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Quinta-feira, Agosto 14, 2008

Treta da Semana: A Cerimónia.

A China é uma das civilizações mais antigas, tem a escrita mais antiga de todas em uso corrente e é um país imenso. Só etnias minoritárias tem 55 e perfazem 123 milhões de pessoas. Quem já leu as descrições ou instruções dos produtos nas lojas de chineses percebeu a grande diferença entre a nossa lingua e a deles. Por isso talvez a treta desta semana seja um mal-entendido, algo que se perdeu na tradução. Mas suspeito mais da imbecilidade inevitável de seguir uma ideologia sem pensar no que se faz nem prestar contas a ninguém.

Lin e Yang

À esquerda, Lin Miaoke, de nove anos, foi a estrela da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. À direita Yang Peiyi, de sete, foi quem cantou às escondidas enquanto Miaoke fazia playback. Nos ensaios, um membro importante do Partido terá dito que Peiyi tinha uma voz perfeita mas não servia para o papel porque tinha os dentes tortos. Foi assim que puseram uma miúda de sete anos a cantar às escondidas e outra de nove a fingir que cantava e a dar entrevistas. «O principal foi o interesse nacional. A criança no ecrã deveria ser perfeita na imagem, nos sentimentos e na expressão. Quanto à voz, Yang Peiyi era perfeita, na opinião de todos» (1).

Será que é do interesse nacional da China ser conhecida como a República Popular Milli Vanilli?

1- Telegraph, Beijing Olympics: Faking scandal over girl who 'sang' in opening ceremony

Domingo, Agosto 03, 2008

Bom e barato, VI

Randy Pausch foi professor de informática em Carnegie Mellon e um dos criadores do Alice (1). Em Carnegie Mellon é tradição os professores que se reformam darem uma “última lição” com o que ensinariam se fosse a última coisa que podiam ensinar. A de Pausch foi em Outubro do ano passado, com 47 anos. Não porque se queria reformar mas porque tinha cancro pancreático e apenas alguns meses de vida. Morreu no passado dia 25. É triste mas inspirador, não só a lição mas a forma como lidou com a situação*.

A lição está aqui: Achieving Your Childhood Dreams, e aqui o relato dos últimos meses. Via o blog de borfast e The Lippard Blog.

James Duane é professor na faculdade de direito da Regent University. Nesta palestra, Don’t talk to the police, explica porque nunca devemos dizer nada à polícia se formos suspeitos seja do que for. Georges Bruch, agente da polícia com décadas de experiência em interrogatórios, continua o argumento nesta e dá exactamente o mesmo conselho. O processo penal nos EUA é diferente do nosso mas penso que o mesmo raciocínio se aplica por cá. Segundo o artigo 61º do Código de Processo Penal:

« O arguido goza, em especial, em qualquer fase do processo e, salvas as excepções da lei, dos direitos de: [...]
c) Não responder a perguntas feitas, por qualquer entidade, sobre os factos que lhe forem imputados e sobre o conteúdo das declarações que acerca deles prestar»


Via Schneider on security.


Para terminar num tom mais alegre, um site viciante. TV Tropes é um wiki com uma lista enorme de truques de enredo usados em TV, livros, banda desenhada e até jogos de computador. Alguns exemplos: More Dakka, Imperial Stormtrooper Marksmanship Academy, Growing the Beard, Arbitrary Skepticism.

O único defeito do site é o tempo que nos faz desperdiçar...

* Eu sei que isto parece mal num post com este título. Mas penso que ele preferiria ser celebrado pela sua vida do que lamentado pela sua morte.

1- www.alice.org

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Treta da Semana: o cliente é sempre ladrão.

Antigamente o cliente tinha sempre razão. Agora processam os fãs, “protegem” os CDs para instalar coisas que não queremos e não nos deixar ouvir a música como quisermos (1). As músicas compradas online vem com sistemas de “gestão de direitos” para eles gerirem os nossos direitos por nós. E se a loja fecha temos que comprar tudo outra vez (2).

Os DVDs também nos “protegem” de ver na Europa um filme comprado nos Estados Unidos (3). A premissa é sempre que os clientes são ladrões. O site da FEVIP, e os DVDs que compramos por cá, fazem questão de passar filmes a acusar-nos de ladroagem ou, pior, com um rato a chamar-nos idiotas (4).

O software que compramos vem com dezenas de páginas de “licença” a dizer o que não podemos fazer e o que nos fazem se o fizermos. Acho. Como todos, eu também não leio os EULA. Mas, por norma, estamos proibidos sequer de descobrir o que é que o programa faz ao nosso PC. Nada de bisbilhotar.

Os jogos vêm com sistemas de protecção diabólica (5) e obrigam a deixar o DVD a rodopiar no leitor só para o estragar mais depressa, e pagamos dezenas de euros por uma rodela de plástico. Dizem que o dinheiro é pela licença de utilização, mas um risco na rodela e são mais umas dezenas de euros para uma “licença” nova. Não há protecção contra riscos, mas está tudo protegido contra o cliente que o comprou. Ladrão. E a moda agora já nem é só no digital. Do campo pequeno à costa são cinco módulos mas para a FCT são só quatro. Quando pico um bilhete de quatro módulos o motorista pergunta sempre “Para onde vai?” Compreendo. Devo ter cara de ladrão.

No tempo das disquetes dizia-se que o software original era mais seguro. As cópias podiam ter vírus. Hoje o melhor é deixar o original no pacote e usar a versão pirata- Não “gere direitos”, permite fazer cópias pelo seguro e não pede activações, verificações e afins. Instala-se e funciona. O software original primeiro quer garantias que não somos ladrões. Os filmes sacados da Internet não têm ratinhos idiotas no inicio, mas os DVDs comprados na loja obrigam a gramar idiotices e insultos antes de mostrar o filme pelo qual pagámos. E a música sacada em mp3 toca em todo o lado, sem licenças, incompatibilidads ou “gestão de direitos”.

