quinta-feira, julho 01, 2010

Treta da semana: copiar CDs é pior que a droga.

No passado dia 28 o programa Falar Global da SIC Notícias foi sobre a pirataria informática. Ou, melhor, foi sobre o que os revendedores dizem da pirataria. Começou logo com o apresentador a dizer que iam “dar rosto às vítimas da pirataria”. E depois de uma curta peça de propaganda disfarçada de reportagem passaram à entrevista com o Manuel Cerqueira, presidente da Associação Portuguesa de Software (ASSOFT). Um senhor distinto e com um aspecto bem mais próspero do que seria de esperar de uma vítima de piratas. Mas estou a adiantar-me.

A peça “jornalística” que inicia o programa dura três minutos e meio. Minuto e meio para um vídeo americano de propaganda contra a pirataria de filmes e a ASSOFT a dizer que a pirataria de software faz perder 174 milhões de euros por ano só em Portugal. Depois um minuto dividido entre o presidente da ACAPOR a dizer que tanto o download como o upload são crime e um representante do PPP a dizer que apenas o upload é ilegal porque o que a lei proíbe é a distribuição e não a cópia privada. Entra então a jornalista em voz off e, com a isenção que manda a sua profissão, resolve a questão dizendo que a pirataria informática é um crime com vítimas. O minuto final é sobre os clubes de vídeo estarem a fechar por culpa da Internet, concluindo depois com a pergunta, em tom retórico, se não seremos todos nós os lesados. Eu cá não sou. Um clube de vídeo faz-me menos falta que uma loja de alugar palitos.

Depois vem a entrevista. Um género de Crossfire sem o cross nem o fire. Às tantas, acerca da pirataria, o entrevistador faz uma “pergunta” afirmando que «Estas manobras são, de facto, um atentado à economia mundial. Inclusivamente trazem um rombo significativo». Não querendo ficar atrás, o Manuel Cerqueira responde que a «pirataria de software consegue ser mais gravosa que a própria droga». Não será pelo drama da toxicodependência, as overdoses, os perigos de partilhar seringas, a miséria e a violência estúpida que acompanham a droga. Esses são problemas humanos sem gravidade. A pirataria é pior porque, segundo o chapéu do Manuel Cerqueira, custa mais dinheiro. São cinquenta e quatro mil milhões de dólares por ano em pirataria, que é muito mais do que se gasta em droga.

Bem, na verdade, não é. A ONU estima que o comércio ilícito de drogas movimenta um total de 351 mil milhões de dólares por ano (1), sete vezes mais que o valor inventado para a pirataria de software. E com a agravante de ser dinheiro mesmo em vez de números de fantasia. As contas do Manuel Cerqueira não convenciam nenhum traficante de droga. Nem, em verdade, ninguém com um nível de alcoolemia abaixo do limite legal. Porque as tais bateladas de milhões que a pirataria alegadamente custa resultam de estimar quantas cópias do MsOffice o pessoal usa de borla, assumir que se o usam de borla também pagavam 100€ para não usar o OpenOffice, que é mesmo de borla, e depois chamar “perdas” a esse dinheiro que teriam ganho se vivessem na terra do Nunca-Nunca.

Foi assim que eu perdi 28 milhões de euros a semana passada, quando não ganhei o Euromilhões. E só não foi mais porque não joguei...

Depois disto o resto da entrevista é anti-climático. Um enrolar de disparates e pobreza jornalística já muito abaixo da pirataria de software ser mais gravosa que a droga. Mas queria salientar um momento que me tocou pessoalmente. O Manuel Cerqueira diz que desenvolver software exige pessoas com grande formação e que «a ciência para fazer software não se apanha das árvores. É uma questão que obriga a muito estudo, obriga a mentes brilhantes, e obriga a muito investimento. Portanto alguém tem que ganhar para pagar essa factura.»

