domingo, outubro 12, 2014

De onde vem a ética?

O Jónatas Machado comenta regularmente neste blog, como “Perspectiva” ou “Criacionismo Bíblico”. Infelizmente, os seus comentários são tão repetitivos e desligados dos posts que comenta que deixei de olhar para eles. Mas chamaram-me a atenção para uma excepção, no post sobre a igualdade de direitos, que é um bom ponto de partida para algo que me interessa. Escreve o Jónatas que «ficamos sem saber porque é que o facto as pessoas sentirem, desejarem, planearem, sonharem e pensarem lhes confere dignidade e direitos iguais. Especialmente quando se acredita que as pessoas são um acidente cósmico», pondo em seguida as seguintes questões: «Como é que um acidente cósmico pode reclamar dignidade intrínseca? […] E reclama dignidade diante de quem? Que norma obriga um acidente cósmico a reconhecer a igual dignidade de outra acidente cósmico?». Finalmente, alega que «O princípio da igualdade não faz sentido à luz de uma visão ateísta» e que «O princípio da igualdade é, na realidade, uma doutrina cristã, cuja origem está em Génesis. Ele baseia-se no facto de homens e mulheres terem sido criados à imagem e semelhança de Deus.» (1) Penso que quem não for fundamentalista religioso percebe que estas alegações são falsas. Mas, como de costume, o que me interessa mais é detalhar o porquê.

Comecemos pelo mais fácil. Se alguém me pisa eu digo “Au! Está a pisar-me!” É fácil perceber que a minha capacidade de sentir, pensar e falar bastou para que reclamasse dessa violação da minha integridade. É também natural que eu dirija a minha reclamação a quem me pisou. Este mecanismo é comum nos animais. Se o Jónatas pisar a cauda de um cão grande, o animal irá reagir sem dificuldade em saber contra quem e facilmente lhe ocorrerá como persuadir o Jónatas a não repetir a brincadeira. É verdade que isto não tem nada de ético, mas já lá vamos. O importante primeiro é perceber que o mecanismo para identificar estes conflitos, reclamar deles e coagir para que não se repitam é consequência natural de capacidades sensoriais, motoras e cognitivas comuns em várias espécies.

Quando animais destes vivem em grupos, a pressão para reduzir conflitos e maximizar benefícios condiciona padrões colectivos de comportamento. Assim, em galinheiros, matilhas de lobos e grupos sociais de golfinhos, por exemplo, surgem normas implícitas, aprendidas por cada nova geração pela socialização com os mais velhos, e que regulam comportamentos que vão desde quem pode dar bicadas em quem até estratégias complexas de caça e reprodução. Na nossa espécie, a capacidade de codificar estes padrões em linguagens e ritos cria a moral, um conjunto de normas e de regras explícitas que condicionam o comportamento de indivíduos em cada cultura. É comum invocar-se deuses para ameaçar infractores ou justificar as regras mas, em rigor, isso seria dispensável. Talvez dizer “se roubas cortamos-te as mãos” não seja tão eficaz como dizer “roubar é pecado aos olhos de Xumbundu, por isso se roubas cortamos-te as mãos e Xumbundu condenará a tua alma ao inferno das mil diarreias”. Mas a diferença, se houver, será meramente quantitativa. A ideia é a mesma: as normas surgem pela interacção dos elementos do grupo, esses elementos encarregam-se de coagir o respeito pelas normas e a moral que daí advém é apenas a representação simbólica de padrões que cristalizaram sem plano nem propósito. Com isto já se faz leis, religiões, costumes, castas, tradições e regras sociais complexas. Mas, como há muitos pontos de equilíbrio nestes sistemas complexos, a moral de uma sociedade pode ser muito diferente daquela que surge noutra e pode incluir racismo, escravatura, tortura, despotismo e outras injustiças terríveis, conforme calhe. Quanto a isto, a religião de nada adianta.

A ética é um bicho diferente porque não é feita de comportamentos, nem de normas, nem de regras, direitos ou obrigações. A ética é feita de perguntas. Quando Sócrates perguntou o que é a virtude, todos os seus contemporâneos julgavam que a resposta era óbvia. Mas não era. Nem é. Porque não devemos roubar? Quando é legítimo matar? Viver é um direito, um privilégio ou uma obrigação? Estas perguntas são importantes porque impedem uma adesão cega ao sistema moral que nos tenha calhado e permitem uma abordagem consciente e racional dos problemas. Eu considero que homens e mulheres têm direitos iguais porque considero que são equivalentes naquilo que importa para ter direitos, como sentir, pensar e dar valor à sua existência. O Jónatas acha que é por «terem sido criados à imagem e semelhança de Deus» mas essa premissa não tem fundamento factual, não passa de uma interpretação possível para a rábula da costela e nem sequer é consensual no cristianismo. Também não permite estender a noção de direitos a animais de outras espécies que, apesar de não serem semelhantes ao deus do Jónatas, partilham connosco muito daquilo que justifica ter direitos.

