quinta-feira, dezembro 01, 2016

Treta da semana (atrasada): “Racionalidade”.

No dia 13 de Outubro de 1917, dezenas de milhares de pessoas foram a um descampado perto de Fátima com o intuito de assistir a um milagre. Dessas, várias relataram ter testemunhado o Sol a bailar e maravilhas afins. Seguindo Hume, Dawkins argumentou que, por muito improvável que pareça que tais relatos possam surgir sem um milagre, menos provável ainda será que um deus tenha feito o Sol bailar. O Domingos Faria escreve que Dawkins cometeu «uma clara falácia do "homem de palha" [...] porque ninguém que investigou seriamente e que procura defender racionalmente esse fenómeno de Fátima sustenta que "o Sol realmente se moveu".» (1) É bom ver que Faria e Dawkins concordam nisto. O que as pessoas dizem ter testemunhado não foi o que realmente aconteceu. Mas Faria não dá o devido crédito à crença irracional de milhões de católicos fiéis que acreditam que o Sol bailou, que Maria apareceu e que podem obter curas e favores arrastando-se de joelhos em Fátima e queimando cera. Sem essa irracionalidade nem haveria o negócio dos milagres nem a apologética erudita de Faria teria mais adeptos que a análise “séria e racional” dos milagres de Osiris.

Também não me parece que a hipótese de Faria seja mais racional do que a do Sol bailarino. Alega Faria que apenas ocorreu um fenómeno meteorológico e que o milagre esteve «na previsão impressionante desse fenómeno meteorológico (pois os pastorinhos anunciaram com antecedência e precisão o dia, hora, e local desse fenómeno». A previsão não é muito impressionante, pois nem os videntes previram o que iria acontecer nem os testemunhos concordam acerca do que teria acontecido. Mas, se é para explicar isto com um milagre, um deus omnipotente podia ter feito o Sol bailar e eliminado, ao mesmo tempo, todos os efeitos desse baile fora daquele descampado em Fátima. Isto exigiria apenas uma infinitésima parte do seu poder infinito e evitava enganar os crentes que, na sua ignorância, julgaram ver o milagre do Sol a bailar num mero “fenómeno meteorológico”. Para um deus moralmente perfeito, isto deveria compensar o esforço infinitesimal de fazer um milagre de jeito.

Faria alega também que a hipótese de Deus existir torna a previsão correcta dos videntes menos improvável do que seria sem Deus: «dada a existência de Deus, [o milagre da previsão] não será impossível nem talvez bastante improvável.» No entanto, o poder explicativo dessa hipótese é meramente ilusório. Retrospectivamente, a hipótese do deus milagreiro ajusta-se a tudo e um par de botas. É por isso que parece explicar qualquer mistério. No entanto, esta hipótese é análoga a um “é o destino” ou um “tudo pode acontecer”. Se Faria tentar usar essa hipótese para estimar a probabilidade de um vidente prever correctamente eventos futuros, facilmente constatará que a hipótese é inútil. Assumir que Deus existe não permite alterar a probabilidade estimada de qualquer acontecimento futuro. Apenas cria a ilusão de o fazer nos acontecimentos passados, pelo que é irracional aceitá-la como explicação.

Ironicamente, esta falha na racionalidade da análise de Faria sugere uma hipótese alternativa mais racional. As histórias das crianças levaram muita gente à procura de milagres. Algum exagero e imaginação no que viram, misturado com o que esperavam ter visto, resultou em relatos difíceis de explicar assumindo-os verdadeiros. Neste contexto, a facilidade com que aceitamos explicações ilusórias, especialmente quando se alinham com os nossos preconceitos, popularizou a tese dos milagres e o concomitante negócio de cera e joelheiras. Não é uma sequência muito provável. Na maioria dos casos, o encadeamento falha e o processo fica-se pelo caminho. Não se vê grandes peregrinações à casa da Alexandra Solnado, por exemplo. Mas há sempre tantos videntes a tentar a sorte que, de vez em quando, lá surge uma Fátima, Lourdes, Mecca, Jerusalém ou Lumbini. Esta é uma explicação muito melhor do que a do milagre. Não só por depender apenas de factores independentemente confirmáveis mas também por fazer previsões substanciais e falsificáveis. Por exemplo, se esta for a explicação correcta, em vez daquela que Faria propõe, então nenhum vidente, sacerdote ou místico tem poderes especiais, não há milagres, não há deuses e todas as religiões são falsas. Seria muito fácil refutar tal previsão se estivesse errada, mas o estado patético dos milagres de agora, reduzidos à mera previsão de fenómenos meteorológicos, sugere o contrário.

Finalmente, Faria alega que o Carlos Pires, no Dúvida Metódica, não tem justificação para afirmar que «Os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam, portanto, numa falsidade»(2). Isto porque, segundo Faria, «o argumento de Hume não é metafísico mas sim epistémico» e, por isso, «No máximo o que se pode concluir com uma argumentação humeana é o seguinte: os milhões de pessoas que acreditam no milagre de Fátima acreditam em algo que é, do ponto de vista epistémico, irrazoável ou irracional.» Mas isto não é o máximo que se pode concluir. É verdade que as afirmações acerca da realidade podem ser verdadeiras ou falsas independentemente daquilo que nós sabemos acerca da realidade. No entanto, nós só podemos concluir acerca da falsidade ou verdade de tais afirmações em função daquilo que sabemos. A metafísica sem fundamento epistémico é, literalmente, argumentar com base na ignorância. A validação epistémica de alegações não é um mero “ponto de vista”. É a única forma que temos para distinguir entre tretas e afirmações correctas. Por isso, se reconhecemos que a crença no milagre de Fátima é irracional, temos toda a justificação para concluir que não ocorreu lá milagre nenhum e que essa crença é falsa.

A metafísica sem fundamento epistémico permite alinhar a argumentação erudita com qualquer disparate popular. Isto pode dar jeito mas não é por isso que o disparate deixa de o ser.

1- Domingos Faria, Hume, Fátima, e o Milagre do Sol.
2- Carlos Pires, Milagre??

1 comentário:

  1. Ludwig,

    Parece-me claro que nada percebes deste assunto. Aliás, bastava uma leitura rápida na Bíblia, e já ficavas a saber que, não existem previsões, só posvisões - a Bíblia tem desses casos aos pontapés. Não acreditas? Hum... olha que não acredito nisso... ;)

    De qualquer forma, ficam aqui umas perguntas: o que é a mensagem de Fátima? É só a cena de rezar o terço todos os dias, para que Deus deixe de estar zangado com o pessoal, e assim deixe de nos enviar para o inferno? Se temos o evangelho, para que precisamos da mensagem de Fátima?
    Portanto, com tantas questões teológicas importantes, e vens tu falar de malabarismos astronómicos, meteorológicos ou até de paranoia coletiva...

    Meu caro, tens de voltar para o Django e que o Pyton te proteja.

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