Criar software exige muito estudo, investimento e ciência. Mas a factura principal pagamo-la todos. A empresa pode pagar um ou dois anos de salários a uma equipa de programadores para desenvolver o próximo minesweeper, mas só porque esses programadores investiram a sua juventude em estudo e nós todos pagámos essas quase duas décadas de formação. E porque gerações anteriores criaram, ensinaram e partilharam a ciência que permitiu essa formação. Sem Microsofts possivelmente não haveria programas tão bonitos, tão fáceis de usar e tão cheios de bugs e vírus. Mas sem o enorme investimento público em ciência e tecnologia, e sem o investimento pessoal de muita gente que se dedicou a aprender a programar, não havia nem Microsofts, nem Internet, nem sequer computadores. E os associados do Manuel Cerqueira lá teriam de arranjar um trabalho que não fosse a vender o que os outros criam.

O programa está aqui. Obrigado ao Miguel Caetano por, não satisfeito com a azia com que ficou, me ter dado o link para eu ficar mal disposto também.

1- Boston.com, UN report puts world's illicit drug trade at estimated $321b

Editado a 2-7, para trocar um "download" por um "upload". Obrigado ao Nelson Cruz por topar a gralha.

39 comentários:

  1. 174 milhões de euros por ano... Pois pois. E ninguém contesta, é triste. Tenho tentado dar a volta a isso com esta votação, onde ainda ninguém disse que compraria tudo aquilo que "saca", se não tivesse outra forma de o obter. Mas mesmo aqueles que o próximo voto fosse "eu compraria tudo o que pirateio", seria 1 em 45 dos que "pirateiam", o que transformaria esses 174 milhões em menos de 3.3 milhões... Um bocadinho diferente, não?

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  2. Presumo que o representante do PPP tenho dito que apenas o upload é ilegal. :)

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  3. Noori,

    Falta aí uma opção (pelo menos):

    - Continuaria a comprar tal como comprei até aqui (mas mais "desinformado").

    Explico: eu ainda compro CDs e DVDs. Gosto do objecto em si, de passear pela prateleira, pegar nele e pensar, Ah, bela música, do mesmo modo que gosto do objecto livro.

    Mas não compro qualquer coisa: normalmente compro edições especiais ou objectos "bonitos" (capas bonitas, livretes bonitos, etc) e compro sempre algo que já conheço e aprecio. Ou seja: a tal pirataria permite-me seleccionar aquilo que compro, mas a quantidade que compro depende do meu orçamento para essas coisas e esse não ia mudar com o fim da pirataria. No limite até compraria menos e iria a menos concertos, pois conheceria muito menos.

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  4. Eu sugeria que fizessem também um programa sobre companhias monopolistas como a Microsoft, que funcionam à base do sindroma de Estocolmo, criando programas com falhas postas lá de propósito e vendendo-os por preços exorbitantes. Sobrevivem e enriquecem à custa duma máquina de marketing que só serve para abusar de quem pouco percebe de informática. Deviam dar-se por muito contentes, porque com um pouco mais de informação e liberdade (sim, porque nunca vi um pc à venda que viesse com o Linux) as pessoas mudariam (quase) todas para software open-source

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  5. Como sempre um raciocínio, sólido- sete vezes mais que o valor inventado para a pirataria de software. E com a agravante de ser dinheiro mesmo em vez de números de fantasia. As contas do Manuel Cerqueira não convenciam nenhum traficante de droga. Nem, em verdade, ninguém com um nível de alcoolemia abaixo do limite legal. Porque as tais bateladas de milhões que a pirataria alegadamente custa resultam de estimar quantas cópias do MsOffice o pessoal usa de borla, assumir que se o usam de borla também pagavam 100€ para não usar o OpenOffice, que é mesmo de borla, e depois chamar “perdas” a esse dinheiro que teriam ganho se vivessem na terra do Nunca-Nunca.

