Observed Instances of Speciation
3- Wikipedia, Transitional Fossil
4- Albrecth Moritz, Talkorigins.org, The Origin of Life
5- Mark Isaak, Talkorigins, Problems with a Global Flood

Domingo, Junho 15, 2008

Ooops...

Alguns leitores defenderam que não há problema que os fornecedores de serviços de telecomunicações guardem informação acerca da duração, hora, origem e destino de cada telefonema, email ou página que vemos na Web. Desde que a informação não seja mal usada não há problema, defendem.

Mesmo que fosse verdade. Mesmo que eu não tivesse direito de contratar um serviço de telefone que me garantisse não registar cada telefonema que eu faço para a minha mulher, para o meu médico ou advogado. Mesmo assim, casos como este mostram que não podemos ter confiança que não haverá abusos a menos que a informação seja apagada: Secret terror files left on train. Esta passagem é especialmente reveladora:

« Police are investigating a "serious" security breach after a civil servant lost top-secret documents containing the latest intelligence on al-Qaeda.

The unnamed Cabinet Office employee apparently breached strict security rules when he left the papers on the seat of a train.»


Aparentemente, deixar documentos secretos no assento do combóio é uma violação das normas de segurança. Aparentemente, claro. Nisto não há certezas, tal como o uso que darão à informação que recolhem acerca de nós.

Via Schneier on Security.

Sábado, Junho 14, 2008

Treta da Semana: Procurar pela negativa.

Na homilia do Domingo passado, em Fátima, o bispo Serafim Ferreira e Silva comentou a constituição da Associação Ateísta Portuguesa (AAP). Concedeu que «até sob o aspecto constitucional, pode ser legítimo». Tem razão; é legítimo. Mas comentou que «por paradoxal que pareça, esta possível associação acaba por procurar Deus. Pela negativa, quer declarar que Ele não existe, mas, cria-se um vazio, e, pelo aspecto filosófico, a reflexão humana, nós quase que precisamos de descobrir alguém que seja o criador, o salvador, o Senhor Deus» (1).

A “procura pela negativa” não faz sentido. É como dizer que quem não gosta de apanhar sol procura bronzear-se pela negativa. Mas dou ao bispo o benefício da dúvida e interpreto-o como dizendo que os ateus também falam de Deus. Não que o procurem mas que o consideram, mesmo estando contra. Assim, em vez de descartar a afirmação do bispo como mera demagogia, sempre tenho desculpa para discutir esta confusão. Nem sempre os ateus consideram Deus. Nem mesmo pela negativa. Mas vou começar por uma expressão do Alfredo Dinis que já foi debatida aqui nos comentários e que ilustra este problema.

«A omnipotência divina só pode ser bem entendida se for contextualizada numa realidade feita de relações interpessoais no interior das quais Deus pode criar seres dotados de tanta autonomia e responsabilidade quanto lhe permitir a sua natureza. É neste Deus que acredito.»(2)

A primeira frase é só o contexto; os atributos que enumera podem variar de crença para crença. É a segunda que interessa, onde diz «neste Deus que acredito» em vez de “acredito que Deus é assim”. Apresenta Deus como um dado adquirido enquanto que “acredito que Deus é assim” admitiria a possibilidade de ele ser de outra forma ou mesmo nem existir. Existir um deus no qual alguns acreditam é diferente de alguns acreditarem num deus que pode nem existir. E dificulta o diálogo que crentes falem duma quando os ateus se referem à outra. Como Serafim Ferreira e Silva demonstra a seguir:

«Nós os cristãos temos uma ajuda, que é a chamada Revelação, a Bíblia ou Sagrada Escritura. E constatamos que, no âmago, no interior de cada um de nós, há um chamamento. E também verificamos, sendo crentes e praticantes, na coerência, (que) podemos ser mais irmãos, na justiça e na verdade. Procuremos Deus, o Senhor. [...S]e quisermos buscar a verdade, praticar a justiça, fazer o perdão, [se] seguirmos o caminho da rectidão, encontraremos Deus, o Salvador» (1).

Quando se questiona estas afirmações, o bispo, como muitos crentes, assume que estamos a rejeitar a Revelação, o Deus e o chamamento. Mas apesar do ateísmo rejeitar estas hipóteses em abstracto, neste caso concreto o que está em causa nem chega a ser o deus da religião, o poder mágico dos rituais ou o acesso especial à revelação divina. O que o ateísmo questiona primeiro é a crença nestas coisas. Se o deus do bispo existe ou não é uma questão interessante mas a crítica é que não se justifica acreditar nele.

