sexta-feira, agosto 21, 2015

Filosofia não se explica.

Numa troca de comentários com o Pedro Galvão (1), a propósito do aborto, o Pedro recomendou-me que lesse dois textos dele sobre a identidade e persistência da pessoa. Descrevem argumentos interessantes mas não são relevantes neste caso porque a ética visa resolver o problema normativo de avaliar opções enquanto que definir conceitos como identidade e persistência da pessoa se reduz a escolher que descrição associar a cada um. Se “pessoa” for qualquer organismo do género Homo então um chimpanzé não é pessoa. Se for um ser que está consciente de si, então um chimpanzé e um humano são pessoas quando estão acordados e só a partir de certa idade. Se definirmos pessoa pela capacidade de auto-consciência, então cada chimpanzé e humano é pessoa até perder essa capacidade. Seja como for, a ética de caçar chimpanzés, destruir o seu habitat ou usá-los para experiências depende das circunstâncias e dos atributos dos chimpanzés mas não de quão inclusivos ou exclusivos forem os conceitos de identidade ou pessoa. No aborto é o mesmo. Decidir se chamamos pessoa ao feto ou se a sua identidade é persistente é como discutir se o machado do avô ainda é o machado do avô depois de se substituir a lâmina e o cabo. É um problema filosófico interessante mas a ética não deve depender da mera definição dos termos.

Mas o mais interessante no diálogo com o Pedro Galvão foi a forma como ele descartou esta posição, depois de eu ter respondido a várias objecções concretas. Declarou-a um «cientismo primário e desinformado». Aparentemente, cometi o pecado de não classificar o que defendo na taxonomia da argumentação ética e não resumir uma dúzia de argumentos que rejeito. E isto não é só com o Pedro. Tenho observado com frequência esta atitude em alguns filósofos: considerar que omitir o que não importa é sinal de ignorância; aproveitar essas omissões para apontar o que não é novidade nem adianta para o que se discute*; e depois concluir que não vale a pena discutir com cientistas ignorantes das regras da filosofia. O interessante disto é ser mais um efeito de quererem manter filosofia e ciência separadas.

Sem detalhes não se consegue encontrar boas explicações, porque as boas explicações são aquelas que ficam tão entaladas nos detalhes que não se pode alterar nada sem desmanchar tudo. Por exemplo, a explicação moderna para as marés depende da gravidade, da distância entre a Terra, o Sol e a Lua, da rotação da Terra, da rotação conjunta da Terra e da Lua e imensos pormenores encaixados exactamente como são. Nestas condições não vale a pena enumerar argumentos alternativos. Mas, antes de se conhecer estes detalhes, houve muitas propostas como a de que a maré subia porque a Lua soprava vento sobre a água, porque o mar expandia com o calor do Sol, ou que a água das marés vinha de, e escoava para, um remoinho ao largo da Noruega. Quanto menos detalhes há para encontrar boas explicações mais argumentos, e alternativas, se tem de considerar.

Foi por isso que, durante uns dois mil anos, a filosofia consistiu no estudo e criação de grandes conjuntos de argumentos alternativos. Muito trabalho dos filósofos foi, e é, inventariar argumentos antigos, contribuir argumentos novos e organizá-los todos para se perceber a que ramo cada um pertence. Mas, há coisa de cinco séculos, o progresso tecnológico permitiu descobrir muitos detalhes, inicialmente na física, química e astronomia. Isto criou a ilusão de que havia uma forma nova de procurar conhecimento, na qual se podava a maioria dos argumentos e fazia crescer apenas as poucas explicações que encaixavam nos dados. É por isso que os cursos de física não incluem Aristóteles, o calórico, o flogisto ou o éter luminífero.