    Foi assim que eu perdi 28 milhões de euros a semana passada, quando não ganhei o Euromilhões. E só não foi mais porque não joguei...
    agora isto dos 351 mil milhões de dólares por ano
    mesmo a 35 dólares a grama são 10 mil milhões de doses
    e 10 mil toneladas de droga
    e excepto nos EUA a droga não chega a esses valores, mas sem ser picuinhas, admitamos que os vendedores de hardware, vendiam computadores com partição para dois sistemas Linux/Windows
    é uma falácia...não ligue somos falaciosos, quem pagaria aos fabricantes uma percentagenzinha por instalarem o software da Linux
    é como as ofertas de brindes e viagens para congressos, acho que os genéricos também não as dão...

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  6. e se a Linux, não dá percentagens a ninguém...
    e se os genéricos não pagam viagens a congressos...
    e se as editoras não oferecem manuais gratuitos aos professores....
    e se a pirataria não paga impostos...
    e se nem contribui para campanhas partidárias.....
    obviamente a pirataria deve ser reprimida
    o problema é haver tanta
    tem que se dar o exemplo
    publicita-se alguns casos, de piratas com condenações a penas efectivas
    a Linux também não paga publicidade na televisão...

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  7. Nelson,

    «Presumo que o representante do PPP tenho dito que apenas o upload é ilegal. :)»

    Argh... tinha uma frase comprida a dizer que um era ilegal mas o outro cópia privada, cortei para simplificar e amputei o braço errado ao paciente...

    Obrigado pelo aviso.

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  8. Ludwig, ainda bem q não és cirurgião! :)

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  9. Relativamente à musica, os verdadeiros amantes continuarao sempre a comprar CD pela simples razao da qualidade. Os ficheiros sacados da net tem qualidade muito inferior à dos CDs uma vez que necessitam de ser comprimidos para poder ser transferidos por aquela via.
    Um mp3 serve perfeitamente para ouvir num computador, num iPod ou sistemas semelhantes, mas se se ouvirem atravez de uma aprelhagem a baixa qualidade é evidente.

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  10. OFF TOPIC: LUDWIG KRIPPAHL E AS ALEGAÇÕES INFUNDADAS DOS CRIACIONISTAS E O CONSENSO DOS BIÓLOGOS!

    LK: Sabes, estou convencido que os micróbios se transformaram em microbiologistas ao longo de milhões de anos e que os criacionistas fazem alegações infundadas acerca dos factos.

    IC: A sério? Grandes afirmações exigem grandes evidências!! Quais são as tuas?

    LK: É simples! O meu “método científico”, o meu “naturalismo metodológico” e o meu “empírico” e o “consenso dos biólogos” são infalíveis. Se os criacionistas soubessem bioquímica, biologia molecular, genética, etc. e atentassem para o “consenso” dos biólogos poderiam observar que:

    1) moscas dão… moscas

    2) morcegos dão… morcegos

    3) gaivotas dão… gaivotas

    4) bactérias dão… bactérias

    5) escaravelhos dão… escaravelhos

    6) tentilhões dão… tentilhões

    7) celecantos dão… celecantos (mesmo durante supostos milhões de anos!)

    8) guppies dão… guppies

    9) lagartos dão… lagartos

    IC: Mas...espera lá! Não é isso que a Bíblia ensina, em Génesis 1, quando afirma, dez vezes, que os seres vivos se reproduzem de acordo com o seu género?

    LK: Sim, mas os órgãos perdem funções, total ou parcialmente e existem parasitas no corpo humano…

    IC: Mas…espera lá! A perda total ou parcial de funções não é o que Génesis 3 ensina, quando afirma que a natureza foi amaldiçoada e está corrompida por causa do pecado humano? E não é isso que explica os parasitas no corpo humano? Tudo isso que dizes confirma Génesis 3!

    Afinal, os teus exemplos de “método científico”, “naturalismo metodológico”, “empírico” e “consenso dos biólogos” corroboram o que a Bíblia ensina!!

    Não consegues dar um único exemplo que demonstre realmente a verdade aquilo em que acreditas?