Eu não procuro Deus nem me preocupo com Deus, Shiva ou o Pai Natal. Não existem, não me chateiam. Preocupa-me é crenças infundadas e procuro crenças com mais fundamento que as do bispo Ferreira e Silva. Em vez de me fiar na Revelação conto com a dúvida para corrigir os erros que vou cometendo. Se sinto um chamamento no meu âmago não concluo que veio de fora do meu âmago. E pelo que observo parece-me que quem busca a verdade, pratica a justiça, faz o perdão e segue o caminho da rectidão pode muito bem acabar com uma religião diferente da do bispo Ferreira da Silva. Ou até sem religião nenhuma. Isto não é uma crítica aos deuses; é uma crítica às crenças.

Em suma, o ateísmo não se obtém pelo simétrico da crença religiosa, mantendo o deus mas trocando “existe” por “não existe”. O ateísmo vem de perceber que quando alguém afirma “Deus é” diz apenas “acredito que seja” sem justificar a crença. Quando rejeitamos crenças injustificadas, neste universo, ficamos ateus.

1- Agência Ecclesia, Bispo Emérito de Leiria-Fátima comenta constituição de associação ateísta
2- Num comentário a este post no Portal Ateu.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Conspiração, religião, e intenção.

O nosso cérebro é enorme. Com quase quilo e meio, usa cerca de um quinto das calorias que consumimos em repouso. Mas não recebemos esta herança por ter ajudado os nossos antepassados a fugir de predadores ou encontrar alimento. Outros animais fazem-no com recursos mais modestos. Nem foi pela tecnologia, que veio mais tarde. O sucesso do nosso cérebro veio da vantagem em prever o que vai em cérebros semelhantes, um truque que ajudou os nossos antepassados a deixar mais descendentes que os seus contemporâneos.

E é um órgão especializado. Um computador pode calcular a trajectória de cada um dos flocos de cereais despejados para uma taça. O nosso cérebro não dá para isso. Mas basta olhar para alguém a despejar os cereais para percebermos, pelo contexto, se prepara o seu pequeno almoço, o dos filhos ou se os despeja porque o pacote se rasgou. Estamos longe de pôr um computador a fazer isso e mais longe ainda de o programar para perceber o enredo de uma novela ou de inferir algo do vizinho do sexto sair da casa da vizinha do quarto apertando o cinto das calças.

Mas não há bela sem senão. Com um martelo tão sofisticado é inevitável procurarmos pregos em todo o lado. O propósito da nossa existência, a razão para a criação do universo, o plano para isto tudo. Para o nosso cérebro, moldado durante milhões de anos de evolução para modelar actos inteligentes, custa aceitar que algo simplesmente aconteça. Do criacionismo às teorias da conspiração, muitos disparates vivem desta tendência. Uma sombra estranha na fotografia de um astronauta pode ser o reflexo de um aparelho fora da imagem, um defeito no filme ou algo igualmente acidental. Kennedy e Connally podem ter sido atingidos pela mesma bala se estavam, por acaso, alinhados na sua trajectória. Mas o nosso cérebro percebe melhor a relação entre os familiares no jantar de Natal do que a trajectória das bolas de snooker. Mesmo que esta última seja muito mais simples de modelar. E uma conspiração com fotografias forjadas, atiradores escondidos e falsas informações, se bem que mais complexa e irrealista, está mesmo à medida do nosso apetite enredos de intenções.

A religião vai beber à mesma fonte. Do bispo católico ao shaman tribal vemos a tentativa de lidar com a natureza como lidamos uns com os outros. Com promessas, alianças, pedidos, negociações e alguma bajulação. Sempre a procurar o propósito inteligente por trás de cada acontecimento. A insistência da teologia cristã numa relação pessoal com Deus é outra consequência desta especialização do nosso cérebro, tal como a procura de um propósito para a nossa existência e de um sentido transcendente para isto tudo.

É inegável que este truque do nosso cérebro é útil e precioso. É a base da sociedade, da política, literatura, das histórias, da linguagem. De ser humano. Mas as tempestades, as doenças, as florestas e até o nosso nascimento e morte não são parte de um plano cósmico. Isto não é um conto épico ou uma telenovela. Fora da minúscula fatia onde nos damos uns com os outros há um enorme universo que não conspira contra nós, que não ouve as nossas preces e que não tem propósito nem intenção. Para o compreender temos que usar o cérebro de uma forma desconfortável e contra-intuitiva mas que vale bem o esforço. Porque mesmo que a oração nos faça sentir mais seguros durante a trovoada é o pára-raios que nos protege.

Terça-feira, Junho 10, 2008

Treta da Semana (passada): Ninguém foi à Lua.