A ética serve para substituir os mecanismos cegos de estabilização de comportamentos pelo debate consciente e as racionalizações do status quo por justificações racionais. Os princípios que daí advêm depois podem ser transpostos para normas, como leis, formas de governo e afins, corrigindo gradualmente os erros do passado. Ao contrário do que o Jónatas defende, a religião não traz benefícios nisto porque é apenas mais um legado desses mecanismos primitivos que dominaram as sociedades até há poucos séculos. Os mesmos mecanismos que governam galinheiros e matilhas. E a ética não pode vir de Deus porque a ética não é algo que nos dão. É algo que temos de fazer por nós, pois exige questionar, reflectir e perceber os problemas de outras perspectivas. O único deus que poderia participar nesta actividade seria um deus filósofo, disposto a dialogar e a justificar as suas posições. Mas como um deus filósofo não é útil aos sacerdotes, as religiões só inventam deuses déspotas, prepotentes e preconceituosos, que nada podem contribuir para esta empreitada.

1- Igualdade e diferenças, segundo comentário.

25 comentários:

  1. Eu ia comentar apenas para complementar essa ótima postagem, mas basicamente esse vídeo aqui é muito mais completo do que qualquer coisa que eu falasse. Un Saludo

    https://www.youtube.com/watch?v=e0Dl2O3Q9es

    *Ps. Sou outro Jonatas, Jonatas do AstroPT, tenho nada a ver com esse "chatista bíblico".

    ResponderEliminar
  2. E dentro da ética temos ainda as várias vertentes que analisam moralidade. eu sou principalmente fã da mata-ética , ou o campo que questiona o que é o bem e e o que é o mal. Sendo bióloga e evolucionista eu me preocupo mais com a origem do sentimento moral. Donde vêm essas regras que paracem ser universais em todas as sociedades humanas? Na verdade, são regras que são comuns a muitos outros grupo sociais não humanos. Existem comportamentos básicos cuja função é simlesmente equilibrar um sistema de multiplos individuos cada um com uns certos graus de liberdade. Esses factores comuns são,
    1. Co-operação, o que leva á evolução do altruismo . Co-operação equilibra com competição.
    2. Sentido de justiça (fairness). Observado em vários estudos comportamentais em primatas, canídeos e corvídeos.
    3. Empatia que se sabe estar presente em várias espécies de mamíferos e aves e provávelmente explicável pelo mecanismo dos neuróniso espelho.

    Estes 3 factores são os pilares que suportam o banco da moralidade. Há evidência da sua existência em espécies animais para além de humanos.

    Os jogos do Dilemma do Prisioneiro exemplificam como qualquer sistema complexo composto por multiplos individuos, tende para a um equilibrio dinâmico baseado em co-operação e numa estratégia de tit-for-tat. Creio que em Português a frase tit-for-tat pode ser traduzida como "eu retribuo com o comportamento que você executou sobre mim".

    Claro que como em tudo, cooperação , altruismo, empatia e fairness ( justiça), encontra o seu antónimo no outro lado da escala. Competição/egosimo, crueldade/agressão e injustiça/gula. A vida acontece numa linha directora entre cada um destes extremos e as populações são uma mistura de vários graus destas caracteristicas tornando a moralidade num sistema dinâmico balançando entre os dois extremos e procurando um ponto de equilibrio.

    Na verdade, tudo isto se prende com o conceito de resource availability. Enquanto houver recursos suficientes para todos os elementso da população, as pessoas podem dar-se ao luxo de se comportarem de acordo com regras de moral. O que é interessante é estudar quando esses recursos são curtos e põem pressão sobre uma sociedade. Aqui é que se vê o peso que as regras de moral têm nos Homem. quando a chacina dum grupo é justificada para a sobrevivência do outro grupo, então as regras de moral são válidas apenas no intra-grupo. Que melhor exemplo disto temos nós, senão a chacina religiosa?

    ResponderEliminar
  3. E meter um livro religioso na equação não me parece que vá ajudar.

    Em primeiro lugar seria necessário fundamentar qual o livro ditado ou inspirado pelos deuses

    Depois era necessário definir qual a versão e tradução a utilizar.

