quarta-feira, novembro 18, 2009

Mexe as orelhas.

O Marcos Sabino respondeu ao meu post sobre estruturas vestigiais. Algo deambulante, o post do Marcos insiste no apêndice como se fosse o único exemplo de estruturas vestigiais, diz que tem "funções importantes" sem explicar que falta faz e afirma que «quem baralhou tudo e alterou a definição de “órgão vestigial” foram os evolucionistas»(1) quando o próprio Darwin mencionou que estruturas vestigiais podem manter outras funções. O Mats acrescentou que «Orgãos vestigiais são aqueles cujas funções os evolucionistas não sabem qual é [sic].» Agradecendo ao Marcos «o prémio Afirmação Evolucionista Mais Estúpida da Semana», vou tentar esclarecer estes mal-entendidos que por vezes assolam até os aspirantes a jornalista mais imparciais, escrupulosos e objectivos.

À volta de cada orelha temos três músculos auriculares: superior, anterior e posterior. São estruturas vestigiais e, ao contrário do que sugere o Mats, conhecemos a sua função. Mexer as orelhas. Gatos e cães usam-nos para levantar as orelhas e virá-las para a frente e para trás e cerca de metade das pessoas consegue mexer as orelhas contraindo estes músculos (2). Consideramo-los vestigiais pela conjugação de vários factores.

Na nossa espécie, estes músculos são muito menos desenvolvidos que em espécies como o gato e o cão. Não precisamos de mexer as orelhas, ao contrário dos gatos e dos cães. Metade das pessoas não consegue mexer as orelhas, o que mostra haver uma grande variação genética nesta característica. E a outra metade só consegue contrair os três músculos em simultâneo, deslocando as orelhas ligeiramente para trás e para cima sem o controlo motor necessário para as orientar devidamente.

Nisto quero salientar duas ausências. Em lado nenhum afirmo que estes músculos não têm função ou que a sua função é desconhecida. Têm função e sabemos qual é. Mexer as orelhas. E não invoco a teoria da evolução para os identificar como estruturas vestigiais. Comparo animais, comparo músculos e a capacidade de os usar e não assumo ancestrais comuns, mutações ou degeneração. Uma estrutura vestigial identifica-se pelo que é, pelo que observamos agora, e esta identificação não inclui desconhecer a sua função ou assumir que não tem nenhuma. Aos criacionistas peço que leiam este parágrafo pelo menos três vezes. Mais, se custar a entrar.

A teoria da evolução serve para explicar porque é que temos músculos para mexer as orelhas quando não precisamos de as mexer, só alguns o conseguem e mesmo esses só ligeiramente. A hipótese criacionista da corrupção pressupõe que Adão e Eva conseguiam apontar as orelhas para onde quisessem, como os cães, o que é estranho em primatas. E deixa por explicar porque a corrupção foi estragar precisamente os músculos das orelhas deixando ilesos os dos braços, das pernas e tudo o resto que funciona bem.

A teoria da evolução explica que um antepassado nosso, de todos os primatas e de alguns outros mamíferos usava as orelhas como os cães as usam hoje, apontando-as com os tais músculos para ouvir de onde vinham os sons. Passado muito tempo, alguns dos seus descendentes tinham um pescoço mais vertical, conseguiam apontar as orelhas mexendo a cabeça toda e, além disso, usavam mais os olhos que os ouvidos. Como nós e os nossos primos mais próximos. Neste lado da família, as mutações que degradavam o desempenho dos músculos auriculares não eram grande inconveniente. Por isso iam ficando. Em contraste, o outro lado da família continuou a precisar de mexer as orelhas. Em animais como os lobos, o mesmo tipo de mutação foi rapidamente eliminado por reduzir o sucesso reprodutivo dos desgraçados a quem calhasse.

