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Quinta-feira, Maio 08, 2008

Como meter o pé na argola.

Há umas semanas fui convidado para ir ao programa «As Tardes da Júlia», na TVI, que ia ser sobre o ateísmo. Só que calhava no dia 24 e eu tinha o debate em Braga na noite de 23, por isso declinei o convite. Dos arredores de Valença do Minho, tentei assistir à emissão em directo. Aguentei pouco. A conversa, em vez de ser sobre o ateísmo, foi a falar mal de quem ia à igreja, da Bíblia e do padre que lá estava, o Joaquim Carreira das Neves. Entre criacionismos e outras tretas já me tinha passado o trauma daqueles dez minutos. Mas ontem o Luís publicou o post «Como crucificar um padre»(1). Como vou almoçar com ele no Sábado se calhar devia publicar isto só no Domingo. Mas não resisto. Treta é treta.

O Luís violou logo à partida os três mandamentos do discurso ao vivo. Não imitar os velhos dos marretas, não chamar idiotas à audiência e nunca, nunca, atacar o padre simpático com décadas de experiência a falar em público. Mas aconteceu, paciência. Não é a participação dele no programa que eu quero criticar. Vou-me cingir à alegada crucifixão do padre.

«[O] padre Carreira das Neves demonstra bem como não há nada melhor do que uma boa dose de irracionalidade encasquetada na cabeça para levar qualquer «pessoa de fé» a dizer na mesma frase uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, começa este homem de Deus por negar a política da Igreja Católica contra o uso do preservativo. Para depois, dizer que não vê qualquer inconveniente para o seu uso, que defende incondicionalmente. Haverá alguma consequência disciplinar para isso? É que o padre carreira das neves é professor de teologia numa Universidade!»(1)

O padre tem uma irracionalidade encasquetada na cabeça porque não vê inconvenientes no uso do preservativo e não é despedido por causa disso. Isto preocupa-me. É que eu estou na mesma situação. E além do raciocínio dúbio não é verdade que o padre tenha negado a política da Igreja. Pelo que ouvi no vídeo, o padre apenas disse que não tinha conhecimento da Igreja mandar queimar preservativos em África.

Mais adiante, o Luís escreve que «o bom padre mete os pés pelas mãos: começa uma frase a dizer que é «contra o aborto» porque é «pela vida», para meia dúzia de segundos depois acabar a dizer que afinal e em certos casos… é a favor do aborto!». Esta afirmação é desonesta. Os “certos casos” foi a gravidez ectópica, com a qual o Luís tentou entalar o padre. A gravidez ectópica põe em perigo a vida da mulher e, ao contrário do que o Luís esperava, o padre disse que se justificava abortar nestas condições. Não há incoerência entre ser pela vida e aceitar o aborto quando a vida da mãe está em risco. O problema aqui foi apenas que o padre não deu a resposta que o Luís gostava que ele tivesse dado.

Eu concordo com o Luís em muita coisa. Concordo que a fé é irracional e não existem deuses. Concordo com as críticas aos dogmas da Igreja, e faço-as aqui também. Concordo que é treta dizer que a fé transcende a razão e concordo que a teologia é uma batota intelectual. Se transcendemos a razão, como diz Dennett, então Deus é uma sandes de presunto porque sem razão vale tudo. E reconheço ao Luís o direito de escrever o que quiser no blog dele. Até, por muito que me custe, o direito de salpicar os posts com frases em bold!.

Mas tenho que condenar estes ataques irracionais às pessoas. No Sábado logo se vê se levo na cabeça, mas hoje o veredicto só pode ser este. Pelas normas vigentes neste blog, Luís, declaro esse teu post uma treta.

E veio mesmo a calhar, agora que estamos a discutir a formação da Associação Ateísta Portuguesa. Quando cada um fala por si não há problema, até porque estes despiques são divertidos (se não houver post no Sábado já sabem que me enganei). Mas para mim tem que ficar claro que ninguém vai escrever uma coisa daquelas em meu nome. Espero que se consiga uma associação que represente realmente o que os ateus têm em comum e não apenas a versão favorita de alguns. Senão lá se vão os seis euros...

1- Luís Grave Rodrigues, 7-5-08, Como crucificar um padre

0:005h: Editado por leitores mais exigentes terem apontado a ambiguidade das alusões ao espiritismo. E uma gralha no título...

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Só em filmes?...

all your base

O Pirate Bay é um site de indexação e repositório de torrents, pequenos ficheiros que identificam pedaços dos ficheiros partilhados na rede BitTorrent. Sendo o mais popular tem sido alvo de várias queixas por parte das associações de empresas discográficas e estúdios de cinema. Mas como só contém ficheiros de indexação e não tem material protegido por copyright ainda não o conseguiram fechar.


Em Maio de 2006 a polícia Sueca fez uma rusga ao ISP que albergava o Pirate Bay e confiscou os servidores. Como se limitaram a levar as máquinas, fecharam também cerca de duas centenas de sites pertencentes a empresas e organizações que não tinham nada a ver com o assunto. A incompetência policial e notícias que a rusga tinha sido motivada por pressão dos EUA criaram uma forte oposição política. Uns dias depois o site estava novamente online e agora está “espelhado” em vários países diferentes.