A semana passada pensei que isto tinha mudado. Sins of a Solar Empire (6) é um jogo de estratégia como eu gosto. Além disso não tem sistemas de protecção e quando fui ver o preço ao site tinha a opção para comprar por download directo. Um click, 25 euros, e tinha o jogo. Foi preciso instalar um programa de distribuição (7), mas isso pode facilitar a vida a quem não se quer preocupar com actualizações ou outros detalhes. E como permite fazer cópias de segurança dos jogos instalados, comprei e descarreguei o jogo.

Mas quando o tentei instalar no PC que usamos para jogos descobri que para recuperar a cópia de segurança também é preciso “validar” o instalador com uma ligação à Internet. Que aquele computador não tem. Após umas voltas descobri que o arquivo é apenas um zip com extensão diferente e cifrado com uma palavra passe que é o nome do utilizador (deve ser mesmo só para chatear). Mas é uma imagem do jogo como está instalado e uns ficheiros à parte com a informação do registo, bibliotecas no sistema e coisas dessas. Vinte e cinco euros, um giga de download e uma carga de trabalhos para pôr aquilo a funcionar onde quero. Felizmente há o Pirate Bay (8).

O problema não é competirem com o gratuito. O problema é serem chatos como o raio. Não me custa dar o preço de um jantar por um jogo que me vai entreter dezenas de horas (se vou ter tempo para o jogar é outro problema...). Mas custa-me esbarrar com obstáculos idiotas ou exigências disparatadas apenas porque assumem que sou ladrão. Ainda por cima sabendo que se não lhes pagar tenho todo o proveito sem nenhuma chatice.

A maior ameaça à economia de informação não é a quebra dos monopólios. É tornarem o comércio, que era uma troca voluntária para beneficio mutuo, em algo mais parecido com cobrança de impostos ou rusga policial. Os videos da FEVIP dizem que «combater a pirataria é um dever cívico». Treta. Dever cívico é não aceitar que vendam carros que só andam à quarta feira ou televisores que só funcionam na cozinha. É exigir que quando pagamos por algo o possamos usar como entendemos. E é não lhes comprar mais porcaria nenhuma enquanto não respeitarem os clientes.

1- Wikipedia, Sony BMG CD copy prevention scandal
2- Miguel Caetano, Remixtures, Yahoo reembolsa clientes que compraram música com DRM
3- About.com, DVD Region Codes - What You Need To Know
4- FEVIP. Façam refresh no site para ver outro filme. Há 3 diferentes, passam ao acaso.
5- Boing-Boing, Anti-copying malware installs itself with dozens of games
6- www.sinsofasolarempire.com
7- Wikipedia, Impulse
8- Pirate Bay

Terça-feira, Julho 29, 2008

Adenda ao post anterior.

Tenho mais medo de quem me ameaça com uma faca do que de quem me possa mandar prender por eu ameaçar alguém com uma faca. Mas tenho menos medo de quem diz mal de mim do que de quem me possa mandar prender por eu dizer mal de alguém. É verdade que preferia que ninguém ameaçasse, ninguém dissesse mal e ninguém mandasse prender ninguém. Mas não podemos escolher leis na ilusão que vão pôr o mundo tal e qual nós preferimos. Temos que as escolher conscientes que trocamos o risco de ser vítima do crime pelo risco de ser vítima do castigo.

Quarta-feira, Julho 23, 2008

Bom e barato, V

Com estes vídeos podem perder quase duas horas, mas se tiverem em conta o que costuma dar na televisão penso que este investimento é melhor.

O primeiro é uma palestra da Jane Goodall na Universidade de San Diego, Reason for Hope. O tema é mais biográfico e pessoal que científico, mas esta mulher tem uma personalidade e uma vida tão interessantes como o seu trabalho (via Conta Natura).

O segundo é a palestra do Torsten Reil no TED Talks, Using biology to make better animation. A palestra é de 2003, por isso se quiserem ver como esta tecnologia está agora o melhor é ir ao site da Naturalmotion, ver o o vídeo do sistema Euphoria ou descarregar gratuitamente o Endorphin 2.7.1, uma aplicação para simular movimentos e comportamentos.

Eles usaram algoritmos evolutivos para treinar as redes neuronais que controlam estes comportamentos. Os criacionistas costumam apontar como os engenheiros se inspiram nas maravilhas da natureza mas esquecem que os engenheiros também se inspiram no processo que criou essas maravilhas. A evolução.

Sábado, Julho 05, 2008

Bom e barato, IV.

A propósito da providência cautelar que mandou fechar o Povoaonline (1), recomendo o HTTracker, um programa gratuito para fazer cópias locais de sites na Web.

Para quem tem um blog no blogspot fica uma sugestão para as scan rules. Sem estas vão descarregar muita informação duplicada nos arquivos e ligações com pesquisas:

-*/*search*
-*/*archive*
-*.tmp
-*?showComment?*
+*.css
-*[vosso blog].blogspot.com/feeds*

Basta substituir [vosso blog] pelo nome do vosso blog e ficarão com uma cópia local de todos os posts e comentários. Infelizmente, muitas das ligações para os arquivos e posts são feitas dinamicamente, por isso se o blog for apagado será necessário criar um índice. E este arquivo é estático, não permitindo adicionar posts ou comentários. Mas sempre evita que algum disparate judicial ou percalço faça desaparecer tudo.

1- Imprensa da Póvoa, e também Póvoa Offline, macedo vieira é o nosso homem

Quarta-feira, Julho 02, 2008

Imprensa da Póvoa.

No passado dia 25 a Google apagou o blog Póvoa Online no seguimento de uma providência cautelar instaurada pelo presidente e o vice-presidente da câmara da Póvoa do Varzim. Os queixosos não gostaram dos bigodes nas fotos e dos posts alegando que arranjam empregos a familiares e amigos, entre outros negócios ilícitos. E no passado dia 26 estreou-se o blog Póvoa Offline, beneficiando entretanto de publicidade em jornais, na TV e noutros blogs.