    Finalmente qual a forma de interpretar.

    Ora é sabido que os deuses, a exemplo dos políticos e agentes financeiros expressam-se por enigmas.

    Não tem por hábito dizer sim sim ou não não.

    Portanto mesmo que tivessemos um grande grau de certeza que um ou mais livros sagrados eram inspirados ou mesmo ditados pelos deuses, fosse possível determinar qual a versão e tradução era mais fiel tinhamos sempre o problema da interpretação.

    Basta abrir a Bíblia na primeira página e perguntar a um católico ou evangélico qual o significado do Génesis para vermos a variação da interpretação.




    ResponderEliminar
  4. "Assim, em galinheiros, matilhas de lobos e grupos sociais de golfinhos, por exemplo, surgem normas implícitas, aprendidas por cada nova geração pela socialização com os mais velhos, e que regulam comportamentos que vão desde quem pode dar bicadas em quem até estratégias complexas de caça e reprodução"

    É talvez apenas um pormenor. As normas de regulação de comportamentos não são (longe disso) aprendidas por socialização. Já vém programadas de fábrica. E sendo um facto que o homem não é o único animal cultural, tenho dúvidas que as galinhas o sejam.....

    ResponderEliminar
  5. Ludwig

    «A ética é um bicho diferente porque não é feita de comportamentos, nem de normas, nem de regras, direitos ou obrigações. A ética é feita de perguntas.»

    Quem diria pior?
    Com que então, vamos lá, havemos de adotar a definição de ética do Ludwig. É decreto régio. Todas as outras não interessam, a partir daqui, é assim. Nem que os dicionários e enciclopédias digam o contrário, ou as vacas tussam.

    «Com isto já se faz leis, religiões, costumes, castas, tradições e regras sociais complexas.»

    Aí está! Com os átomos se faz tudo.

    «Quanto a isto, a religião de nada adianta.»

    A religião do Ludwig é contra Deus. Não é contra o pai natal, nem o esparguete voador, nem as histórias da carochinha, nem os deuses... É a religião dos que negam a existência de Deus e rejeitam tudo o que se diz de Deus, não por ser falso ou imoral ou desumano ou injusto ou absurdo, ou mau, mas por ser atribuído a Deus.
    Como o Ludwig vai dizendo, religiões há muitas. A do Ludwig é tão antiga como as outras.
    É a religião do absurdo, que procura na racionalidade o absurdo ou, que procura no absurdo a racionalidade.
    Mas a religião, incluindo obviamente a do Ludwig, é a racionalidade à procura de si mesma, porque o homem, entre as formas de ser inteligente, nem sempre opta pelo sentido do sacrifício ao humano, que é divino.
    E a religião, tal como a ciência, não fazem favores de inverdade de consciência.

    ResponderEliminar
  6. Humberto,

    «As normas de regulação de comportamentos não são (longe disso) aprendidas por socialização. Já vém programadas de fábrica.»

    Não me parece. Talvez a galinha já venha “programada de fábrica” com um mecanismo que lhe permita ir determinando, pela experiência, que galinhas estão acima ou abaixo de si na hierarquia. Mas é duvidoso que já venha com a lista feita quando sai do ovo...

    Quanto aos mamíferos, por regra têm períodos críticos de socialização indispensáveis para poderem aprender a viver no grupo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obviamente a lista não vem programada. Mas as regras sobre como se posicionam na lista já vém programadas. Os lobos tém dois meses para aprender a socializar. Estão programados para adquirir a socialização nesses dois meses, mas não aprendem a caçar com as gerações mais velhas, o que não quer dizer que não aprendam a sua posição na matilha quando vão caçar. Mas as elaboradas técnicas de caça em conjunto já estão programadas. Isto não significa que não as refinem ao longo da vida. Da mesma forma, a entre-ajuda na criação das ninhadas de lobinhos também já vem programada.
      Também os gansos vém programados para aprender quem é a mãe durante a primeira meia hora de vida, mas obviamente não vém programados com o conhecimento de quem é a mãe.....
      Os ursos, que são animais culturais, já trazem na bagagem muita da informação sobre como se relacionarem uns com os outros. Grande parte da moral já vem programada. Mas também conseguem passar conhecimentos de geração para geração. Os ursos que habitam determinado território sabem que não podem comer determinadas bagas por serem venenosas, por ex. Outros ursos, com origem diferente, comê-las-iam.
      Em suma, o que estou a dizer é que aquilo a que podemos chamar moral de uma espécie já vem, em grande parte, programada de fábrica. Isto não quer dizer que seja exclusivamente programada. O mesmo acontece com os humanos. Mas essa é uma grande história.....
      Continuo a duvidar muito que as galinhas sejam uma espécie cultural. Acho que não há conhecimentos que perdurem entre gerações de galinhas......