A investigação policial continuou e o caso está prestes a ir a tribunal. A notícia hoje é que Jim Keyzer, o inspector chefe responsável pela investigação, está empregado na Warner Brothers desde 16 de Março. Uma advogada da Warner Brothers explica que isto apenas mostra apreciação pelo trabalho do investigador e não indica nada de impróprio durante a investigação. Há quem discorde que seja assim tão próprio o queixoso recompensar o polícia que lidera a investigação. Não só põe em causa a imparcialidade e honestidade da investigação como os direitos dos acusados, porque a lei exige que apenas seja comunicado aos queixosos e ao tribunal o que é relevante para o caso em julgamento. E se houver evidências de que a contratação foi proposta antes do final da investigação isto pode invalidar toda a acusação.



Fontes:
Wikipedia, Pirate Bay,Pirate Party.
Zeropaid, Chief Swedish Police Investigator in Pirate Bay trial on Hollywood's Payroll.
Blog do Pirate Bay, comunicado
Um exemplo engraçado de como este caso está a ser conduzido: Music industry dealt Pirate Bay blow
E uma ajuda a quem o boneco não diz nada: All your base are belong to us
Quando alguém nos monta a bomba é hora de gritar “por grande justiça!”.

Sexta-feira, Março 28, 2008

Debater ou não debater.

Em Abril do ano passado a Rampant Films pediu entrevistas ao Richard Dawkins, ao P.Z. Myers e à Eugenie Scott para o filme «Crossroads: The Intersection of Science and Religion», aparentemente um documentário sobre ciência e criacionismo. Uns meses mais tarde esta produtora anunciou a participação destes biólogos no filme «Expelled», uma propaganda criacionista acerca de como a ciência proíbe qualquer menção de deuses (1). Do «Crossroads» nunca mais se ouviu. E a sacanice continuou, acompanhada de ironia.

A semana passada Myers foi expulso do cinema onde ia ver o filme «Expelled», no qual participara enganado. A audiência era por convite pedido na página do filme. O P.Z. Myers deu o nome na página, marcou lá que levava mais 3 pessoas e recebeu os quatro convites. Mas quando estava na fila para entrar um segurança mandou-o sair imediatamente do cinema. O engraçado neste episódio vergonhoso é que os 3 acompanhantes eram a mulher e a filha de Myers e o Richard Dawkins (2). Como não pediam os nomes dos acompanhantes o produtor não sabia que o Dawkins ia lá estar e quase lhe dá uma coisa má quando, na sessão de perguntas, o Dawkins se levanta e pergunta porque expulsaram Myers (3).

Seguiram-se desculpas esfarrapadas, tretas e muita gargalhada à custa da maldade mesquinha destes criacionistas. Imaginem o Deus do antigo testamento, que transforma a mulher em sal, arrasa cidades ou inunda o planeta inteiro só porque lhe apetece. Agora imaginem o mesmo personagem mas sem os poderes...

É por coisas como esta que a Palmira considera «que não é boa ideia debates que põem ao mesmo nível evolucionismo e criacionismo como [...] o que acontecerá em Braga para o mês que vem no âmbito das XX Jornadas Teológicas e em que o Ludwig debaterá com Jónatas Machado» (4). Sim... mas não...

A hipótese que um deus criou os seres vivos é uma hipótese científica. Pode-se debater, já se debateu, e foi mesmo por isso que a ciência a rejeitou em benefício de uma hipótese melhor. É isso que eu vou debater em Braga. É importante explicar a teoria da evolução, como ela encaixa na ciência moderna e o que ela esclarece acerca de detalhes que nem se imaginava nos tempos da outra hipótese. E estão ao mesmo nível. É verdade que as evidências contrariam a primeira e que, por isso, a segunda se desenvolveu e é uma explicação muito melhor. Mas são duas tentativas legítimas de descrever a realidade e merecem o mesmo tratamento. Merecem ser confrontadas com o que observamos, independentemente do que queremos que seja verdade.

Este criacionismo moderno do Jónatas Machado é diferente. Não é explicação nem hipótese nem admite alternativas. É fé. É o desejo irrecusável que aquela crença seja verdade. Isso concordo que não vale a pena debater, e estou ciente que o debate vai ser assimétrico. Para o criacionismo moderno vale tudo na defesa da fé.

1- P.Z. Myers, 22-8-07, I'm gonna be a ☆ MOVIE STAR ☆
2- P.Z. Myers, 20-3-08, Expelled!
3- Richard Dawkins, 23-3-08, Lying for Jesus?
4- Palmira Silva, 22-3-08, O regresso de Adão – II

Terça-feira, Novembro 20, 2007

E a diferença?

