Quinta-feira, Janeiro 27, 2011

Resumindo.

O post sobre o aborto, há dias, levou a uma longa discussão onde ficaram perdidas as ideias mais importantes. A primeira é o valor do abortado. Perde-se sempre muito tempo a discutir se o embrião ou feto têm estatuto de pessoa, se são humanos, se têm a mesma “natureza” que nós e assim por diante. Isto pode ter interesse para a semântica ou para a taxonomia, mas, para a ética, não importa.

Coisas como cogumelos, colheres e carraças, cuja existência é desprovida de qualquer subjectividade, valem apenas pelo valor que outros, sujeitos, lhes derem. Nesses casos, a classificação de “alimento”, “talher” e “peste” pode ser relevante. Mas a existência de um chimpanzé, golfinho ou H. sapiens é diferente. O valor dessa existência para esse sujeito é mais importante do que o valor que lhe seja imputado por outros. É esse valor intrínseco que está em causa no aborto, onde a escolha é entre matar ou deixar existir algo que, durante décadas, viverá como nós. O rótulo que lhe colamos, e toda a discussão do “estatuto” ou “natureza” do feto, são eticamente irrelevantes.

Uma objecção é que isto não conta porque, no instante do aborto, o abortado não tem subjectividade. Isto é um erro fundamental porque a ética não visa só o que é mas, principalmente, o que deve ser ou o que devia ter sido.

A melhor altura para avaliar um acto é antes de o cometer e, nesse momento, as consequências são todas potenciais. Estão todas no futuro. Se estimamos que daqui a duzentos anos os contentores de plutónio que atiramos ao lago vão vazar, não podemos alegar que o acto é eticamente neutro só porque as pessoas que isto vai matar ainda não nasceram. E mesmo quando avaliamos um acto em retrospectiva, a ética exige sempre a comparação de alternativas forçosamente hipotéticas. Para decidir se foi correcto desligar a máquina há que pensar no que aconteceria ao paciente se não o tivéssemos feito. Se nunca iria sair de coma, então não havia nada a fazer. Mas se era só questão de tempo até que saísse feliz da vida, então terá sido um erro matá-lo. O valor ético dessa alternativa não pode ser descartado só por o paciente estar morto depois de o matarmos ou em coma quando o fizemos.

Porque considero que qualquer sistema ético tem de incluir estes dois princípios – a subjectividade dos valores e a comparação das alternativas – tenho de concluir que a diferença entre abortar o feto e deixá-lo viver é um factor importante.

O que não implica que seja, necessariamente, o mais importante. Não há valores absolutos, e nem sequer a vida humana é um valor incondicionalmente superior aos outros. Pode ser legítimo matar em defesa da própria vida, da integridade física e da liberdade e, em muitas situações, o valor da liberdade da mãe é maior que o valor da vida do filho. Em casos de violação e problemas graves de saúde, por exemplo.

Na verdade, só me ocorre um caso em que o valor da vida do abortado é claramente superior aos restantes: quando a gravidez resulta de um acto voluntário e consciente. Nesse caso, a liberdade dos pais é condicionada pela sua responsabilidade. E se bem que, por limitações biológicas, só a mulher é que corra o risco de engravidar, este facto é suficientemente conhecido para não desresponsabilizar ninguém das consequências dos seus actos.

Finalmente, há a objecção de que esta forma de avaliar a vida humana leva a um resultado inconveniente quando aplicada à contracepção porque, nesse caso, a decisão também elimina uma vida que de outra forma iria existir e ter valor para quem a viveria. É verdade, mas a objecção confunde o valor subjectivo das consequências com o valor ético do acto.

