quinta-feira, dezembro 29, 2016

Ciência: 1, o propósito.

Quando se fala de ciência, seja no ensino seja em obras de divulgação, a ênfase é quase sempre no conhecimento que a ciência produziu. É indiscutivelmente útil conhecer o que a ciência produz mas enfatizar o produto em detrimento do método – que quando é ensinado é quase sempre como uma lista de regras para memorizar – dificulta a compreensão do mais fundamental, que é o processo em si. Por isso, muita gente acaba com uma ideia confusa daquilo que é a ciência. Com a minha característica falta de modéstia, queria dedicar uns posts a colmatar esta lacuna dando uma ideia mais clara do que é a ciência e de como funciona. Vou começar pela sua função e enquadramento na restante actividade humana.

A ciência é uma ferramenta. E a melhor maneira de compreender uma ferramenta é perceber para que serve e não serve. Todos os mamíferos conseguem aprender pela experiência. Aprendem a caçar, a partir nozes, a atar os cordões dos sapatos ou a escrever com o teclado, por exemplo. Mas este conhecimento fica implícito na organização das redes de neurónios e não pode ser transmitido, pelo menos enquanto não inventarmos tecnologia que o permita. Cada um tem de o obter por experiência própria. Este tipo de conhecimento está fora do âmbito da ciência. É útil para lidar com equipamento complexo e fazer experiências no laboratório mas não é com este conhecimento implícito que a ciência trabalha.

A representação simbólica é diferente. Permite inventar uma história, pô-la em palavras e enfiá-la pelos olhos do outro até ao cérebro. Isto pode ser usado para imensas coisas. Para procurar narrativas belas ou inspiradoras temos a poesia e a literatura. Para enganar os outros, convencendo-os de que temos poderes especiais ou que conhecemos gente importante, temos astrologias, religiões, teologias e afins. Podemos usar símbolos para fazer política, para reivindicar, para ameaçar, para prometer e o que mais a imaginação permitir. E, no meio disto tudo, podemos também supor que seres racionais, por muito diferentes que sejam em gostos e crenças, poderão partilhar representações simbólicas para concordar sobre muita coisa em virtude simplesmente da sua racionalidade. Isto importa porque essas representações simbólicas racionalmente válidas permitem ultrapassar qualquer divergência subjectiva entre seres racionais. A procura por essas representações racionalmente válidas chama-se filosofia.

Esta procura abrange muitos tópicos, desde a linguagem em si ao significado da nossa existência e ao que devemos fazer com a nossa liberdade. No meio disto tudo, estão as representações simbólicas que nos informam acerca da realidade. É um caso particular de racionalidade, tentar distinguir o possível do impossível, explicar o que aconteceu e acontece e prever o que irá acontecer. O ramo da filosofia que procura estas conjecturas chama-se ciência. Antes de continuar, ressalvo que não pretendo delimitar estes conceitos à faca. Não me interessa saber a temperatura exacta em que o chá quente passa a morno ou a fronteira exacta onde acaba a ciência e começa o resto. O que importa é ter uma ideia clara do fundamental.

E o fundamental é tão importante que o vou repetir: a ciência é o ramo da filosofia que procura descrições correctas da realidade. Devido ao enorme sucesso desta ferramenta, muita gente procura buracos onde possa esconder as suas crendices do escrutínio da ciência. Mas perceber o fundamento da ciência confere imunidade imediata ao truque das restrições arbitrárias. Isso é filosófico e não científico; a ciência só lida com a realidade material; ou com padrões que se repetem; ou o que pode ser medido; o que é natural; o que se faz no laboratório e assim por diante. É tudo treta. A ciência é a ferramenta para seleccionar as melhores descrições da realidade. É uma tarefa filosófica, pela sua racionalidade, e esta ferramenta serve para qualquer pretensão de descrever o que quer que seja da realidade. É essa a sua função. Não vem com buracos para deixar passar deuses, energias espirituais ou forças astrológicas.

É importante perceber também que a ciência não lida directamente com a realidade. O que seria impossível, pois qualquer tentativa de perceber a realidade depende do que se conjectura para interpretar o que se experiencia. A matéria prima da ciência são estas conjecturas. Os modelos, as hipóteses, as teorias, as explicações. É isso que a ciência produz, avalia e selecciona. É verdade que isto exige obter informação acerca da realidade, o que obriga a fazer experiências. Mas este é um detalhe técnico. Se os resultados de todas as experiências já estivessem registados bastaria consultar o registo. Se um computador simular reacções nucleares com rigor não é preciso rebentar bombas para testar uma hipótese. E se houvesse robôs que fizessem as experiências bastaria mandá-los trabalhar e recolher os resultados. O que já se faz, só que com bolseiros em vez de robôs. Por enquanto, ainda são mais baratos. O trabalho experimental tira teimas e inspira ideias novas mas a ciência não é recolha de dados. É o trabalho intelectual – filosófico – de explicar os dados.

