quinta-feira, outubro 13, 2011

Salada.

A propósito das tretas que o Miguel Sousa Tavares disse sobre as touradas, o Filipe Castro escreveu, de passagem, que «só os vegetarianos podem ser totalmente coerentes sendo contra as touradas.»(1) Discordo. Por si só, comer ou não comer um animal morto é eticamente irrelevante, pelo que o vegetarianismo, enquanto restrição alimentar, não tem qualquer fundamento ético. O problema fundamental da ética é o impacto que as nossas escolhas têm na subjectividade dos outros (qualquer que seja a sua espécie), e as nossas escolhas acerca do que comemos não são eticamente relevantes pela comida em si. O problema são o que incentivamos na compra. Isso é mais complicado do que a dieta.

Por exemplo, vamos supor que os cavalos não são abatidos pela carne mas apenas quando já não é economicamente viável mantê-los vivos. Neste caso, comprar carne de cavalo não seria um problema ético, visto não ter impacto no que acontece ao animal. Mas se a procura de carne de cavalo levar o dono a abatê-lo mais cedo, então o valor ético de comprar a carne de cavalo dependerá do valor subjectivo que esse tempo de vida tem para o cavalo. Se o valor for positivo, será eticamente preferível não comprar a carne para não incentivar a que tirem esse tempo de vida ao cavalo. Mas se, pelo contrário, esse período extra for de sofrimento para o animal, por ser obrigado a trabalhar até ao limite, comprar a carne de cavalo será eticamente preferível por reduzir o seu sofrimento. Como este problema é complexo, e como só encontrei carne de cavalo à venda num talho especializado aqui em Odivelas, até agora nem tenho comprado carne de cavalo nem pensado muito no assunto. Mas este exemplo ilustra a complexidade destas decisões.

Os camarões são um caso mais simples. O seu sistema nervoso é tão rudimentar que posso concluir, com confiança, que estes animais não têm qualquer subjectividade, pelo que o que lhes acontece é eticamente irrelevante. Também costumo comprar peixe. Os peixes têm um cérebro relativamente simples e o seu comportamento sugere que não sentem. Muitos julgam o contrário porque os peixes, como os camarões, reagem a danos e estímulos nocivos. Por exemplo, quando mordem o anzol tentam largá-lo. Mas o termostato também se desliga quando aquece e é consensual que não tem uma percepção subjectiva de calor. A resposta a um estímulo, por si só, não demonstra a subjectividade que a ética requer.

Quando um cão ou um cavalo magoam uma pata, nota-se claramente que evitam apoiar-se nela. Com o cérebro que têm, é plausível que o façam por anteciparem a dor que iriam sentir. Mas se partirmos uma pata a um insecto ele continua a tentar usá-la como se estivesse boa, e um peixe que consegue largar o anzol é capaz de o morder novamente logo a seguir, basta que ainda tenha o isco. Isto sugere uma grande diferença na capacidade de sentir dor, ou o que quer que seja. Por isto, dada a forma como são criados e abatidos, evito comprar carne de mamíferos. E também polvo, que tem um cérebro muito diferente do nosso, tendo evoluído independentemente, mas que parece ser inteligente demais para não sentir. A forma como é caçado leva-me a excluir da dieta o arroz de polvo, com muita pena.

Pelo seu cérebro e comportamento, é provável que as aves tenham a tal subjectividade que merece consideração ética. No entanto, é pouco plausível que vida de um frango tenha, por si, valor subjectivo para o frango. Por isso, desde que não sofra, viver ou morrer não lhe fará grande diferença, e o abate de aves é mecanizado e bastante rápido*, ao contrário do que acontece com porcos ou vacas. O problema está na forma como estas aves são criadas em explorações intensivas, pelo que a opção ética será pela criação ao ar livre, tanto para ovos como para carne. No caso do chimpanzé, gorila, golfinho, elefante, baleia e afins, a vida provavelmente tem um grande valor subjectivo para o animal que a vive, pelo que considero a morte destes eticamente próxima da morte de um ser humano.