Para avaliar eticamente um acto precisamos de considerar também quanto o acto contribui para as consequências que dele seguem. Matar uma criança não é eticamente equivalente a deixar uma criança morrer, apesar de, em ambos os casos, estar em jogo o valor que essa vida teria para quem a vivesse. Enquanto que matar uma criança é a causa principal da sua morte, não ir salvar nenhuma de seis milhões de crianças que vão morrer à fome este ano é apenas um dos muitos factores que contribuem para a morte de cada uma delas. A relação causal entre o preservativo e cada um dos filhos que eu poderia ter tido – todas as combinações dos meus espermatozóides com todos os óvulos de potenciais parceiras – é muitas ordens de grandeza mais ténue ainda. Em contraste, o aborto é, deliberadamente, a causa principal da morte do feto.

No entanto, é verdade que a minha abordagem tem implicações inconvenientes, pelo menos na sociedade que temos agora. A contracepção e a investigação em células estaminais não são problema mas, se avaliamos o valor de uma vida pelo seu valor para quem a vive, em vez de pelo rótulo que lhe colamos, então quem mata golfinhos ou chimpanzés por dinheiro merece um tratamento semelhante ao de um assassino a soldo, e a tortura de animais em touradas e matadouros também é inaceitável. Mas, como a ética não se guia pela mera conveniência, isto não contradiz os fundamentos em que me baseio – a subjectividade dos valores e a necessidade de comparar as consequências esperadas – e não é razão para os rejeitar. Até porque não vejo como se pode ter um sistema ético sem esses princípios.

207 comments:

  1. Ludwig:

    Estas a confundir cenarios hipoteticos de sofrimento com cenarios hipoteticos de... nada.

    Quem não sente e morre antes de sentir não sofre.

    Os tipos que morrerem intoxicados vão sofrer. Há previsão de sofriemento.

    O embrião não sofre, não da significado à sua propria vida e nunca irá dar se for abortado.

    Quanto à tua fuga dos espermatozoides e ovulos sem fecudação... É uma defesa parcial como tu sabes, mas o erro é caires naquilo que te disse que não há saida. Que é teres de definir um linha algures para dizer que a partir daqui já não conta. Tu apenas poes a linha umas celulas abaixo da minha, mas sem teres a justificação pratica e persuasiva de evitar o sofrimento. APenas dizes que te perdes em previsões e hipoteses. Mas isso ja acontecia antes, quer queiras quer não. Até pressupoes o sofrimento que o aborto causa a um individuo que não nasceu. E que se nascer é porque não foi abortado e portanto não sofreu com isso.

    Quanto à cena dos animais, de acordo. Mas o feto não tem consciencia de estar vivo, muito menos do que isso significa para o proprio.

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  2. Há aqui um ponto em relação ao qual ainda não tinha comentado.

    A linguagem é uma convenção, e por si, não é por se convencionar chamar "mamífero" a uma melga que ela passa a merecer uma preocupação análoga à do gato.

    Mas se eu disser "uma melga não é propriamente um mamífero" para alegar que merece menos preocupação que um gato, falha completamente o alvo responder "mamífero é uma mera palavra, e a ética não se guia por isso". Até é um pouco insultuoso, e frustrante para quem fez a primeira informação ter de esclarecer que o ponto chave não é a terminologia, mas o significado da mesma. Explicar que o relevante não é ter-se convencionado considerar que a melga não é um mamífero, mas sim as razões associadas a essa convenção - os mamíferos terem certas características que as melgas não têm, as quais são importantes para aferir que preocupações devem ser tidas, e as quais nos referirmos quando observamos que a melga não é um mamífero.

    Quando alguém diz que um ovo não é um ser humano, o caso é muito semelhante.


    Quanto ao resto (e ao essencial) das tuas alegações neste texto, já respondi antes.

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  3. João Vasco,

    «Mas se eu disser "uma melga não é propriamente um mamífero" para alegar que merece menos preocupação que um gato, falha completamente o alvo responder "mamífero é uma mera palavra, e a ética não se guia por isso"»

    Depende. Se eu souber exactamente o que te leva a distinguir entre a melga e o mamífero, e concordar que são esses os critérios eticamente relevantes para suportar a tua conclusão, e se tiver confiança de que é exactamente isso que tu queres dizer com “melga” e “mamífero”, então concordo, não vale a pena perder tempo a esclarecer aquilo que já está esclarecido.

