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Quarta-feira, Junho 25, 2008

Como definirias “ateísmo”?

O Helder passou-me um questionário com dez perguntas (1), mas esta interessa-me mais que as outras. À letra, parece perguntar o que eu faria se decidisse como definir “ateísmo”. Não definia. A palavra “sinistrado” é útil mas não precisamos de uma palavra para quem não teve um acidente. Da mesma forma, basta conceitos como cristianismo, budismo e hinduismo para designar o atropelamento por uma dessas religiões. Não é preciso um termo para quem se safa.

Mas a palavra já foi definida pelos crentes e carrega séculos de preconceitos. A questão agora é explicar o que é que “ateísmo” tem a ver comigo, visto que já não me safo da etiqueta. Para os gregos, o ateu estava privado de deuses, coitado, e na idade média o ateísmo era a ruptura deliberada da relação com Deus. Não admira que até ao século XVII, “ateu” fosse sempre uma acusação que se fazia aos outros e nunca algo que se assumisse. Até porque seria arriscado. Do século XVIII para cá a convivência de muitas culturas e a liberalização de algumas sociedades mudou a situação mas permanece o problema de acharem que o ateísmo é um ismo acerca de deuses (2). Foi uma palavra mal escolhida e enviesada à partida.

Um ismo fundamenta-se numa premissa saliente, que considera inegável, mas que é disputada por outros ismos. Cristianismo, judaísmo, budismo, marxismo, e assim por diante. Por isso não é de estranhar que julguem que o ateísmo se fundamenta na premissa que deus não existe. Mas a inexistência de deuses não é premissa nem fundamento do ateísmo. O fundamento do ateísmo é a distinção clara entre o que é, o que julgamos ser, e o que gostaríamos que fosse. O resto é consequência de compreender que estes três conceitos são distintos. Se acham que isto é tão banal que não merece um nome, muito menos um ismo, estou de acordo. É como ter uma palavra para quem não foi atropelado. Mas as consequências desta distinção são significativas.

Porque a realidade e o que penso dela são coisas diferentes posso exigir que toda a afirmação de factos tenha um fundamento empírico. Alguns interpretam esta exigência como dizendo que só o observável é real, mas não é isso. Admito a possibilidade de haver coisas que não podemos observar. Simplesmente não devemos afirmar que alguma dessas coisas exista porque isso é especular sem fundamento. Isto é consensual para unicórnios invisíveis ou extraterrestres de outras dimensões. Podem existir, mas se não se observam não se justifica afirmar que existem. Só que alguns chamam-me ateu porque aplico o mesmo critério ao que me dizem dos seus deuses.

Porque distingo o que julgo ser verdade daquilo que gostaria que fosse a minha confiança em cada hipótese depende das evidências que a destacam das alternativas. Por isso rejeito a astrologia e acho o criacionismo um disparate. E é também por isso que não tenho fé. A fé faz do desejo uma opinião na qual se confia mais do que merece. Os que professam uma religião focam este detalhe e chamam-me ateu por não partilhar a fé deles.

E a distinção entre realidade e desejo deixa-me insatisfeito com mistérios. Para pôr a realidade como eu quero tenho que perceber primeiro como ela funciona. Por isso não gasto dinheiro no professor Bambo e prefiro ciência em vez de bruxaria. E muitos crentes concordam com isto. Mas chamam-me ateu porque também rejeito o hocus-pocus na hóstia, os milagres a as missas.

A palavra já está definida mas, infelizmente, foca uma parte insignificante daquilo que refere. Sim, discordo que haja deuses. Mas mudava de ideias se o Sol nunca nascesse quando o faraó fizesse greve ou se em cada trovoada visse um tipo de toga a atirar raios cá para baixo. Não é isso que importa. A questão da existência de alguns deuses só vem à baila por causa dos que insistem que o seu é que é verdadeiro. Há imensos deuses que se pode rejeitar sem ninguém achar nada de estranho.

Por isso, a quem quiser perceber o ateísmo recomendo que esqueça a parte dos deuses. Esqueça até a palavra, que só engana. Ateísmo é só usar o bom senso que todos têm, mas sem abrir excepções para a religião que saiu na rifa.

1- Helder Sanches, 15-6-08, O Meme Ateísta
2- Wikipedia, Atheist

Sábado, Junho 14, 2008

Treta da Semana: Procurar pela negativa.

Na homilia do Domingo passado, em Fátima, o bispo Serafim Ferreira e Silva comentou a constituição da Associação Ateísta Portuguesa (AAP). Concedeu que «até sob o aspecto constitucional, pode ser legítimo». Tem razão; é legítimo. Mas comentou que «por paradoxal que pareça, esta possível associação acaba por procurar Deus. Pela negativa, quer declarar que Ele não existe, mas, cria-se um vazio, e, pelo aspecto filosófico, a reflexão humana, nós quase que precisamos de descobrir alguém que seja o criador, o salvador, o Senhor Deus» (1).

A “procura pela negativa” não faz sentido. É como dizer que quem não gosta de apanhar sol procura bronzear-se pela negativa. Mas dou ao bispo o benefício da dúvida e interpreto-o como dizendo que os ateus também falam de Deus. Não que o procurem mas que o consideram, mesmo estando contra. Assim, em vez de descartar a afirmação do bispo como mera demagogia, sempre tenho desculpa para discutir esta confusão. Nem sempre os ateus consideram Deus. Nem mesmo pela negativa. Mas vou começar por uma expressão do Alfredo Dinis que já foi debatida aqui nos comentários e que ilustra este problema.