Em fevereiro deste ano reuniu-se a Select Committee on Science and Technology do Reino Unido. A esta comissão Kate Chatfield, representando a associação de homeopatas, respondeu que a única forma de distinguir preparações homeopáticas é pelo rótulo. À diluição a que são preparadas não há outra diferença:

«Q538 Lord Broers: I have a simple, technical question about homeopathy and drugs. Is it possible to distinguish between homeopathic drugs after they have been diluted? Is there any means of distinguishing one from the other?
Ms Chatfield: Only by the label.»
(1)

Imaginem agora o drama na França quando os laboratórios Boiron anunciaram uma troca acidental dos rótulos nas preparações homeopáticas de Gingko bioba e Equisetum arvense. A Agence Française de Sécurité Sanitaire des Produits de Santé mandou recolher os lotes afectados, mas assegurou o público que este erro não trazia riscos para a saúde (2). O incidente mostra a dificuldade de fiscalizar tretas. Por muito controlo que se tenha continuam a ser tretas. E se a única diferença é no rótulo todo o cuidado é pouco quando se cola as etiquetas, não vá alguém tomar gotinhas de água a pensar que são gotinhas de água.

Teria mais piada se não houvesse tanta gente a gastar dinheiro nisto. Mais detalhes no DC’s Improbable Science e na James Randi Foundation. E para quem quiser comentar em defesa da homeopatia, peço a paciência de ler primeiro «The End of Homeopathy?», do Ben Goldacre.

1-Select Committee on Science and Technology, 21-2-07, Examination of Witnesses (Questions 520-539)
2- AFSSAPS, 10-10-07 Retrait de lots de Gingko biloba et Equisetum arvense

Terça-feira, Julho 17, 2007

Treta da Semana: Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência.

Descobri esta no Ciência ao Natural, onde o Luís Azevedo Rodrigues (1) há duas semanas apontou vários disparates deste Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência (CTEC) (2). Esta treta incomoda-me porque o CTEC é um centro de investigação da Universidade Fernando Pessoa (3). Mesmo uma universidade privada devia exigir um mínimo de rigor nestas coisas. Recomendo que leiam o que o Luís escreveu, mas há aqui treta que chegue para vários blogs. A introdução é genial:

« A história do Conhecimento tem mostrado, repetidamente, que muitas das mais relevantes descobertas científicas foram ignoradas e refutadas na sua época pelos contemporâneos. [...] Em universidades de reputação inquestionável, como as de Stanford, Harvard, Princeton,[...] começaram a acolher no seu interior grupos de académicos, cientistas e professores, de diferentes áreas e sensibilidades, para coordenar, analisar e testar toda a informação relativa a domínios inexplorados da experiência e da consciência humana»

Resumindo: não só estão sozinhos a lutar corajosamente contra a falta de visão da comunidade científica, como estão acompanhados das melhores universidades do mundo. Se não fosse a contradição era impressionante. A seguir explicam a motivação para este centro, de uma forma que já foi tema neste blog (4):

«O CTEC surgiu da necessidade, inevitável e natural, da evolução e complexidade dos saberes, de se atender à emergência de novos objectos e novos "limites" ao alcance do conhecimento científico contemporâneo, resultado da convergência entre disciplinas consolidadas e outras em desenvolvimento.»

Um dos fundadores do centro é Joaquim Fernandes, historiador e co-autor com Fina d’Armada de uma série de livros sobre as aparições de Fátima. Não foi nossa senhora. Foram OVNIs. Mas esse é um novelo de tretas para outro dia. Hoje vou-me ficar por uma das linhas de investigação destacadas pelo CTEC, o Efeito Biefeld-Brown. É o que faz levitar estruturas leves de folha de alumínio quando se aplica uma diferença de potencial na estrutura. Os ovniólogos dizem que é antigravidade. Na página do CTEC apontam como objectivos deste estudo:

«a- estabelecer uma teoria Física que explique o fenómeno;
b- determinar se a força produzida pode ser aumentada;
c- experimentar dispositivos de aplicação prática para orientação de satélites no espaço e propulsão de sondas espaciais.»


Após um protótipo em 2003, um encontro em 2004 «serviu para traçarmos planos de investigação mais promissores e avançados». Espero que esses planos incluam consultar a wikipedia (5). É que desde os anos 50 que se sabe exactamente o que é este efeito. Um dos eléctrodos é fino e afiado, o que aumenta o gradiente do campo eléctrico. Isto ioniza o ar neste eléctrodo, cria moléculas carregadas que são atraídas pelo outro eléctrodo, e as colisões destas com as restantes moléculas do ar criam uma corrente de ar que levanta o leve aparelho. Não é preciso «estabelecer uma teoria Física que explique o fenómeno». O Sr. Maxwell já tratou disso. Nem vai dar para orientar satélites no espaço, a menos que levem a atmosfera atrás. E não aconselho a tentarem aumentar a força produzida sem que peçam ajuda a um adulto, não vá a brincadeira pegar fogo à UFP.

Concluo com duas sugestões para investigações futuras. Uma estrutura rígida circular para facilitar a locomoção em superfícies planas, e um método de converter substâncias combustíveis em luz e calor na presença de oxigénio. Estou certo que uns anos depois dos primeiros protótipos terão planos promissores e avançados de investigação, e até se podem entreter a estabelecer teorias Físicas que expliquem estes fenómenos. Fica também aqui o apelo à direcção da UFP. Dêem uma olhada nisto, a ver se é o que entendem por um centro universitário de investigação.

1- Luís Azevedo Rodrigues, 30-6-07, Qualquer dia prefiro os criacionistas…se calhar não!
2- Página do CTEC.
3- Centros de investigação da UFP
4- 18-6-07, Treta da Semana: A verborreia.
5- Wikipedia, Biefeld–Brown effect

Quarta-feira, Julho 11, 2007

O melhor é estar preparado...