    Mas se me propões uma distinção que é mal definida (o que é uma “pessoa”? Inclui chimpanzés e golfinhos? extraterrestres conscientes?), que não está de acordo com o que me parece mais correcto (se é pessoa às 12 semanas é pessoa às 10 também, que ser pessoa não é função da idade) e que não deixa claro quais os critérios que consideras eticamente relevante, então é essencial pedir-te para não usares esse termo confuso e, em vez disso, focares o que interessa. Nomeadamente, quais são os atributos que faltam a um feto de 10 semanas que justificam desprezar o valor de toda a sua vida futura.

    Como, ainda por cima, não me parece haver nenhum atributo que possa justificar tal coisa, acho bastante pertinente não deixar esconder a falta de fundamento atrás de jogos de palavras como “não é pessoa”.

    «os mamíferos terem certas características que as melgas não têm […] Quando alguém diz que um ovo não é um ser humano, o caso é muito semelhante.»

    Nem por isso. É que aquilo que falta à melga para ser como o gato é a capacidade para sentir, miar e assim por diante. O gato tem essa capacidade desde o momento da concepção, estando apenas necessitado de mais ou menos tempo para a demonstrar.

    Tudo o que eu faço agora é a realização das capacidades que tenho desde que fui concebido. O espermatozóide do meu pai e o óvulo da minha mãe não tinham estas capacidades, por si. Mas o que geraram depois de se juntar foi um organismo capaz de se desenvolver naquilo que eu sou agora. Não foi preciso uma fada madrinha fazer milagres ou assim...

    «Quanto ao resto (e ao essencial) das tuas alegações neste texto, já respondi antes.»

    Nem por isso. Na verdade, nunca cheguei a perceber quais são as tuas alegações. Não me parece razoável rejeitares a ideia de que o valore de uma vida deve ser medido, principalmente, do ponto de vista de quem a vive. Nem me parece que rejeitas a necessidade de ponderar as consequências hipotéticas das várias alternativas de forma a avaliar qual delas é a melhor. Sem isso, ficavas com uma ética muito estranha.

    E não me parece consistente que defendas aplicar esses princípios a tudo menos o aborto porque nesse caso não dá jeito.

    A única coisa que sei da tua posição é a insistência em culpar-me mais pelos filhos que não tenho do que pelas crianças esfomeadas que não salvo, o que me parece também pouco justificável...

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  4. João,

    «Quem não sente e morre antes de sentir não sofre.»

    Mesmo quem sente e leva com uma bazucada na cabeça, ou é morto com CO enquanto dorme, também não sofre. Há muitas maneiras de matar sem causar sofrimento. No entanto, o problema ético de matar não está naqueles momentos de dor, mas sim na perda do resto da vida.

    «Quanto à tua fuga dos espermatozoides e ovulos sem fecudação... É uma defesa parcial como tu sabes, mas o erro é caires naquilo que te disse que não há saida. Que é teres de definir um linha algures para dizer que a partir daqui já não conta.»

    Não. O que tenho são vários factores e tenho de avaliar o peso deles. Tenho a liberdade da mãe de fazer o que quiser do seu corpo, a liberdade do pai de usar uma borracha na pila, o valor da vida do feto, o valor da vida de qualquer um dos milhões de milhões de milhões (etc) de potenciais filhos, a relação causal entre cada um desses valores subjectivos e os actos ou pressões sociais impostas, etc.

    Ponderando tudo isso, sem traçar linhas arbitrárias, concluo que o direito de tomar a pílula ou usar preservativo tem mais valor ético do que o impacto na vida de qualquer um dos potenciais descendentes, e que o direito de tirar o feto do útero tem mais valor ético do que a vida futura desse feto. Excepto quando o útero pertence a um dos responsáveis pela situação do feto, caso esse em que se justifica limitar essa liberdade até que seja seguro tirá-lo de lá e dá-lo a alguém para cuidar dele (o que inclui também não o deitar ao caixote do lixo quando sair, alimentá-lo se não houver mais ninguém que o possa fazer, etc, basicamente os deveres típicos dos pais).