    LK: …a chuva cria informação codificada…

    IC: pois, pois… as gotas formam sequências com informação precisa que o guarda-chuva transcreve, traduz, copia e executa para criar máquinas para fabricar fantasias no teu cérebro…

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  11. "perspectiva: OFF TOPIC"

    With you, it's ALWAYS off topic... ;)

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  12. what is this... i don't even ...

    O que raio têm os celecantos a ver com a droga e a pirataria?

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  13. «a ciência para fazer software não se apanha das árvores. É uma questão que obriga a muito estudo, obriga a mentes brilhantes, e obriga a muito investimento. Portanto alguém tem que ganhar para pagar essa factura.»

    Eu tenho que ser brilhante, porque criei um script para interagir com algumas redes sociais. Sou um génio e nem sabia! :D Obrigado, presidente da ass-of-t.

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  14. Here we go again...

    Eu puxei o Batman: Arkham Asylum. Joguei um pouco e vi que o jogo é mesmo bom.
    Comprei o jogo. É a minha forma de compensar a Software House por um jogo que me agrada e pelo qual segundo a ideia do Ludwig eu teria pago uma quantia em avanço para que eles o desenvolvessem.

    Mas como esses amanhãs que cantam ainda aqui não estão, eu compro o jogo. Sim, possivelmente eu sou estúpido por optar por comprar um jogo que posso muito bem jogar á borla. E os outros são estúpidos por se divertirem a programar jogos, gravar albums e escrever livros quando podiam estar a fazer coisas realmente uteis à sociedade mas que infelizmente não podem ser comercializadas da mesma forma...

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  15. Wyrm,

    Não acho que seja estupidez comprar os jogos de que gostas. Eu já comprei vários também. Um dos últimos foi o world of goo, há poucas semanas.

    Mas quando compras um jogo como esse do Batman muito pouco do dinheiro vai para quem teve o trabalho criativo. Esse foi desenvolvido pela Rocksteady, que foi comprada pela Warner, e muito do custo do jogo é licenciamento à DC e à Warner, etc. Os tipos que fizeram a arte e programaram o jogo vão receber o ordenado ao fim do mês e pronto...

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  16. É uma coisa gira, a do software.

    Quando pagamos 700 euros por um windows, o mais engraçado de tudo é que o contracto que estamos assinar é de completa desresponsabilização do fabricante daquilo que estamos a usar. No EULA diz lá não só que a MS não se responsabiliza por qualquer dano que o software deles cause, como também tem o direito de nos remover o usufruto do mesmo. (ou pelo menos, das últimas vezes que olhei para o EULA haviam clausulas deste género)

    Isto, para mim, é inaceitável. Quando pago algo espero contrapartidas positivas, não negativas. Que o software livre que saco das internets de borla feito por um marmanjo qualquer venha com uma clausula "ah e tal, estás livre de usar sem pagar nada por isso, mas também não garanto que isto faça o que queres nem me responsabilizo por qualquer dano" é uma coisa, mas quando pago (e não é assim tão pouco) pelo software desenvolvido por uma empresa que contratou vários "génios" para produzir o programa, aí já esperaria alguma qualidade no produto.

    É por isto que não pago por software. Uso Ubuntu e estou contente. Tenho as mesmas garantias e o mesmo suporte que teria se tivesse pago a exorbitância que a Microsoft pede pelo Windows, e não há nada que isto não me permita fazer.

    Este combate todo à pirataria é uma maneira de defender um modelo de negócio que não só não funciona e por isso está a morrer. Entretanto outros modelos vão surgindo. Por exemplo a Canonical (e a Red Hat e outras empresas que fazem distribuições de GNU/Linux) têm vários produtos: a versão grátis, que toda a gente pode usar, que é relativamente bem suportada, mas que tem todas aquelas clausulas de "não nos responsabilizamos se isto der bronca", e também têm uma versão profissional em que o cliente paga e recebe suporte mais personalizado e correcções de problemas que encontre.