«A omnipotência divina só pode ser bem entendida se for contextualizada numa realidade feita de relações interpessoais no interior das quais Deus pode criar seres dotados de tanta autonomia e responsabilidade quanto lhe permitir a sua natureza. É neste Deus que acredito.»(2)

A primeira frase é só o contexto; os atributos que enumera podem variar de crença para crença. É a segunda que interessa, onde diz «neste Deus que acredito» em vez de “acredito que Deus é assim”. Apresenta Deus como um dado adquirido enquanto que “acredito que Deus é assim” admitiria a possibilidade de ele ser de outra forma ou mesmo nem existir. Existir um deus no qual alguns acreditam é diferente de alguns acreditarem num deus que pode nem existir. E dificulta o diálogo que crentes falem duma quando os ateus se referem à outra. Como Serafim Ferreira e Silva demonstra a seguir:

«Nós os cristãos temos uma ajuda, que é a chamada Revelação, a Bíblia ou Sagrada Escritura. E constatamos que, no âmago, no interior de cada um de nós, há um chamamento. E também verificamos, sendo crentes e praticantes, na coerência, (que) podemos ser mais irmãos, na justiça e na verdade. Procuremos Deus, o Senhor. [...S]e quisermos buscar a verdade, praticar a justiça, fazer o perdão, [se] seguirmos o caminho da rectidão, encontraremos Deus, o Salvador» (1).

Quando se questiona estas afirmações, o bispo, como muitos crentes, assume que estamos a rejeitar a Revelação, o Deus e o chamamento. Mas apesar do ateísmo rejeitar estas hipóteses em abstracto, neste caso concreto o que está em causa nem chega a ser o deus da religião, o poder mágico dos rituais ou o acesso especial à revelação divina. O que o ateísmo questiona primeiro é a crença nestas coisas. Se o deus do bispo existe ou não é uma questão interessante mas a crítica é que não se justifica acreditar nele.

Eu não procuro Deus nem me preocupo com Deus, Shiva ou o Pai Natal. Não existem, não me chateiam. Preocupa-me é crenças infundadas e procuro crenças com mais fundamento que as do bispo Ferreira e Silva. Em vez de me fiar na Revelação conto com a dúvida para corrigir os erros que vou cometendo. Se sinto um chamamento no meu âmago não concluo que veio de fora do meu âmago. E pelo que observo parece-me que quem busca a verdade, pratica a justiça, faz o perdão e segue o caminho da rectidão pode muito bem acabar com uma religião diferente da do bispo Ferreira da Silva. Ou até sem religião nenhuma. Isto não é uma crítica aos deuses; é uma crítica às crenças.

Em suma, o ateísmo não se obtém pelo simétrico da crença religiosa, mantendo o deus mas trocando “existe” por “não existe”. O ateísmo vem de perceber que quando alguém afirma “Deus é” diz apenas “acredito que seja” sem justificar a crença. Quando rejeitamos crenças injustificadas, neste universo, ficamos ateus.

1- Agência Ecclesia, Bispo Emérito de Leiria-Fátima comenta constituição de associação ateísta
2- Num comentário a este post no Portal Ateu.

Domingo, Junho 08, 2008

No Portal Ateu

publiquei hoje uma resposta a este post do Alfredo Dinis. Como temos conversado aqui os dois sobre estas coisas achei que pudesse interessar aalguns leitores deste blog. Aqui fica o link:

Males maiores.

Já agora, aproveito para fazer publicidade ao Planeta Ateu, um agregador de blogs de, para ou sobre ateus.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Com todo o respeito que merece (e há que dizê-lo com frontalidade)

Na homilia de Natal, o cardeal de Lisboa José Policarpo disse que «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade»(1). Hoje, em resposta à carta que a AAP dirigiu à Conferência Episcopal Portuguesa (2), assegurou «que a Igreja respeita os ateus e espera o mesmo respeito por parte destes»(3).

Tenho ouvido muitos apelos ao respeito quando converso com pessoas religiosas. Continuo sem perceber o que querem dizer com o termo. A maioria dos significados no dicionário está fora de questão. Reverência, deferência, apreço, importância e submissão não parecem atitudes da Igreja para com os ateus. Temor talvez ande mais perto da realidade mas não será coisa que admitam ou da qual peçam reciprocidade. Sobra consideração. A julgar pelas palavras de José Policarpo a Igreja considera-nos o «maior drama da humanidade»

Não posso prometer o mesmo respeito. Considero a Igreja Católica um inconveniente, mas está muito longe das piores religiões e nem sequer me parece que a religião em si seja o maior drama da humanidade. E a consideração e estima que sinto é pelas pessoas, não por dogmas, doutrinas ou organizações.

1- DN, 16-12-07, Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus
2- Carta da AAP ao Presidente da CEP
3- Agência Ecclesia, Igreja respeita ateus e espera ser respeitada.

Sexta-feira, Maio 30, 2008

AAP

Hoje foi constituída a Associação Ateísta Portuguesa. Aqui fica o manifesto, um pouco mais moderado do que muitos de nós escreveríamos em nome individual mas que esperamos ser consensual para ateus dentro e fora da associação.

Na sequência da legalização da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), os outorgantes da respectiva escritura saúdam todos os livres-pensadores: ateus, agnósticos e cépticos, que dispensam qualquer deus para viverem e promoverem os valores da liberdade, do humanismo, da tolerância, da solidariedade e da paz.

Os ateus e ateias que integram a AAP, ou a vierem a integrar, aceitam os princípios enunciados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e respeitam a Constituição da República Portuguesa.

O objectivo da AAP é mostrar o mérito do ateísmo enquanto premissa de uma filosofia ética e enquanto mundividência válida. Porque o ser humano é capaz de uma existência ética plena sem especular acerca do sobrenatural, e porque todas as evidências indicam que nenhum deus é real.

A AAP defende também os interesses comuns a todos os que escolhem viver sem religião, defendendo o direito a essa escolha e a laicidade do Estado, e combatendo a discriminação e os preconceitos pessoais e sociais que possam desencorajar quem quiser libertar-se da religião que a sua tradição lhe impôs.

A criação da AAP coincide com uma generalizada ofensiva clerical a que Portugal não ficou imune. Apesar de o ateísmo não se definir pela mera oposição à religião e ao dogmatismo, em nome da liberdade, da igualdade e da defesa dos direitos individuais a AAP denuncia o proselitismo agressivo e a chantagem clerical sobre as sociedades democráticas. O direito de não ter religião, ou de ser contra, é igual ao direito inalienável de crer, deixar de crer ou mudar de crença, sem medos, perseguições ou constrangimentos.