Mas ciência e filosofia sempre foram o mesmo processo de análise racional, com o mesmo objectivo de esclarecer ideias e obter conhecimento. Só as condições diferem. Por não perceberem isto, muitos cientistas (e políticos) descartam a filosofia como desnecessária, escapando-lhes a importância da exploração argumentativa para desbravar caminho. É verdade que muita argumentação alegadamente filosófica não passa de disparates inúteis mas é um erro desprezar o método só por isso. Da mesma forma, muitos filósofos assumem que os cientistas são ignorantes ou têm a vista estreita só porque podam os ramos estéreis. Também é verdade que a educação científica enfatiza demasiado a linha que conduz ao estado da arte e, por omitir o quanto se teve de especular pelo caminho, forma muita gente de visão estreita. Mas também aqui o problema é não perceberem que a especulação argumentativa a que chamamos filosofia é um passo no caminho que também inclui a triagem de alternativas por inferência à melhor explicação, aquilo a que chamamos ciência. Nenhuma faz grande coisa sem a outra.

O apego indevido às listas e taxonomias de argumentos é evidente na filosofia da mente e na ética, onde muitos filósofos, implícita ou explicitamente, ainda assumem ideias como a da lei natural ou da substância pensante, por exemplo. E é especialmente sério na filosofia da religião, onde quase todos assumem ser possível existir um ser que age e pensa mas que não é composto de matéria, uma hipótese tão contrária ao que sabemos quanto a da Lua soprar vento. Estes erros ficam disfarçados de virtude pela ideia fajuta de que a filosofia têm de ser diferente da ciência e que, por isso, exige que se argumente enumerando e contrapondo outros argumentos. Quantos mais, melhor, com a proficiência intelectual de cada um medida pelo número de argumentos que menciona e rotula correctamente. Isto descura o que se pode fazer quando se olha para os detalhes e se procura a explicação que melhor encaixa nos contornos do problema. Felizmente, muita filosofia e ciência não padece deste preconceito, senão ainda estávamos a discutir qual dos quatro elementos é o mais importante. À luz de velas.

*Por exemplo, acerca de eu avaliar eticamente os actos considerando, entre outras coisas, as consequências, o Pedro escreveu que «Isto é extremamente controverso. Chama-se "consequencialismo de actos" e discute-se há muito tempo se é verdade.» Rotular uma posição é muito diferente de a entender. Muitas vezes é até o contrário. Por exemplo, eu defendo algo parecido com o “proximate subjective act consequencialism”, mas mesmo com um rótulo tão ridiculamente específico ainda restam diferenças fundamentais. E os problemas que tornam o consequencialismo controverso, como a fungibilidade de valores ou a impossibilidade prática de prever todas as consequências de um acto, são irrelevantes para a maioria dos casos de aborto. No fundo, alegar que uma posição se enquadra numa certa categoria controversa só adianta se se explicar porquê e se com isso se apontar algum problema concreto.

1- No blog do Domingos Faria, Discutir o aborto com razões

4 comentários:

  1. Ludwig,

    «Felizmente, muita filosofia e ciência não padece deste preconceito»

    Preconceito não é filosofia, nem ciência.
    Depois, sobre afinidades e diferenças entre filosofia e ciência, haveria muito a dizer, mas remeto para os compêndios da especialidade.
    No entanto, coloco em destaque o seguinte apontamento: nem todo o filósofo é cientista (quantos o são?), nem todo o cientista é filósofo (presumo que muitos o sejam). Cada vez é mais difícil ser filósofo (em sentido estrito) sem ser cientista. Quanto a ser cientista sem ser filósofo, diria que é possível. Um bom filósofo tem de saber muito de ciência (basicamente, o que as coisas são e como funcionam). Um bom cientista não precisa de saber filosofia (basicamente, todas as questões que é possível colocar e que respostas existem).
    Quanto ao crente religioso, as coisas passam-se de um modo um pouco diferente. As suas questões não são da ordem do conhecimento, propriamente dito, filosófico ou científico. As suas questões nem são de ordem moral, ética ou social, ou jurídica. São de ordem pessoal, de consciência e de sentimento de sentido. O crente até pode estar perfeitamente realizado no plano científico e filosófico, ter uma irrepreensível conduta moral, ético-jurídica e social, mas nada disso bastar para o problema da sua relação com Deus.
    Muitas outras questões para as quais nem a ciência nem a filosofia têm resposta e às quais a religião responde não constituem, para o crente, pomo de discórdia, porque a resposta que é válida para a ciência ou para a filosofia é irrelevante para o crente e vice-versa.
    E tudo isto é racional e vivido conscientemente, por toda a gente, cientistas, filósofos, teólogos, crentes e (porque não?) não crentes, com conhecimento e experiência e sabedoria...