    Eu gosto deste modelo de negócio para software de sistema.

    No caso de jogos a coisa pia de outra maneira, mas não me choca muito pagar por extensões ao conteúdo do jogo, ou uma fee mensal que suporta a manutenção dos servidores e esse tipo de modelo de negócio.

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  17. Porquê que quando se fala em pirataria, a conversa vai bater sempre à Microsoft e ao Linux? Será que não existe nada para alem disso? Só usa software da Microsoft ou de outra companhia que comercialize software quem quer!

    Relativamente ao programa da SIC, vi os primeiros minutos minutos e fiquei chocado com o jornalismo de tanga e com a celebres frase que já foram aqui comentadas. Passar uma coisa daquelas na TV é que deveria ser ilegal.

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  18. O consenso dos revendedores está de acordo que a pirataria está errada, portanto esta matéria não tem razão de existir.

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  19. Gonçalo, acho que é mais porque são exemplos emblemáticos com os quais muita gente se consegue relacionar. O Windows e o Office são dois produtos fortemente impingidos, com um preço exorbitante, para os quais há alternativas grátis que fornecem exactamente o mesmo serviço.

    E ainda mais, são geridas por empresas (OpenOffice é da Sun, se não me engano, o Ubuntu é da Canonical) que não estão a ficar mais pobres pelo facto de darem o seu software a quem o quer.

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  20. Mats

    O consenso dos revendedores está de acordo que a pirataria está errada, portanto esta matéria não tem razão de existir.

    O problema é que o consenso dos utilizadores é o que conta.

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  21. Quem deve fazer as leis são os representantes dos cidadãos.

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  22. A Microsoft ainda está em dívida com a sociedade pela visibilidade que a pirataria lhe permitiu. Sem ela a Microsoft seria menos que nada, como aconteceu a todos os fabricantes que protegeram com verdadeiros sistemas anti-cópia os seus produtos, coisa que a Microsoft nunca fez, eles saberão porquê. Provavelmente andaríamos aos papéis, mas isso já tinha custos bem calculados, e claro que haveria menos desemprego. Pensando bem, com a quantidade de pessoas que receberiam salário mas que foram dispensadas pela facilidade com que os computadores fazem tudo hoje em dia, talvez nem houvesse crise económica, porque quem ganha gasta, e para haver procura tem de haver oferta. Está boa... Raios os partam!

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  23. Ardonic: O FLAC dá-te ficheiros, que é muito menos do que um album - pelo menos para o coleccionador. Mesmo que a questão da qualidade sonora não se puzesse (e põe-se, porque mesmo sendo lossless, é-o para o digital, o que faz com que, nos casos em que a produção é analógica, não consigas conservar toda a informação que o vinil conserva...), põe-se toda a questão do packaging, do artwork, do toque, do espaço que ocupa na estante... O formato físico está longe de estar a caminhar para a muito anunciada morte.

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  24. Marcos,

    «e põe-se, porque mesmo sendo lossless, é-o para o digital, o que faz com que, nos casos em que a produção é analógica, não consigas conservar toda a informação que o vinil conserva...»

    Eu penso que quando entras em conta com o ruído, o vinil acaba por ser pior que a conversão para digital. Até porque a conversão para digital é feita uma vez, e se for bem feita não precisa ser muito lossy. Com 16 bits e 40kHz deve estar bem próximo dos limites físicos da agulha e do vinil -- e nada impede de aumentar estes valores, basta o ADC ser melhor.

    E o espaço pode ser um benefício mas pode ser um defeito... :)

    Eu concordo que há de haver sempre quem quer o objecto físico. Mas penso que para ouvir música -- só ouvir -- o digital já é melhor.

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  25. Bem, na verdade o vinil vai bastante mais que os 40kHz do CD, mas não precisamos de ficar pelos 40kHz num formato digital...