O ateísmo é uma opção filosófica de quem se assume responsável pelos seus actos e pela sua forma de viver, de quem dá valor à sua vida e à dos outros, de quem cultiva a razão e confia no método científico para construir modelos da realidade, e de quem não remete as questões do bem e do mal para seres hipotéticos nem para a esperança de uma existência após a morte. A AAP representa todos os que optem por esta forma de viver e defende a sua liberdade de o fazer.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

O meu ateísmo.

O leitor Inominável Indizível mencionou um artigo espectacular do João César das Neves, «A Fragilidade de uma Crença»(1). É um espectáculo de contorcionismo. O JCN, com um pé na argola e outro na poça, mesmo assim consegue meter ambos pelas mãos e ainda enfiar um na boca. Até a ler dói. Os disparates são os do costume mas aproveito a deixa para falar de ateísmo. De um ateísmo verdadeiro em vez dos desenhos animados que o JCN critica:

«Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina. Mas esta crença considera-se a si mesma lógica e natural.»

A afirmação é desleixada. Não me parece que o JCN queira dizer que a fé é uma crença como as outras. Mas mesmo ignorando esse detalhe, esta crítica comum é estranha vinda de uma pessoa de fé. É como se eu criticasse a astrologia acusando-a de ser ciência. Às vezes parece que os crentes têm pouca confiança na fé.

O ateísmo descritivo é uma crença como muitas outras. Quando olho para o relógio formo uma crença acerca das horas. Quando espreito pela janela formo uma crença acerca do estado do tempo. Crianças soterradas pelo terremoto na China faz-me formar uma crença acerca do hipotético deus omnipotente que nos ama a todos. Creio que é treta. Porque este ateísmo descreve um aspecto da realidade é tão frágil como os dados que o suportam. Mas como há tantos indícios que o universo não foi criado nem é regido pelo amor de um ser omnipotente acaba por ser uma crença muito robusta. E é só um dos meus ateísmos.

Outro é normativo. Não diz o que é mas exprime o que eu prefiro, o que eu acho bom. E eu acho bom, excelente até, que o universo não tenha deuses. Especialmente como aquele que vem na Bíblia. Todos passamos por uma fase em que procuramos segurança dando a mão a um adulto mas, eventualmente, queremos atravessar a rua sozinhos. Eu gosto de viver num universo em que isso é possível. Sei que isto faz confusão a pessoas como o JCN, para quem o «pior obstáculo do ateísmo é a ausência de finalidade. Para o ateu este universo, sem origem nem orientação, também não tem propósito.» E ainda bem.

As montanhas, os rios, as florestas, os oceanos, a Lua, nada disso tem propósito. Uma pedra que eu apanhe não tem propósito. Até que eu lhe dê um. O propósito não é intrínseco às coisas mas é-lhes dado por seres inteligentes como nós. É uma responsabilidade mas também um privilégio dar propósito às coisas e à nossa vida. O meu ateísmo normativo é esta disposição que me faz regozijar de viver num universo assim, que é 100% natural em vez de ser artifício de Alguém.

Finalmente, tenho um ateísmo prescritivo. São regras que orientam alguns aspectos da minha vida. Viver como se esta vida, a minha e a dos outros, fosse única e preciosa em vez de confiar numa eternidade hipotética de harpas e hossanas. Ser responsável pelo que faço mesmo sem um Polícia extradimensional a anotar cada uma das minhas falhas. Aceitar as coisas boas e as coisas terríveis que a natureza faz porque é sem intenção, sem bondade nem malícia, e tentar fazer delas o melhor que posso.

Digo que são três ateísmos porque é possível ter uns sem os outros. É possível saber que não há deuses mas preferir que houvesse ou não fazer nada disso. Mas no meu caso são três aspectos do mesmo ateísmo. Por isso não considero que o meu ateísmo seja uma crença frágil. Em parte porque é uma crença sólida, bem assente no que observo. E porque é também apreciar o universo pelo que ele é. E porque é ver na falta de um propósito transcendente para a minha existência a oportunidade, e responsabilidade, de lhe dar eu um propósito que seja meu.

1- DN, João César das NevesA Fragilidade de uma Crença

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Sei que Deus não existe.

Isto não pretende provar definitivamente o que quer que seja. Eu digo que sei algo quando tenho razões válidas para o aceitar como verdadeiro mesmo sem prova definitiva. Sei que não fui adoptado e que não vou ser despedido hoje, por exemplo. Por “Deus” refiro aqui o deus cristão mas o meu argumento aplica-se igualmente bem a outros, e “existe” é um termo difícil de esmiuçar mas uso-o num sentido relativamente simples. Algo existe se forem verdadeiras todas as proposições que o caracterizam. Por exemplo, existe uma aranha encarnada no tecto do meu quarto se for verdade que é aranha, que é encarnada e que está no tecto do meu quarto. Se uma destas for falsa então não existe uma aranha encarnada no tecto do meu quarto. Em suma, sei que o Deus cristão não existe porque tenho razões para concluir que nem todas as proposições que o caracterizam são verdadeiras.

Algumas parecem claramente falsas. Tudo indica ser impossível que algo imaterial seja consciente. Seria mais fácil ensinar uma mosca a ler; ao menos tem estruturas que permitem processar informação. É contraditório ser omnisciente e livre ou agir quando se existe fora do tempo. A doutrina da trindade não faz sentido nem é razoável aceitar que Deus é Jesus, que nasceu de uma virgem, ressuscitou, salvou todos pelo seu sacrifício e assim por diante. Vejo boas razões para rejeitar muitas das proposições que caracterizam Deus por serem incoerentes ou contrárias às evidências. É principalmente por isso que sei que ele não existe.

Mas os cristãos defendem que o seu deus é excepção e não pode ser conhecido pela ciência. Ou seja, nenhuma das propriedades de Deus pode se inferida daquilo que observamos. Como qualquer diálogo tem que partir de um ponto comum vou começar por este aspecto que, felizmente, me parece suficiente.