Na Austrália a polícia já está a considerar o problema da nova tecnologia ao serviço do crime. Segundo Mick Keelty, comissário da polícia federal Australiana, os desafios no futuro serão a fraude online e «potencialmente um clone parte pessoa parte robô» (1).

É bom saber que por todo o mundo as forças policiais se preparam para o futuro. Consultando revistas do Homem Aranha...

1- The Age, 6-7-07, Top cop predicts robot crimewave

Via Schneier on Security

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Número proibido.

Em Fevereiro foi revelada uma chave digital que permite descodificar todos os DVDs de alta definição publicados até agora (1). São 32 dígitos em hexadecimal. A semana passada a AACS, que controla este sistema de protecção, decidiu reagir. Ameaçou empresas como o Google e o Digg para que removessem de todos os blogs ou páginas que hospedam qualquer referência a esta chave, ao abrigo do «Digital Millenium Copyright Act», que pune a divulgação de formas para evitar as protecções digitais. Os administradores do Digg cederam e eliminaram alguns posts do seu site.

Foi um motim. Em poucas horas dezenas de milhares de pessoas respondiam publicando o número proibido em texto, desenhos e fotografias. Pouco demorou para que o Digg se rendesse à pressão da comunidade de que depende (1). Na quarta feira o Tiago Devezas escreveu que pesquisar esta chave no Google devolvia 288.000 resultados (2). Hoje, dois dias depois, devolve 1.330.000.

Esta chave já é conhecida há dois meses (3). Nem é notícia. Mas numa brilhante jogada pela «gestão de direitos», a AACS decidiu suprimir a bosta que fez saltando-lhe para cima de pés juntos.

Aqui vai o meu contributo, número 1.330.001:

09 F9 11 02 9D 74 E3 5B D8 41 56 C5 63 56 88 C0


1- Kevin Rose, 1-5-07. Dig This: 09-f9-11-02-9d-74-e3-5b-d8-41-56-c5-63-56-88-c0
2- Tiago Devezas, 2-5-07, Utilizadores do Digg revoltam-se contra o próprio site
3- Eu, 14-2-07, Só mais uma voltinha...

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Parece que é, mas não é.

O Instituto de Investigação Criacionista inaugurou no dia 30 o International Journal of Creation Research (IJCR) (1). É suposto ser a primeira publicação criacionista com peer review, o tal processo que usam os cientistas a sério para garantir a qualidade dos artigos, promover a crítica aberta e a verificação independente de resultados.

Mas sendo uma publicação criacionista, quer-se review, e quer-se por peers, mas o resto dispensa-se. Por isso um dos critérios de aceitação dos artigos nesta publicação que se diz científica é:

«(f) Does this Paper provide evidence of faithfulness to the grammatico-historical/
normative interpretation of Scripture? (if necessary refer to Walsh, R.E., Biblical
Hermeneutics and Creation, Proceedings First International Conference on
Creationism, Creation Science Fellowship, Inc., Pittsburgh, PA, 1986, Vol. 1,
pp. 121–127).»


Pouco importa se a hipótese é testável ou se os resultados são reprodutíveis. O que interessa é ser fiel à interpretação normativa e gramático-histórica das Escrituras, de acordo com a hermenêutica Bíblica citada.

E ainda querem estes tipos que os levem a sério...

1- International Journal for Creation Research

Via Bad Astronomy e Hit&Run.

Segunda-feira, Abril 02, 2007

As maiúsculas...

Quando um ateu ou agnóstico menciona a verdade, escreve verdade. Um crente moderado escreve Verdade. O leitor David Cameira mostra outra variante. Os crentes menos moderados preferem a VERDADE. Ou é isso, ou têm problemas no teclado. Cito o comentário do David, que muito tem que se comente:

«Pois pensar custa mm muito principalmente qd a ciencia ( A VERDADEIRA ) esta a ensinar em todo o mundo inetiro que o positivismo racionalista e o darwinismo " opera bufa " está desacreditado
E COM QUE GALHARDIA CIENTIFICA O PROF JÓNATAS O PROVOU !»

É de louvar a modéstia com que o David apenas sugere (sem se gabar), que não só sabe qual é a ciência VERDADEIRA, mas também o que se está a ensinar em todo o mundo. Mas é curiosa a escolha do adjectivo. Jónatas Machado provou isto com galhardia. Esta fez me ir ao dicionário (1), a ver se era mesmo o que eu pensava. E era:

galhardia: s. f., qualidade de galhardo; elegância; gentileza; garbo; bizarria; generosidade; bravura; ânimo.

Concordo que os argumentos do Jónatas Machado exibem qualidades de galhardo. Muita bravura, ânimo certamente, e bizarria a rodos. Mas, caro David, na sua opinião de entendido em ciência, acha mesmo que isto são qualidades científicas? Chamem-me antiquado, mas eu sou do tempo em que neste cantinho do mundo (do mundo todo não posso falar) a ciência preferia o rigor ao garbo e a observação à bizarria.