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  26. Marcos, estava a responder apenas e só à questão da qualidade perdida ao se adoptar um formato lossy. Do CD para um FLAC não vais ter diferença nenhuma.

    Obviamente que o coleccionador vai valorizar tudo o resto que acompanha o CD e não tem o "mesmo sabor" em formato digital.

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  27. Mas mesmo nesse caso, quem devia receber a maioria do dinheiro eram os artistas, não a Sony.

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  28. Formatos de som lossless como FLAC guardam os dados contidos no CD de forma matematicamente perfeita.
    A arte impressa nas capas e booklets foi digital antes de ser impressa; quando é impressa geralmente é em papel glossy perfeitamente comum.
    As informações contidas nos papeis são infinitamente mais úteis em formato digital como metadata das músicas, que torna possível a pesquisa e ordenação automática conforme qualquer critério.
    O formato puramente digital conserva espaço e possibilita a existência de quantas cópias de segurança quanto for desejável.
    Cópias físicas necessitam fabrico, alojamento e transporte. São sujeitas a ruptura de stock e a excesso.
    Quanto a formatos analógicos, estes são sujeitos a degradação na cópia, degradação com o uso e corrosão em geral, ao mesmo tempo que não possuem, nas formas presentes, melhor fidelidade que o possível de atingir digitalmente.
    Não esquecer que o CD não é o topo no que toca a audio digital.
    Veja-se este exemplo, em que musicas dos Beatles foram vendidas numa edição limitada em formato FLAC a 44.1 kHz e 24 bit, qualidade superior ao possível com CDs (44.1 kHz, 16 bit).
    É escusado dizer que esta edição limitada anda agora a flutuar pelas internets.

    Melhor fidelidade hoje em dia só mesmo ao vivo.

    Já agora, leiam este livro (disponível livremente em formato digital).

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  29. João,

    O Free Culture já li há vários anos. :)

    E mais 1 ou 2 do Lessig também. Mas o Free Culture é o melhor.

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  30. O que este senhor anda a fazer também é capaz de fazer algumas instituições de ensino, e explicadores e afins, "perderem" uns trocos! :)
    http://www.khanacademy.org

    São já mais de 1400 vídeos (alojados no youtube claro) a ensinar desde matemática a estatística, química, biologia, e até finanças. Pois é... o youtube não serve só para ver gatos a tocar piano!

    Reportagem da PBS:
    http://www.youtube.com/watch?v=1kly25zVbco

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  31. Nelson,

    Muito porreiro isso. Mas discordo que faça perder trocos aos professores. Penso que é um bom exemplo do que se passa com a cultura.

    Não há ensino perfeito. Há sempre mais a aprender e melhores formas de se ensinar, se se tiver possibilidade. Os alunos que vêm à teórica ou vêem a gravação da aula não deixam de precisar de tirar dúvidas nas práticas. O que acontece é apenas que as dúvidas são mais produtivas porque já aprenderam alguma coisa.

    Por isso desde que o professor (ou o artista, autor, criador, etc em geral) consiga levar a sua actividade cultural mais além do que os alunos (ouvintes, audiência, etc) podem fazer sozinhos ou com o youtube o seu trabalho será útil e apreciado.

    É claro que se os alunos chegam à conclusão que ver o video no youtube é melhor que ir à aula, é chato para o professor. Mas é melhor do que ter aquele professor e mais nada.

    Por isso, para evitar ser "youtubado", eu tento dar nas aulas teóricas mais do que um video ao vivo. Uso 2/3 do tempo da aula para expôr a matéria e reservo o resto para perguntas e discussão com os alunos. E nisto o vídeo ajuda muito, porque tendo a aula gravada posso condensar a exposição por não precisar de repetir coisas com medo que escape algo importante, porque podem ir sempre à gravação ver as vezes que quiserem.