Vamos supor que alguém tenta adivinhar os objectos que tenho no meu quarto. Mesmo sem ver o meu quarto acerta facilmente em coisas como almofadas, cama, candeeiro ou livros. São uma inferência razoável daquilo que já observou acerca de quartos em geral. Mas quanto mais sair deste âmbito menos provável é acertar. Adivinhar os títulos dos livros seria muito difícil. Adivinhar que tenho uma fotografia minha com os meus filhos ao colo tirada na casa dos meus pais e presa com um íman a um suporte de metal com ursinhos azuis seria praticamente impossível a menos que tivesse examinado o meu quarto primeiro.

A teologia explica que quartos e almofadas existem no espaço e no tempo enquanto que Deus está totalmente fora desta realidade, mas isso só põe o alvo mais longe. Se eu fosse um extraterrestre de uma dimensão fora do espaço e do tempo seria mais difícil, e não mais fácil, adivinhar os objectos que tenho no quarto. Postular que Deus está fora de tudo o que conhecemos e é uma excepção a qualquer inferência torna impossível determinar as suas propriedades.

E isto é reconhecido por todos, sejam ateus, cristãos ou crentes de qualquer religião. Qualquer cristão rejeita as hipóteses que Deus ditou o Corão, que Deus é um Boddisatva, que Deus é Vishnhu ou Rama ou Odin. Não porque as possa refutar, pois estão todas igualmente fora daquilo que se pode testar. Mas porque são mera especulação e a probabilidade de acertar nisto à sorte é ridiculamente pequena. Eu aplico o mesmo princípio às hipóteses que Deus inspirou a Bíblia, que encarnou em Jesus, que nos deu mandamentos e assim. É tudo pura especulação e vai tão longe do que se justificaria inferir que não merece qualquer confiança. Posso afirmar que isso está errado e que esse deus, definido dessa forma, não existe.

Se os cristãos rejeitam a possibilidade de testar as suas hipóteses alegando que não se pode confrontá-las com a nossa experiência então já sei que são falsas. É a classificação mais prudente para a especulação infundada. Se querem defender que há evidências a favor das suas conclusões então têm que prescindir da alegada imunidade aos factos observáveis e avaliar cada hipótese à luz daquilo que conhecemos. Nesse caso ainda mais razões tenho para rejeitar a maioria delas.

Mas é preciso escolher à partida se vamos jogar este ténis intelectual com rede ou sem rede. Não se pode pôr a rede quando é um a servir e depois tirá-la quando chega a vez do outro.

Sábado, Maio 10, 2008

Associação Ateísta Portuguesa, continuação.

Hoje almocei com algumas das pessoas que estão a formar a AAP e o consenso é que a associação tentará representar todos os ateus ou, pelo menos, a grande maioria. É uma intenção que subscrevo e apoio. Não sei se vamos conseguir mas se isso fosse razão para não tentar ainda hoje usava fraldas (não uso, para quem não sabe, e normalmente safo-me bem). Mas escrevo este post principalmente por duas razões. Primeiro, para assegurar (ou desiludir) os leitores que o encontro com o Luís Grave Rodrigues não deixou ninguém incapacitado para blogar. E, segundo, para esclarecer o sentido desta associação, que é o contrário do que alguns julgam ser.

Os crentes religiosos procuram uma religião que os guie e lhes diga como viver enquanto crentes. O sentido é da associação, tradição e comunidade religiosa para o indivíduo. O ateu, seja porque razão o for, assume individualmente a responsabilidade pela forma como vive a sua vida. Uma associação não lhe vai dizer como ser ateu. Isso já o ateu sabe. Mas muitos fazem uma confusão semelhante à que baralha as leis humanas com as leis da Natureza e faz pensar que há um Legislador. As nossas leis são normativas; funcionam da lei para o legislado dizendo o que este último deve fazer. Mas as leis da Natureza são descritivas e formam-se no sentido inverso. A Natureza faz o que faz e nós limitamo-nos a descrever o que quer que isso seja.

Analogamente, não queremos uma associação ateísta para dizer aos ateus como ser ateu. Não é legislação nem religião; o seu sentido é o oposto. Queremos uma associação que descreva o que os ateus são e que mostre as preocupações e interesses de quem é ateu. E daqui vem a maior dificuldade. Enquanto os crentes se associam facilmente porque cada crente sente necessidade da sua religião, os ateus não sentem necessidade de se associar porque já têm todo o ateísmo que precisam. Os benefícios da associação são só indirectos, a longo prazo e mais a nível social que individual, beneficiando todos os ateus sejam sócios ou não.

Os crentes que interpretem esta associação como fanatismo ateu podem ficar descansados. Não queremos uma igreja ateísta que ponha todos os ateus na mesma linha. Queremos apenas algo que explique à sociedade o que nós somos. E os ateus que não sentirem necessidade de se associar para ser ateus têm razão. A associação é que precisa deles para poder representá-los correctamente. Mas todos os ateus têm a ganhar se a sociedade compreender e reconhecer a legitimidade deste modo de vida.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Como meter o pé na argola.

Há umas semanas fui convidado para ir ao programa «As Tardes da Júlia», na TVI, que ia ser sobre o ateísmo. Só que calhava no dia 24 e eu tinha o debate em Braga na noite de 23, por isso declinei o convite. Dos arredores de Valença do Minho, tentei assistir à emissão em directo. Aguentei pouco. A conversa, em vez de ser sobre o ateísmo, foi a falar mal de quem ia à igreja, da Bíblia e do padre que lá estava, o Joaquim Carreira das Neves. Entre criacionismos e outras tretas já me tinha passado o trauma daqueles dez minutos. Mas ontem o Luís publicou o post «Como crucificar um padre»(1). Como vou almoçar com ele no Sábado se calhar devia publicar isto só no Domingo. Mas não resisto. Treta é treta.

O Luís violou logo à partida os três mandamentos do discurso ao vivo. Não imitar os velhos dos marretas, não chamar idiotas à audiência e nunca, nunca, atacar o padre simpático com décadas de experiência a falar em público. Mas aconteceu, paciência. Não é a participação dele no programa que eu quero criticar. Vou-me cingir à alegada crucifixão do padre.