      Eliminar
  7. Carlos,

    «Com que então, vamos lá, havemos de adotar a definição de ética do Ludwig.»

    Não estou a definir ética. Não são as coisas que se define. O que estou é a esclarecer como uso o termo “ética”. Ou seja, o que quero referir com essa palavra.

    Nisto, distingo duas coisas diferentes. Uma é um conjunto de normas e regras a que recorremos para avaliar ou guiar o comportamento. Quando designo isso uso a palavra “moral”, do latim “mores”, que referia os costumes e convenções sociais. Outra é a prática de questionar sistemas morais para tentar perceber se alguns têm mais mérito e porquê. Para designar isso uso a palavra “ética” do grego “ethos” que se referia a algo mais próximo de carácter, personalidade, rectidão. Esta não é uma correspondência perfeita, porque há uma grande sobreposição entre “ethos” e “mores”, mas desenrasca para fazer a distinção que quero entre o sistema de regras e a atitude de o questionar e avaliar.

    Se quiseres chamar “batata” a um e “bzidróglio” ao outro, por mim tudo bem. Desde que fique claro o que queres dizer tanto me faz. O importante para mim é não se confundir as duas coisas, porque são muito diferentes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. OS PROBLEMAS LÓGICOS DO LUDWIG COM VALORES E NORMAS MORAIS

      1) O Ludwig é naturalista, acreditando que o mundo físico é tudo o que existe. Sendo assim ele tem um problema, porque valores e normas morais não existem no mundo físico.

      2) O Ludwig diz que a observação científica é o único critério válido de conhecimento. Ora, nunca ninguém observou valores e normas morais no campo ou em laboratório.


      3) O Ludwig diz que a moral é subjectiva. Ora, se são os sujeitos que criam valores e normas, eles não estão realmente vinculados por eles, podendo cada um criar valores e normas a seu gosto, o que nega a existência de normas morais.

      4) Se a moral é subjectiva, como o Ludwig diz, dificilmente se poderá justificar qualquer pretensão de conferir validade universal às pretensas normas proclamadas pelo Ludwig.

      5) O Ludwig está sempre a dizer aos outros que não devem dizer aos outros o que devem ou não devem fazer. Ou seja, ele faz exactamente o que diz que os outros não devem fazer.

      6) De milhões de anos de processos aleatórios de crueldade, dor, sofrimento e morte não se deduz logicamente qualquer valor intrínseco do ser humano nem qualquer dever moral de fazer isto ou aquilo.

      Conclusão: sempre que fala em valores e normas morais o Ludwig é irracional e arbitrário.

      P.S.

      É claro que muitos ateus têm valores! Também eles foram criados à imagem de um Deus moral e muitos vivem com dignidade e liberdade numa civilização judaico-cristã.

      O problema é que os ateus não conseguem justificar logicamente esses valores a partir da visão do mundo naturalista e evolucionista a que aderem pela fé.

      Como diz a Bíblia (Romanos 1, 21 e 22):

      “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças…”
      “…dizendo-se sábios, tornaram-se loucos”.

      Eliminar
  8. Humberto,

    Há mecanismos inatos mas o desenvolvimento exige aprendizagem. Por exemplo, a falta de estímulos visuais nas primeiras semanas após o nascimento pode impedir a formação do córtex visual. Nem sequer a capacidade de ver é “programada” à nascença. Isto acontece também com o comportamento social.

    Dizer que uma parte é “programada de fábrica” e uma parte é aprendida é como dizer que parte da música vem do violinista e parte vem do violino. Não é bem verdade. Vem toda de ambos, porque tirando qualquer um deixa de haver música.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. claro..... o meu comentário foi no sentido de retirar a aparente "exclusividade da aprendizagem" no teu post.
      Mas sim, a capacidade de ver é programada à nascença. A questão é que a programação não chega. E as "regras morais" das espécies também veem programadas, mas também não chega. Especialmente para espécies muito plásticas (de que o homem é o melhor exemplo) estas regras pré-programadas nem sempre são óbvias, mas gosto de procurar vê-las, procurar explicar comportamentos aparentemente estranhos, muito sofisticados, muito culturais, com vectores simples, inatos na espécie.