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  32. Ludwig,

    Concordo perfeitamente. Meti o "perderem" entre aspas por isso mesmo. Alguns explicadores até podem efectivamente perder clientes, mas a vantagem para quem aprende, especialmente para quem não tem possibilidades económicas para explicadores é tal, que o ganho para a sociedade é largamente compensado.

    Eu diria que é uma perda equivalente à provocada pelas bibliotecas aos autores e editoras de livros. E por falar em bibliotecas há quem duvide se seriam permitidas se fossem inventadas hoje:
    http://techdirt.com/articles/20100630/12152310025.shtml

    Consigo perfeitamente imaginar uma série de cenários onde esses vídeos sejam úteis em complemento ao ensino normal. Isoladamente até serão efectivamente pouco. Não há aquela interactividade desejável numa aula. E há coisas que não se aprendem convenientemente em 10min; pelo menos não o porquê de ser assim.

    E para terminar, Ludwig, já escreveste aqui no blog várias coisas que me fizeram pensar que os teus alunos têm sorte de te ter como professor. Este teu último comentário... foi mais uma.

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  33. Prince Says "The Internet's Completely Over"

    Time to pack it up, boys and girls.

    Prince, and at one point, the Artist Formerly Known as Prince, is one of the greatest musical artists of our time. In fact, he was ranked at 28th in Rolling Stones' list of the 100 Greatest Artists of All Time.

    This immensely talented man doesn't have much love for the internet, computers or other digital gadgets, though.

    In an interview with UK paper the Mirror, which he is doing an album promotion with, Prince said that his new album will be released only on CD – no internet downloads through iTunes, Amazon, or any other form digital distribution, direct or not.

    Prince is even against having his music play on YouTube and he has even shut down his official website. The artist explains that he doesn’t see any future in the internet.

    "The internet's completely over. I don't see why I should give my new music to iTunes or anyone else. They won't pay me an advance for it and then they get angry when they can't get it.

    "The internet's like MTV. At one time MTV was hip and suddenly it became outdated. Anyway, all these computers and digital gadgets are no good.

    "They just fill your head with numbers and that can't be good for you."

    Fonte: http://www.tomshardware.com/news/prince-artist-internet-youtube-music,10803.html

    Cá para mim este "artista" é que já passou à história tal como a MTV.
    Estamos no séc. XXI e os anos 80 já lá vão algum tempo. Ele até fez algumas coisitas interessantes nessa altura mas hoje corre o sério risco de se tornar irrelevante!

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  34. sxzoeyjbrhg,

    Se o Prince passou à história não sei. Pode ser que faça mais alguma coisa engraçada ainda. Mas não me surpreende muito estas coisas. Ter talento para a música não implica ser perspicaz acerca da tecnologia, e ser rico e famoso por algo tão subjectivo como a arte não exige uma visão realista do que o rodeia. É como o Elton John dizer que deviam fechar a Internet para a música voltar a ser o que era...

    Mas que tem piada, tem :)

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  35. Nelson,

    Sim. Se a ideia da biblioteca surgisse agora não deixariam avançar com isso. A não ser talvez na ciência. Vê, por exemplo, o movimento discreto mas aparentemente inexorável para o open access de publicações científicas. Já era prática comum na informática -- a maior parte das publicações na informática dão ao autor o direito de ter o artigo acessível na sua página, porque sem isso teriam dificuldade em ter autores -- mas está a tornar-se cada vez mais comum por pressão das universidades, que organizam repositórios (bibliotecas) da sua investigação.

    Mas, por outro lado, se a Internet tivesse surgido antes da imprensa não haveria copyright, e tínhamos passado logo para um modelo em que o autor vendia o seu trabalho em vez do intermediário vender o resultado às fatias e rodelas...

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  36. Nuvens,

    De vez em quando visito esses, e também visitava a www.ufopt.com quando ainda tinha lá gente (acho que agora não está activo, esse site). Mas tenho um soft spot para isto da ovniologia. Não por ser menos treta mas por me parecer das mais inofensivas que há por aí...

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