«[O] padre Carreira das Neves demonstra bem como não há nada melhor do que uma boa dose de irracionalidade encasquetada na cabeça para levar qualquer «pessoa de fé» a dizer na mesma frase uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, começa este homem de Deus por negar a política da Igreja Católica contra o uso do preservativo. Para depois, dizer que não vê qualquer inconveniente para o seu uso, que defende incondicionalmente. Haverá alguma consequência disciplinar para isso? É que o padre carreira das neves é professor de teologia numa Universidade!»(1)

O padre tem uma irracionalidade encasquetada na cabeça porque não vê inconvenientes no uso do preservativo e não é despedido por causa disso. Isto preocupa-me. É que eu estou na mesma situação. E além do raciocínio dúbio não é verdade que o padre tenha negado a política da Igreja. Pelo que ouvi no vídeo, o padre apenas disse que não tinha conhecimento da Igreja mandar queimar preservativos em África.

Mais adiante, o Luís escreve que «o bom padre mete os pés pelas mãos: começa uma frase a dizer que é «contra o aborto» porque é «pela vida», para meia dúzia de segundos depois acabar a dizer que afinal e em certos casos… é a favor do aborto!». Esta afirmação é desonesta. Os “certos casos” foi a gravidez ectópica, com a qual o Luís tentou entalar o padre. A gravidez ectópica põe em perigo a vida da mulher e, ao contrário do que o Luís esperava, o padre disse que se justificava abortar nestas condições. Não há incoerência entre ser pela vida e aceitar o aborto quando a vida da mãe está em risco. O problema aqui foi apenas que o padre não deu a resposta que o Luís gostava que ele tivesse dado.

Eu concordo com o Luís em muita coisa. Concordo que a fé é irracional e não existem deuses. Concordo com as críticas aos dogmas da Igreja, e faço-as aqui também. Concordo que é treta dizer que a fé transcende a razão e concordo que a teologia é uma batota intelectual. Se transcendemos a razão, como diz Dennett, então Deus é uma sandes de presunto porque sem razão vale tudo. E reconheço ao Luís o direito de escrever o que quiser no blog dele. Até, por muito que me custe, o direito de salpicar os posts com frases em bold!.

Mas tenho que condenar estes ataques irracionais às pessoas. No Sábado logo se vê se levo na cabeça, mas hoje o veredicto só pode ser este. Pelas normas vigentes neste blog, Luís, declaro esse teu post uma treta.

E veio mesmo a calhar, agora que estamos a discutir a formação da Associação Ateísta Portuguesa. Quando cada um fala por si não há problema, até porque estes despiques são divertidos (se não houver post no Sábado já sabem que me enganei). Mas para mim tem que ficar claro que ninguém vai escrever uma coisa daquelas em meu nome. Espero que se consiga uma associação que represente realmente o que os ateus têm em comum e não apenas a versão favorita de alguns. Senão lá se vão os seis euros...

1- Luís Grave Rodrigues, 7-5-08, Como crucificar um padre

0:005h: Editado por leitores mais exigentes terem apontado a ambiguidade das alusões ao espiritismo. E uma gralha no título...

Terça-feira, Abril 29, 2008

Associação Ateísta Portuguesa

Daqui a cerca de um mês será a escritura de constituição da Associação Ateísta Portuguesa. Quem quiser estar presente pode seguir os desenvolvimentos no Random Precision ou no Diário Ateísta.

O que une os associados é não confiar em coisas do outro mundo, pelo que no resto haverá muita diversidade de opiniões, atitudes e formas de estar. O que é bom. Enquanto os crentes se identificam pelos preceitos da sua religião, cada ateu tem que mostrar o ateísmo apenas na sua maneira de ser e pode ser útil mostrar uma referência mais desligada das idiossincrasias de cada um. Por outro lado, uma associação ateísta é como um rebanho de gatos e a predisposição para o pensamento independente não é uma cola forte.

Mas porque concordo com os objectivos vou-me fazer sócio. E porque não deve haver referendos sobre o aborto nos próximos anos talvez a minha participação até seja pacífica.

«A Associação tem por objectivos:
1. Fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida;
2. A representação dos legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática;
3. A promoção e a defesa da laicidade do Estado e da igualdade de todos os cidadãos independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural;
4. A despreconceitualização do ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social;
5. Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.»


Os estatutos estão disponíveis aqui

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Como Ricky Gervais se tornou ateu.

Aos nove anos. Numa hora. A fazer perguntas. Cada vez gosto mais deste tipo.

Ricky Gervais, My argument with God.

Eu também gostava de ter uma história destas para contar mas, infelizmente, nunca me tornei ateu.

Via Pharyngula

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Portal Ateu, teologia e lorem ipsum.

Aceitei de bom grado o amável convite do Hélder Sanches (1) para participar no Portal Ateu. Não sei bem quanto é que vou poder contribuir, mas pelo menos um artigo pequenino já lá está. Ainda não está tudo operacional mas já podem dar uma olhada, deixar comentários, e até já nos deixaram o primeiro insulto. A coisa está a andar bem.

Como ainda está em construção, alguns textos estão com o famoso «Lorem ipsum dolor sit amet...», um texto usado por tipógrafos há cinco séculos. É composto de pedaços do «de Finibus Bonorum et Malorum» de Cícero (2) e não faz muito sentido, mas serve para ajustar o tipo e tamanho de letra e a composição gráfica das páginas.

Parece-me que a razão principal para se ter mantido constante durante cinco séculos é precisamente não fazer sentido. Como não se percebe, o texto é copiado letra a letra de geração em geração. Tal como a doutrina religiosa, cuja longevidade também me parece dever-se à falta de sentido. Vejam lá se isto não parece um argumento teólogico comprovando a existência de Deus.

«"Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur. Excepteur sint occaecat cupidatat non proident, sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum."»

1- Blog do Hélder Sanches, Penso, logo sou ateu
2- www.lipsum.com

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

O Cristianismo e a Europa.

A aparente importância do Cristianismo na cultura europeia vem de confundir a história com o presente. O Cristianismo foi muito importante na história da Europa. Mas também foram importantes o colonialismo, a escravatura dos povos africanos, o extermínio das civilizações da América, as guerras religiosas, o genocídio e o fascismo. Tal como estes factores que marcaram o nosso passado, também a fé na salvação por Jesus Cristo morto e ressuscitado ao terceiro dia não caracteriza a cultura europeia de hoje.

