domingo, Agosto 21, 2011

Treta da semana: decida-se...

Segundo discursou Joseph Ratzinger recentemente em Espanha, «sabemos bem que fomos criados livres, à imagem de Deus, precisamente para ser protagonistas da busca da verdade e do bem, responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos, colaboradores criativos com a tarefa de cultivar e embelezar a obra da criação. Deus quer um interlocutor responsável, alguém que possa dialogar com Ele e amá-Lo.»(1) Tirando o problema de, na verdade, não saberem isto – apenas acreditam, mas não há justificação objectiva para considerá-lo conhecimento – o conselho implícito parece-me bom. Temos de ser responsáveis, buscar a verdade e ter capacidade para dialogar. Infelizmente, Ratzinger trata também de contradizer estes conselhos.

Dialogar exige procurar razões em comum de onde se possa encetar um raciocínio partilhado. Se um afirma que a Terra é plana e o outro defende que é esférica, não pode ser esse o ponto de partida para uma conclusão. Terão de concordar primeiro acerca do que conta como evidências e se essas evidências existem de forma a suportar alguma das hipóteses. Fotografias tiradas de órbita ou a sombra que a Terra projecta na Lua durante um eclipse lunar, por exemplo. Só assim se pode ter um diálogo racional que ajude a resolver a divergência. No entanto, os católicos fazem como Ratzinger e presumem que «fomos criados livres, à imagem de Deus» é o ponto de partida. Recusam-se a apresentar evidências que possam suportar essa alegação e ainda afirmam que estas coisas são verdades impossíveis de testar, excluindo logo à partida a possibilidade de partilhar razões com quem não acredite nisto, o que impossibilita o diálogo. Se os católicos são bons a dialogar com o seu deus é apenas por se tratar de um monólogo.

Ratzinger critica também os «muitos que, julgando-se deuses, pensam que não têm necessidade de outras raízes nem de outros alicerces para além de si mesmo. Desejariam decidir, por si sós, o que é verdade ou não». Suspeito que a crítica se dirija a ateus como eu, o que é irónico visto não sermos nós quem se arroga infalível, em certas matérias, por alegada orientação divina. E isto contradiz directamente a sua exortação à procura da verdade. Só quem deseja decidir por si se algo é verdade ou não é que pode procurar a verdade. Quem, pelo contrário, delegar essa tarefa a terceiros, limitar-se-á a enfiar barretes.

Quer também Ratzinger que os jovens, e todos nós, sejamos «responsáveis pelas nossas ações e não meros executores cegos», o que é de louvar. Mas depois aponta o dedo a quem quer «decidir, por si […] o que é bom ou mau, justo ou injusto», e que, ao contrário das palavras que «instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao invés, têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira». Considerando que as alegadas palavras de Jesus chegam por via de “testemunhado” e “interpretação” da parte de profissionais como o Ratzinger, o que ele está a recomendar é que sejamos eticamente responsáveis mas sem decidirmos o que é justo ou injusto e aceitando o que ele nos diz sem pensar muito no assunto. Isto é claramente contraditório.

Um artigo recente na Spiegel relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética, com os descrentes sendo mais tolerantes e tendo mais tendência a opor a discriminação, a guerra e a pena de morte do que os crentes no mesmo nível de educação e estrato social. O título do artigo pergunta se o secularismo torna as pessoas mais éticas (2), mas penso que, em grande parte, será o contrário. O que o Ratzinger propõe é uma contradição porque ninguém pode ser responsável nas suas decisões se delega a terceiros algo tão fundamental como distinguir o justo do injusto e o bom do mau. Bombistas suicidas e outros fanáticos fazem-no, convictos de cumprir a vontade do seu deus, mas quem se sente constrangido por considerações éticas não aceita facilmente a conversa dos alegados representantes divinos. E uma vez assumida a responsabilidade por estas decisões, a religião perde o seu papel fundamental, restando apenas o hábito e o medo de desiludir pais e avós. Para muitos isso não é suficiente para continuar adepto.