Finalmente:

« Deviam ter vergonha do q fizeram... todos os grandes homens de ciencia estao a dar voltas no tumulo pq vos, seus discipulos, ultrajasteis a ciencia pela qual eles deram s suas vidas»

Penso que há aqui alguma confusão. Salvo excepções como Marie Curie, muitos dos que perderam a vida pela ciência não a deram. Foi-lhes tirada por outros que, com galhardia e VERDADE mas pouca tolerância protegeram assim as suas crenças.

1- Priberam, Língua Portuguesa On-Line

Quarta-feira, Março 28, 2007

Ovniologia.

Um termo interessante. O estudo de objectos não identificados. Na física, química, biologia, e afins os objectos de estudo estão lá, e quem os estuda sabe identificá-los. Na astrologia, teologia, parapsicologia, e outras que tais, os objectos de estudo provavelmente não existem, mas se existissem – se os astros afectassem as nossas vidas, se existissem deuses ou telepatia – os ‘ólogos destas coisas podiam dizer «Vejam, é isto que eu estudo».

Os ovniólogos nem isso. Se sabem o que é, já não é ovni. Na ovniologia é preciso investigar sem nunca saber. Deprimente? Não. É uma maravilha. Uns viram algo que não sabiam o que era. Outros disseram que podia ser isto, outros que era aquilo, e ainda outros dizem que não. Ou talvez fosse outra coisa. Conclusão: não se sabe o que é. Mais um estudo concluído com sucesso, e mais um passo em frente na investigação ovniológica.

Em 1997 um avião militar A-10 lançou alguns flares durante um exercício nocturno. Os flares servem para enganar mísseis guiados por calor, e por isso ardem a uma temperatura elevada, são muito brilhantes, e caiem devagar para servir de engodo aos mísseis. A figura abaixo mostra um A-10 a lançar flares. À noite isto é muito ovniesco.

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(Clique para ver maior)


Um artigo sobre este incidente na UFOPT.com(1) segue a boa prática da ovniologia. Aponta que «Para alguns [...] as luzes [...] não passaram de “military flaires” (foguetes de sinalização usados pelo exercito)». À parte da gralha, não são nem de sinalização, nem do exército. São contramedidas usadas pela força aérea. Garante-se assim que nenhuma identificação atrapalhará o estudo ovniológico. Acrescenta-se relatos de «esferas de luz», outros avistamentos, que «a explicação não agradou a todos», e até que «militares de diversas facções dizem que nunca poderiam ser esses foguetes». Até compreendo o piloto. Se eu estivesse a sobrevoar várias facções militares também recorria a contramedidas, à cautela... A conclusão é necessariamente inconclusiva:


«O que se passa então nos céus de Phoenix? Será que uns simples foguetes de sinalização iludiram uma cidade inteira, incluindo militares e profissionais de diversas áreas com capacidade para distinguir uma coisa da outra? Será que o governo está a tentar encobrir os acontecimentos porque se tratam de mais um MOGUL (Projecto MOGUL)? Ou será que realmente os “homenzinhos verdes” decidiram fazer uma visita à cidade de Phoenix?»


Mas o mais engraçado foi este comentário de um leitor: «como é possível profissionais se iludirem?». É verdade. Profissionais. Iludirem-se. Verdadeiramente inexplicável...



Silv3r_Wolf, 20-2-07, Luzes sobre Phoenix

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Receitas? Notícias?!

É nítido que o site da Pro-Music é organizado pela indústria do entretenimento. Cada vez que lá vou farto-me de rir. A página sobre o «copywright» (aqui) parece uma sátira. Um pouco abaixo da gralha no título, vem:

«No nosso quotidiano, desde o jornal que compramos de manhã até à nova receita para um novo prato. Quase tudo foi criado por alguém. O facto das pessoas poderem ser donas da expressão das suas ideias significa que podem potencialmente viver a partir da sua imaginação.»

Os exemplos são tão bons como a pontuação. As receitas são processos e listas de ingredientes, e não são protegidas por direitos de autor enquanto tal. E segundo o Artigo 7º do código do direito de autor:

« 1 – Não constituem objecto de protecção:
a) As notícias do dia e os relatos de acontecimentos diversos com carácter de simples informações de qualquer modo divulgadas;»

É certo que eles limitaram-se a traduzir os disparates da Pro-Music internacional, mas podiam ao menos ter dado uma olhada na lei Portuguesa. Se o fizessem, talvez evitassem outra calinada:

«O direito de autor protege a expressão duma ideia; permite às pessoas ‘criar’.»

Se isto fosse verdade haveria muita coisa que não nos era permitido ‘criar’ (não se percebe o porquê das aspas) por não ser coberto pelo código de direitos de autor:

«As ideias, os processos, os sistemas, os métodos operacionais, os conceitos, os princípios ou as descobertas não são, por si só e enquanto tais, protegidos nos termos deste Código.»

Para finalizar, a treta do costume acerca da partilha de ficheiros:

«Se este tipo de cópia e distribuição persistir sem respeito pelas pessoas cujas ideias, talento e habilidade levam à criação musical, elas poderão simplesmente ficar impossibilitadas de continuar a criar – nesse caso todos ficaremos a perder.»