Alguns leitores sugeriram que abordasse este clássico das teorias da conspiração. Em traços largos, há quem defenda que a NASA falsificou filmes, fotografias, rochas, dados de telemetria e tudo o resto para nos enganar a todos. Os argumentos variam nos detalhes mas têm em comum uma ligação ténue ao mundo real, desde alegar que a tripulação da Apolo 11 filmou a Terra afastando a objectiva da escotilha para parecer que estavam longe (1) até argumentar, por «princípios Védicos», que a Lua é feita de material reflectivo e por isso não podia ter sombras (2). A tese da conspiração já foi discutida, dissecada e refutada em detalhe (3), mas o problema de saber que já esteve alguém na Lua mostra duas formas de descarrilar o raciocínio para chegar a conclusões absurdas.

Em parte sabemos por livros, relatos, fotografias ou até páginas na Wikipedia. Por um apelo à autoridade. Consideramos mais fiáveis as fontes autoritárias e reconhecemos mais autoridade a um astrónomo do que a um ovniólogo ou o conspiraçólogo. Aqui pode-se descarrilar vendo a confiança num livro de astronomia como análoga à confiança na Bíblia ou no livro de Mórmon. Mas o conteúdo do primeiro é autoritário porque deu provas, enquanto os últimos são vistos como provas porque os consideram autoritários à partida. Parecem casos semelhantes mas são o oposto.

A tese que a ida à Lua foi uma fraude depende de apelos à autoridade do segundo tipo. A opinião de um «produtor de televisão premiado, fotógrafo profissional e membro da Royal Photographic Society»(1) não é apresentada como autoritária por estar devidamente fundamentada. Pelo contrário, é proposta como implicitamente fundamentada em virtude da alegada autoridade, o que é ilegítimo. A autoridade tem que derivar de uma interpretação fundamentada dos dados. O que nos traz à outra curva perigosa.

O argumento da interpretação é um favorito de muitos, do criacionismo às medicinas alternativas. Segundo este, todas as provas, todos os testes e evidências, dependem de como interpretamos as observações. Para uns o colibri é evidência de evolução e para outros é evidência do poder criador de Deus. É verdade que a mesma observação pode ser interpretada de formas diferentes, mas neste caso é aldrabice.

Não há uma fronteira fixa entre interpretação e observação. Por exemplo, no avistamento de um OVNI à noite pode-se interpretar a percepção do estímulo visual na retina como evidência de uma luz. Ou assumir a luz como um dado que indica algo luminoso no céu. Ou considerar que se observa algo luminoso no céu e inferir que está a alguns quilómetros de altura e tem o tamanho de um campo de futebol*. Podemos separar dados e interpretação em qualquer ponto deste contínuo traçando a fronteira entre aquilo que aceitamos e aquilo que questionamos. O argumento da interpretação descarrila o raciocínio mudando sorrateiramente a fronteira.

Aceitamos que os organismos estão adaptados ao seu meio e questionamos o processo que os adaptou. É nesta fronteira que inferimos a teoria da evolução e as várias alternativas acerca de como se formaram estas características. O criacionismo apresenta-se como uma interpretação alternativa para estes dados, mas não é. Acrescenta disfarçadamente o “dado” que o processo foi guiado por um ser inteligente e muda a fronteira. Em vez de interpretar os dados originais interpreta estes “dados” assumidos e conclui apenas acerca do hipotético autor. Nas teorias de conspiração o truque é semelhante: nunca considerar a conspiração como uma hipótese a testar, como parte da interpretação, mas assumi-la como um dos dados a interpretar.

Sabemos que esteve gente na Lua porque é a hipótese que melhor encaixa nos dados que dispomos. Não por confiarmos na autoridade de quem o defende mas por reconhecer autoridade às posições mais fundamentadas. E para ter fundamento cada passo do raciocínio deve confrontar interpretações alternativas para o que se assume ser os dados. Mas há que assegurar que as alternativas assumem os mesmos dados porque senão não são interpretações da mesma coisa. O apelo indevido à autoridade e a petição de princípio são dois dos muitos atalhos para a treta.

* Normalmente os OVNIs têm o tamanho de um campo de futebol.

1- Dave Cosnette, The Faked Apollo Landings.
2- Wikipedia, Apollo Moon Landing hoax conspiracy theories.
3- Robert A. Braeunig, Did We Land On The Moon?; Wikipedia, Independent evidence for Apollo Moon landings; Phil Plait, Yes, We Really Did Go to the Moon!

Domingo, Maio 25, 2008

Profissionalismo.