Segundo o Papa, e muitos bispos, o problema principal da Igreja é o ateísmo. Mas nas críticas ao ateísmo acaba por deixar a descoberto o verdadeiro problema do catolicismo. Dizem buscar a verdade mas abdicam da capacidade de determinar o que é verdadeiro e o que é falso. Dizem assumir responsabilidade ética mas delegam a responsabilidade de decidir o que é bom e o que é mau. E dizem querer dialogar mas não reconhecem a necessidade de justificar as suas premissas de forma que os outros as possam aceitar. O maior inimigo da Igreja católica não é o secularismo. É o catolicismo.

1- Canção Nova, Discurso do Papa na Festa de Acolhida dos jovens na JMJ 2011. Obrigado ao Ilídio Barros pelo link.
2- Spiegel Online, Does Secularism Make People More Ethical?. Já não me lembro onde vi isto primeiro, mas recentemente foi via o João Vasco no DA.

26 comentários:

  1. "O maior inimigo da Igreja católica não é o secularismo. É o catolicismo"...integrista. De quem o ateísmo fundamentalista, que trata por igual qualquer manifestação religiosa, é o principal aliado.

    ResponderEliminar
  2. 2 tretas no fim-de-semana, incrível

    A change in the weather molhou jão Ratzinguer é um sinal de Deus?

    ou é um problema criado por Santo António
    o gajo que andava com um menino Jasus de 1200 anos às costas?


    During early summer, a high-pressure cell persisted over the northern Beaufort Sea, promoting ice loss. This weather pattern broke down toward the end of July, slowing ice loss but spreading out the ice pack, making it thinner on average. The weather has now changed again, bringing another high-pressure pattern. Winds associated with this pressure pattern generally bring warm temperatures, and tend to push the ice together and reduce overall extent. In the Kara Sea, the combination of a high-pressure cell with low pressure to the west has resulted in strong northward ice movement, pushing the ice pack away from the coast and reducing ice extent.

    Deus absorve mais carbono que krippahl

    ResponderEliminar
  3. Um artigo recente na Spiegel(essa torre da estatística sem mácula) relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética, com os descrentes sendo mais...krippais que o papamobile?

    il papa e mobile....

    mobile

    essa da correlação significativa nem para a taxonomia servia,,,,

    mediu-se como os seculares davam mais esmolas aos pedintes romenos

    ou quando as carteiristas tziganas da sérvia lhes iam aos bolsos eram os únicos que davam gorgeta?

    Queremos a metodologia

    O nº de casos

    As variáveis consideradas enfim the works

    um abstract do bicharoco tamém serve

    ResponderEliminar
  4. Basta ver no que deu o secularismo kadahfista

    Se tivesse dado abrigo à Al-Queda inda lá estava

    Bastava só ter menos ética...

    ResponderEliminar
  5. "De quem o ateísmo fundamentalista, que trata por igual qualquer manifestação religiosa, é o principal aliado."

    Ainda gostava de saber onde é que esse "ateísmo fundamentalista" se encontra? Ainda se refere a países que se dizem comunistas como a China ou à velhinha URSS? Isso é um argumento tão relevante como dizer que a Igreja Católica é uma organização sanguinária devido à actuação da "Santa" Inquisição no tempo em que ainda se cagava de cócoras...

    Um pouco de honestidade na discussão não fazia nada mal e podíamos começar por estabelecer que "testemunhos" e crenças não são bons pilares para quem se arroga a querer dizer aos outros como viver a sua vida.

    Parece-me também que muitos crentes gostam de pintar os ateus como alguém que não acredita "agressivamente." Ateu é apenas uma consequência de ser céptico. Um individuo não acredita em deuses porque não há evidencias desses existirem da mesma forma que não existem evidências de existirem cavalos alados, da Atlântida, de discos voadores ou da lua ter um núcleo de queijo fundido.

    Desta maneira toda e qualquer religião que pretenda regular a vida de terceiros, por muito civilizada que seja ou não, é tratada como um barrete que muitos escolheram enfiar por diversas razões. Por outras palavras, todas as religiões sem excepção baseiam-se em crenças sem qualquer evidência sendo por isso todas um barrete.