Os valores que distinguem a cultura europeia não são valores Cristãos. Pelo contrário. Na Europa ocidental o estado soberano da Cidade do Vaticano é o único que não respeita os princípios da democracia, da igualdade de direitos para ambos os sexos e da liberdade de expressão e crença religiosa. É verdade que a Europa foi assim mas agora já não é. A ditadura, a intolerância religiosa e a discriminação sexual já não são aceites na cultura Europeia.

Até na atitude perante a religião não é o Cristianismo que mais distingue a Europa. Na América, em África, e até em partes da Ásia leva-se o Cristianismo muito mais a sério que aqui. Niste aspecto a Europa distingue-se mais pelo ateísmo, pela indiferença à prática religiosa e pela condenação de todo o fundamentalismo religioso. Fora da Europa é mais comum condenar-se todos os fundamentalismos excepto o favorito regional.

Concordo que o Cristianismo foi muito importante na história da Europa. Mas hoje em dia destaca-se mais por chocar com os valores fundamentais da cultura europeia.

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Mas religião não...

Hoje de manhã tivemos uma reunião com a professora dos miúdos (primeira classe). Ela sugeriu que os pais fossem lá falar à turma. Ao longo do ano lectivo, em cada semana o pai ou a mãe de um dos alunos vai lá falar meia hora sobre qualquer coisa. Será bom os miúdos verem os pais a participar no seu ensino, e a professora disse que podemos falar sobre o trabalho, ou valores cívicos, ou até ir lá a avó dizer como eram as coisas antigamente. Tudo. Menos religião.

Bolas. Até compreendo a professora. Se deixasse o pessoal falar de religião ia haver chatice com os pais. Os crentes, claro, porque aos ateus tanto faz. Se fosse lá um evangélico falar aos miúdos já tínhamos com que nos entreter lá em casa. Era risada até à meia noite. E eu concordo com o Daniel Dennett que a educação religiosa devia ser obrigatória desde a primeira classe. Não a fantochada que nós temos, com diferentes programas para os miúdos conforme a religião que calhou aos pais, mas uma educação religiosa igual para todos, consistindo do que é consensual acerca das religiões.

Não há consenso acerca da ressurreição de Jesus ou da natureza divina de Siddharta Gautama. Uns acreditam, outros nem por isso. Mas é consensual que os Cristãos acreditam que Jesus ressuscitou, que os Muçulmanos veneram Allah, que os Judeus dizem ser o povo escolhido e que os Hindus chamam sagrado ao que nós chamamos gado. São factos, é útil sabê-los e devíamos ensiná-los às crianças para saberem o que é a religião antes de decidirem se faz sentido para elas. E isto choca muitos crentes.

Choca porque não é propriamente a doutrina que torna a criança num crente. O factor principal é a criança ignorar as alternativas. Os pais têm que proteger o rebento de ideias diferentes para já estar encarrilado quando tiver idade para o mistério da Trindade ou o dever da peregrinação a Meca. Nessa altura Já a religião “certa” lhe parece natural e as outras um bocado estranhas. O medo do crente é que a criança descubra que as religiões são todas um bocado estranhas.

Agora tenho que arranjar um tema inofensivo que não tenha nada a ver com religião. Evolução? Pensamento crítico?

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

O respeitinho.

O Manuel Rocha recomendou que «se actue com o respeito devido a quem tem as suas razões, mesmo quando elas nos parecem pouco razoáveis» (1). É uma boa ideia, isso de respeitar as afirmações de acordo com as razões que as fundamentam. E pomos esse princípio em prática frequentemente. Quando discutimos política, futebol, ambiente ou o preço dos legumes. Mas os supersticiosos não querem o respeito de quem exige razões para ajuizar o que há de levar a sério.

O que os supersticiosos querem é respeitinho, o medo de dizer algo que o outro não goste, o receio de ofender por questionar e a relutância de dizer que se discorda. Mas isso não é respeito.

Mas agora calo-me e deixo falar quem tem mais, e melhor, para dizer acerca destas coisas. Da esquerda para a direita, Christopher Hitchens, Daniel Dennett, Richard Dawkins e Sam Harris.

Parte 1:


Parte 2:


Via Sandwalk

Sábado, Dezembro 01, 2007

The Spanish Inquisition

O António Parente inspirou muitos posts neste blog, e é com prazer que lhe dou as boas vindas de volta à Internet com o seu novo blog Razão Crítica (1), desta vez com um formato radical e inovador (permite comentários). Num post recente o António escreveu:

«Uma [Uma...] das caractertísticas mais marcantes do ateísmo português é o seu fanatismo agressivo e a sua indigência cultural. [Duas!...] Sem pensamento próprio [Três! Três características...] , limita-se a copiar, de uma forma totalmente incompetente, o modo anglo-saxónico de atacar a religião [Quatro!...]. Cria-se, desse modo, uma dissonância entre aquilo em que um crente português se revê e o que um ateu gostaria de ver.»(2)

Eu diria que a dissonância vem logo de um ser crente e outro ateu. Mas isso será tema para posts futuros; estou certo que o António continuará a contribuir para o debate. Neste queria deixar apenas as boas vindas e esta pequena homenagem.




1- Razão Crítica.
2- António Parente, 30-11-07, Ateísmo português: fanatismo agressivo?

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

O que é e o que se sabe ser.

O Bernardo Motta criticou-me por rejeitar um deus que «pode fazer qualquer coisa que julguemos impossível, refutando toda a ciência moderna» (1). Escreveu o Bernardo que

«O Deus no qual acredito, o verdadeiro Deus, o Deus Criador de tudo o que existe, não viola o possível, não tem apetências pelo impossível, não é contraditório, nem ilógico (a violação das leis da lógica é um erro, e o erro é um puro nada, em termos ontológicos).» (2)

Um problema da teologia é afirmar o que é sem se preocupar como o sabe. Eu escrevi que o deus do Bernardo pode fazer algo que julgamos ser impossível. O Bernardo diz que o seu deus não faz nada que seja impossível. Mas a primeira questão é saber se é possível ou não. Vou aproveitar o exemplo do Bernardo.