Há uns dias o jornal Pravda noticiou «mais um escândalo online». Um investigador Russo, Boris Borisov, descobriu que entre 1932 e 1933 morreram nos EUA sete milhões de pessoas à fome por causa da Grande Depressão. Segundo este investigador foi uma tragédia semelhante à que assolou a URSS na mesma altura. A primeira pela política capitalista e a última pela colectivização, mas ambas com este efeito desastroso. Agora o seu artigo na Wikipedia, «The American Famine», foi apagado por causa de inúmeras críticas. Um escândalo.(1)

Eu não costumo ler o Pravda mas gosto de visitar o Dragão de vez em quando. Descobri este caso por intermédio desta análise do Dragão:

«São os paralelismos entre o capitalismo de estado soviético e o capitalismo de donos do estado americano[...]. A diferença não está nos morticínios [...]; está apenas na leitura e interpretação dos fenómenos: no primeiro caso, é claramente um genocídio; no segundo, é, sem sombra de dúvida (e ai de quem alvitre o contrário!) a consequência natural da evolução económica e das leis do mercado.»(2)

Não. No segundo caso é apenas treta. Boris Borisov baseou a sua investigação nos dados de recenseamento dos EUA, o que é razoável. Menos razoável foi a escolha dos dados e a conclusão. Borisov extrapolou a tendência de crescimento demográfico dos EUA antes da Grande Depressão para estimar que em 1940 os EUA deviam ter 141.856 milhões de pessoas. Como a população em 1940 era de apenas 131.409 milhões e só três dos dez milhões em falta se explicavam pela queda na imigração Borisov concluiu que sete milhões tinham morrido oito anos antes.

Se Borisov tivesse calculado o número de mortos pela taxa de mortalidade nos anos em questão em vez de a inferir de uma hipotética natalidade oito anos mais tarde teria obtido resultados diferentes e poupado algum embaraço. A ele e a outros. A figura abaixo mostra a taxa de mortalidade nos EUA entre 1900 e 1950 (referência 3, mortes por mil habitantes). Com uma população de 130 milhões, sete milhões de mortes adicionais em dois anos teria triplicado a taxa de mortalidade. Os dados para 1932 e 1933 estão indicados a encarnado. Mais uma vez, a realidade ficou aquém da treta.

Mortalidade USA

Mas isto demonstra que os bloggers amadores estão ao nível dos jornalistas profissionais. São capazes de demonstrar o mesmo profissionalismo e o mesmo cuidado na averiguação dos factos.

O que, em muitos casos, é pena.

1- Pravda, 19-5-08, Famine killed 7 million people in USA
2- Dragão, 23-5-08, Holohunger
3- U.S. Annual Death Rates per 1,000 Population, 1900–2005

Sábado, Maio 24, 2008

Treta da Semana: Poupança Magnética.

O leitor Pedro Satanucho pediu-me para falar do Fuel Optimizer, um «um pequeno e poderoso Ressonante Magnético de Neodymium» que se coloca no tubo de combustível do carro. Segundo o vendedor, «O Ressonante Magnético de muito alta frequência de indução focal separa, ordena e Ioniza as moléculas do combustível que esta a passar através do campo magnético, gerando-se uma combustão mais uniforme e completa, uma muito significativa redução da contaminação, um maior aproveitamento da energia e por fim uma grande poupança de combustível.»(1)

Vamos supor que este íman separava, ordenava e ionizava as moléculas. Se o fizesse era como um forno de microondas a ferver tudo à sua volta. Felizmente é só um íman de frigorífico e não faz nada do que dizem fazer. As moléculas de combustível, e as moléculas orgânicas em geral não são ferromagnéticas, pelo que o efeito que este íman tem no combustível é o mesmo que tem na palma da mão.

Apesar deste pequeno defeito foi a traquitana tretológica de poupar combustível que melhor desempenho teve entre as várias testadas pela revista Popular Mechanics (2). Não que tenha tido efeito algum sobre o consumo de combustível mas precisamente porque não teve efeito nenhum. Ao contrário das paletas que supostamente geram vórtices na entrada de ar para melhorar a combustão mas que na verdade aumentam o consumo e reduzem a potência do motor. Ou o Ionizador, um cabo que se liga às velas por meio de uns “capacitores” de borracha que se incendiaram a meio do teste.

A teoria é que os fabricantes de automóveis querem vender-nos motores ineficientes que se estragam depressa, por isso é que não põem ímans no tubo do combustível (3). Está ao nível de outras como as doenças serem todas causadas pelos remédios que a indústria farmacêutica vende ou que os líderes políticos são na verdade extraterrestres disfarçados. Bem, esta última... nunca se sabe....

O facto é que os automóveis modernos estão muito optimizados. Há alguns aparelhos que se pode acrescentar para poupar combustível, mas todos os que funcionam servem para alterar o comportamento do condutor. Luzes de aviso para desligar o carro se está parado, evitar acelerações grandes ou mudar a mudança se as rotações são elevadas, controlar a velocidade e afins. Mesmo assim os ganhos são pequenos, mas a maior fonte de ineficiência é a forma de conduzir. A EPA tem uma lista de aparelhos testados e recomendações para poupar combustível:

"Gas-Saving" Products: Fact or Fuelishness?