    ResponderEliminar
  6. no tempo em que ainda se cagava de cócoras...cagar de pé...geralmente não é muito higiénico

    pressuponho que wyrm é o gajo que teve que levar com o taser para limpar a cela dos ex crementos ou se é de pé devem ser in crementos

    sentado de cócoras se está

    em pé se for caganeira vai pintando tudo por baixo

    deitado num dá não

    de lado (pode dar prolapso do dito...

    pela boca (é sinal de doença obstrutiva grave

    por buraco no abdómen (lamento muito...

    ResponderEliminar
  7. Alguém leu este decreto da “Penitenciaria Apostólica”?

    (não, não falta o acento em penitenciaria. É como secretaria ou chancelaria. Fica no Vaticano e trata de coisas importantíssimas) A saber:

    Sua Eminência Reverendíssima António Maria Rouco Varela, Cardeal Arcebispo de Madrid e Presidente da Conferência Episcopal de Espanha, fez chegar à Penitenciaria, na forma de «súplica», um requerimento de indulgência para que «os jovens possam obter os esperados frutos de santificação da XXVI Jornada Mundial da Juventude».

    Ora, tomando disso conhecimento o Santo Padre, a Penitenciaria é dotada por decreto de «faculdades especiais para conceder o Dom da Indulgência, segundo a mente do próprio Pontífice».

    Prontinho. Ao dia 2 de Agosto concede-se «indulgência plenária» aos presentes nas jornadas e «indulgência parcial» aos faltosos, na condição de que venham durante este período a elevar «as suas orações a Deus Espírito Santo, a fim de que leve os jovens à caridade e lhes dê a força de anunciar o Evangelho com a própria vida».


    É assim que funcionam as penitenciarias, para quem não saiba.

    ResponderEliminar
  8. A verdade que podemos encontrar numa enciclopédia sobre a Verdade não está na enciclopédia, nem nas bibliotecas e não é a Verdade. Esta é a verdade. É? E depois? Continuamos a procurar a verdade, mesmo falando verdade e não a encontramos? Detestamos a mentira, mas há as meias verdades e a verdade das partes e a verdade do todo, mas a verdade não está nas partes e não está no todo.
    A verdade, em última análise, é absoluta: ou é ou não é; se é, é para todos e para todas as inteligências. É ou devia ser? Devia? Porquê?
    Um juiz disse-me que só o que está no processo é que está no mundo, a verdade dele é aquela.
    Um tipo que eu tenho por cientista diz-me que só o que é verificável, mensurável, empiricamente, merece crédito. Esta é a sua verdade.
    Um poeta proclamou que «quanto mais poético mais verdadeiro».
    A verdade do filósofo com quem falei é um veredicto, são juízos sobre os próprios juízos, sobre a contenda entre falso e verdadeiro entre a ideia e a coisa, embora saliente que ao filósofo interessa uma interpretação cósmica da sua experiência interior e que essa interpretação, qualquer que ela seja, não é a verdade.
    O meu pároco diz que Deus é a Verdade, que as verdades do cientista e do juiz e do filósofo são juízos sobre coisas, factos, acontecimentos, acções e ideias. A verdade não é conhecimento nem doutrinas teóricas que, como tais, se possam comunicar. A alma tende para a contemplação da verdade, para a pura contemplação, sem pensar anotar o que contempla para disso se separar e representar isso sob um forma «válida em geral» com a qual todos pudessem enriquecer o seu saber. Cada pessoa permanece “fora” de interpretações e esquemas analíticos e nunca lhes está submetida; quando quer conhecer-se a si própria, não é no homem em si, numa teoria da sua vida que se revê e o que lhe vem do íntimo não carece de explicação alguma.

    ResponderEliminar
  9. "Tirando o problema de, na verdade, não saberem isto – apenas acreditam, mas não há justificação objectiva para considerá-lo conhecimento..."

    Ludwig, a vida dos Santos é a comprovação da verdade dos evangelhos!

    Um abraço!

    ResponderEliminar
  10. Ilídio,

    A vida dos santos, quanto muito, é comprovação de que essas pessoas acreditavam mesmo no evangelho. Mas a crença, por si só, não comprova a verdade da coisa em que se crê.

    ResponderEliminar
  11. Ludwig,

    Eu estou a falar de santos, não estou a falar de crentes...