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  2. Ludwig,

    Dizes «O interessante disto é ser mais um efeito de quererem manter filosofia e ciência separadas.».
    Creio que será por isso que alguém (peço desculpa por não saber nomear quem!) terá dito que "a Filosofia é a ciência pela qual e sem a qual se fica tal e qual".

    É claro que a Filosofia tem vários interesses. Historicamente, todos os cientistas eram também filósofos, e só quando as actividades científicas passaram a um nível de especialização em que só mesmo os "iniciados" são capazes de tecer comentários dignos, passou a existir essa diferenciação. Basta ver o caso descrito em Imposturas intelectuais de Alan Sokal e Jean Bricmont (editada em Portugal pela Gradiva http://www.gradiva.pt/index.php?q=C/BOOKSSHOW/619) e que também pode ser visto em https://en.wikipedia.org/wiki/Sokal_affair. É fácil uns "artistas" soltarem um palavreado que parece científico e correcto, mas que na verdade só tem lixo. Não pretendo voltar a falar sobre as benesses da revisão de pares, mas desconfio que não exista alternativa viável para evitar casos destes.
    A Filosofia é ainda importante no sentido de ensinar a organizar o pensamento crítico e lógico. Aprender a detectar maus argumentos e como construir bons. Algumas ferramentas ainda hoje são usadas na ciência como a famosa "navalha de Occam".

    Tanto na Filosofia, como na ciência, é importante manter um histórico não só dos argumentos vencedores, como dos argumentos que terminam em becos sem saída. Assim, torna-se possível que não se repitam erros, nem se perca tempo a perseguir algo que nunca há-de dar resultados. Há um bom vídeo de Ben Goldacre sobre isso no TedX aplicado à ciência farmacêutica: http://www.ted.com/talks/ben_goldacre_what_doctors_don_t_know_about_the_drugs_they_prescribe.

    Mas isto é possível de aplicar a muitas outras áreas. Neste blog vemos muitos argumentos de coisas que hoje sabemos erradas a regressarem à ribalta, como muitos dos argumentos criacionistas. Defendo que além de se ensinar as respostas que hoje são tidas como "as mais aceites", devemos ensinar o porquê de muitas outras terem sido rejeitadas ao longo do tempo, como seja o éter luminífero, as ideias erradas de Aristóteles, Platão e muitos outros que através dos seus erros também ajudaram a melhorar o conhecimento actual.

    Hoje vi uma estrevista a um bilionário dos EUA que patrocinou a reconstrução do memorial de Washington. Pediram-lhe para falar sobre os erros que cometeu, ao que ele respondeu que seria necessário mais tempo do que a entrevista tinha previsto, só para os enumerar. A ideia da ciência só com respostas certas é um erro, e conhecer os erros é impedir que se repitam.

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  3. Ludwig, a minha paciência para discussões filosóficas na Internet é limitadíssima -- e a minha paciência para discutir contigo, naquela troca de comentários, esgotou-se talvez demasiado depressa. Talvez! Mas porque é que te acusei de "cientismo primário"? No essencial, porque teimas em reduzir questões filosóficas a meras questões semânticas. O problema da identidade pessoal não é semântico. A questão não é «Como definir "pessoa"?» ou «O que significa "pessoa"?». A questão é (poupando-me a preliminares): em virtude de que factos é que as pessoas persistem no tempo? E questões metafísicas como esta têm relevância para discussões éticas: há argumentos sobre questões éticas que pressupõem certas perspectivas sobre a identidade pessoal e esses argumentos serão maus se os seus pressupostos forem falsos. Por muito que não queiras ver (e às vezes parece mesmo que não queres ver), a tua posição sobre o aborto envolve pressupostos metafísicos (ainda que os teus argumentos nesta matéria não sejam suficientemente claros). Ainda há uns dias escreveste algures que o aborto é errado porque priva um organismo das coisas boas da vida. Mesmo que isso não seja imediatamente claro, este argumento pressupõe uma perspectiva metafísica: cada um é numericamente idêntico ao seu organismo e, portanto, persiste no tempo em virtude de uma certa continuidade biológica. (Acho que este pressuposto é falso.) Bom, já me alonguei demasiado. Prefiro discutir estas coisas fora da Internet.

