Há uns dias testei a vossa paciência com as diferenças entre vários tipos de modelos (1). Um modelo que descreva a sociedade Portuguesa do século XIV ou prescreva como se comportar no Paquistão tem que se cingir ao contexto em que se insere. Mas um modelo normativo não é assim. Os princípios e regras com que comparamos alternativas e escolhemos o que é melhor não devem mudar com o sítio ou a época. É tão mau maltratar as mulheres no Paquistão como em Portugal. A escravatura era tão imoral no século XIV como é agora. O fundamento de uma avaliação ética não deve depender de detalhes circunstanciais, como espécie, neurónios, e afins, e como serve para avaliar possibilidades tem que funcione em casos hipotéticos. De nada serve um modelo ético que apenas diga “o bom é o que acontece, e pronto”. Precisamos de um capaz de dizer “se fosse daquela outra maneira era muito melhor”. Afinal é essa a sua função.
Os modelos normativos diferem naquilo que avaliam. Avalio uma refeição pelo sabor, valor nutritivo, custo, efeitos secundários, e assim. Estes critérios aplicam-se da mesma forma a qualquer refeição real ou imaginária, mas não avaliam profissões. Considerar o valor nutritivo de uma carreira no ensino ou o valor profissional da feijoada de chocos é absurdo. Este é o erro que comete o Ricardo Alves quando me pergunta: «Quando é que vais assumir que o teu modelo normativo não valoriza da mesma forma um embrião e uma criança?».
Crianças, adultos, embriões, tudo isso tem valor em muitos modelos normativos. A minha vida tem um grande valor subjectivo para mim, tem outro tipo de valor para quem beneficia do meu trabalho ou gosta da minha companhia. Mas a vida em si não tem valor ético. Por exemplo, apanhar com um raio e morrer electrocutado não é sequer uma questão ética.
A ética avalia escolhas conscientes e voluntárias. Acontecimentos e seres não têm valor ético por si. Apenas são relevantes como parte da escolha: consequências previstas, a responsabilidade de quem escolhe, e as alternativas que foram rejeitadas. Nenhum destes factores isoladamente é determinante, e é errado reduzir a ética a uma álgebra de consequências. Para responder ao Ricardo, o que normalmente terá valor ético diferente é a decisão de abortar e a decisão de matar uma criança, não por diferenças no valor ético do feto ou da criança, mas por diferenças na escolha em si – as alternativas, a consciência do acto, a responsabilidade imputável a quem decide, e assim por diante.
Resta ver como avaliar as alternativas. Muitos modelos normativos são instrumentais, servem para algo. O dinheiro vale porque dá para comprar coisas, as coisas valem porque servem para comer, ter saúde, ou prazer, e assim por diante. A ética é diferente da maioria por ser um fim em si mesmo. Esta liberdade de escolher e agir de forma consciente e respeitando os meus valores e os dos outros é algo que vale pelo que é, e não para obter algo mais. Nem a felicidade. Eu não trocava esta existência ética (de ser consciente e capaz de agir) por uma droga que me fizesse totalmente feliz e inerte.
O que tem valor ético na nossa vida é o conjunto de escolhas éticas que fazemos. Imaginem cada escolha como uma ramificação de várias alternativas, e cada ramo levando a outra escolha, e assim por diante numa enorme árvore de possibilidades. A nossa vida é um trajecto nessa árvore de escolhas, e é nossa não só porque cada um vive a sua mas porque cada um determina conscientemente – eticamente – o seu trajecto. Ao matar o feto a mãe usurpa o trajecto que é do filho. Esse é o valor ético negativo da morte propositada, mas também da tortura, da coacção, de negar educação, de impor crenças, e qualquer outra forma de negar a um ser a possibilidade de determinar eticamente a sua vida de acordo com os seus valores.
O João Vasco levantou o problema do espermatozóide: se é o futuro que interessa, o desse também devia contar. Mas não é só o futuro que interessa. É a decisão que interessa: a selecção consciente de uma alternativa entre várias, tendo em conta os valores de quem decide e de todos os afectados. Mas mais detalhes no próximo episódio.
1- Eu, 22-1-07, Modelos