    ResponderEliminar
  12. Ilídio,

    Seja. Não faz diferença nenhuma. Defendes também que a vida de Siddharta Gautama prova que há reencarnação e que, se o nosso karma for mau, podemos reencarnar num macaco ou num rato numa vida futura?

    O meu ponto é que a vida de uma pessoa, seja classificada de santo ou não, apenas atesta as crenças dessa pessoa e não necessariamente a verdade. Muitos pilotos japoneses na segunda guerra mundial morreram pelo seu deus imperador. Isso prova que o imperador do Japão é divino?

    ResponderEliminar
  13. «a vida de uma pessoa, seja classificada de santo ou não, apenas atesta as crenças dessa pessoa»

    Ludwig,

    Penso que atesta sobretudo a crença dos outros nessa pessoa, o que demonstra perfeitamente a tentação idólatra que orienta a religião católica. (apesar do "Deus imanente" de que nos fala o Miguel Panão)

    ResponderEliminar
  14. “Um artigo recente na Spiegel relata uma correlação significativa entre o secularismo e a ética, com os descrentes sendo mais tolerantes e tendo mais tendência a opor a discriminação.”

    Essa “tolerância” viu-se bem em Madrid, nas manifestações provocatórias, recheadas de insultos e mentiras (tal como a desculpa do dinheiro). O pior inimigo do ateísmo não é o catolicismo, são os próprios ateus.

    ResponderEliminar
  15. "Defendes também que a vida de Siddharta Gautama prova que há reencarnação e que, se o nosso karma for mau, podemos reencarnar num macaco ou num rato numa vida futura?"

    :)

    "Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Peráclito para que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós." Jo 14, 15-16

    Ludwig, conheces estas palavras? Pois bem, e vou agora tentar ser mais específico, o ateu não acredita nelas, não as compreende e depressa as despreza, o crente acredita, o santo experimenta-as e por isso sabe que elas são verdadeiras. Compreendes agora?

    Um abraço.

    ResponderEliminar
  16. Penso que Jesus, na sua humildade, ao dizer “Peráclito” terá querido dizer Paráclito. Por favor confirmem junto da Eminência Reverendíssima mais próxima.

    Outra coisa que o Ilídio parece deixar escapar, entre sorrisos e abraços, é a lógica.

    ResponderEliminar
  17. João,

    «Essa “tolerância” viu-se bem em Madrid, nas manifestações provocatórias, recheadas de insultos e mentiras (tal como a desculpa do dinheiro). O pior inimigo do ateísmo não é o catolicismo, são os próprios ateus.»

    Exacto.
    Acerca da desculpa do dinheiro, que eu saiba, não vi um só ateu indignado a dar-se ao trabalho de procurar a informação primária, ou seja, os custos das JMJ's de Madrid, para depois se poder pronunciar sobre o tema "dinheiro dos contribuintes espanhóis gastos nas JMJ's de Madrid". Quanto foi esse dinheiro? Onde se encontram esses números? Não basta apontar o custo total do evento, é preciso saber quanto desse custo total é que veio dos contribuintes espanhóis, ou seja dos cofres do Estado. Alguém fez essa conta?

    Os ateus é que são os objectivos, os rigorosos, os fundamentados, os metódicos. Mas depois, quando é para dar paulada, qualquer notícia sacada de um site serve, sem qualquer verificação factual.

    Trapalhada...

    ResponderEliminar
  18. Bernardo e João Silveira,

    Os números exactos é difícil encontrar, visto que é fácil manipulá-los. No entanto, se considerarmos que foram cedidas instalações de cerca de 500 escolas públicas para albergar os peregrinos, que os polícias de Madrid ficaram sem férias e a fazer horas extraordinárias, incluindo turnos duplos, que os transportes públicos serviram os peregrinos com desconto no mesmo mês em que os madrilenos viram subir cerca de 50% o preço dos transportes, e assim por diante, é razoável concluir que, no global, isto foi um custo significativo para o erário.