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  4. Pedro Galvão,

    Eu não faço distinção entre discutir “na Internet” ou “fora da Internet” porque vejo isto meramente como um meio de transmitir informação. Mas reconheço o teu direito às tuas preferências, a discutir como e quando bem entenderes, e se tiveres algum meio alternativo que te pareça mais agradável estou aberto a sugestões.

    Mas, por enquanto: a minha posição sobre o aborto envolve pressupostos metafísicos. Futuro, causalidade, vontade, escolha, tudo isso são conceitos que podemos chamar metafísicos. O que defendo é que não depende da definição do termo “pessoa”. E quando perguntas «em virtude de que factos é que as pessoas persistem no tempo?», está a assumir implicitamente que o termo “pessoas” aí não levanta problema nenhum e está suficientemente bem definido para nem questionarmos se estas persistem no tempo.

    As pernas persistem no tempo no sentido em que a matéria de que são feitas se mantém aproximadamente constante, ou vai variando lentamente, dando uma noção de continuidade. Os passos que as pernas dão não persistem no tempo porque são movimentos transitórios, imediatos. Cada passo é um passo e o próximo não é o anterior.

    Os cérebros persistem no tempo como as pernas. Mas o que os cérebros fazem, como os passos, são algo transitório, imediato e que não persiste. São movimentos; de iões em vez de músculos e ossos, mas fundamentalmente o mesmo que os passos.

    Portanto, para considerarmos que as pessoas persistem no tempo temos de decidir o que queremos dizer com isto. Se a pessoa é a matéria, então sim. Se a pessoa é o que a matéria faz – consciência, pensamentos, essas coisas – então não. Mas nota que o que estamos aqui a decidir não é acerca dos factos. Não discordamos acerca do que a realidade é. Nenhum de nos defende que o pensamento é o neurónio ou que o pensamento é uma substância que o cérebro exsuda e que persiste. Apenas discordamos acerca de que factos escolhemos considerar para chamar a algo pessoa.

    «Ainda há uns dias screveste algures que o aborto é errado porque priva um organismo das coisas boas da vida.»

    É parte importante do que defendo o aborto eliminar aquelas experiências subjectivas de valor que, sem o aborto, iriam ocorrer. Não é importante que sejam tudo experiências do mesmo organismo. O que importa é a relação causal entre aquilo que é eliminado e a decisão de o eliminar.

    «Mesmo que isso não seja imediatamente claro, este argumento pressupõe uma perspectiva metafísica: cada um é numericamente idêntico ao seu organismo e, portanto, persiste no tempo em virtude de uma certa continuidade biológica.»

    Não. Se eu puxar o gatilho da pistola sabendo que isso faz soltar o cão, detonar o fulminante, explodir a carga no cartuxo, impelir a bala e perfurar o teu crânio, condenar eticamente o meu acto por eliminar uma subjectividade futura que tu irias viver não exige presumir qualquer continuidade biológica entre o gatilho e tu. Nem sequer exige presumir continuidade de pessoa no teu futuro. Podes vir a ser uma pessoa que dura muitos anos ou muitas de pouca duração em sequência. O que basta para condenar esse acto é perceber que a eliminação de um futuro com valor subjectivo está causalmente relacionada com a escolha de o eliminar.

    Mais importante ainda, a discussão acerca da continuidade não deriva de qualquer divergência acerca dos factos. Nem sequer acerca dos valores subjectivos desses factos. Deriva apenas de decidir se agregamos certas coisas e lhes chamamos “o mesmo” ou se as diferenciamos e dizemos “é outro”.

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