Não... nem todos. Há uns dias um aluno enviou-me a referência a um artigo no Diário Económico, que aproveito já para agradecer. Neste artigo, Ricardo Reis (1) faz as contas ao que os músicos ganham. Para os mais bem sucedidos as vendas de CDs somam menos de 15% dos seus ganhos totais. Os menos bem sucedidos ficam em dívida para com a discográfica, que cobra a gravação e a edição além de ficar com os direitos sobre a obra. Em ambos os casos os rendimentos dos músicos vêm principalmente dos concertos.

E há uma correlação interessante entre a partilha de ficheiros e o preço dos bilhetes. Os bilhetes dos concertos pop aumentaram 10% nos últimos anos. Os bilhetes para concertos de jazz, música menos pirateada, aumentaram 2%. É difícil dizer se é a popularidade que aumenta a partilha ou se é o contrário, mas o facto é que, mesmo para os artistas com mais vendas, 10% de aumento nos concertos paga uma quebra de 50% nas vendas dos CDs. Para o artista, e para o consumidor, a partilha compensa.

Quem fica a perder são os senhores da Pro-Music, que gerem o «copywright» e ficam com 90% do preço de cada CD.

1- Ricardo Reis, Fevereiro de 2007, O dinheiro dos músicos.

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

A sova.

Consta nos comentários que eu estou a levar uma «sova intelectual» do Jónatas Machado (1). Em parte é um alívio; sova por sova, que seja intelectual, que sempre dói menos.

Mas não me parece útil travar este combate entre o criacionismo e a teoria da evolução sobre coisas abstractas e obscuras como a exegese bíblica o a fé nisto ou naquilo. Prefiro o cenário mais arejado da biologia, e proponho que se lute sobre a origem das espécies, que foi o que despoletou o conflito.

Segundo o criacionismo, cada ser vivo foi criado de acordo com o seu tipo. O «tipo» é vago, mas a ideia é não haver poucas-vergonhas. Cada um é o que é e não há cá misturas. A teoria da evolução diz que as espécies se separam gradualmente de uma população ancestral. Aqui o criacionista vê o ponto fraco e ataca: nesse caso, temos que ter uma situação intermédia entre uma espécie e duas espécies, e dois organismos têm, ao mesmo tempo, que ser da mesma espécie e de espécies diferentes. Não pode haver casos assim, por isso o criacionismo ganha.

E com isto os criacionistas contam um ponto a seu favor, que é o procedimento correcto numa discussão teológica à moda da escolástica medieval. Mas a ciência não se ganha com argumentos bonitos, e isto ainda não é uma sova. É uma experiência. Se não há casos intermédios, então o criacionismo tem razão. Mas se há a sova é outra.

A gaivota argentea (Larus argentatus) habita o norte da Europa Ocidental e da América. A gaivota de asa escura (Larus fuscus) habita no norte da Europa Ocidental e Escandinávia. São duas espécies distintas, de aparência diferente, e sexualmente isoladas mesmo nas zonas onde coexistem. Mas na Russia há uma subespécie de aspecto intermédio, que a Ocidente se cruza com a gaivota de asa escura, e a Oriente, no Alasca, se cruza com a gaivota argentea.

Por tradição, a gaivota de asa escura e a gaivota argentea são consideradas espécies separadas. Mas biologicamente podíamos agrupá-las na mesma espécie, visto que há um continuo de populações que se cruzam: da Europa Ocidental, pela Escandinávia, norte da Russia, Alasca, América do Norte e de volta ao ponto inicial.

Há outros exemplos de espécies anel como esta. A salamandra Ensatina da Califórnia e o pequeno pássaro Phylloscopus trochiloides dos Himalaias são outros bem conhecidos. São casos raros, pois é uma situação instável e é preciso uma geografia particular, que permita que a espécie se espalhe e modifique gradualmente nos extremos de forma a que se tornem incapazes de se cruzar.

Mas estes casos ilustram bem a natureza gradual da evolução, e o contínuo de modificações na adaptação dentro de uma espécie, a geração de novas espécies e assim por diante. O combate tem que ser travado em casos concretos, e não na interpretação bíblica ou na fé de cada um. E se os criacionistas me derem uma sova intelectual nesta arena é uma sova que levarei de bom grado, pois isso significará que têm uma explicação melhor.

1- Ciência, direito, e criacionismo.

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Só mais uma voltinha...

Em 1999 um adolescente quebrou a protecção dos DVDs. Em 2005 a Disney, Intel, Microsoft, Panasonic, Warner Brothers, IBM, Toshiba, e Sony juntaram-se para criar uma nova protecção para os DVDs de alta definição. O objectivo: que desta vez fosse preciso pelo menos meia dúzia de jovens, talvez alguns na casa dos vinte, para fazer o mesmo. Até incluíram o termo «Advanced» no nome do sistema, para verem que era a sério. Parece que o objectivo foi cumprido.