      Eliminar
  9. Eu já sinto a falta dos mesmos e repetivios copy+paste...
    Nada como fazer "pgdn" até ao infinito e mais além!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Eliminar
  10. É interessante alguém ter chamado a atenção do Ludwig das posições do criacionismo Bíblico.

    Provavelmente acharam que ele se deveria vir defender a sua dama naturalista e ateísta. O problema é que, mais uma vez, as respostas do Ludwig não são convincentes.

    Em primeiro lugar, o facto de alguém se queixar, não significa que tenha direitos diante de um agressor. Alguém pode simplesmente responder ao queixoso que os mais fortes têm um direito natural sobre os mais fracos, como diziam alguns filósofos da antiguidade.

    Afinal, não defendem os darwinistas que todos somos o resultado de milhões de anos de crueldade predatória? Alguém se preocupa quando os leões matam as gazelas?

    Não dizia Charles Darwin que a crença na dignidade humana é produto de orgulho e preconceito natural e que a seleção natural começou nas lutas entre tribos?

    Por essas e por outras, o filósofo evolucionista Michael Ruse defendeu que a moral não passa de uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes, desprovida de qualquer substância normativa.

    É claro que temos capacidade para codificar padrões. Mas e daí? Qual é o padrão a que esses padrões se subordinam? Quem o define? Com que autoridade?

    Imaginemos que alguém codificava que o extermínio de uma minoria étnica passava a ser a norma ou que a tortura é um meio legítimo de obter uma confissão ou uma informação. Isso é errado?

    Quem o define? Com que critério? E se essa for a norma nessa cultura? Demos aceitá-la como boa? E se a norma for a de que se deve beber o sangue do inimigo, como se fazia nalguns povos da antiguidade?

    Se as normas surgem pela simples interação das pessoas, então Hitler estava totalmente correto quando emitiu normas enviando os judeus para o Holocausto. Como podemos censura-lo?

    De qualquer norma, mesmo da que manda matar um inocente, se pode dizer que surgiu da interação entre pessoas e da nossa capacidade de codificar estes padrões em linguagens e ritos.

    A Bíblia ensina que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, estando sujeito à lei moral que Ele estabeleceu.

    Ela ensina que todos os desvios à igual dignidade do homem são desvios à lei moral de Deus em todos os tempos e lugares. Daí decorre logicamente um direito universal à autonomia e à responsabilidade moral a um estatuto de igual dignidade.

    Foi precisamente na sequência da redescoberta da Bíblia, na Reforma Protestante, que esses princípios foram codificados no movimento constitucional suíço, holandês, inglês e norte-americano.

    A convicção dos criacionistas bíblicos é que se trata de uma premissa com base factual. Ela era encarada por Moisés e os Profetas e por Jesus e os discípulos como factual.

    Pelo contrário, o surgimento de tudo a partir do nada (violando a lei da conservação da energia) ou da vida a partir de químicos inorgânicos (violando a lei da biogénese) é que é especulação sem base científica e contra ela.

    É nessa base especulativa e imaginativa que os evolucionistas assentam as suas ruminações sobre moral e ética.

    Os cristãos que rejeitam a base Bíblia forma enganados a pensar que a ciência provou a evolução cósmica, química e biológica, o que é absolutamente falso.

    É porque a Bíblia é verdadeira que faz sentido dizer que os seres humanos têm direitos objetivos e universais que se impõem a todo o poder humano em todos os tempos e lugares.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cristianismo Bíblico: "Foi precisamente na sequência da redescoberta da Bíblia, na Reforma Protestante, que esses princípios foram codificados no movimento constitucional suíço, holandês, inglês e norte-americano."

      Exemplos desses princípios:
      * "The word and works of God is quite clear, that women were made either to be wives or prostitutes."

      * "God created Adam master and lord of living creatures, but Eve spoilt all, when she persuaded him to set himself above God's will. 'Tis you women, with your tricks and artifices, that lead men into error."

      * " I suffer not a woman to teach. Not that he takes from them the charge of instructing their family, but only excludes them from the office of teaching, which God has committed to men only." ... "For Adam was first created He assigns two reasons why women ought to be subject to men; because not only did God enact this law at the beginning, but he also inflicted it as a punishment on the woman." ... "Moses shews that the woman was created afterwards, in order that she might be a kind of appendage to the man; and that she was joined to the man on the express condition, that she should be at hand to render obedience to him."

      * "[the women are] the weaker vessel, in both body and mind and that her husband ought not to expect too much from her"

      Eliminar
  11. Criacionismo Bíblico disse: "Em primeiro lugar, o facto de alguém se queixar, não significa que tenha direitos diante de um agressor."
    Ludwig tinha dito: "É verdade que isto não tem nada de ético, mas já lá vamos. O importante primeiro é perceber que o mecanismo para identificar estes conflitos, reclamar deles e coagir (...)"