Escreve também o Filipe Moura que «a moral é uma coisa geográfica, demográfica e social, e que às vezes é difícil estabelecer a verdade sobre um assunto.»(2) Concordo, porque a moral é apenas o conjunto de normas que governam o nosso comportamento em sociedade. Mas o que importa mais é a ética, que avalia essas normas, e essa visa ser mais que meramente geográfica ou social. A escravatura, por exemplo, já foi moralmente aceite mas nunca foi eticamente aceitável. E se bem que decisões como a de que animais mortos devemos comprar dependam de muitos factores incertos – é provável que eu continue a rever as minhas opções conforme vá obtendo mais dados – o fundamento ético não muda. O problema é sempre a responsabilidade pelo impacto das minhas escolhas na subjectividade dos outros.

Por fim, ao contrário do Filipe, eu não «duvido que a melhor maneira de lidar com a questão das touradas seja proibi-las.» A tourada é um espectáculo público cujo principal incentivo é a venda de bilhetes e direitos de emissão televisiva. Proibir a tourada reduziria drasticamente esta prática sem custos significativos de fiscalização, porque não é fácil, nem lucrativo, organizar touradas às escondidas. Muito mais difícil é impedir que lutas de cães, e nem isso é razão para as legalizar. Proibir a tourada não resolveria todo o problema, mas seria um bom passo no sentido de eliminar esta tradição imbecil e cruel.

* É fácil encontrar vídeos a mostrar como as lâminas que deviam degolar o frango às vezes falham e acertam nas asas ou na barriga, mas parece-me que esses acidentes são muito mais raros do que fazem parecer. Esse risco não parece justificar discutir com a minha mulher acerca das aves e arriscar o progresso conseguido com os mamíferos.

1- Filipe Moura, Os apoiantes das touradas não "raciocionam" (ver vídeo)
2- Filipe Castro, A crueldade e os animais

21 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ludwig

    Segundo compreendi do teu texto, o teu "fundamento ético" para os comportamentos que consideras dever ter deve ser a responsabilidade pelo impacto das tuas escolhas na subjectividade dos outros (suponho que com esta frase queiras dizer que deves ter comportamentos que tenham um impacto positivo na subjectividade dos outros e evitares comportamentos que tenham um impacto negativo nos outros).

    Acho um excelente objectivo e não tenho dúvidas em o subscrever.

    Imaginemos agora que outra pessoa assume um objectivo oposto. Para essa pessoa, o seu comportamento só é éticamente correcto, por exemplo, se infligir o máximo sofrimento aos outros, e na medida do possível tenta que os seus comportamentos correspondam a esse "fundamento ético".

    Será que os estes comportamentos negativos desta pessoa são objectivamente condenáveis? Ou a condenação destes comportamentos é apenas a opinião de quem não os partilha?

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  3. «Será que os estes comportamentos negativos desta pessoa são objectivamente condenáveis?»

    Não. Como já disse aqui muitas vezes, a ética não pode ser uma coisa objectiva (i.e. dos objectos). Só um sujeito é que pode sentir (e sentir é sempre subjectivo) o constrangimento imposto à sua liberdade pela compreensão de que causa sofrimento aos outros. E sem isso não pode haver ética. Quem procura um fundamento objectivo para a ética só demonstra que não compreendeu o sentido do termo.

    É claro que, uma vez percebida a necessidade desse fundamento subjectivo, podemos então discutir o que causa mais ou menos sofrimento (e a responsabilidade pelo sofrimento, e o valor da liberdade de escolher, etc, não é apenas o sofrimento que conta), e essa discussão pode ser mais objectiva. Mas se um indivíduo achar que é eticamente correcto torturar toda a gente é porque esse indivíduo não sente problema em agir dessa forma e não pode compreender o que é a ética.

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  4. Olha! Outra pessoa que não come polvo pelas mesmas razões que eu...

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  5. Concordo em grande medida com a sua tese. A argumentação é irrepreensível. Mostrar a diferença entre ética e moral nunca é demais, porque a noção de que tudo é relativo está muito instalada no senso comum, assim como a arrogância, e a ignorância (aquela que Sócrates combatia)também. E quem é que leu Kant? Tendo-o assimilado, ainda por cima? E, digamos, actualizado, já que também os animais constituem um fim em si mesmo.