Resumindo, poupa-se combustível mantendo o motor afinado e os pneus à pressão recomendada, fazendo várias viagens curtas de seguida (o motor frio é menos eficiente), não carregando tralha desnecessária no porta bagagens e moderando a velocidade e aceleração. E andando mais a pé e de transportes. O resto é treta.

1- Fuel Optimizer
2- Popular Mechanics, Looking For A Miracle: We Test Automotive 'Fuel Savers'
3- MiniSun Fuel Optimizer

Domingo, Maio 18, 2008

Treta da Semana: Encontros Imediatos em Alfena.

Joaquim Fernandes criou, a HOP Filmes produziu, a RTP transmite e os nossos impostos pagaram «uma série documental que oferece uma vista imparcial do fenómeno OVNI em Portugal»(1). Joaquim Fernandes investigou os extraterrestres que visitaram Fátima em 1917 (2) e fundou o CTEC (3), que já foi tema desta rubrica semanal (4) e cujos estudos são a base desta série de programas. O primeiro episódio relata o insólito e dramático caso de um balão que passou sobre Alfena em 1990.

Apoiado por uma musica muito X-Files e em tom de por muito banal que isto seja vou contar como se fosse o fim do mundo, o narrador informa que o CTEC guarda «largas centenas de relatos considerados invulgares pelas testemunhas», demonstrando que não são tão invulgares como as testemunhas julgam. E acrescenta que quase todos são explicados «à luz dos conhecimentos científicos», mas «permanece uma pequena percentagem de situações cuja natureza última resta por identificar com total segurança.» E é assim, logo de inicio, que a ovniologia e o bom senso se despedem. Enquanto este não estranha que em centenas de relatos alguns não sejam resolvidos «com total segurança», aquela vê nisso evidência de coisas do outro mundo.

As testemunhas descrevem o objecto. Era parecido com um balão, uma betoneira, metade de uma pipa com janelinhas e uma cuba de aço inox. Acerca das fotografias, Richard Haines («conselheiro da NASA») concluiu que «o fotógrafo não só viu o objecto como apontou deliberadamente a máquina fotográfica». Não parece grande coisa, mas com musiquinha de fundo e voz de caso sério percebe-se a importância de ter amigos na NASA.

Sobe sobe, OVNI sobe...

Raul Berengel, analista informático do CTEC, concluiu que o OVNI teria «quatro metros e meio, era um objecto que se deslocava muito lentamente, quase ao sabor do vento. [...] Não era rígido. Poder-se-á pensar imediatamente então era um balão.» Isso é que era bom. Segundo o meteorologista entrevistado não era possível «fazer uma correspondência [da fotografia] com os balões sonda que utilizamos» nem poderia ser confundido com os balões sonda usados pela estação aerológica de Lisboa. Movia-se como um balão, tinha forma de balão e era flexível como um balão mas como não correspondia aos balões da estação aerológica de Lisboa não podia nunca ser um balão.

Mas não ficaram por aqui. A investigação exaustiva do fenómeno passou por enviar as fotografias para a NORAD, segundo a qual foi «impossível identificar a fotografia anexa; procurámos entre sete mil artefactos criados pelo homem para usar no espaço: satélites, componentes de foguetões, entre outros...». Ficou assim estabelecido que aquela bola flexível que flutuava lentamente como um balão não era nem um satélite nem componente de um foguetão. Faltou contactar o exército e a marinha dos EUA para eliminar a possibilidade de se tratar de um batalhão de tanques ou de um porta-aviões, deixando assim em aberto duas hipóteses para investigação futura.

Concluindo, o investigador do CTEC Mário Neves resume “ainda não sabemos” em 33 palavras:«a explicação à luz dos conhecimentos científicos não nos permite concluir em relação àquilo que efectivamente foi observado e como tal nós continuamos a catalogar este fenómeno como um fenómeno aéreo não identificado». E segundo Raul Berengel é mesmo essa a ideia: «O objectivo de todo este tipo de investigação e só um. É saber se é um ovni ou não é um ovni. Está identificado ou não está identificado. No caso de Alfena não foi identificado.» Ora bem. E quanto dinheiro é que gastaram para dizer isso em treze episódios de meia hora cada um?

Não tenho nada contra a ovniologia. Parece-me um passatempo inofensivo. Nem me oponho a que a RTP gaste dinheiro em programas de entretenimento. O que me chateia é que passem isto por um documentário científico. Científico era relatar as centenas de casos identificados. Que duzentos confundiram Vénus com naves espaciais, cento e cinquenta confundiram balões com naves espaciais, cem inventaram histórias de naves espaciais depois de umas cervejas e assim por diante. No fim mencionava-se a dúzia de casos como este que parecia um balão mas não se conseguiu ler o número de série na fotografia.