Este caso caricato mostra que os autarcas não percebem bem como estas coisas funcionam. Além de chamar mais atenção para estas alegações, agora qualquer um pode ler na notificação do tribunal (1) precisamente aquilo que eles queriam retirar do acesso público. Além disso, apesar de não se saber se as alegações são verdadeiras, a decisão do tribunal só mencione o ataque à reputação, honra e bom nome dos queixosos e não a sua inocência.

O documento até refere o artigo 484º do código civil, um artigo estranho que pune mesmo quem diga a verdade: «Quem afirmar ou difundir um facto capaz de prejudicar o crédito ou o bom nome de qualquer pessoa, singular ou colectiva, responde pelos danos causados». E frisa que «pouco interessa [...] que o facto imputado seja verdadeiro ou falso desde que seja susceptível de, dadas as circunstâncias do caso, diminuir a confiança na capacidade e na vontade das pessoas para cumprir as suas obrigações». Em suma, acusam autarcas de serem corruptos e o tribunal censura porque, mesmo que seja verdade, a acusação é susceptível de diminuir a confiança nessas pessoas (acham?). Parece-me que é isto que mais lesa o crédito e o bom nome dos queixosos. E da justiça portuguesa.

Mas não é a Póvoa do Varzim que me interessa; se não fosse esta queixa eu não teria esta má impressão dos seus autarcas. E, como eu, provavelmente mais uma data de gente. É uma lição a reter para quem quiser usar a censura como arma de debate. O que me interessa aqui é a sentença, principalmente esta parte:

«São textos e imagens cuja publicação não se justifica pelo respeito de um qualquer outro direito, designadamente, do direito de informar ou do direito de crítica e que extravasam claramente o núcleo do direito de liberdade de expressão [...] Em suma, não se divisa em tais textos e imagens o exercício adequado e razoável do cumprimento da função pública de informar, não se vislumbrando qualquer preocupação cívica atendível com a divulgação dos mesmos.»

Dá vontade de dizer um palavrão, mas da maneira como isto vai é melhor conter-me. Compreende-se que haja restrições ao que se publica nos jornais ou na TV. São negócios e são meios de comunicação com uma grande assimetria entre comentadores e comentados. E compreende-se que um jornalista tenha responsabilidades profissionais no «cumprimento da função pública de informar».

Mas blogs não são jornais, bloggers não são jornalistas e isto não é um serviço público de informação. Um blog é onde um tipo qualquer escreve o que lhe vai na cabeça sem que seja no cumprimento seja do que for. É um simples exercício da liberdade de expressão. Infelizmente, em Portugal a lei dá pouco valor a isso. De 2000 até agora os atropelos dos tribunais portugueses a este direito fundamental já nos deram cinco condenações pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (2). Em parte porque quem paga as indemnizações são os contribuintes, e não os juizes nem os legisladores.

Mas o pior é a confusão entre os deveres do jornalista profissional que escreve uma notícia e os direitos do cidadão que exprime uma opinião. Um dos fundamentos apresentados na sentença é que a «maior parte do conteúdo do blogue [...] consiste na publicação de artigos de opinião sobre os requerentes». Isto seria de criticar num jornal, mas não num blog.

Vêem os blogs como jornais electrónicos baratos e aplicam a actos pessoais regras concebidas para regular actividades comerciais e profissionais. É um erro. Os blogs não são um jornal por fio; são um telefone com texto e imagens que muitos podem usar ao mesmo tempo. A lei, e a sociedade, têm que perceber que esta tecnologia é um meio de trocar informação, ideias e opiniões. É uma conversa global onde a liberdade de comunicar deve ter prioridade sobre pudores, melindres, queixinhas e negócios.

Obrigado ao comentador anónimo que me deu o link para a notícia.

1- Póvoa Offline, macedo vieira é o nosso homem
2, Blasfémias, Liberdade de expressão em Portugal

Domingo, Junho 01, 2008

Treta da Semana: «Os Perigos da Internet».

A SIC poupou-me trabalho esta semana com o programa «Aqui e Agora» do dia 29, «Os Perigos da Internet»(1). A legenda numa das reportagens resume bem o tom do programa: «Os perigos da Internet: a blogoesfera ajudou a denunciar abusos de regimes totalitários». É só coisas más. O Francisco Moita Flores explicou que o pior de tudo são os «blogs terroristas» e o «branqueamento de capitais, tráfico de armas e explosivos» que se fazem «através de mensagens cifradas» em blogs. Mas disse logo à partida de onde lhe veio esta ideia. É que ele “nem abre” a Internet. Talvez com medo que lhe caia uma bazuca no colo.

Surgiu várias vezes a ameaça à democracia. O Francisco Moita flores avisou que «A democracia, em nome dos valores da democracia, expõe-se à sua auto destruição». Uma reportagem afirmava que a Internet «pode ser uma arma da democracia» mas também podia ser usada contra a democracia. O Miguel Sousa Tavares defende que o «acesso à Internet» deve depender de «uma pré-identificação junto ao servidor». Isto porque alguém o acusou de plágio num blog anónimo. Para que ninguém ofenda o Miguel é imprescindível que todos que tenham «acesso à Internet» sejam devidamente identificados. E esperemos que o Miguel nunca descubra que alguém o ofendeu por telefone, por carta ou a falar na rua. Senão temos que mostrar o BI cada vez que abrimos a boca.

A Internet não é uma arma da democracia nem um perigo para a democracia. A Internet é uma tecnologia que permite a cada um comunicar com quem o queira ouvir e a liberdade de comunicar não ameaça a democracia. É a democracia. Ameaça é restringir este direito, uma ideia popular entre “figuras públicas” de meia idade mas que é contrária à democracia e fruto de uma distinção ultrapassada entre privado, pessoal e público.