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  6. Ludwig

    Podemos supor a partir do que diseeste que é igualmente legítimo o comportamento desse alguém cujo único objectivo na vida é inflingir sofrimento aos outros e o teu comportamento que visa ter um impacto positivo nos outros?

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  7. Cookie value is null for FormRestoration

    tá fraco...power of senhor

    Burn Away num come polvo símbolo mafioso
    Tabu alimentar do clã contra o seu protector la Piovra

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  8. e se nem kant lia kant

    nem kantor lia kantor

    Platão disse...estou vivo...e desentendi-me com sócrates
    Concordo em grande medida com a sua tese (ão?).
    A argumentação é irrepreensível.é? onde é quarranjam estes gaijus

    Mostrar a diferença entre ética e moral nunca é demais, porque a noção de que tudo é relativo (a moral é cultural assi como a ética, esta gentinha nunca teve uma antropologia pelo caminho...ou vá lá uma etnologia comparativa?


    está muito instalada no senso comum, assim como a arrogância, e a ignorância (aquela que Sócrates combatia)também então não é que este blog é um iman de ignorantes

    Platoon (us Bravus Touros du) dixit:só sei que nada sei (mas sei que num sou in gnu rant (gnu rant you see the pun? no? Gregos de merda)
    nem arrow Gant (gant fica no Brabante? ô é Pays bas?
    mi sucorra Plutão...

    Te salva krippahl muda de companhia (dos lobos y dos loucos) quisso passa

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  9. Mas se partirmos uma pata a um insecto (ele tem 6 e funciona optimamente com 4 excepto se for um gafanho e evita usar a pata se for um sapinho que não está muito longe dum insecto)ele continua a tentar usá-la como se estivesse boa, actos reflexos não significam ausência de inteligência

    actos reflexos de um tubarão e um peixe que consegue largar o anzol é capaz de o morder novamente logo a seguir,
    não sugerem uma grande diferença na capacidade de sentir dor...

    mas tá perdoado ó mighty mouse krippahl cê é comput obtusus

    ou o que quer que seja(esta então uma perla)



    Por isto, dada a forma como são criados e abatidos, evito comprar carne de mamíferos. E também polvo, que tem um cérebro muito diferente do nosso, tendo evoluído independentemente, mas que parece ser inteligente demais para não sentir.

    atum é naturalmente estúpido como galinha logo comer

    Platão e Burn Away bastante palermas também logo é ético eutanizar

    eu te thanatos krippahl

    tiburón animal sensível que evita trincar chinoca
    menos de 3 chinoca trincado por ano e só por curiosidade
    (receptores sensoriais abundantes na boca)

    a forma de receber informação varia

    logo um cérebro do tamanho de meia-noz de um psitacídio consegue formar frases e com devido tempo saber utilizá-las e com 3 ou 4 anos

    ganha a uma cria de krippahl com 50% mais de idade

    pecebeu?

    nã?

    faz mal nã.....

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. "Por isto, dada a forma como são criados e abatidos, evito comprar carne de mamíferos."
    o que usas como alternativa?

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  12. Nuno Dias, estás ciente que há muita gente neste mundo fora que vive sem carne de mamíferos, mesmo sem carne de aves, de moluscos ou peixe?


    São uns bichos esquisitos chamados "vegetarianos". Também tens os, ainda mais esquisitos, "vegan" que não se alimentam de nada de origem animal.

    Pela conversa dele, o Ludwig ainda inclui aves e peixes na sua dieta.

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  13. Nuno Dias,

    Aves, peixes, ovos, camarão, legumes, etc. Nós comemos só poucas espécies de mamífero, e que excluir essas da dieta tem um impacto muito pequeno.

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  14. Sofrologista,

    «Podemos supor a partir do que diseeste que é igualmente legítimo o comportamento desse alguém cujo único objectivo na vida é inflingir sofrimento aos outros e o teu comportamento que visa ter um impacto positivo nos outros?»