    A linha arbitrária é uma treta desnecessária e injustificável. O problema ético, neste caso como em todos os outros, é avaliar os actos pelo seu impacto na subjectividade de todos os envolvidos.

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  5. Quando te dizem que um ovo não é uma pessoa, tal como no caso da melga e do mamífero, não estão a apontar para as convenções linguísticas, mas às diferenças entre o ovo e a pessoa, que te podem parecer pouco relevantes para esta discussão, mas são-no para a pessoa que faz essa afirmação.

    Tu podes perguntar "que características são essas?", mas há muito da resposta que já conheces. Podes depois apresentar os teus argumentos para defender que essas características não são relevantes para esta questão ética.
    Mas isso é algo que deverias ter feito desde logo ao invés de fugir para a argumentação de que a linguagem não fabrica a realidade. É evidente que não fabrica, mas por vezes descreve-a.

    Desde já posso dizer que se não acreditas que as diferenças entre um ovo e um embrião, entre um embrião e um feto, e entre um feto e um ser humano, não têm qualquer relevância para esta questão, eu acho que estás a cometer um equívoco. Um equívoco que resulta em acabares por te contradizer para alegares que existem diferenças éticas relevantes entre o espermatozoide e óvulo que se vão juntar, e o ovo a que darão origem; mas não entre esse ovo e a pessoa a que ele dará origem.


    «Na verdade, nunca cheguei a perceber quais são as tuas alegações.»

    Afirmas que não te respondi, mas depois admites não ter percebido a minha resposta...


    A questão é esta: eu podia explicar-te agora as minhas alegações. Tu irias entendê-las, discordar, mas sentir uma sensação de Deja Vú. A isso já me respondeste. Mas repetirias o que escreveste, apenas para me veres repetir as objecções que já fiz a essas respostas. Às quais irias repetir objecções que já fizeste, e eu iria repetir objecções que já fiz, e por aí fora, até chegarmos novamente ao ponto em que em vez de me responderes decidiste voltar ao início.

    Queres repetir isso tudo? A discussão vai parecer-te muito familiar...

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  6. João Vasco,

    «Quando te dizem que um ovo não é uma pessoa, tal como no caso da melga e do mamífero, não estão a apontar para as convenções linguísticas, mas às diferenças entre o ovo e a pessoa,»

    O problema é que não fica claro que diferenças são essas. Por exemplo, entre a melga e um humano posso apontar que a melga nunca será consciente, enquanto que o humano pode estar inconsciente temporariamente mas retém essa capacidade para ficar consciente no futuro.

    Entre o embrião, feto, recém nascido ou adulto desmaiado não posso apontar uma diferença assim. E a alternativa, que é estarem a defender que só sou pessoa quando estou acordado mas deixo de ser se levar uma pancada na cabeça ou estiver anestesiado, parece pouco provável.

    «Tu podes perguntar "que características são essas?", mas há muito da resposta que já conheces. Podes depois apresentar os teus argumentos para defender que essas características não são relevantes para esta questão ética.
    Mas isso é algo que deverias ter feito desde logo»


    Isso é algo que fiz no início, e muitas vezes. E com muitas pessoas. Não adianta de nada, porque acaba-se em coisas como “uma pessoa é um ser humano que já tem neurónios” ou tretas assim... Por isso decidi deixar de perder tempo com essa coisa da pessoa. Se querem apontar alguma característica eticamente relevante, força. Se não, passo à frente.

    «Um equívoco que resulta em acabares por te contradizer para alegares que existem diferenças éticas relevantes entre o espermatozoide e óvulo que se vão juntar, e o ovo a que darão origem; mas não entre esse ovo e a pessoa a que ele dará origem.»