A ciência não explica tudo. Explica só aquilo que os dados permitem explicar. É por isso que a ciência se dedica a obter dados fiáveis e formular hipóteses rigorosas em vez de perder tempo com o diz que disse e dados de má qualidade.

1- RTP, Encontros Imediatos
2- Anomalist Books, ”Heavenly Lights” and “Celestial Secrets”
3- Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência.
4- Treta da Semana: Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência.
Os episódios da série estão disponíveis aqui

Segunda-feira, Maio 05, 2008

O método.

Na terra do Dragão diz-se muito mal do método científico. Cientóino, no dialecto local. No mundo real o método científico é muito discutido porque qualquer definição detalhada levanta problemas. A amplitude e complexidade das matérias que a ciência estuda dificultam a descoberta dos detalhes comuns a todas as áreas. Mas na terra do Dragão o problema é o fundamento do método ser evidente e claro. Lá, evidências e clareza são punidas. Alguns até criticam o “método” com aspas para evitar a acusação de inteligibilidade, um ilícito quase tão grave.

A base do método científico é a distinção objectiva entre sucesso e fracasso. Este fundamento vai além da ciência, se bem que se aplique de formas diferentes a outras actividades. É uma realidade inescapável no pára-quedismo ao passo que na poesia não serve de muito. E na demagogia é mesmo um empecilho. Mas se queremos conhecimento temos que o distinguir do erro. Ninguém aprende a andar de bicicleta sem saber a diferença entre equilibrar-se e cair.

O exegeta do ciclismo tem uma abordagem diferente. Após trabalhar textos sobre a fenomenologia do selim (ou do sentar sem ele) e a problemática da existência afunilada pelo horizonte do pedal, pondera o Sentido intemporal da bicicleta na abrangência plena da sua identidade, ipsidade e alteridade. De preferência em Alemão. A bicicleta, dirá, não se usa nem se acredita. Vive-se. Convicto da sua prodigiosa capacidade ciclista, e estatelado no meio da via, troça então dos cliclistóinos que se desviam para não o atropelar. Enfim, fica a narrativa para quem a quiser desconstruir e passo ao que me interessa.

O problema é a moda de fingir que as coisas não são como são. Sabem que não se enfia os dedos no casquilho da lâmpada mas afirmam, com ar sério, que cada um tem as suas verdades e que o conhecimento é subjectivo, que há várias realidades e essas coisas. Depois espalham estas opiniões por redes de computadores que só funcionam graças ao tal método e à aplicação de regras objectivas e bem definidas, aparentemente inconscientes da contradição. Aparentemente. Porque, se repararem, entram sempre pela porta e não tentam atravessar paredes. Mera coincidência, dirão, visto não haver realidade objectiva. Mas a estatística desmente-os.

A democracia moderna depende da ciência, da tecnologia e da participação informada dos cidadãos. Decisões acerca da investigação em células embrionárias, da modificação genética de organismos ou do aquecimento global têm que ser tomadas democraticamente porque implicam juízos de valor, mas são também questões objectivas que não se resolvem por demagogia. O vale-tudismo e a douta ignorância são uma irresponsbilidade por remeterem a discussão para concursos de prosa e disparate sonante.

Não há muito a fazer. É um direito que lhes reconheço e que estou disposto a defender. Mas, de vez em quando, é preciso tirar-lhes o capachinho e dar uma boa gargalhada para mostrar a treta que aquilo é. É preciso, e dá gozo.

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Treta da Semana: O Princípio Antrópico.

É uma treta engraçada que baralha muita gente. De todo o universo, eu habito logo no sítio com as condições necessárias para eu sobreviver. Fantástico. Não vivo chamuscado no Sol, espremido em Júpiter, sufocado na Lua, congelado em Plutão ou esborrachado num buraco negro. Sorte? Mão de Deus? Não. É a lógica trivial que faz com que o tipo que não tem emprego esteja desempregado. Se eu existo tem de haver condições que permitam a minha existência.

Chama-se princípio antrópico fraco, não por ter defeito mas por confusão. Quando observamos algo devemos considerar que estamos cá para o observar e admitir que estes factores possam estar relacionados. Inicialmente, foi formulado para contrapor a teoria do estado estacionário. Esta defendia que não podemos assumir que vivemos numa época privilegiada e, por isso, o universo tinha que ser sempre como é agora. O princípio antrópico permite rejeitar esta premissa. Se cá estamos tem de haver condições para cá estarmos e se a única época que o permite é esta é nesta que temos de existir.

