segunda-feira, maio 21, 2012

Treta da semana (passada): constelações familiares.

Recebi há dias um email da Akademia do Ser anunciando o «Grupo de Constelações com Maria de Fátima da Luz», entre outras coisas. Serve este post para agradecer o spam.

O método das «Constelações Familiares e Organizacionais […] revela onde está a dor causada por acontecimento trágico[...] Identificando e consciencializando o acontecimento é possível aceitar, respeitar e honrar para que o amor volte a fluir.»(1) Para conseguir isto, «O cliente coloca o tema que deve ser claro, importante ou urgente. O cliente escolhe figuras (na sessão individual) ou participantes (na sessão em grupo) para cada um dos primeiros representantes sugeridos pelo facilitador colocando-os segundo a imagem interna que tem. Ambos observam respeitosamente. […] A imagem final – Constelação – é a imagem que o consulente deve guardar – a solução».

À primeira vista, pode parecer estranho que escolher umas figuras e observar respeitosamente dê a solução para problemas como «Conflitos entre familiares; Doenças físicas; Doenças psíquicas; Insucessos escolares; Insucessos profissionais; Problemas financeiros; Outros». Especialmente a última categoria, que me parece demasiado abrangente. Mas isto tem a sua lógica. Com ênfase no “sua”. O método das constelações foi criado por Bert Hellinger, ex-monge missionário entre os Zulu, formado em filosofia. teologia e psicanálise (2). Como explica na “dimensão espiritual” da sua ciência, a “Hellinger sciencia®”, «Todo o movimento, especialmente de um ser vivo, é um movimento compreendido, consciente, propositado. Este conceito pressupõe uma consciência nessa força que move tudo. Por outras palavras: Todo o movimento é um movimento pensado. O movimento começa porque é pensado por esta força, e torna-se movimento da maneira que é pensado.»(3) Como é norma entre as tretologias, inventa-se um conceito, esse conceito pressupõe uma alegação qualquer e, daqui, conclui-se que a alegação é verdadeira. É falacioso até ao tutano mas, há que reconhecer, este não se envergonha da falácia. Muitos esforçam-se mais por disfarçar.

Na Akademia do Ser, a terapeuta das constelações é Maria de Fátima da Luz (4), que tem uma longa experiência a lidar com distúrbios mentais («foi professora do ensino público durante 38 anos») e uma capacidade extraordinária para conciliar crenças contraditórias: «A partir de 1997 fez formação em: Feng Shui, Reiki, Terapia Floral, Cura Quântica, Cristais, Biologia da Saúde, Prismologia, Cura Multidimensional, Constelações Familiares, Constelações Organizacionais, Numerologia, Hipnose Clínica, Terapia Regressiva, AMARA “Vida e Morte a Mesma Preparação, Eneagrama.» O que parece enquadrar-se bem na psicoterapia.

Os termos “psicologia”, “psiquiatria” e “psicoterapia” podem suscitar confusão, mas denotam coisas bem diferentes. Em Portugal, a prática da psicologia é regulada pela Ordem dos Psicólogos (5) e a psiquiatria é uma especialidade de medicina (6). A psicoterapia, em contraste, parece ser o que cada um quiser. Uma googladela rápida levou-me à Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica, Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial, Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Construtivistas, Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Interpessoal e Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Breves.

Com isto, fiquei tentado a guardar os poucos escrúpulos que a crise me deixou e fundar a Sociedade Portuguesa da Psicoterapia da Credulidade. Mesmo que não consiga tratar ninguém, com um método holístico de consciencialização existencial ou coisa que o valha não deve ser difícil convencer os clientes de que os curo. É o que basta para o negócio correr bem.

1- Academia do Ser, Constelações Familiares e Organizacionais
2- Wikipedia, Bert Hellinger 3- Hellinger.com, Hellinger sciencia®
4- Akademia do Ser, Maria de Fátima da Luz
5- Ordem dos Psicólogos, FAQ
6- Ordem dos Médicos, Colégio da Especialidade de Psiquiatria

3 comentários:

  1. Hehe. Não menosprezar o poder do placebo! Posso inscrever-me na SPPC? Dão diplomas? É que isto sem diplomas bonitinhos para pendurar na parede, não serve de nada...

    ResponderEliminar
  2. POR FALAR EM DISPARATES:


    Lembram-se quando o Ludwig se autodefiniu como “macaco tagarela”? É verdade! Ele foi a esse ponto para tentar provar a evolução!

    Ele sugeriu que a melhor prova da evolução era ele mesmo: um macaco tagarela!


    Para os criacionistas, o Ludwig é simplesmente um tagarela.

    Mas, por mais que lhe custe, não é macaco.

    E ainda bem, porque senão teríamos um problema epistemológico muito sério, como já Charles Darwin suspeitava quando se interrogava:

    “the horrid doubt always arises whether the convictions of man's mind, which has been developed from the mind of the lower animals, are of any value or at all trustworthy.

    Would any one trust in the convictions of a monkey's mind, if there are any convictions in such a mind?”

    Oops!

    Ao auto descrever-se como "Pithecus Tagarelensis" o Ludwig mete-se num beco sem saída epistemológico.

    ResponderEliminar
  3. Olá. Boa tarde Ludwig.
    Apreciei bastante o seu blog, que só descobri agora.
    Pena que esteja parado.
    Tenho uma proposta a fazer-lhe pelo que gostaria de conversar consigo.
    Como seria isso possível ?

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.