Como meter o pé na argola.
Há umas semanas fui convidado para ir ao programa «As Tardes da Júlia», na TVI, que ia ser sobre o ateísmo. Só que calhava no dia 24 e eu tinha o debate em Braga na noite de 23, por isso declinei o convite. Dos arredores de Valença do Minho, tentei assistir à emissão em directo. Aguentei pouco. A conversa, em vez de ser sobre o ateísmo, foi a falar mal de quem ia à igreja, da Bíblia e do padre que lá estava, o Joaquim Carreira das Neves. Entre criacionismos e outras tretas já me tinha passado o trauma daqueles dez minutos. Mas ontem o Luís publicou o post «Como crucificar um padre»(1). Como vou almoçar com ele no Sábado se calhar devia publicar isto só no Domingo. Mas não resisto. Treta é treta.
O Luís violou logo à partida os três mandamentos do discurso ao vivo. Não imitar os velhos dos marretas, não chamar idiotas à audiência e nunca, nunca, atacar o padre simpático com décadas de experiência a falar em público. Mas aconteceu, paciência. Não é a participação dele no programa que eu quero criticar. Vou-me cingir à alegada crucifixão do padre.
«[O] padre Carreira das Neves demonstra bem como não há nada melhor do que uma boa dose de irracionalidade encasquetada na cabeça para levar qualquer «pessoa de fé» a dizer na mesma frase uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, começa este homem de Deus por negar a política da Igreja Católica contra o uso do preservativo. Para depois, dizer que não vê qualquer inconveniente para o seu uso, que defende incondicionalmente. Haverá alguma consequência disciplinar para isso? É que o padre carreira das neves é professor de teologia numa Universidade!»(1)
O padre tem uma irracionalidade encasquetada na cabeça porque não vê inconvenientes no uso do preservativo e não é despedido por causa disso. Isto preocupa-me. É que eu estou na mesma situação. E além do raciocínio dúbio não é verdade que o padre tenha negado a política da Igreja. Pelo que ouvi no vídeo, o padre apenas disse que não tinha conhecimento da Igreja mandar queimar preservativos em África.
Mais adiante, o Luís escreve que «o bom padre mete os pés pelas mãos: começa uma frase a dizer que é «contra o aborto» porque é «pela vida», para meia dúzia de segundos depois acabar a dizer que afinal e em certos casos… é a favor do aborto!». Esta afirmação é desonesta. Os “certos casos” foi a gravidez ectópica, com a qual o Luís tentou entalar o padre. A gravidez ectópica põe em perigo a vida da mulher e, ao contrário do que o Luís esperava, o padre disse que se justificava abortar nestas condições. Não há incoerência entre ser pela vida e aceitar o aborto quando a vida da mãe está em risco. O problema aqui foi apenas que o padre não deu a resposta que o Luís gostava que ele tivesse dado.
Eu concordo com o Luís em muita coisa. Concordo que a fé é irracional e não existem deuses. Concordo com as críticas aos dogmas da Igreja, e faço-as aqui também. Concordo que é treta dizer que a fé transcende a razão e concordo que a teologia é uma batota intelectual. Se transcendemos a razão, como diz Dennett, então Deus é uma sandes de presunto porque sem razão vale tudo. E reconheço ao Luís o direito de escrever o que quiser no blog dele. Até, por muito que me custe, o direito de salpicar os posts com frases em bold!.
Mas tenho que condenar estes ataques irracionais às pessoas. No Sábado logo se vê se levo na cabeça, mas hoje o veredicto só pode ser este. Pelas normas vigentes neste blog, Luís, declaro esse teu post uma treta.
E veio mesmo a calhar, agora que estamos a discutir a formação da Associação Ateísta Portuguesa. Quando cada um fala por si não há problema, até porque estes despiques são divertidos (se não houver post no Sábado já sabem que me enganei). Mas para mim tem que ficar claro que ninguém vai escrever uma coisa daquelas em meu nome. Espero que se consiga uma associação que represente realmente o que os ateus têm em comum e não apenas a versão favorita de alguns. Senão lá se vão os seis euros...
1- Luís Grave Rodrigues, 7-5-08, Como crucificar um padre
0:005h: Editado por leitores mais exigentes terem apontado a ambiguidade das alusões ao espiritismo. E uma gralha no título...