    Seja como for, vamos assumir, meramente por hipótese, de que não custou nada ao Estado isto tudo, e que a Igreja em Espanha pagou todos estes custos em pleno. Mesmo assim, isto só singnificaria que quem se manifestou contra o Papa estava enganado acerca dos factos. Não se pode daí inferir que o protesto é, por si só, intolerância. Intolerância seria impedí-los de exprimir o que pensam.

    Quanto à violência, sei que foi preso um fundamentalista cristão mexicano que estava a planear um atentado contra os protestantes e, de resto, parece que a violência maior foi da polícia sobre quem se manifestava contra o Papa. Isto já me parece ser intolerância.

    No fundo, o problema é que a religião é uma coisa privada. Não deve servir para bloquear o trânsito, encerrar aeródromos, ocupar escolas, gastar dinheiro a quem não quer e transtornar as pessoas que não querem ter nada que ver com isso. Nota que só os religiosos é que têm a arrogância – e infelizmente o poder político – para fazer este tipo de coisas, como fizeram cá em Lisboa.

    E, já agora, isto não tem nada que ver com o post, onde o que aponto é a contradição das várias exigência do Papa: sejam responsáveis sem decidir o que é bom e mau, e procurem a verdade sem decidirem o que é verdadeiro ou falso...

    ResponderEliminar
  19. “As pessoas não viviam como vivem agora. Primeiro, percorreram quatro mundos diferentes. Estes outros mundos estavam dentro da Terra, e estava escuro lá. Primeiro davam-se bem, depois começavam a lutar e tinham de deixar esse mundo e ir para outro, e começava tudo novamente. Quatro vezes isto aconteceu. Depois subiram umas canas do fundo de um lago e foi assim que chegaram a este mundo. O Primeiro Homem e a Primeira Mulher trouxeram as pessoas para este mundo.”

    Ilídio, conheces estas palavras? Pois bem, e vou agora tentar ser mais específico, o cristão não acredita nelas, não as compreende e depressa as despreza. Os Navajo acreditam, experimentam-as e por isso sabem que são verdadeiras. Compreendes agora?

    ResponderEliminar
  20. Já agora, deixo o link para quem quiser ler mais.

    ResponderEliminar
  21. Ludwig, o Bernardo tem toda a razão, os ateus são supostamente os iluminados, os que usam a razão na sua plenitude, os que não têm crenças, etc..., mas facilmente acreditam (sem qualquer tipo de provas) em qualquer teoria que seja contra a Igreja Católica. Qualquer pessoa com dois palmos de testa sabia disto: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/cieco011494.html. A questão nunca pode ter sido o dinheiro, porque desde sempre se sabia que Madrid ia ficar com mais dinheiro do que gastou. Os transportes públicos tinham desconto? Mas isso não é um custo, porque os custos para o metro são iguais, com 100 pessoas ou com 200. Podia ganhar mais, mas ganhará sempre mais dinheiro do que ganharia se não existissem as jornadas. Mesmo assim, o dinheiro gasto pelos peregrinos, pagou várias vezes qualquer desconto que tenha existido, como mostravam as contas pre-jornadas e como mostram ainda mais agora.

    Os ateus que se maifestaram não se enganaram, como dizes. Se são tão racionais, deviam ter visto as evidências antes de fazerem o que fizeram. Se não viram as evidências, ou as ignoraram, são tão crentes como o menos racional dos crentes.

    Mas quem és tu para dizer que para fazer as jornadas não se pode interromper o trânsito? Eu não corro, nem gosto de correr, no entanto tenho a ponte fechada pelo menos uma vez por ano, porque decidem fazer uma maratona a atravessar a ponte. Não existem sítios próprios para correr? Não sei quantas vezes por ano fecham a marginal porque existem ciclistas ou mais corridas, que é que tenho a ver com isso? Nesta altura fecham o centro de cascais ao trânsito para poderem fazer concertos, mas a música não é uma coisa privada, em que cada um poderia ouvir um cd descansadamente em casa, e não me perturbar, nem aos demais moradores? E as comemorações dos campeonatos de futebol, onde fecham o marquês de pombal e a avenida da liberdade?

    Gostas de te anunciar como um pensador crítico, mas na prática és tão anti-democratico e intolerante como os manifestantes de Madrid.