«O exemplo que demos, no qual Cristo anda sobre a superfície das águas sem se afundar, [...] não viola quaisquer regras físicas. O efeito seria o mesmo se utilizássemos estruturas compressoras que aumentassem drasticamente a pressão num dado metro cúbico de água: com a necessária pressão, e eventualmente com alterações químicas que produzissem maiores tensões superficiais no líquido, um homem poderia andar sobre a superfície dessa água. A diferença é que Cristo, ao fazê-lo, valeu-se de causas sobrenaturais que provocaram localmente um efeito contra-natural (mas sem violar as leis da física), ou seja, contrário ao comportamento esperado deste líquido na natureza, quando não estão presentes causas sobrenaturais.»

Eu metia as causas sobrenaturais logo nos pés para não afundar, e pronto. Por muito que o Bernardo complique, não há sitio na ciência moderna onde ele possa enfiar causas sobrenaturais. Nem nos pés, nem na pressão da água, nem onde quer que seja. Newton incluiu uma ressalva sobrenatural. Os planetas seguiam aquelas equações mas, de vez em quando, Deus tinha que dar um jeitinho para não cair tudo no Sol. Mas desde Laplace que já não precisamos dessa hipótese.

Agora temos que escolher entre a ciência ou o sobrenatural. Eu rejeito o relato do homem a andar sobre a água porque as evidências favorecem claramente a física. O Bernardo prefere inventar as suas evidências especulando sobre a pressão da água e afins, mas a contemplação umbilical deve ser acompanhada de observação e testes às hipóteses que o umbigo revela. Como actividade isolada é fútil e enganadora.

Sem os bois da epistemologia a carroça da ontologia não anda. Não se pode afirmar que é assim sem saber primeiro alguma coisa, mas a teologia manda os bois pastar e senta-se à espera que a carroça ande sozinha. É por isso que Agostinho está há dezasseis séculos na vanguarda da investigação teológica cristã.

Não é por princípio que rejeito a existência do deus do Bernardo. É porque não há razão para aceitar que uma força sobrenatural aumentou a pressão ou lá o que foi, e tantas outras coisas que se explica pela imaginação humana sem ter deitar fora a ciência moderna para lá meter o sobrenatural. A ciência moderna tem um fundamento muito mais sólido precisamente porque rejeitou o sobrenatural. Parece que é assim que este universo funciona.

Se o peso das evidências pender para o outro lado admitirei a existência do deus do Bernardo. Não tento mandar na realidade com princípios ou definições, como faz o Bernardo ao afirmar que «Deus é um ente metafísico: por definição, ele é O ENTE SUPREMO metafísico;». Até pode defini-lo como um rabanete cantor que não faz diferença. Só definimos palavras. As coisas são o que são.

O que os meus princípios determinam é a minha relação com a realidade. E nesse sentido sou ateu por princípio. Mesmo que o deus do Bernardo exista e eu o descubra, deixarei de ser ateu no sentido de dizer que esse deus não existe, mas continuarei ateu no sentido de não me dar para ajoelhar, rezar, ou hossanas nas alturas. Posso não ser um ente supremo metafísico, mas tenho os meus princípios.

1- Eu, 3-10-07, Ateísmos
2- Bernardo Motta, 12-11-07, Milagres da ciência empírica

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Certeza e agnosticismo.

O leitor que assina «Catelius» comentou:

«Paradoxal. Como os filósofos e cientistas SABEM definitivamente que não se pode saber nada em definitivo? He he he. Além do mais, SEI que 2 + 2 são 4. É axiomático, seja tudo isto aqui simulação ou não. Sei que 10/2=5. De igual modo, SEI que todas as casas pretas são pretas.
Assim sendo, a Terra é redonda, seja ela uma simulação ou não.»


Se defino que x = 5 sei que x = 5, mas não é grande novidade. Saber por definição dá certeza absoluta sem informar. Por outro lado, saber que uma proposição corresponde à realidade é mais informativo mas tem sempre algum risco. Até o «penso logo existo» é arriscado. Exige que pensar seja um acto de um ser que existe. Mas quem sabe se os pensamentos simplesmente acontecem sem existir um eu que os pense.

Pelos dois sentidos de «saber» sei definitivamente que não posso saber nada definitivo acerca da realidade. Definitivamente porque é consequência da definição dos termos. E não posso saber em definitivamente o que é a realidade porque só controlo o que eu defino. A realidade pode sempre surpreender.

Isto em teoria, porque a prática é diferente. Bertrand Russell explicou uma vez como era agnóstico e ateu:

«As a philosopher, if I were speaking to a purely philosophic audience I should say that I ought to describe myself as an Agnostic, because I do not think that there is a conclusive argument by which one prove that there is not a God.
On the other hand, if I am to convey the right impression to the ordinary man in the street I think I ought to say that I am an Atheist, because when I say that I cannot prove that there is not a God, I ought to add equally that I cannot prove that there are not the Homeric gods.»
(1)

Um mais um é dois por definição de «um», «dois», e «mais», mas a verdade que daqui sai é a que lá pusemos. O que dá algo de novo, e útil, é aplicar a regra à realidade, mas isso já não é garantido. Podemos saber que juntando um pato ao pato que já temos ficamos com dois patos. Mas se a um cardume juntamos outro cardume ficamos com um cardume. Maior, mas à mesma um e não dois. E se algo é mais pato ou mais cardume já não é decisão nossa. Filosoficamente, todas as verdades garantidas são triviais e qualquer afirmação que não seja trivial pode ser falsa.

Mas não é prático viver como se não soubesse que Zeus é fantasia, como se duvidasse que há realidade ou a deixar-me atropelar por faltar a prova irrefutável de haver carros na estrada. Não posso provar que Deus não existe mas também não vos posso provar que eu existo. Filosoficamente é interessante, mas, na prática, posso ter tanta certeza destas coisas como de qualquer outra. E se estiver enganado logo mudo de ideias quando for caso disso.