A ciência não é um conjunto arbitrário de regras. É uma ferramenta. Quando a faca está romba, afia-se. Se a lâmina se parte põe-se uma mais forte. É a função que define a ferramenta e é assim que a ciência tem sido forjada, com o propósito de construir uma representação correcta da realidade. Foi isso que a tornou, e ainda a está a tornar, no melhor método para seleccionar as peças correctas, encaixá-las nos sítios certos e remover os escombros de tudo o que não se aguenta. Naturalmente, isto assusta quem prefere casas de chocolate e faz de conta. Infelizmente para esses, a ciência não tem rival na produção de conhecimento acerca da realidade. Mas explicar porquê será tarefa para outros posts.

3 comentários:

  1. Ludwig,

    Espero que nos próximos posts que vais dedicar à ciência, tenhas o cuidado de falar da famigerada expressão "comprovado cientificamente".
    É só uma dica... fica na lista de pedidos :)

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  2. Ludwig,

    «A ciência não é um conjunto arbitrário de regras.»

    Mas haverá algum conjunto arbitrário de regras? Não me parece.
    Aliás, não me parece que a ciência seja, sequer, um conjunto de regras.
    Quanto a ser uma ferramenta, também não me parece muito, sobretudo se pensarmos que a ciência é conhecimento. Ferramenta é um produto técnico, um meio dirigido a um fim (que se conhece). No entanto, ao identificarmos ciência com conhecimento não evitamos o problema do conhecimento. É certo que o conhecimento serve para algo e, nessa medida é instrumental. Todavia, isto de ser instrumento (adequado ou não a um fim) já não está naquela ordem de questões que referes.Os próprios processos da ciência e métodos não são ciência "stricto sensu", no sentido de verdade científica. Ciência é mais isto, verdade científica. E esta consiste na correspondência entre teorias e realidade física.
    Sem esquecermos que a realidade física é dinâmica e "evolutiva" e que, por essa razão, a predictibilidade não tem mais valor do que uma probabilidade. E sem esquecermos também que as teorias baseadas naquilo que a que estamos habituados tendem a fazer-nos crer/esperar mais do mesmo.
    Em qualquer caso, a ciência é possível porque: 1-As leis da física funcionam, não enganam; 2-Nós temos capacidade para as equacionar e experimentar.
    De resto, se é verdade que a realidade física não pára e não se deixa, em momento algum, capturar, porque em mudança contínua, não parece menos verdade, pela própria ciência, que as leis da física são imutáveis, antes, durante e depois do big bang.

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    1. Carlos Soares,

      Há algumas questões que levantou e que no meu entender não foram bem esclarecidas por si. O primeiro caso é o da "ciência não ter regras". Posso depreender que não considera o método científico um conjunto de regras? E o facto de ser sempre necessário a revisão e confirmação dos resultados, não é isto por si só uma regra?

      Fala ainda da "verdade científica". Acontece, que isso não existe; o que existe é uma melhor ou pior compreensão dos fenómenos. O que a ciência nos permite, é melhorar a compreensão - daí que ciência seja conhecimento.

      Há muitas ciências que não funcionam como a física, com uma base matemática tão intrínseca. De qualquer forma, mesmo no caso da física, considere o caso da lei da gravitação de Newton. Quando foi elaborada no séc. XVIII, era o melhor que tínhamos. No entanto, rapidamente se percebeu das suas limitações, e isso levou a que Einstein elaborasse a relatividade e Borh, Eisenberg, Schrödinger e muitos outros, elaborassem a mecânica quântica, já no séc. XX. Todas estas ideias serviram para melhorar a nossa compreensão, mas não são finitas: sabe-se que vamos precisar de mais ideias para completar o que a relatividade e a mecânica quântica não nos permitem obter.
      O mesmo é verdade para todas as restantes ciências.

      Só mais um caso que até nem faz grande uso da matemática: no início do séc. XX, Freud deu os primeiros avanços na psicanálise, mas rapidamente foi ultrapassado, em especial pelos próprios discípulos, como Jung e outros, e hoje em dia Freud faz parte da História, não porque as suas ideias ainda tenham seguimento, mas por ter aberto a porta a novas investigações - na verdade, tanto quanto sei, pouco ou nada do que Freud ensinou é usado.

      Com isto tudo, quero dizer que quando diz "as leis da física são imutáveis", isto é só meia verdade. A outra metade, diz respeito ao facto de que com uma melhor compreensão, podemos adoptar novas leis, mesmo na física, que podem dar respostas melhores, porque resultam de uma melhor compreensão.

      A ciência (e a física é uma ciência), não é estática. Ela evoluí. E quando deixar de evoluir, o mais certo é que não existam Humanos para a impulsionar.

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