Este “ter de” fez a confusão que levou ao principio antrópico forte: porque nós existimos o universo tem de ter sido criado de forma a permitir a nossa existência. Mas quem não tem emprego tem de estar desempregado apenas no sentido da conclusão seguir da premissa. Nada o obriga ao desemprego nem implica que esteja predestinado a estar desempregado.

Há uns tempos o Timshel escreveu que «O mais poderoso argumento do ateísmo contra o princípio antrópico e a existência de uma intencionalidade transcendental que presidiria à existência do Universo e da vida (nomeadamente da vida humana) é que, num sistema em que o tempo e o espaço sejam infinitos, tudo pode acontecer (até este nosso mundo).»(1)

O principio antrópico fraco é razoável, mas diz apenas que a probabilidade condicional do universo permitir a nossa existência sabendo que existimos é de 100%. E o princípio antrópico forte é treta. Confunde a probabilidade condicional com a probabilidade, à partida, de existirmos e é daí que infere que o universo teve que ser criado à nossa medida. É usado como argumento para uma criação inteligente mas é como o desempregado concluir que um deus criou o universo só para lhe tirar o emprego. Compreende-se por frustração ou desespero mas não se justifica pela razão.

Podemos usar o princípio antrópico fraco para explicar porque é que este universo é assim. Se não fosse não estávamos cá. E esta explicação precisa que existam outros universos diferentes do nosso, o tal «tudo pode acontecer» do Timshel. Mas o raciocínio é simplesmente que se houver infinitos universos o princípio antrópico fraco explica que este é assim porque se não fosse estaríamos noutro. Não é daqui que se infere a existência de outros universos; isso tem que vir de outras teorias. E nada disto sugere que possam ocorrer milagres neste.

Em suma, o princípio antrópico é um favorito dos crentes, especialmente dos criacionistas, mas invocam sempre o errado. Quando uma coisa acontece podemos inferir com confiança que é possível acontecer. Isto até é um argumento contra os milagres. Mas é insensato quando algo acontece inferir que o universo foi feito de propósito para que isso acontecesse.

1- Timshel, 13-4-08, A propósito da Ressurreição

Sábado, Abril 05, 2008

Treta da Semana: Karuna Reiki®

«A palavra Reiki contém duas palavras Japonesas – Rei, que significa “A Sabedoria de Deus ou o Poder Superior” e Ki que é a “energia da força vital”. Por isso Reiki é na verdade “energia da força vital guiada espiritualmente”»(1). Perfeito. E o tratamento é simples. Segundo a Wikipedia:

«O tratamento decorre com o praticante colocando as mãos sobre paciente em várias posições. No entanto, os praticantes podem usar uma técnica sem contacto, na qual as mãos ficam a alguns centímetros do corpo do paciente [...]. No geral, as posições das mãos percorrem a cabeça, frente e costas no torso, os joelhos e os pés. Entre 12 a 20 posições são usadas, com o tratamento durando de 45 a 90 minutos»(2)

Também não há problema se o paciente não puder deslocar-se ao consultório. O mestre de Reiki envia “energias” à distância sem qualquer perda de eficácia recorrendo a uns símbolos especiais. «Cada símbolo guarda uma energia, representa uma verdade, e pode ser usado para invocar o seu significado; portanto, o seu efeito»(3). Tal como o criacionismo e a astrologia, também o Reiki aproveita a confusão entre os efeitos de algo e o significado que nós lhe atribuímos. Por exemplo, o símbolo Hon Sha Ze Sho Nen «viaja sem impedimento pelo tempo e pelo espaço». Para um símbolo não está mau. Queria ver uma vogal fazer o mesmo.

O estilo de Reiki de que gosto mais é o Reiki da compaixão, o Karuna Reiki®. Gosto especialmente do ®. «Energia da força vital guiada espiritualmente com compaixão» merece bem um ®. E os requisitos mínimos para ensinar o Karuna Reiki® mostram o que é mais importante na canalização das energias cósmicas:

«1- Usar os símbolos Karuna Reiki® ensinados pelo International Center for Reiki Training e que aparecem nos manuais ICRT de Karuna Reiki®.
2- Usar as mesmas sintonizações Karuna Reiki® [...] que aparecem nos manuais ICRT de Karuna Reiki®[...]
3- Usar os manuais Karuna Reiki® fornecidos pelo Centro como manuais de ensino e fornecer um a cada aluno. Você terá que comprar estes manuais ao Centro ou a um dos nossos representantes – não é permitido fotocopiá-los.»


É justo. Quem inventa estas tretas não quer que um Chico esperto fotocopie os livros e guie espiritualmente e com compaixão a energia da força vital sem pagar a quem de direito.