1- Bertrand Russell, 1947, Am I An Atheist Or An Agnostic?

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

Ateísmos.

Um leitor anónimo comentou recentemente:

«em relação ao zeus e outros deuses existe unanimidade quanto à sua inexistência, quer entre cristãos, muçulmanos, hindus ou ateus. é um problema ultrapassado. a polémica anda à volta do deus cristão. é esse que resiste ao tempo. é o único problema filosófico, teológico ou científico que falta resolver: existe ou não existe?» (1)

Primeiro, quero despachar dois detalhes. A existência de um deus não é função do voto da maioria, até porque na política da religião actual só há maioria por coligação. E para Hindus, Budistas, Confucionistas e milhares de religiões tribais que ainda existem não é o deus cristão que importa.

Mas quero focar uma diferença fundamental entre o ateísmo do crente e o ateísmo que eu defendo, que julgo partilhar com outros ateus. Os crentes são ateus como são crentes. Por princípio. Assumem logo à partida, por fé, que os deuses deles existem e que os deuses dos outros não*. Alguns tentam justificá-lo alegando a opinião da maioria ou uma tradição, como se isso importasse, mas isso nunca é uma causa ou razão. O que vem primeiro é a fé na existência de uns e na inexistência de outros.

Ora eu não sou ateu por princípio. Sou ateu em consequência da forma como avalio qualquer hipótese, comprando-a com as alternativas e optando por aquela que melhor corresponde à informação que tenho. É isto que me faz rejeitar o deus cristão, por exemplo. Omnipotente e omnisciente, pode fazer qualquer coisa que julguemos impossível, refutando toda a ciência moderna. É contraditório, pois sabe de certeza o que vai fazer amanhã mas pode fazer o contrário. E não há vestígio dele.

Não há hipótese menos credível que esta. Por muito incrível que seja uma hipótese este ser poderia torná-la realidade e fazer ainda pior. Vejo como muito mais credível que uma data de gente se tenha entusiasmado com um mito antigo. Afinal, todos os crentes aceitam esta hipótese em relação às outras religiões.

Por isso discordo da afirmação deste leitor anónimo. A divergência não é acerca do deus cristão. É acerca da forma como encaramos afirmações e como decidimos aceitar ou rejeitar uma hipótese. Esta abordagem de fechar o problema num só caso particular atrapalha muito a discussão.

Em parte porque o crente possivelmente assume que eu não acredito no deus dele da mesma forma que ele não acredita em Zeus ou Odin. Por fé. Quando não é nada disso. Simplesmente rejeito a hipótese que existam por ser mais verosímil a hipótese contrária. E apenas enquanto o for. Não por fundamentalismo ateu ou por convicção pessoal, mas somente pelo peso das evidências.

Mas atrapalha principalmente porque esconde o verdadeiro problema. Não estamos a lidar apenas com a hipótese de existir ou não existir um certo deus, mas com a imensidão da fantasia humana. Cobras com asas, escaravelhos gigantes a rebolar o Sol pelo céu, seres invisíveis omnipotentes três em um, o circo inteiro.

A bem do diálogo, não foquem apenas aquelas hipóteses que decidiram favorecer. Considerem-nas como parte da vasta biblioteca da imaginação humana. Cheia de maravilhas, de uma riqueza imensa, mas em que praticamente tudo é treta. É que inventar é fácil, mas a realidade é um alvo muito pequeno para lhe acertar por acaso. Por razões práticas e porque apenas uma ínfima parte do que inventamos corresponde à realidade, justifica-se rejeitar qualquer uma destas hipóteses enquanto não houver evidências a seu favor.

*Isto para as religiões mais populares. Algumas aceitam que todos os deuses existem, apenas preferem os seus.

1- Filosofia e Teologia

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

Moderação.

Pedem-me mais moderação na critica a certas crenças. Mas não explicam como, nem porquê nem em que aspecto é que eu devia ser mais moderado.

O aspecto íntimo não discuto. Há quem goste de rezar, ir à missa e louvar o senhor. Há quem goste de golfe. Eu gosto de chocolate. Admito interesse em conversar com o Criador do Universo, se existisse tal coisa, mas não me ia dar para ajoelhar, rezar e louvar. Não faz o meu estilo. Mas é uma questão de gosto e não há nada para discutir. Nem sequer posso ser mais moderado. Podia, e devia, ser mais moderado no consumo do chocolate, mas não posso moderar o gosto. Esse é o que é.

O aspecto da crença que discuto é público. Se deus existe, existe para todos, crente ou descrente. Se não existe, não há crença que lhe valha. E qual destas melhor corresponde à realidade é uma questão a investigar. A fé não interessa. Tem que se considerar alternativas, confrontá-las com as evidências, rever as que não são adequadas, e repetir tudo sempre que há dados novos.

E sem moderação. Não queremos um juiz moderadamente imparcial, que julgue metade dos casos de acordo com as provas e metade de acordo com a sua crença que quem tem bigode é culpado. Não queremos um cirurgião moderadamente rigoroso, que metade das vezes corte onde a anatomia indica ser apropriado e outra metade feche os olhos e confie em deus para guiar o bisturi. Se queremos ter uma boa noção da realidade também não podemos ser moderadamente criteriosos. Temos que confrontar as nossas ideias com a realidade como ela é, sem pitadas de fantasia, de li uma história engraçada, nem de ai que bom que era.

Ou talvez queiram que eu seja mais moderado no confronto com quem discorda de mim. Mesmo assim não vejo como. Não devem querer moderação nas vezes que rebento autocarros cheios de gente, atiro aviões contra prédios, queimo pessoas vivas ou as condeno a sofrer para sempre no inferno. É que isso não faço, nem com moderação nem com coisa nenhuma. Também não vou bater à porta das pessoas a vender ateísmo, não distribuo panfletos, e nem sequer uso pontos de exclamação quando escrevo estas coisas. Só respondo a quem me dirige a palavra ou escrevo aqui, onde só vem ler quem quer.

Se não é nada disto que querem quando me pedem moderação só resta uma possibilidade. Querem que me cale.

Azar. Não se pode ter tudo...