    Não. Continuas com a mesma confusão. "Legítimo" não é atributo dos objectos enquanto tal. É uma classificação subjectiva. Se por legítimo queres dizer eticamente aceitável, e sendo a ética o fruto dessa conjugação de factos objectivos (alguns actos têm impacto na subjectividade dos outros) e valores subjectivos (é importante considerar a subjectividade dos outros tal como consideramos a nossa), então esse teu agente não estaria a agir de forma legítima.

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  15. Ludwig

    Dizes:

    "Não. Continuas com a mesma confusão. "Legítimo" não é atributo dos objectos enquanto tal."

    Eu não perguntei se legítimo era um atributo dos objectos. Apenas te perguntei se os dois comportamentos eram igualmente legítimos.

    Dizes:

    "É uma classificação subjectiva. Se por legítimo queres dizer eticamente aceitável, e sendo a ética o fruto dessa conjugação de factos objectivos (alguns actos têm impacto na subjectividade dos outros) e valores subjectivos (é importante considerar a subjectividade dos outros tal como consideramos a nossa), então esse teu agente não estaria a agir de forma legítima."

    Porque é qu esse agente não estaria a agir de forma legítima?

    Como é que a "conjugação de factos objectivos e valores subjectivos" torna algo éticamente aceitável (para utilizar a tua tradução do termo "legítimo") ou éticamente inaceitável?

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  16. Se existisse um tipo de espectáculo que consistisse em atrair um animal, como numa arena um coelho ou mesmo num aquário um peixe, para o atrapalhar com movimentos e infligir-lhe dor espetando-lhe repetidamente ferros no dorso para o ver sofrer, esse tipo de espectáculo seria para mim deplorável, anti-ético, condenável e devia ser proibido. Isso não impede que não me faça grande impressão que se abatam animais, como coelhos ou peixes, para a minha alimentação. O abate deverá evitar o sofrimento, mas o fundamental é não fazer da morte um espectáculo.

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  17. Sofrologista,

    «Como é que a "conjugação de factos objectivos e valores subjectivos" torna algo éticamente aceitável (para utilizar a tua tradução do termo "legítimo") ou éticamente inaceitável?»

    O problema que queremos resolver com a ética é a avaliação subjectiva de que devemos ter consideração pela subjectividade dos outros, e que não é só a nossa que conta. A conjugação deste juízo subjectivo com o facto de os nossos actos terem impacto na subjectividade dos outros resulta em alguns actos serem eticamente legítimos e outros não.

    Podes agora dizer "mas para mim a ética é função do comprimento de onda da luz que os corpos reflectem e não dessas coisas", mas isso não altera a ética, apenas o significado que tu dás ao conjunto de letras "ética". Eticamente, no sentido corrente do termo, continua a haver actos legítimos e ilegítimos.

    É claro que o tal agente pode dizer "quero lá saber disso, porque a subjectividade dos outros a mim não me interessa". E, assim, rejeitar a ética como um problema sequer. É precisamente por isso que a ética depende de um fundamento subjectivo. Ao contrário da gravidade, que afecta todos quer queiram quer não, a ética só constrange quem decidir ser constrangido por estas considerações. Aqueles que optarem por não ser agentes éticos terão de ser manipulados com coacção, promessas de paraíso ou ameaças de inferno, se quisermos que se comportem pelo menos com a aparência de serem decentes.

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  18. "Aves, peixes, ovos, camarão, legumes, etc. Nós comemos só poucas espécies de mamífero, e que excluir essas da dieta tem um impacto muito pequeno."

    Ao te alimentares de outras espécies estás a provocar desequilíbrios noutros ecosistemas. Parece-me aceitável a não alimentação de espécies com um sistemas nervosos e percepção do mundo próximos da nossa espécie. Mas comparando o impacto da captura de peixe com o da criação de mamíferos... venha o diabo e escolha.

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  19. @ardoRic

    da forma como me compreendo enquanto espécie parece-me pouco natural uma alimentação somente vegetariana.

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  20. Professor,

    reconhece que as aves têm subjectividade. Mas logo a seguir afirma que "No entanto, é pouco plausível que vida de um frango tenha, por si, valor subjectivo para o frango."

    Como concluí esta afirmação?

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