    Criacionismo Bíblico disse: "É claro que temos capacidade para codificar padrões. Mas e daí? (...) Imaginemos que alguém codificava que o extermínio de uma minoria étnica passava a ser a norma ou que a tortura é um meio legítimo de obter uma confissão ou uma informação. Isso é errado?"
    Ludwig tinha dito: "Na nossa espécie, a capacidade de codificar estes padrões em linguagens e ritos cria a moral, um conjunto de normas e de regras explícitas que condicionam o comportamento de indivíduos em cada cultura. (...) a moral de uma sociedade pode ser muito diferente daquela que surge noutra e pode incluir racismo, escravatura, tortura, despotismo e outras injustiças terríveis (...) A ética é um bicho diferente porque não é feita de comportamentos, nem de normas, nem de regras, direitos ou obrigações. A ética é feita de perguntas. (...) Estas perguntas são importantes porque impedem uma adesão cega ao sistema moral que nos tenha calhado e permitem uma abordagem consciente e racional dos problemas."

    Criaicionismo Bíblico:
    1) "Afinal, não defendem os darwinistas que todos somos o resultado de milhões de anos de crueldade predatória?"
    Irrelevante: ser não é dever.

    2) "Alguém se preocupa quando os leões matam as gazelas?"
    O Ludwig é vegetariano por se preocupar com isso...

    3) "Não dizia Charles Darwin que a crença na dignidade humana é produto de orgulho e preconceito natural e que a seleção natural começou nas lutas entre tribos?"
    Irrelevante: só porque Charles Darwin disse algo não significa que seja verdade e além disso ele não foi referido no artigo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. http://www.revista.vestibular.uerj.br/coluna/coluna.php?seq_coluna=68 :
      "A moral incorpora as regras que temos de seguir para vivermos em sociedade, regras estas determinadas pela própria sociedade. Quem segue as regras é uma pessoa moral; quem as desobedece, uma pessoa imoral.

      A ética, por sua vez, é a parte da filosofia que estuda a moral, isto é, que reflete sobre as regras morais. A reflexão ética pode inclusive contestar as regras morais vigentes, entendendo-as, por exemplo, ultrapassadas."

      Eliminar
    2. Quem quiser estudar a relação entre a visão evolucionista da vida e o direito, pode estudar o recente livro do filósofo do Direito, Thomas Nagel, da Universidade de Nova York, por sinal ateu e secularista, sugestivamente intitulado: Mente e Cosmos: Porque é que a visão neo-darwinista e materialista do mundo está quase de certeza errada.

      A única coisa que o separa do Criacionismo Bíblico é o "quase".

      Eliminar
  12. O LUDWIG E A BASE FACTUAL DA CRIAÇÃO E DA EVOLUÇÃO

    O Ludwig diz que não se pode deduzir as normas morais logicamente a partir da Criação porque a mesma não tem qualquer base factual.

    Curiosamente, esta afirmação é feita por alguém que escreveu “não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé”.

    Ele acredita na evolução, não por causa da existência de provas, mas apesar da sua inexistência!

    Isso é assim porque para ele e para o seu mundinho é necessário que Deus não exista.

    Em todo o caso, ele reconheceu que a teoria da evolução não tem nenhuma base factual.

    E no entanto, ele pretende deduzir uma “moral subjetiva, cultural e contextual” dessa não-base, em que A e não-A podem ser normas morais ao mesmo tempo, violando a lei da lógica da “não contradição”.

    O resultado, como se vê, é uma moral ilógica e irracional.

    Que outra coisa seria de esperar de alguém que acha que o Universo, a vida e o Homem são o resultado de processos irracionais?

    Em sentido diferente, os criacionistas concordam com o Ludwig quando diz que “não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé”.

    Para os criacionistas isso é assim exactamente porque não existiu essa evolução, tendo havido criação por um Criador comum.

    Para os criacionistas o Universo, a vida e o Homem foram criados por um Deus racional e moral. Daí a extrema sintonia do Universo para a vida e a quantidade inabarcável de informação codificada de que esta depende.

    A ciência funciona porque isto é verdade.

    As leis morais de Deus decorrem da sua natureza, sendo universais e intemporais porque isso decorre da omnipresença e da eternidade de Deus. Delas podemos deduzir pretensões morais objetivas de igual dignidade, liberdade e responsabilidade moral do ser humano.