    Essa diferença é fácil de explicar. A subjectividade, na nossa espécie, é propriedade de colónias de células que colaboram para criar os tais sujeitos. Por si só, uma célula dessa colónia não faz nada de jeito nem é eticamente relevante. Por isso não há problema em matar óvulos ou espermatozóides, pois esses são parte do sujeito e não sujeitos em si.

    Mas quando juntas gâmetas, fica algo capaz de ser sujeito. É isso que considero pessoa, eticamente: um ser capaz de ser sujeito (o que, admito, faz com que inclua organismos de outras espécies, o que complica o uso deste termo nestas discussões). Nesse caso é preciso ver se está em condições de vir a manifestar essa capacidade. Se está numa caixa de Petri condenado a morrer em poucos dias, azar. Se está num útero a desenvolver-se e saudável, então tem um futuro de grande valor pela frente, durante o qual será um sujeito. Coisa que um óvulo ou espermatozóide não têm, em geral.

    Mas isto foi uma coisa que, em tempos, concordámos: ser pessoa, no sentido eticamente relevante, é ter a capacidade de manifestar consciência, sentir, etc. Mas “capacidade” não é algo que tenha de ser no instante. É algo que se considera ter se esperamos poder manifestá-lo no futuro. Mais semana menos semana é indiferente.

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  7. «Isso é algo que fiz no início, e muitas vezes. E com muitas pessoas. Não adianta de nada, porque acaba-se em coisas como»

    Exacto. Coisas que não concordas. Mas de quaçquer dos casos percebes que a divergência não está numa divinização da linguagem, mas sim numa divergência substantiva de perspectivas. Mesmo que acredites que as restantes não fazem sentido ou são incoerentes, como eu acho que é o caso da tua, não coloques o problema onde ele não existe: no papel da linguagem.


    «Essa diferença é fácil de explicar. A subjectividade, na nossa espécie, é propriedade de colónias de células que colaboram para criar os tais sujeitos. Por si só, uma célula dessa colónia não faz nada de jeito nem é eticamente relevante. Por isso não há problema em matar óvulos ou espermatozóides, pois esses são parte do sujeito e não sujeitos em si.

    Mas quando juntas gâmetas, fica algo capaz de ser sujeito. É isso que considero pessoa, eticamente: um ser capaz de ser sujeito (o que, admito, faz com que inclua organismos de outras espécies, o que complica o uso deste termo nestas discussões). Nesse caso é preciso ver se está em condições de vir a manifestar essa capacidade»

    É fácil de explicar, mas não de forma livre de objecções...

    Um espermatozoide e um óvulo prestes a juntarem-se estão em condições de vir um dia a manifestar a capacidade de ser sujeito. Tal como o Ovo.
    Não pode portanto ser esse o critério que justifique a diferença entre esse par de células e essa célula.

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  8. Ludwig,

    Mais uma vez o teu argumento central:

    «a ética não visa só o que é mas, principalmente, o que deve ser ou o que devia ter sido»

    e mais uma vez este argumento não é para aqui chamado. “Deve ser”, “é”, “ter sido”, “vir a ser” pertencem à distribuição temporal de uma mesma existência no seu universo próprio. Um sujeito na sua vidinha, do princípio ao fim. No que toca aos seres vivos não é isso que nos dizem as evidências apesar da tua abstracção extravagante.

    Para tentar dizer alguma coisa nova, uma outra objecção que posso apontar à tua defesa de uma ética subjugada ao futuro em vez de subjugada aos factos é que, sendo esse o imperativo maior, ao teres um filho não lhes estás só a dar uma vida mas sobretudo uma morte. Ora... isso parece-te bem? (desculpa lá este pensamento terrorista mas estás mesmo a pedi-las) *

    Portanto independentemente dos vários nomes que possa ter uma coisa, e da irrelevância que daí resulta para distinguir a gosma da criatura, mais importante para a defesa da tua posição é explicares aquilo que continua a ser uma desarticulação lógica: como é que embrião = ser humano? Parece-me que estás a tentar demonstrar esta igualdade apenas com o paralelismo fraudulento do adulto inconsciente ou anestesiado. São sujeitos diferentes.