Antes da Internet o pessoal e o privado eram o mesmo. Era aquilo que se fazia fora do olhar público. O que se publicava era impessoal, de natureza comercial ou profissional. Jornais, discursos, documentários e assim por diante. Os diários eram pessoais e privados. Neste contexto fazia sentido regular a expressão pública como acto profissional distinto do âmbito pessoal. Códigos deontológicos, estatuto de jornalista, penas agravadas para a calúnia ou devassa pública da vida privada e assim por diante.

Mas hoje temos que distinguir estes três aspectos de forma diferente. O privado guardamos para nós ou para aqueles que nos são mais chegados. No que é público há umas coisas de natureza comercial ou profissional e outras de natureza pessoal. Muitos blogs, por exemplo. Apesar de acessíveis ao público, textos como este não têm fins comerciais ou profissionais. Servem apenas o exercício da minha liberdade pessoal de expressão. Não faz sentido regular um blog pessoal como um jornal ou canal de televisão porque escrever um blog é um acto pessoal. Mesmo que seja acessível ao público. Por muita gente que me visite ou que eu deixe cá entrar a minha casa será sempre um espaço pessoal. Aqui o Estado tem menos autoridade legal que num lugar de negócio.

Por isso é treta que se deva legislar para impedir expressões pessoais difamatórias ou ofensivas. Faz algum sentido quando se ofende ou difama por dinheiro, e há muitos blogs que são negócios e devem ser tratados como negócios. Mas não faz sentido pôr a lei a perseguir quem ofende a título pessoal. Nesses casos a lei só devia intervir se houvesse dano material e não apenas porque o queixoso se ofendeu. Se perdeu o emprego por causa de uma calúnia merece ser indemnizado. Se amuou porque os meninos na escola lhe chamaram nomes, azar. Cresça que vai ver que passa.

É preciso mudar a mentalidade. Não de quem escreve, mas de quem lê e ouve. Tal como ninguém ligaria a um anónimo que, berrando na rua, acusasse de plágio o Miguel Sousa Tavares, ninguém, nem sequer o Miguel, deveria ligar quando um anónimo escreve essa acusação num blog. O problema é assumir que o que é publicado ou vem de “figuras públicas” tem autoridade por muito infundado ou disparatado que seja. É uma premissa falsa e assim que maioria perceber que afirmações infundadas não merecem confiança, venham de onde vierem, resolve-se o problema dos insultos e das calúnias na Internet.

Infelizmente esta solução não interessa às “figuras públicas” que ficariam sem emprego se tivessem que fundamentar o que proferem como opinadores profissionais.

1, SIC, via De Rerum Natura

Sábado, Maio 17, 2008

Bom e barato, III.

O TrueCrypt é uma aplicação open source para encriptar ficheiros ou discos rígidos e pen drives. Um volume encriptado com o TrueCrypt parece um ficheiro de lixo; só com este programa e a palavra chave é que se pode aceder aos ficheiros lá guardados. Os ficheiros comportam-se como quaisquer outros, sendo decifrados pelo TrueCrypt em memória conforme forem usados. Além disso pode-se encriptar um volume com duas chaves diferentes, uma mostrando uns ficheiros e outra revelando outros que são indetectáveis para quem desconhece a segunda chave.

A protecção de dados pessoais é importante porque andamos cada vez com mais coisas. Um pendrive ou um computador portátil são fáceis de perder ou roubar. É escusado dar ao ladrão os nossos emails, extractos bancários e fotografias das férias. Em vários países o segurança do aeroporto ou guarda alfandegário pode revistar o computador e se o deixamos a arranjar o técnico tem acesso a tudo. Mesmo quem não tem nada a esconder não devia deixar tudo à mostra por uma questão de princípio. (Via Schneier on Security).

Entre as conferências TED (Technology, Entertainment, Design) há muita coisa interessante. Deixo aqui como exemplo esta da primatóloga Susan Savage-Rumbaugh, que trabalha com bonobos. Penso que quem não aceita que se dê a animais de outras espécies alguns direitos que reconhecemos aos da nossa deverá pelo menos ficar com algumas dúvidas depois destes 17 minutos. (Obrigado ao leitor que me enviou a dica por email)

Finalmente, para não ser tudo tão sério, um bom site para geeks trintões. (Via Krippart)

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Bom e barato, II.

Stanford Encyclopedia of Philosophy, com artigos aprofundados sobre quase tudo em filosofia.

Dicionário Escolar de Filosofia, em Português, especialmente útil para alunos do ensino secundário.

Também útil em Português é o dicionário online da Texto Editores e Priberam, Língua Portuguesa Online.

Finalmente (por hoje), o Projecto Gutenberg, com acesso a cerca de uma centena de milhar de livros gratuitos. A maioria está em Inglês, mas tem alguns na nossa língua.

A informação sobre o Dicionário Escolar de Filosofia veio deste post do Desidério no De Rerum Natura, e obrigado ao ardoRic por me lembrar do projecto Gutenberg.

Editado às 15:00h, corrigi a gralha no "Portugês". Obrigado Joaninha.

Sábado, Abril 19, 2008

Bom e barato

As obras completas de Charles Darwin. Em textos e imagens digitalizadas dos originais, inclui obras publicadas, manuscritos, diários e correspondência.

LibriVox. Uma organização de voluntários que gravam leituras de livros em domínio público. Tem mais de 1300 obras disponíveis, a maior parte em Inglês mas também algumas noutras línguas.

Sábado, Abril 12, 2008

Treta da Semana: O acordo ortográfico.

