Comparações Impróprias.
Da autoria de Dom Mário Neto, blinólogo.
Os ateus fundamentalistas tentam desvalorizar a vivência espiritual do crente comparando a fé religiosa a atitudes que consideram semelhantes. Erroneamente, como todos sabemos! Mas é proveitoso explicitar o erro deste argumento enganador e, para tal, considerarei quatro variantes comuns.
Primeiro, defendem que a devoção religiosa é um apego emocional como qualquer outro, como por um clube de futebol, por exemplo. Mas não tem nada de semelhante. O adepto foi influenciado pelos pais quando era criança. Imitou os amigos, que também tinham clubes favoritos. O favoritismo foi se enraizando assistindo aos jogos durante a juventude e, eventualmente, não se sabe bem como, estas influências fazem alguns identificar-se com um determinado clube. A fé religiosa é radicalmente diferente.
O crente herda uma tradição religiosa familiar e recebe da sua comunidade e cultura os primeiros sinais de espiritualidade. A espiritualidade é nutrida pelas celebrações litúrgicas a que o adolescente assiste e, no mistério da revelação, isto desperta em alguns crentes a sua devoção por uma religião. A diferença não podia ser maior.
Outro disparate é comparar o Pai Natal com o Divino. A criança imagina o Pai Natal como um ser mágico a quem pede prendas e por quem se porta bem para as receber. Agradece ao Pai Natal deixando-lhe leite e bolachas ou dizendo obrigado. Em contraste, o crente concebe o Divino como um ser livre das restrições da natureza. Dirige-Lhe preces e esforça-se para cumprir a Sua vontade para que seja digno da Sua benção e graça. Grato, louva o seu nome, e oferece na igreja dinheiro ou outros bens materiais como símbolo da sua devoção. É o fanatismo do ateu que cria a ilusão de semelhanças entre duas coisas tão diferentes.
Argumentam também que milhares de religiões esquecidas provam que a fé religiosa não é sólida e permanente. Mas isto prova o oposto! É precisamente porque milhares de anos eliminaram as crendices falsas que sabemos que a nossa fé de agora é absolutamente correcta e eterna. Isto é tão óbvio que nem devia ser preciso dizê-lo. Mas vou ilustrar com um exemplo.
Da religião dos Sumérios restam apenas placas de argila e memórias fragmentadas. Perdeu-se precisamente pelas suas crenças erradas. Um dos mitos contava a morte da deusa Inanna, senhora do Céu. Desceu a Kur, o reino dos mortos, onde ficou três dias e três noites após os quais ressuscitou (1). Uma crença absurda. Um deus imortal que morre? E depois ressuscita, quando a morte é por definição eterna? Se está vivo, como todos sabem, é porque não morreu.
A religião Suméria pereceu porque nenhuma crendice falsa sobrevive ao crivo do tempo. Hoje já ninguém acredita em deuses imortais que morrem e ressuscitam, e isto demonstra que a religião não é um baralhar e voltar a dar de mitos e histórias mas sim uma verdadeira demanda pela Sabedoria.
Finalmente, alegam que a multiplicidade de religiões modernas revela que a religião é como os rebuçados na feira, cada cor seu sabor e à escolha do freguês. É cegueira do ateu. Não resisto aqui citar um trecho da Blínia Sagrada, especificamente as palavras do profeta Sebastião ao seu discípulo Matatias, como relatado no Livro dos Azurreus;
«14:21 Atendei pois, jovem, às minhas palavras e tende cuidado com essa chávena
14:22 pois se a partirdes levareis tal sova que não vos podereis sentar durante uma semana.»
Ao interpretar um texto sagrado temos que ver para além da beleza das palavras e do relato de um episódio aparentemente prosaico, e vislumbrar o seu significado simbólico mais profundo. A chávena é, evidentemente, a verdadeira religião. Os cacos da chávena que se parte são também parte da chávena. São pedaços de um todo, e simbolizam aqui as várias religiões.
Quem não está cego pelo fanatismo ateu vê que todas as religiões modernas, do cristianismo ao budismo, dos manás aos shiitas, são como pequenos pedaços de uma só religião. Não passam de formas particulares e simplificadas de adorar os Divinos Blin, omnipotentes e omniverdes criadores do Universo, Unos na Sua Multiplicidade, e Idênticos naquilo que Os Distingue. Toda a religião é esta religião.
1- Samuel Noah Kramer, A História Começa na Suméria, Círculo de Leitores.