    A história do constitucionalismo moderno mostra que homens como Hugo Grócio, Samuel Puffendorf, Edward Coke, Roger Williams, William Penn, John Milton, John Locke ou Thomas Jefferson, entre muitos outros, deduziram a dignidade e os direitos do homem da premissa de que “todos os homens foram criados iguais”.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Criacionismo Bíblico: «esta afirmação é feita por alguém que escreveu “não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé”.

      Ele acredita na evolução, não por causa da existência de provas, mas apesar da sua inexistência!»

      Ludwig: "(...) este filme recorre muito a um erro fundamental do criacionismo: a ideia de que uma posição factual se deve fundamentar numa só peça de evidência incontestável em vez de, como acontece na realidade, assentar numa rede coerente de indícios individualmente fracos mas que são persuasivos em conjunto. (...) Não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé. Mas, perante o conjunto das evidências, a hipótese é claramente plausível. (...) Basta juntar as peças."

      Fallacy Files: "To quote out of context is to remove a passage from its surrounding matter in such a way as to distort its meaning. The context in which a passage occurs always contributes to its meaning, and the shorter the passage the larger the contribution. (...) opponents are quoted out of context in order to misrepresent their position, thus making them easier to refute. Frequently, the loss of context makes them sound simplistic or extreme."

      Fallacy Files: «As the "straw man" metaphor suggests, the counterfeit position attacked in a Straw Man argument is typically weaker than the opponent's actual position, just as a straw man is easier to defeat than a flesh-and-blood one. Of course, this is no accident, but is part of what makes the fallacy tempting to commit, especially to a desperate debater who is losing an argument. Thus, it is no surprise that arguers seldom misstate their opponent's position so as to make it stronger.»

      Wikipedia: "Scientists and their supporters used the term quote mining as early as the mid-1990s in newsgroup posts to describe quoting practices of certain creationists. The term is used by members of the scientific community to describe a method employed by creationists to support their arguments, though it can be and often is used outside of the creation–evolution controversy."

      Eliminar
    2. O LUDWIG CONFESSA: NÃO EXISTE NENHUMA PROVA DEFINITIVA DE QUE O HOMEM EVOLUIU

      Recentemente, o Ludwig escreveu:

      “Não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé.
      Mas, perante o conjunto das evidências, a hipótese é claramente plausível.”

      Esta afirmação do Ludwig é muito interessante, porque vem depois de alguns anos de debate com criacionistas. Foi difícil extrair esta confissão, mas ela lá acabou por sair!

      Custou, mas foi!

      A afirmação do Ludwig confirma o conselho que os criacionistas dão aos leitores de artigos científicos para distinguirem entre os factos (a assinalar com cor amarela) e interpretações e especulações a partir dos factos (a assinalar com cor de rosa).

      Quem usar esta metodologia depressa irá ver que as “provas” da evolução de partículas para pessoas, ou de um antepassado comum para chimpanzés e humanos, estarão sempre na parte cor-de-rosa. Assim é porque, como diz o Ludwig, “não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu”.

      Curiosamente, apesar de reconhecer isso, Ludwig concluir que “perante o conjunto das evidências, a hipótese é claramente plausível.” Mas como se pode concluir isso se “não há nenhuma prova isolada e definitiva de que o ser humano evoluiu de um antepassado distante unicelular, ou de um antepassado primata comum ao chimpanzé”?

      O que vemos aqui e agora são chimpanzés e seres humanos (as semelhanças e diferenças entre eles devem ser marcadas a amarelo).

      O hipotético antepassado comum e os milhões de anos de evolução têm, quando muito, que ser imaginados especulativamente (e por isso devem ser marcados a cor-de-rosa).

      Além disso, a frase do Ludwig adequa-se muito bem à ideia, que temos vindo a sustentar, de que os factos são os mesmos, para criacionistas e evolucionistas. A ciência é a mesma para uns e para outros. Nos factos, criacionistas e evolutionistas estão de acordo.

      Não existe nenhum facto observado que os criacionistas neguem.

      O problema é que, no entender dos criacionistas, a hipótese da evolução nem sequer é cientificamente plausível.

      Vejamos porquê:

      Hoje sabe-se que existem grandes diferenças epigenéticas entre chimpanzés e seres humanos, o que significa que a regulação da expressão da informação genética comum a ambos é, afinal, muito diferente.

      Mais, o “junk-DNA” que se pensava guardar vestígios da suposta evolução, é afinal fundamental para regular a expressão genética e até a codificação de muitas proteínas, contrariamente ao que se pensava.