Já estive indeciso acerca disto. À partida pareceu-me que regular a ortografia era um disparate mas o acordo ortográfico de 1911 (1) foi, em retrospectiva, uma boa ideia. Da comissão fazia parte a Carolina Michaëlis, mas não havia telemóveis nessa altura e a coisa correu bem. E esse acordo livrou-nos de pharmacia, lyrio, orthographia, phleugma, phthysica e outras aberrações. Por isso, pensei eu, se calhar este acordo de 1990 até pode ser bom (2). Mas um post do Desidério (3) levou-me a olhar novamente para isto. O “Hã?” surgiu-me logo aqui:

«Actualmente o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cinqüenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. [...] A língua inglesa por sua vez apresenta variações ortográficas nacionais significativas, mas não conta com uma regulamentação oficial.»(2)

Parece que uma boa parte do mundo que usa o Inglês se entende bem sem doutos linguistas a regulamentar cada palavrinha. E o “Aha!” veio de seguida:

«Até ao início do século XX, tanto em Portugal como no Brasil, seguia-se uma ortografia de cariz etimológico que se tinha vindo a impor desde o século XVI, baseada nas directrizes dos principais gramáticos da língua. Era uma escrita complicada que, por regra, buscava a raiz latina ou grega para escrever cada palavra [...]. No entanto, quer em Portugal, quer no Brasil, abundavam as críticas à ortografia em uso e não faltava quem recomendasse a adopção de escritas mais simples e mais próximas da fonética.»(2)

Ou seja, o acordo ortográfico de 1911 foi precisamente por causa dos «principais gramáticos da língua» andarem a meter o bedelho e a chatear o pessoal com regras que ninguém queria cumprir. As normas não correspondiam à forma como as pessoas queriam escrever. A reforma de 1911 justificou-se pela remoção do bedelho. Segundo o texto oficial, é preciso reintroduzi-lo porque «constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestigio internacional»(4), justificação que se resume com dois tês, um erre, um é e um á.

Concordo com Vital Moreira que não são «procedentes os argumentos que têm sido lançados contra a reforma ortográfica. Não existe nenhuma ortografia sacralizada pela tradição[...]. Não faz sentido acusar a reforma de ser uma cedência do "português" ao "brasileiro"[...]. Não é convincente o argumento sobre a dificuldade de adaptação das pessoas a uma nova ortografia [...]. Tampouco tem razão o argumento de que algumas alterações, como a eliminação das consoantes mudas (de "projecto" para "projeto", por exemplo), cria o risco de provocar uma mudança na respectiva pronúncia, ensurdecendo a vogal associada...» (5).

A língua evolui, muda constantemente e não vale a pena sequer tentar travar esse processo. Os diferentes dialectos vão se distanciando e acaba por ser uma decisão arbitrária se os classificamos na mesma língua ou em línguas diferentes. Quando estive em São Salvador da Baía os Brasileiros de lá pensavam que eu falava Espanhol. A minha objecção a este acordo ortográfico não é nenhuma das que o Vital Moreira rebate. Eu sou contra porque não faz sentido haver normas oficiais de ortografia, tal como não faz sentido normalizar a pronúncia, o vocabulário ou as expressões idiomáticas.

Deve haver dicionários e documentos oficiais com nomes sonantes e aspecto importante onde estejam as palavras na forma “correcta” de as escrever. Mas esses documentos devem ser descritivos e não normativos. Não são para nos dizer como devemos escrever mas para nos informar como normalmente se escreve. E quando, como é inevitável, se começar a escrever de forma diferente aí sim devem alterar os documentos oficiais. Algo que pode ser feito discretamente por quem compila dicionários e que não precisa de protocolos internacionais, como demonstram muitos milhões de pessoas que escrevem Inglês como o falam. De várias maneiras diferentes.

Editado a umas horas da publicação para corrigir a ortografia...

1- Wikipedia, Ortografia da Língua Portuguesa
2- Wikipedia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortográfico_de_1990
3- Desidério Murcho, 10-4-2008, Para quê o acordo ortográfico?
4- Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa — 1990
5- Vital Moreira, Público de 18-12-07, Uma língua, uma ortografia

Carneiro.

«Palavras-chave: Iniciativa/ Liderança/ Actividade.
Planetas Regentes: Marte e Plutão.
Elemento: Fogo.
Corresponde ao primeiro signo do Zodíaco. É um signo de fogo, de novos inícios, iniciativa, actividade e empreendimento.»
(1)

Este é o signo da astróloga Cristina Candeias. Na noite do passado dia 7 a astróloga deixou uma vela de cheiro acesa no seu escritório e passado umas horas tinha a casa entregue ao elemento do seu signo (2). Em casa de ferreiro...

Felizmente ninguém se magoou, mas é uma coisa chata e até me sinto um pouco mal por vir aqui gozar com ela. Mas não muito. Quando fui ao site da Cristina à procura do signo dela vi lá isto

«NOVO SERVIÇO: Consultas de Astrologia para Crianças»(3)

e fiquei com a consciência muito mais aliviada.

1- Cristina Candeias, Signo Carneiro
2- Diário de Notícias, 8-4-08, Vela em casa de astróloga provoca incêndio em prédio de oito andares
3- www.cristinacandeias.pt

Sábado, Março 29, 2008

Treta da Semana: Avaliar os professores.

A avaliação dos professores do ensino básico e secundário pareceu-me uma boa ideia. O princípio faz sentido e concordei com muito do que o Luís Grave Rodrigues escreveu sobre este processo (1). Mas o último post do Luís fez-me mudar de opinião. A propósito do incidente do telemóvel, o Luís pergunta «que raio de incompetência social, pessoal e profissional levou aquela professora a deixar-se enredar naquela cena absolutamente estúpida» (2). Uns meses a tentar ensinar Francês àquela turma deve ter ajudado. Mas a pergunta mais importante não me parecia essa. Era ao contrário. Que competência social, pessoal e profissional bastaria para fazer aqueles miúdos aprender Francês? Quando puxei esta ponta desmanchou-se a ideia que este processo iria melhorar a educação.

Para que melhore o sucesso escolar a avaliação tem que reflectir a competência dos professores, dela devem resultar melhores professores e isto deve melhorar o desempenho dos alunos. Aceitei a ideia inicialmente porque no ensino superior parece-me natural que avaliar os professores dê melhores professores e melhor ensino. Mas ensinar adultos que querem aprender é diferente de ensinar crianças que os pais não educam, e este processo de avaliação tem mais problemas ainda.