O sistema é sofisticado. Cada DVD de alta definição (HD DVD ou Blu-Ray) contém uma lista de chaves criptográficas com uma chave para cada modelo de leitor autorizado. Cada leitor de DVDs tem uma chave própria que combina com a chave que lhe corresponde no DVD. Com estas duas gera uma nova chave que usa nos passos seguintes. Esta parte é extremamente útil. Se alguém descobre como tornear a protecção com um certo modelo de leitor de DVDs os estúdios podem revogar a licença desse leitor alterando a chave para esse leitor nos próximos DVDs. Incapaz de gerar as chaves certas esse leitor deixa de ler. Acaba-se com a quebra de protecção, toda a gente que tinha um leitor desses tem que comprar um novo, e todos ganham. Todos menos o consumidor, que é o Jar Jar Binks deste filme.

Mas não ficam por aqui. A chave obtida no passo anterior é combinada com o identificador de volume, que está gravado numa parte do DVD onde só os DVDs de fábrica podem ter informação. Isto não vá algum criminoso querer evitar que os seus filhos risquem um DVD de dezenas de euros fazendo uma cópia por segurança. Juntando estas chaves o leitor obtém finalmente a chave final para descodificar o conteúdo do DVD (há mais umas tretas pelo meio, mas isto já é confuso que chegue...).

No inicio de Janeiro alguém conhecido como «muslix64» descobriu uma forma de obter esta chave final analisando a memória do computador quando o programa PowerDVD estava a ler um DVD. Mais tarde «LordSloth» fez o mesmo com o WinDVD, e neste momento há 97 chaves publicadas no site AACSKeys. Mas esta chave é específica de cada DVD, é preciso algum conhecimento para a encontrar na memória do computador, e se as versões correntes destes programas forem revogadas e os programas melhorados deixa de ser possível fazê-lo.

Mas no dia 11 «Arnezami» descobriu a chave do passo anterior, e uma forma simples e automática de obter o identificador do DVD. Como esta chave é igual para todos os DVDs publicados até agora, neste momento todo os DVDs de alta definição estão efectivamente desprotegidos.

No futuro o consórcio pode editar novos DVDs com listas de chaves diferentes, e esta chave já não servirá. Mas as novas chaves terão que permitir ler os DVDs de agora, e ter chaves diferentes para as mesmas mensagens aumenta as possibilidades de um ataque criptográfico que revele como estas chaves são geradas, terminando de vez com este sistema.

Com um esforço e investimento consideráveis, o consórcio das principais empresas de tecnologia digital colocou firmemente os testículos no torno. E os hackers já encontraram a manivela...

Agradecido ao JCD do Blasfémia pela referência à discussão no Doom9. A lista de chaves de DVDs está aqui: http://www.aacskeys.com/.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

E as contas da Pro-Music, versão portuguesa.

Enquanto a RIAA aldraba, a sua congénere portuguesa dedica-se mais a revelar ignorância:

«A partilha de ficheiros através da Internet não pode ser equiparada à cópia de cassetes dum deck para outro em casa. Seria a mesma coisa que comparar alguém que copia manualmente uma carta a uma gráfica que imprime centenas de cópias por minuto da mesma carta - e depois disponibiliza-a absolutamente a todas as pessoas no mundo de graça.»
( ‘Música grátis?’ As respostas)

Um criminoso de 13 anos partilha ficheiros em casa. Tem uma ligação de banda larga e, assumindo que não lhe abafam o p2p com traffic shaping, transmite para outros a 10k por segundo. Um ficheiro mp3 de música tem à volta de 5MB. Demora 500 segundos para o transmitir. Quase dez minutos para uma musica de dois minutos.

Tem razão sim senhor. A partilha não pode ser equiparada à cópia de cassetes. É cinco vezes mais lenta...

E centenas de cópias gratuitas por minuto? Gostava de ter a ligação dele: 10MB/s só de upload, e de graça.

As contas da RIAA.

A associação americana de empresas discográficas tem uma página (aqui) onde explica porque é que os CDs são tão caros:

«Then come marketing and promotion costs -- perhaps the most expensive part of the music business today. They include increasingly expensive video clips, public relations, tour support, marketing campaigns, and promotion to get the songs played on the radio. [...] For every album released in a given year, a marketing strategy was developed to make that album stand out among the other releases that hit the market that year
(ênfase no original).

Ou seja, a maior fatia do que pagamos por um CD é o que eles gastam para nos convencer a comprar o CD.

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

Golpe de Vista.

No tempo das disquetes preferíamos os originais, porque programas copiados podiam trazer vírus e dar chatices. Nessa altura os distribuidores não desconfiavam dos clientes. Mas as coisas mudaram. Hoje, quem tem um disco de 200Gb e compra um DVD de 4Gb tem a expectativa de instalar os 4Gb algures nos 200Gb e arrumar o DVD. Nada disso. O distribuidor quer se certificar que o cliente não é aldrabão, por isso cada vez que joga ou usa o programa tem de enfiar a bolacha na gaveta e estragar mais um pouco o DVD e o leitor. Nem pode fazer uma cópia de segurança. Esta protecção de lucro alastrou aos CDs, filmes, músicas, e tudo o que se compra que pode ser usado num computador. O bom cliente sujeita-se a encher o PC de tralha que não quer, como os clientes da Sony BMG (1).