    ResponderEliminar
  22. João Silveira,

    Não questiono que muita gente tenha lucrado com isto. No entanto, eu também ficava chateado se o Estado por cá gastasse dezenas de milhões de euros em segurança, alojamento, limpeza e transportes, entre outras coisas, para os donos dos hotéis e restaurantes terem mais lucros. Não me parece uma boa aplicação do dinheiro público.

    E penso que tu também serias contra este tipo de gastos, se não fosse para promover a tua religião.

    «Os ateus que se maifestaram não se enganaram, como dizes. Se são tão racionais, deviam ter visto as evidências antes de fazerem o que fizeram.»

    Julgo que sim. Mas provavelmente não eram donos de hotéis e restaurantes. Eram pessoas que tinham filhos nas escolas onde o Estado ia cortar o orçamento, mas que estavam a ser cedidas aos peregrinos. Eram pessoas que tinham de ir de transportes para o emprego, transportes que passaram a custar mais 50% por causa da austeridade, e a quem os descontos para os peregrinos e os lucros dos hotéis serviam de pouco.

    O facto de alguns grupos de interesse, e daqueles que menos sofrem com a austeridade, lucrarem com esta visita é fraco consolo para os restantes. E foi até por isso que 120 padres de várias paróquias mais pobres de Madrid protestaram publicamente contra estes gastos, dizendo precisamente que este dinheiro seria melhor empregue com quem dele precisa. Ou estes padres são todos ateus imbecis também?

    «Mas quem és tu para dizer que para fazer as jornadas não se pode interromper o trânsito?»

    Um cidadão, como qualquer outro, com direito à sua opinião e direito a expressá-la. Tal como os que se manifestaram contra esta visita.

    «Gostas de te anunciar como um pensador crítico, mas na prática és tão anti-democratico e intolerante como os manifestantes de Madrid.»

    Claro. Quando se trata da tua religião, até manifestar-se contra o mau gasto do dinheiro público é ser anti-democrático e intolerante.

    ResponderEliminar
  23. Ludwig, gostas de usar argumentos demagógicos, e portanto muito frágeis.

    Não gostas de o governo gaste dinheiro sem segurança? Escreves artigos a criticar visitas de chefes de estado, concertos e festivais, jogos de futebol ou manifestações? É que em tudo isto é requerida segurança pública.

    Onde é que está o dinheiro gasto em transportes? Por haver descontos não quer dizer que haja custo, é exactamente ao contrário, uma receita extraordinária.

    Quando os “donos” dos hoteis e restaurantes ganham dinheiro, o Estado ganha dinheiro. Além do IVA, existe o IRS, etc...Além disso existe criação de emprego, dinamização da economia, tudo coisas que o Estado, e os cidadãos agradecem. Quando escreves esses argumentos não sabes isto, ou omites proprositadamente?

    Não sei se sabes, que além de todos os benefícios para a cidade, nós pagámos para ir às jornadas, não fomos para lá usufruir de tudo à borla. E ainda mais, a imagem de Madrid, e Espanha, saiu beneficiada, quer os milhões que lá estiveram, quer nos 600 milhões que viram tudo na televisão. Este tipo de publicidade é valiosíssima. Se fosses mesmo um pensador crítico, tinhas visto as evidências, e tinhas mudado de opinião. Mas vê-se exactamente o contrário, defender o indefensável, o que é contrário às evidências. Foi por causa de cientistas assim que o Pasteur teve tanta dificuldade em convencer a comunidade ciêntifica que estava certo.

    Dizes que a religião é pessoal, e não a posso exprimir fora de casa. Mas música, futebol, arraiais, etc, são tudo eventos públicos, que podem importunar os outros à vontade. Dois pesos e duas medidas.

    ResponderEliminar
  24. João Silveira,

    «Escreves artigos a criticar visitas de chefes de estado, concertos e festivais, jogos de futebol ou manifestações?»

    Depende. Se vier um chefe de estado cá e for recebido no palácio de Belém, OK. Se organizarem jogos de futebol nos estádios, ou missas nas igrejas, tudo bem. Se organizarem um campeonato de futebol no Terreiro do Paço, bloquearem o trânsito em Lisboa e pararem o metro cada vez que os jogadores passam, aí sim, certamente que escrevo a protestar.