A avaliação é uma treta. O desempenho dos alunos tem «uma ponderação de apenas 6,5%». Os restantes 93,5% são a estimativa subjectiva do coordenador do departamento curricular e da direcção executiva (3). Com cento e cinquenta mil professores e milhão e meio de alunos deviam poder estimar o desempenho dos docentes pelo percurso académico dos alunos. Não seria perfeito, mas seria objectivo, transparente e aperfeiçoável. Um professor cujos alunos reprovassem todos nos anos seguintes com outros docentes não se safava por ser amigo do coordenador (ou por ser o coordenador).

Mas talvez me engane e os coordenadores avaliem a «qualidade científico-pedagógica» dos colegas de forma objectiva, imparcial e fiável. Mesmo assim não adianta porque isto só afecta a progressão na carreira. Segundo percebo, não vão despedir ninguém por causa disto. E mesmo que despedissem fazia pouca diferença. Em 2007 ficaram cinquenta mil professores por colocar. Parece muito mas é apenas um terço dos que já estão colocados. Ou seja, de 200 mil no total só ficam de fora os 25% (supostamente) menos qualificados. Não me parece que haja aqui muitos professores bons para substituir os maus admitidos, mesmo que este processo substituísse alguém.

Mas supondo que a avaliação era correcta e se melhorava a qualidade dos professores. Resta ainda estimar o efeito no sucesso dos alunos. A matéria do ensino básico e secundário é muito pouco exigente. Os alunos com motivação beneficiariam de um programa mais interessante mas um professor com mais «qualidade científico-pedagógica» faz pouca diferença se vão aprender a mesma treta. E os alunos que lá estão contra vontade, e que até têm orgulho de não aprender, são indiferentes à «qualidade científico-pedagógica» do professor.

E são crianças. Certamente que um professor de quem os alunos gostem vai ter algum efeito positivo (mais por isso que pela sua «qualidade científico-pedagógica»), mas por muito bom que seja é o exemplo dos pais que as crianças tendem a seguir. É dos pais a responsabilidade de lhes ensinar a dar valor à educação. É claro que sendo os pais o problema principal a solução é mais difícil. Há mais pais que professores, e votos são votos. E a menos que multem os pais quando os filhos reprovam há pouco que se possa fazer. Por isso faz-se o que é costume em política. Implementar mal uma solução incorrecta para o problema errado.

1- Random Precision, pesquisa por "não desista!"
2- Luís G. Rodrigues, 25-3-08, «Dá-me o telemóvel. JÁ!»
3- Ministério da Educação, Avaliação do desempenho de professores - Perguntas e respostas

Sábado, Março 08, 2008

Treta da Semana: Esfrega, esfrega.

O Metropolitano de Lisboa implementou há uns anos um sistema de bilhetes electrónicos. Encosta-se o cartão ao sensor, espera-se cerca de meio segundo e as portas abrem. O sensor está colocado de forma a não ser preciso abrandar o passo. Estica-se o braço, continua-se a andar e quando se chega às portas já estão abertas. Mas muitas pessoas, habituadas à luz acender logo que se liga o interruptor, estranham o meio segundo que demora a identificar e validar o cartão. Então esfregam o cartão no sensor interrompendo a comunicação até apitar a mensagem de cartão inválido. Depois repetem a esfregadela até o cartão ser, eventualmente, validado.

Se informassem as pessoas isto não acontecia mas este mecanismo de aprendizagem intuitiva é revelador. Como as portas não abrem logo que é esperado infere que não basta lá pôr o cartão. Esfregar dá erro mas é melhor que nada, pelo que recomenda continuar a esfregar. As portas eventualmente abrem confirmando a conclusão: o sistema funciona mal mas esfregar resolve o problema. Percebe-se assim o grande sucesso da medicina alternativa, das promessas e rezas aos deuses, dos conselhos astrológicos e assim por diante. Esperar para ver se a coisa se resolve sozinha é contra-intuitivo. E assume-se que o sucesso é por causa do que se fez e não apesar do que se fez.

Também é contra-intuitivo que seja mais seguro um sistema que todos sabem como funciona. A Holanda gastou dois mil milhões de dólares num sistema de bilhetes electrónicos para os transportes públicos usando a tecnologia proprietária da Mifare. Só a empresa sabe os detalhes dos cartões e sistemas de controlo e alguém deve ter pensado que isso é mais seguro. Mas a um ano de ser completamente implementado alguns alunos universitários já descobriram vários buracos, incluindo uma forma de reutilizar indefinidamente os bilhetes já gastos (1).

O problema é que a tecnologia proprietária esconde apenas as fraquezas do sistema. Por exemplo, o chip usado nos passes na Holanda tem um sistema secreto de encriptação para impedir que se altere os dados indevidamente. Mas uma análise do chip revelou que as chaves de encriptação têm apenas 48 bits, permitindo descobrir a chave correcta em poucos dias (2).

Na Polónia, em Lodz, um miúdo de 14 anos construiu um controlo remoto para as linhas do eléctrico. Estas são controladas por infra-vermelhos seguindo também a filosofia de segurança do «esperemos que ninguém descubra como fizemos isto». O resultado foi uma dúzia de feridos e o miúdo no tribunal em vez de prenderem o idiota que desenhou o sistema (3).

A minha intenção com este post era revelar semelhante incompetência na implementação dos bilhetes electrónicos em Portugal. Bolas. Por cá escolheram o Calypso, um sistema aberto no qual qualquer empresa pode participar e que assenta em algoritmos de encriptação públicos, revistos e testados. O chip GTML2 no cartão Lisboa Viva, por exemplo, tem uma segurança certificada ao nível bancário, o que é raro em cartões para transportes públicos.