      Além disso, sabe-se que as mutações são esmagadoramente deletérias, criando disfunções, doenças e morte, à razão de 1 000 000 de mutações deletérias por cada 1 mutação benéfica.

      O problema é que essas mutações tendem a acumular-se, sendo que a esmagadora maioria acaba por não ser eliminada por seleção natural, degradando progressivamente o genoma.

      Qual seria o resultado depois de vários milhões de anos de acumulação de mutações?

      Um outro problema, não menos grave para os evolucionistas, é que todo o conjunto das evidências realmente observadas relativas a chimpanzés, homens, mutações e seleção natural (assinaladas a amarelo) pode ser interpretado facilmente à luz do que a Bíblia ensina acerca de um Criador comum, de uma criação recente e da corrupção e decaimento que afeta toda a natureza criada desde que o pecado entrou no mundo.

      Ou seja, as evidências em si mesmas corroboram o que a Bíblia ensina. Só as interpretações e especulações dos evolucionistas é que contrariam a Bíblia.

      Eliminar
  13. É verdade que a ideia de igualdade não vem da biologia e é na verdade muito recente. Durante centenas de milhares de anos a nossa espécie e outras espécies de Sapiens viveram movidas pelo conceito "Nós e os outros", sendo os outros aqueles que viviam no vale ou no monte seguinte.
    Mesmo quando começámos a ter estruturas sociais mais complexas, como os primeiros impérios há cerca de 4000 ou 5000 anos, as leis que regulavam a sociedade não eram propriamente igualitárias. Mesmo nos embriões da democracia havia escravos e as mulheres eram quase sempre propriedade dos pais ou maridos.

    É também verdade que a evolução não nos tornou iguais visualmente. Há grandes e pequenos, há escuros e claros, há homens e mulheres.

    Talvez seja verdade que a ideia de igualdade seja Cristã. Não quer dizer que isso seja absolutamente claro e que não deixe margem para ambiguidades, afinal de contas a segregação racial, de género ou de estrato continuaram até há muito poucas décadas (e claro na prática ainda continuam mas em termos de senso geral, leis, políticas há uma tendência de igualdade).

    Agora, essa ideia é apenas mais uma que encontrámos como uma forma de funcionamento da sociedade, que aparentemente parece melhor que outras, pelo menos aos nossos olhos ocidentais do sec. XXI, mas nada disto é absoluto e muito menos tem algo de divino.

    ResponderEliminar
  14. A IRRACIONALIDADE DA CONCEPÇÃO DO LUDWIG SOBRE DIGNIDADE HUMANA

    O Ludwig diz que a questão da dignidade humana não pode ficar dependente da questão factual da existência de Deus.

    No entanto, a ideia de dignidade da pessoa humana é uma doutrina da teologia judaico-cristã!

    Só tem sentido falar em dignidade humana se for verdade que Deus criou o homem e a mulher à Sua imagem, tendo-os dotado de racionalidade, moralidade, criatividade e subjectividade comunicativa e relacionai.

    Diferentemente, a dignidade humana nunca poderia ser logicamente deduzida da mitologia grega, em que os próprios deuses se devoravam uns aos outros, de forma arbitrária e sem qualquer respeito pela dignidade uns dos outros, ao mesmo tempo que se compraziam a impor sofrimento e morte aos seres humanos sem qualquer justificação moral.

    Do mesmo modo, ela nunca poderia ser logicamente deduzida da ideia evolucionista de que o ser humano é um acidente cósmico, sem qualquer valor intrínseco, resultante de milhões de anos de processos aleatórios, predação, dor, sofrimento e morte...

    O próprio Charles Darwin afirmou que, do ponto de vista evolucionista, falar em dignidade da pessoa humana é uma manifestação de preconceito natural e orgulho natural...

    A dignidade da pessoa humana é uma doutrina bíblica, fundada na noção de que o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus e salvos por Ele.


    ResponderEliminar
  15. INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA:

    Quem quiser estudar a relação entre a visão evolucionista da vida e o direito e as normas morais, pode estudar o recente livro do filósofo do Direito, Thomas Nagel, da Universidade de Nova York, por sinal ateu e secularista, sugestivamente intitulado: Mente e Cosmos: Porque é que a visão neo-darwinista e materialista do mundo está quase de certeza errada.

    A únca coisa que o separa do Criacionismo Bíblico é o "quase".



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. «A únca (sic) coisa que o separa do Criacionismo Bíblico é o "quase".» - Não. Há mais alternativas. O criacionismo Bíblico não é a única, nem de perto nem de longe.

      Eliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.