Muitos passaram a «ir à ‘net» buscar um programa para retirar a protecção e evitar a chatice. Ou a ir à 'net em vez de ir à loja. As versões «pirata» não trazem perna de pau, nem pala no olho, nem chatices. Alguns distribuidores começaram a desconfiar que incomodar o cliente não ajuda nas vendas. Urgia mudar a estratégia. Assim nasceu o Windows Vista.

Este sistema operativo foi buscar aos estúdios de cinema e discográficas o espírito progressista e visão clara do potencial das novas tecnologias, e à Microsoft a capacidade de criar aplicações leves, eficientes, e economicamente acessíveis. Será fantástico quando, por pouco menos de €300 (e um PC novo, provavelmente), um utilizador do Windows XP pode fazer o upgrade para o Vista e ganhar um efeito de transparência nas janelas. É certo que janelas opacas não era o maior problema das edições anteriores do Windows. Mas sem dúvida que todos preferimos janelas transparentes.

Mas o mais revolucionário foi o objectivo audacioso do VIsta: permitir ao utilizador descodificar conteúdos sem permitir que o utilizador descodifique esses conteúdos. Mentes mais humildes diriam «Impossível!», mas os verdadeiros visionários não desmotivam tão facilmente. E por isso o Vista é o sistema operativo mais seguro que a Microsoft já criou. O que não diz muito. Mas há aspectos impressionantes, bem documentados por Peter Gutmann (2) (um obrigado ao meu irmão Miguel pela referência, e pelas gargalhadas que a leitura proporcionou).

No Vista toda a comunicação pode ser encriptada, desde o leitor de DVDs às colunas ou monitor. O hardware tem que cumprir especificações rígidas para não permitir intercepção de conteúdo descodificado, e o sistema operativo desactiva os periféricos que não cumpram os requisitos sempre que o conteúdo vier marcado como exigindo segurança. Não para banalidades como passwords, documentos confidenciais ou extractos bancários. Quem quiser proteger esses pague mais €200 e compre a edição Ultimate do Vista. Refiro-me aqui ao importante: filmes do Rato Mickey, músicas da Shakira, e assim.

Infelizmente, não encontraram forma de obrigar a comprar filmes que não se consegue ver, e por isso têm que dar as chaves para quebrar a encriptação. No próprio DVD ou CD vêm as chaves que são combinadas com a chave do leitor para descodificar o conteúdo. Por outras palavras, escrevem o PIN no cartão multibanco, pois de outra forma ninguém conseguia acesso ao conteúdo. Assim, o cliente vai gastar imenso dinheiro em equipamento e software para ter um sistema em que metade do poder de computação é dedicado a esconder dele o filme que está a ver. Por metade do preço pode ter o mesmo desempenho se usar conteúdo desprotegido, disponível gratuitamente na internet após a meia hora que um miúdo de 16 anos em Hong Kong leva a retirar a protecção do DVD.

Se eles quisessem fazer dinheiro a vender conteúdo isto seria um disparate. Mas consideremos o ponto forte que têm em comum os estúdios de cinema, as discográficas, e a Microsoft. Exacto. Os advogados. Competir no mercado exige oferecer ao cliente um produto superior ou mais barato que a concorrência. Sacar uns milhares de euros a um desgraçado requer apenas ameaçá-lo com um processo e umas dúzias de advogados. Como bónus, todas as despesas de investigação para descobrir as vítimas saem do erário público.

O modelo de negócio é genial. Penaliza-se pesadamente os poucos tansos que caírem na asneira de comprar um original. Não são rentáveis. Recheia-se os bolsos dos legisladores para tornar ilegal sequer espreitar para dentro do leitor com o DVD lá dentro. Espera-se que um miúdo descodifique um sistema absurdamente inseguro e espalhe cópias pela internet, e pronto. Os primeiros acordos legais pagam o investimento em advogados e os restantes são lucro.

1- Wikipedia, 2005 Sony BMG CD copy protection scandal

2- Peter Gutmann, A Cost Analysis of Windows Vista Content Protection

Domingo, Dezembro 17, 2006

Pass-aram-se!

Soube pelo Remixtures (1) da última burrada dos artistas e distribuidores de música Portuguesa: a Passmúsica. O site é horrível, a condizer com a ideia (2). Vão tentar aplicar a lei de direitos conexos e cobrar pela música ambiente em tudo o que é restaurante, bar, sala de espera, linhas telefónicas, parques de diversões, feiras, transportes etc. (estou a tirar da página dos formulários... é mesmo isto).

Cada vez duvido mais da sanidade desta gente. Vendem um bem supérfluo duma forma antiquada. Quando começam a perder dinheiro pela concorrência com os jogos e consolas, telemóveis e DVDs decidem processar os clientes. Ficam admirados por isso não aumentar as vendas, então tentam acabar com os sítios onde muita gente ouve música e se torna cliente deles. Brilhante.

É quase compreensível que os advogados das empresas discográficas vejam nisto uma forma de justificar o seu salário. Mas é espantoso que os artistas vão na cantiga. Sim, senhor distribuidor. Processe os meus fãs e dificulte a vida a quem divulgar a minha música. Dê-me é qualquer coisinha pela meia dúzia de discos que vender, se não se importa...

1- Miguel Caetano, 11-12-06, Músicos portugueses querem cobrar a quem passa a sua música

2- http://www.passmusica.pt/