Tenho que admitir que isto foi bem feito. A única falha que posso apontar ao Metropolitano de Lisboa é não terem investido num upgrade aos utilizadores. Aquele esfrega esfrega quando um tipo está com pressa dá cá uns nervos...

1- Dutch Public Transit Card Broken
2 Lost Mifare obscurity raises concerns over security of OV-Chipkaart
3- Schoolboy hacks into city's tram system

Quarta-feira, Março 05, 2008

Gary Gygax

Faleceu ontem, com 69 anos. Perdi muitas horas, tardes e noites por causa dele. Onde quer que estejas, Gary, espero que haja pelo menos um d20. E a ver se os meus putos crescem depressa que tenho saudades das masmorras em papel quadriculado...

A má notícia aqui.

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Eficiência, tabaco, e outras tretas.

A Palmira da Silva escreveu outra vez acerca dos aquecedores (1) e atribuiu-me um contributo cujo mérito não mereço. Num comentário ao seu artigo anterior escrevi um 15000 em vez de 1500, gralha que me foi imediatamente apontada e que corrigi. Mas a Palmira ficou com a impressão que era uma estimativa minha. Não era. Era do documento da DEFRA (2), o mesmo que estima as tais 22 mil toneladas de CO2 libertas pelos aquecedores de pátio de uso doméstico, e que estima uma emissão dez vezes maior para os aquecedores de pátio em estabelecimentos comerciais. A minha critica foi por citarem o primeiro valor no contexto do segundo.

Mas o que mais me fascinou neste artigo da Palmira foi a sua medida de eficiência. «Ninguém duvida que é boa ideia utilizar aparelhos que usem energia de forma eficiente. Mas os aquecedores no cerne da polémica apresentam uma eficiência térmica inexcedível com a tecnologia actual». Concordo que somando a energia no aquecimento do ar com a energia irradiada e a que aquece o aparelho obtemos um valor igual à energia liberta pela combustão do gás.

Tal como na electricidade. A produção de electricidade aquece a central, o ar que sai da chaminé, os cabos de alta tensão e o ar à volta destes e alimenta os nossos electrodomésticos. A soma de todas as parcelas tem que dar a energia liberta na combustão do carvão. É uma quantidade conservada. Mas o aquecimento do ar à volta da central e dos cabos de alta tensão conta como perda. A eficiência não é a fracção de energia dissipada, forçosamente igual à produzida, mas a fracção que usamos.

Um aquecedor na rua aquece duas ou três pessoas mas aquece também uma coluna de ar que sobe e se dispersa pela atmosfera. Isso conta como perda. Uma medida mais razoável é comparar o gás que se gasta para nos aquecermos na rua com o gás necessário para nos aquecermos em casa. Quem já fez bolos sabe que ter o forno aberto ou fechado afecta bastante a sua eficiência. Não me parece razoável que um aquecedor na rua apresente «uma eficiência térmica inexcedível com a tecnologia actual». Desde que se inventou paredes e telhados que se pode exceder em muito a eficiência desse sistema de aquecimento. O que nos traz a este mal entendido:

«Assim, o que está em jogo não é a eficiência térmica destes aquecedores [...] mas sim o facto de alguns considerarem que os fins a que se destinam (em Inglaterra, pelo menos) são «imorais». Como corroborado pelo que pensa o Ludwig que [...] afirma noutro exagero de «egocentrismo ideológico»: «Mesmo assim, é muito combustível e CO2 só para ficar na rua sem casaco».»

O que está em jogo é mesmo a eficiência térmica de usar aquecedores na rua. Eu discordo da medida que a Palmira usa, segundo a qual o aquecedor é tão eficiente fora como dentro de casa. Se queremos aquecer pessoas em vez de mochos e morcegos a simples soma do calor dissipado não serve como medida de eficiência. Não é para chatear os fumadores. É para usar mais racionalmente recursos limitados como combustíveis fósseis e a capacidade do ambiente de suportar a poluição.

É verdade que se está a impor mais regras aos fumadores e concordo que isso não é bom sinal. Mas não pelas razões da Palmira. Também sou contra que se proíba o alho, que adoro, mas evito comer alho antes de dar aulas para não incomodar os alunos com o mau hálito. Onde trabalho partilhamos gabinetes entre duas ou três pessoas. Nestas condições não se pode ouvir música, falar alto, batucar na mesa ou outras coisas que possam incomodar os colegas. E ninguém faz isso. Arrumamos o tabuleiro na cantina, não deitamos papeis para o chão, seguramos a porta se alguém vem a passar e tudo isso sem regras nem leis que o imponham. Basta educação e civismo.

Mas mesmo antes desta legislação havia uma regra oficial a proibir o tabaco nos gabinetes sem a autorização expressa de todos os ocupantes, a proibir que fumassem na cantina, salas de aula e afins. É assim por todo o lado. O problema é que, para muitos fumadores, só importa se fumar é permitido ou proibido e não se incomoda os outros.

1- Palmira F. da Silva, 17-2-08, Delenda Tabaco
2- DEFRA’s Market Transformation Programme

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Mais coisas estranhas.

A minha crítica sobre os aquecedores era principalmente às contas (1). Não é razoável assumir que aquecer uma esplanada todas as noites vai poluir menos que ver televisão. Na verdade, emite cerca de cem vezes mais carbono. Mas o que chamou mais a atenção foi a critica à ideia que banir aquecedores nas esplanadas é só para chatear os fumadores. Até me chamaram fundamentalista.

O Desidério Murcho explicou bem o problema (2). Não me importo que apanhem cancro nem estou muito preocupado com os efeitos para a minha saúde. O que me chateia mais é que o tabaco cheira mal e empesta-me a roupa e o cabelo. Mas isto devia ser objecção suficiente.