    Mas esta discussão que estamos a ter aqui não é acerca do que eu escrevo. É acerca da acusação que vocês fazem aos demonstrantes espanhóis, a quem acusam de serem intolerantes por se manifestarem contra aqueles gastos. Isso, proponho, é injusto. Independentemente da razão que possam ter, têm todo o direito de se manifestar, de dizer o que pensam, e intolerância é não lhes reconhecer esse direito.

    «Não sei se sabes, que além de todos os benefícios para a cidade, nós pagámos para ir às jornadas»

    Sei. Mas também me parece que a divisão desse dinheiro não foi equitativa por todos os que ficaram prejudicados. E estou certo que quem meteu esse dinheiro ao bolso não estava lá a protestar contra...

    «Se fosses mesmo um pensador crítico, tinhas visto as evidências, e tinhas mudado de opinião.»

    Eu não tenho opinião formada acerca desta visita ter sido boa para "a cidade", ou "a imagem de Madrid" ou "para Espanha", até porque me parecem categorias demasiado abstractas e vagas para poder opinar acerca disso.

    A opinião que tenho é a seguinte:

    1- É razoável que um número significativo de habitantes de Madrid se tenham sentido prejudicados e injustiçados pela inegável despesa pública deste evento, do qual não auferiram benefício nenhum e, pelo contrário, acabaram prejudicados com cortes de trânsito, interrupções nos transportes, etc.

    2- E é um direito de quem assim se sentiu vir para a rua manifestar o seu desagrado. Que cuspam nos outros, acho mal, mas isso são daquelas coisas que acontecem nos extremos de qualquer movimento, como também aconteceu do outro lado. No entanto, em geral, penso que tinham todo o direito – legal e moral – de se manifestarem, e não me parece justo acusá-las de intolerância por isso.

    ResponderEliminar
  25. João Silveira,

    «Dizes que a religião é pessoal, e não a posso exprimir fora de casa. Mas música, futebol, arraiais, etc, são tudo eventos públicos, que podem importunar os outros à vontade. Dois pesos e duas medidas.»

    Uma diferença importante é a aldrabice. Gastar dinheiro em concertos de música é diferente do que gastar dinheiro em astrólogos, videntes, macumbeiros e afins. Um problema das religiões é que estão nesta segunda categoria, ao dependerem de alegações como do corão ter sido ditado pelo criador do universo, o génesis ser literalmente verdade, o imperador Xenu ter massacrado biliões de ETs aqui na Terra ou um comité de padres poder decretar reduções no tempo de purgatório dos jovens que vão jornalar para Madrid.

    Mas se pusermos de lado esse problema e virmos a religião como uma actividade cultural ou desportiva, então que seja tratada como as outras. Os jogos de futebol são nos estádios, os concertos nos pavilhões e afins, as missas nas igrejas, e as excepções que sejam de forma a incomodar o mínimo possível os outros.

    Por exemplo, fechar o Terreiro do Paço para fazer lá um jogo de futebol, interromper o trânsito por Lisboa toda para os jogadores passarem e dar dois dias de feriados para quem quisesse ver o jogo seria um exagero. Mas o Papa vir a Portugal e dar uma grande missa em Fátima e quem quisesse lá ir que tirasse um dia de férias, por mim estava OK.

    Acho que não sou eu que tenho dois pesos e duas medidas, mesmo apesar das diferenças que estas crendices têm em relação às actividades culturais que não prometem nada de invisível ou no além.

    ResponderEliminar
  26. Eu é que não tenho dois pesos e duas medidas de certeza, nunca me manifestei contra qualquer actividade cultural que obrigasse a um corte de transito, nem às comemorações futebolísticas que fazem para o centro de Lisboa. Nem sequer me manifestei contra a vinda do Christopher Hitchens, à custa do erário público. Mais uma vez és incoerente.

    Para seres coerente no teu discurso, tens que escrever posts a criticar sempre que existe um corte de trânsito, sempre que se gasta dinheiro com a vinda dum chefe de Estado e por um proeminente ateu, ter vindo defender o ateísmo, à conta dos impostos dos portugueses.

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.