quinta-feira, março 04, 2010

Telhados de vidro.

Simon Singh é um escritor e jornalista britânico que escreve sobre matemática e ciência. Em Abril de 2008 escreveu um artigo para o jornal The Guardian criticando a quiropraxia, uma terapia de alinhamento da coluna vertebral que considera que as doenças se devem a vértebras desalinhadas. Segundo Daniel David Palmer, o fundador da coisa, «Ao corrigir as deslocações destes tecidos ósseos, o suporte de tensão do sistema nervoso, afirmo prestar obediência, adoração e honra à Inteligência Espiritual Todo-Sabedora, bem como um serviço às suas porções individuais e segmentadas»(1).

No seu artigo, Singh afirmou que a «Associação Britânica de Quiropraxia (BCA) alega que os seus membros podem ajudar a tratar crianças com cólicas, problemas de alimentação e sono, otites frequentes, asma e choro prolongado, tudo sem quaisquer evidências. Esta organização é a face respeitável da profissão quiroprática e ainda assim de bom grado promove tratamentos da treta.»(2) Em resposta, e continuando sem evidências, a BCA processou Singh por difamação (3).

A lei britânica considera que as afirmações difamatórias são falsas a menos que o acusado comprove serem verdade (4). Esta inversão da presunção de inocência justifica-se se as alegações devassam a vida privada, caso em que é injusto impor ao difamado o ónus de as refutar. Mas já não é assim quando estão em causa factos públicos. Quem vende tratamentos deve comprovar que são seguros e eficazes. Não é quem critica a falta de provas que deve ser obrigado a demonstrar que a banha da cobra não cura. Em matérias desta natureza a critica aberta é fundamental e leis como esta são um travão no progresso científico. Por isto o processo contra Simon Singh motivou uma campanha pela reforma desta legislação no Reino Unido (5).

Mas o mais engraçado foi a reacção de vários indivíduos que, por causa deste processo movido contra Singh, começaram a escrutinar os quiropratas com mais atenção. Em Maio do ano passado um blogger apontou um artigo nos regulamentos do Conselho Geral de Quiropraxia (GCC) que proibia aos quiropratas publicidade que não respeitasse as directivas da Autoridade de Standards Publicitários (ASA) britânica. Como a ASA exige que publicidade médica seja substanciada por evidências e o regulamento do GCC aplica-se, por força da lei, a qualquer quiroprata em exercício, aqueles que publicitassem terapias como as que Singh criticara estavam a violar a lei (6). E eram muitos.

Depois disto começaram a aumentar as queixas contra quiropratas por publicidade enganosa, chegando até a BCA a recomendar aos seus associados que retirassem as páginas da 'net e recolhessem todos os panfletos para não arriscar. Hoje a BCA está a braços com centenas de queixas e processos legais contra os seus associados e já teve de contratar meia dúzia de pessoas só para tratar da papelada (7). Vai-lhes sair cara a brincadeira.

Via Bad Astronomy.

1- Wikipedia, Daniel David Palmer
2- O artigo original foi retirado, mas é possível encontrar cópias em muitos sitios. Por exemplo: Beware the spinal trap
3- Telegraph, Doctors take Simon Singh to court
4- Wikipedia, English defamation law
5- New Scientist, Campaign to reform English libel law launched
6- Zeno's Blog, What chiroquacktors are allowed to claim
7- Guardian, Furious backlash from Simon Singh libel case puts chiropractors on ropes

3 comentários:

  1. Devias ter visto os artigos que eles apresentaram para demonstrar a quiropratica, tipo:

    "curing ulcers in brazilian indians: a 2 case study", Tibetan Jornal of Wholebread Bullshit, Bahamishinio et al 2005

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  2. PS: acho que o paio ficou sem as ervilhas...

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