Salvo raras excepções, todos consideramos ter a obrigação de não incomodar os outros com o nosso mau cheiro. Temos cuidado com o hálito, lavamo-nos, evitamos tirar os sapatos se os pés cheiram mal e quando temos mesmo que fazer algo que possa enojar vamos para uma casa de banho ou um lugar privado. Nem precisamos de leis para isto. Felizmente, para a maioria das pessoas e na maior parte dos casos tentar não incomodar os outros com estas coisas é algo que vem naturalmente. Até na nossa própria casa evitamos largar mau cheiro quando temos convidados.

A excepção é o vicio da nicotina. Por alguma razão, muitas pessoas julgam que esta regra básica do civismo não se aplica quando querem fumar e consideram-se no direito de deitar baforadas de nojice para cima dos outros sempre que lhes apetece. É estranho. A mesma pessoa que ficaria envergonhada por um breve episódio de flatulência mal cheirosa não se coíbe de passar cinco minutos a deitar mau cheiro pelo outro lado. Talvez os fumadores já nem notem o mal que aquilo cheira, mas não me parece que o problema seja só falta de informação.

1- Eu, Contas estranhas.
2- Desidério Murcho, Tabaco e perfeccionismo

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

ASAE

Tem havido muita discussão acerca da ASAE. Uns criticam abusos e incoerências, outros defendem que é preciso fazer cumprir a lei. Ambos têm alguma razão. A ASAE faz cumprir a lei e qualquer organização examinada em detalhe revela problemas. Ninguém é perfeito. O que me preocupa é que a discussão ignora o mais importante.

A polícia deve zelar pela nossa segurança, que inclui a segurança alimentar e económica. Apanhar uma gastrite com um croquete estragado ou um choque eléctrico com uma torradeira pode ser pior que ser assaltado. Mas não vejo como as t-shirts da feira ou os mp3 possam ser um problema de segurança.

Os feirantes estão a concorrer com as marcas que vendem dez vezes mais caro. Não me oponho à política de preços, ao direito das marcas de vender como quiserem e nem a leis que protejam o uso da marca. Mas isso é entre a marca e o feirante e é para decidirem entre eles em tribunal. O contribuinte não tem interesse em pagar à polícia para investigar e prender quem vende t-shirts ou DVDs. Como política de segurança é um tiro no pé. Há problemas mais importantes e multar o feirante ou apreender-lhe os trapos não o torna um comerciante honesto. Ele não vai abrir uma papelaria ou arranjar emprego por causa disso.

Criminalizar actos inofensivos acaba por incentivar crimes piores, sacrificando a nossa segurança para proteger interesses de quem não precisa da ajuda da polícia. Um condutor embriagado que ponha em perigo a vida de outra pessoa pode ter até três anos de prisão. A lei que temos vê os CDs pirateados ou as camisolas na feira como merecendo igual castigo. Isto não é zelar pela nossa segurança. É fabricar criminosos.

Muitos vêem estes problemas como interessando apenas a alguns. Como se a liberdade de trocar informação digital apenas interessasse a quem descarrega músicas, a liberdade de criar obras derivadas só fosse relevante para o Hip-Hop, as patentes informáticas só afectassem os programadores e prender feirantes fosse só azar deles. Mas faz tudo parte de um problema de fundo que nos toca a todos. O quê, e como, é que se regula por leis?

A questão é importante porque temos recursos limitados, e cada polícia a ver se a Ginginha do Rossio tem casa de banho é menos um polícia a zelar pela nossa segurança. Porque é um perigo para a sociedade tratar como criminoso quem não representa perigo nenhum. E porque as leis de um país não devem ser determinadas em função de vantagens profissionais, económicas ou políticas de alguns.

Isto não é um problema novo, mas hoje temos mais possibilidade de participar discutindo, manifestando opiniões, e exigindo que os nossos representantes nos representem adequadamente. E o muito anda por aí acerca da ASAE mostra que a opinião pública faz ouvir nestas matérias. Mas penso que se aproveitava melhor a oportunidade discutindo a lei em vez de discutir a ASAE.

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Como a Maratona criou a Europa.

No post sobre o artigo do João César das Neves a Abobrinha comentou que «A guerra foi sempre um grande motor de grandes desenvolvimentos tecnológicos. Podemos dizer então "como a guerra criou a Europa"»(1). É verdade que muitas guerras conduziram a desenvolvimentos tecnológicos e a alterações sociais. Mas se é pancada para criar a Europa eu nomeio a batalha de Maratona, em 490 AC.

O rei da Pérsia estava furioso com os Atenienses por terem ajudado os Gregos da Jónia a revoltar-se. Depois de suprimir a revolta enviou um exército com uns trinta ou sessenta mil homens para castigar Atenas, conquistar o resto da Grécia e dar cabo dos Gregos. Os Persas levavam estas coisas a sério. Se tivessem conseguido nunca haveria democracia, nem Platão ou Aristóteles, nem Sófocles. Nem o Renascimento. Para a Europa de hoje foi mais importante o Renascimento que a Ressurreição.

Ao contrário do que propõe César das Neves, o que marca a Europa como europeia é a cultura da Grécia antiga. O Cristianismo é uma importação do Médio Oriente, e o pouco que tem de europeu foi influência Grega. Quatro séculos antes de Cristo já Platão propunha julgar homens e mulheres pelo mérito em vez do sexo. Passaram dois mil e quinhentos anos e o Cristianismo ainda não chegou lá. Esta é uma das ideias que mais separa a cultura Europeia do resto do mundo. Por seu lado, o Cristianismo é das coisas menos Europeias que a Europa tem.

A democracia, a liberdade de expressão, a tolerância religiosa, a ciência, o pensamento crítico e a abertura à crítica. Nada disso veio do Cristianismo ou por causa do Cristianismo. Veio tudo dos Gregos e apesar do Cristianismo. Se um tal Yeshua Ben Yosef tivesse sido mais um profeta esquecido pela História a Europa ainda seria a Europa. Mas se aqueles dez mil Atenienses não tivessem dado uma coça ao exército Persa nem sequer tinha chegado a haver Europa.

1- 15-1-08, Como a cerveja criou a Europa.