    (*) Sugiro-te já outra reflexão para desenjoares desta. Se fores à faca por uma apendicite, o que te tirarem não vai para os cuidados intensivos. Vai para o lixo. Porquê? Porque é lixo. A questão do embrião ilude um pensamento tranquilo como este acrescentando-lhe apenas uma dimensão emocional. Daí a celeuma, mais emocional do que ética.

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  9. João Vasco,

    «Exacto. Coisas que não concordas.»

    Não é simplesmente não concordar. É serem circulares, e terem essa circularidade disfarçada pela retórica. Não me parece ser mero acaso que tu tenhas evitado tornar explícitas as condições que consideras necessárias e suficientes para que a existência de algo seja eticamente relevante.

    «Um espermatozoide e um óvulo prestes a juntarem-se estão em condições de vir um dia a manifestar a capacidade de ser sujeito. Tal como o Ovo.»

    Certo. Agora põe de parte a ideia de que tudo isto depende de traçar uma linha arbitrária algures. Adopta, em vez disso, a ideia de que qualquer avaliação ética consiste na ponderação do valor relativo das várias alternativas em causa.

    Assim podes perceber que há aqui vários valores a variar gradualmente. A relação causal entre a decisão e a eliminação daquela vida futura em particular vai-se tornando mais forte quanto mais tarde se age. Se for não ter relações sexuais, a relação é muito ténue entre esse celibato e a vida de qualquer filho hipotético em particular. Se for usar preservativo também. Se for ver primeiro qual é o espermatozóide que lá ia chegar e, nessa altura, tirar de lá o óvulo a relação causal é mais forte. Se deixares implantar no útero, ou crescer uma semana, duas, três, vai ficando cada vez mais forte a relação entre o teu acto e a eliminação dessa vida.

    Por outro lado, há outros valores que vão enfraquecendo. Por exemplo, tu és uma colónia de células, e parte da tua liberdade exige que tenhas algum controlo sobre essas células. Por isso a liberdade de fazeres o que entendes com os teus espermatozóides é também um valor em jogo aqui. Mas depois da concepção esse material biológico passou a pertencer a outra colónia. A concepção é, factualmente, o processo onde há a diferença mais clara entre o material biológico que és tu e o que era o teu pai e a tua mãe. Também aqui não há uma linha a traçar. Em detalhe, o processo é contínuo e gradual. Mas depois da concepção e antes há uma diferença grande entre a que colónia pertence cada célula.

    «Não pode portanto ser esse o critério que justifique a diferença entre esse par de células e essa célula.»

    E não é, nem precisa de ser. Não é preciso olhar só para um critério, e só o faço para não ter de repetir isto constantemente (mas acho que vou passar a copy-paste, que deve ser mais seguro :)

    O que se passa é que quando estás em casa a preparar-te para a noitada o valor ético da tua liberdade de fazer o que queres com as tuas células é muito superior ao valor ético de qualquer filho hipotético. Conforme tens relações sexuais, os gametas se fundem, o embrião se implanta e começa a desenvolver, o equilíbrio destes valores éticos vai mudando (apesar do valor subjectivo ser o mesmo, vê o post). A minha posição é que ao fim de semanas de gestação já estamos muito para lá do ponto de equilíbrio, porque a partir daí tudo o que resta é secundário. Respirar, crescer, mielinar os neurónios, aprender a falar, desenvolver auto-consciência e ter idade para votar são apenas fases do mesmo desenvolvimento. Exactamente quando se atinge esse equilíbrio é difícil dizer, mas será algures entre a concepção e a implantação, provavelmente.

    Mas esse equilíbrio não tem nada que ver com o es