Eu ia dizer que o próximo passo era patentear o Yoga, só que já é tarde para isso (5). Mas alguns seguidores do Reiki defendem o direito de partilhar a superstição sem cobrar direitos de autor. Há quem diga que isto é uma mentalidade borlista criada pela Internet e que põe em risco a própria superstição. Eu não sou tão optimista. Infelizmente, mesmo com o Open Source Reiki (6) há de haver muita gente a ganhar dinheiro com esta treta.

1- Reiki.org, What is Reiki?
2- Wikipedia, Reiki
3- Reiki Living, Reiki Symbols
4- Reiki.org, New Karuna Reiki® Registration Program
5- Times Onlines, 31-5-2007, American attempt to patent yoga puts Indians in a twist
6- Open Source Reiki

Sábado, Março 15, 2008

Treta da Semana: O Santo Pano de Lirey.

Em 1357 a viúva do cavaleiro Geoffroi de Charny apresentou em Lirey o sudário que teria coberto o corpo de Jesus. Consta que o falecido marido o encontrara algures mas esqueceu-se de dizer onde. Muita gente acreditou. Afinal, era um pano branco onde se via a imagem esbatida de um homem com barba. Que outra coisa poderia ser senão o pano que cobriu o corpo do Salvador antes da Ressurreição?

Em 1389 o bispo Pierre D’Arcis denunciou-o como fraude, cumprindo o seu papel eclesiástico de desmancha prazeres. Numa carta a Clemente VII explicou que o seu predecessor, Henri de Poitiers, tinha investigado o caso e conversado até com o autor da pintura. A impressão no pano era também inconsistente com o relato bíblico. Face a isto, Clemente VII proibiu que se anunciasse o pano como «o verdadeiro sudário», mas concedeu indulgências aos peregrinos que o fossem venerar. O velho princípio religioso do vamos lá ver se a coisa pega. Foi assim que começou a ilustre carreira do Santo Sudário, também chamado Sudário de Turim para o distinguir do Sudário de Oviedo, não se fosse confundir o pano que cobriu o corpo de Jesus com o outro pano que cobriu o corpo de Jesus.

Em 1988 amostras do tecido foram datadas por C14 em três laboratórios independentes. Os resultados, concordantes, foram que o tecido tinha sido criado entre 1260 e 1390. Pela altura em que fora «encontrado». A posição oficial da Igreja Católica foi, nessa altura, que este não podia ser o sudário de Jesus mas que ainda assim era uma imagem capaz de fazer milagres e merecedora de veneração (1).

O Papa João Paulo II disse que «O Sudário é um desafio à nossa inteligência»(2). O desafio do sudário é modesto. A datação é conclusiva e concorda com a data em que o pano surgiu. Os pigmentos e a figura representada são o esperado numa pintura medieval de estilo gótico, e incompatíveis com a hipótese de ser uma impressão deixada por um corpo. E a criação de relíquias religiosas era um negócio muito lucrativo na altura. A primeira função deste sudário até foi vender curas milagrosas.(3)

A sua função hoje em dia é pouco diferente. O Papa João Paulo II disse que «para o crente, o que conta acima de tudo é que o Sudário é um espelho do Evangelho»(2), mas é óbvio que para o crente também conta se aquilo é o pano que cobriu Jesus ou se é uma pintura encomendada para enganar crédulos. O desafio à inteligência é o mesmo que com Clemente VII. Afirmar que o importante é venerar o simbolismo religioso, sabendo que se fosse só um pano pintado ninguém queria saber daquilo para nada. Obscurecer os factos para que permaneça tudo um grande mistério aos olhos do crente (4). E insinuar, sem se comprometer, que a relíquia é mesmo aquilo que pretende ser:

«Não sendo uma questão de fé, a Igreja não tem competencia específica para se pronunciar acerca destas questões. Ela confia aos cientistas a tarefa de conginuar a investigar, para que se possa encontrar respostas satisfatórias para as questões levantadas por este Sudário que, de acordo com a tradição, cobriu o corpo do nosso Redentor depois de ele ter sido retirado da cruz.»

Há muita treta à volta deste tal sudário, mas não é a única relíquia que Jesus terá deixado. Além de dois sudários, da cruz pregos e madeira q.b. e a lança que lhe espetaram quando morreu temos também uma esponja, os seus dentes de leite, o umbigo (5) e, o meu favorito, o Santo Prepúcio.

1- NY Times, 14-10-1988Church Says Shroud of Turin Isn't Authentic
2- João Paulo II, 24-5-1998,Address of his holiness Pope John Paul II
3- SciFiDimensions, 8-2000, The Joe Nickell Files: The Shroud of Turin
4- Site oficial do sudário de Turim, A difficult piece
5- Wikipedia, Relics attributed to Jesus