Saliento também que as premissas desta explicação – o maior impacto na sobrevivência e sucesso reprodutivo numas espécies que noutras, a ancestralidade comum, a acumulação de mutações, a sua eliminação pela selecção natural e assim por diante – são todas fundamentadas por evidências independentes. Como o registo fóssil, análises filogenéticas, observação dos animais e muitas outras. Além disso, a teoria da evolução explica muito mais do que o apêndice ou os músculos das orelhas. Não estou, de forma alguma, a apresentar as orelhas como a prova principal da teoria da evolução. Pelo contrário, estou a usar uma teoria sólida, bem assente em muitos outros dados, para explicar a degeneração destes músculos e de outras estruturas das quais já não precisamos. Como o apêndice e os dentes do siso, por exemplo.

O Marcos afirma que «mesmo que existissem órgãos degenerados ou sem função isso apenas seria evidência de que eles são degenerados e sem função.» Este fragmentar do conhecimento em factos soltos, sem relação entre si, é o oposto da ciência. A ciência visa criar modelos integrados em teorias que encaixem umas nas outras. Visa criar um corpo de conhecimento coeso, unificado, sem pontas soltas, explicações ad hoc ou histórias da carochinha. E não só visa esse objectivo como o consegue.

É isso que lixa os criacionistas. Com meia dúzia de lérias inventadas há milhares de anos não conseguem explicar nada. Em desespero, resta-lhes defender que cada facto só é evidência de si próprio e usar os músculos auriculares para desviar as orelhas de tudo o que os possa contradizer.

1- Marcos Sabino, O evolucionista Ludwig e os seus argumentos vestigiais
2- Berzin F, Fortinguerra CR, 1993, EMG study of the anterior, superior and posterior auricular muscles in man.

9 comentários:

  1. The Human Coccyx: A Study in Vestigiality

    http://www.freewebs.com/oolon/vestigial.htm

    Citing Scadding (1981) and Misunderstanding Vestigiality
    Another Example of Poor Creationist Scholarship
    by Reed A. Cartwright and Douglas L. Theobald, Ph.D.

    http://www.talkorigins.org/faqs/quotes/scadding.html

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  2. É que o Deus deles se arrependeu quando começou a criar determinadas estruturas em determinados animais... E deixou aquiço em esboço.

    Ou então foi só para enganar os evolucionistas.

    Mats e Sabino:

    Conseguem ja explicar qual é o mecanismo que impede que se dê uma mutação benéfica, não deixando o assunto entregue ao acaso?

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  3. «Metade das pessoas não consegue mexer as orelhas, o que mostra haver uma grande variação genética nesta característica.»

    Pus-me agora mesmo a tentar e como sempre estou no lado desfavorecido da humanidade.

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  4. Há também a hipótese de todos termos esses três músculos das orelhas igualmente activos, embora a habilidade de os utilizar dependa de uma capacidade do sistema nervoso central. Como aquela cena de juntar o mindinho com o anelar e afastá-los do médio com o indicador. Há um músculo que está lá para esse movimento mas temos que "o treinar", ou seja, treinar o comando que enviamos.

    Será que os primos Gaspart & Gaspard concordariam em oferecer-se à ciência para verificar se nos seus suportes físicos equivalentes os impulsos mentais de cada um deles se traduzem em resultados diferentes no movimento das orelhas?

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  5. Bruce,

    «Há também a hipótese de todos termos esses três músculos das orelhas igualmente activos, embora a habilidade de os utilizar dependa de uma capacidade do sistema nervoso central»

    Sim. Eu não só não consigo mexer as orelhas como nem sinto que tenha lá esses músculos. O problema deve ser mesmo a nível dos nervos e da representação dessa parte do corpo no cérebro.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Ludwig:

    O Sabino pergunta como é que sabes que aquilo servia para digerir. Eu queria responder-lhe que tu estas enganado, que aquilo servia para voar mas não consigo. Não me perguntes porque, deixei de conseguir abrir a pagina e tudo.

    Mas olha, e pergunta-lhe tambem se ele acha que os olhos das toupeiras serviam para outra coisa senão para ver e qual, que eu tenho curisidade.

    E por fim, se aqui foi feito por Deus, porque é que Deus decidiu criar orãoes que são tal qual vestigios de outros, quer tenham um vestigio de funcionalidade ou não. TIpo estava distraido? Preguiçoso? Queria induzir pessoas racionais a acreditar na evolução?

    Mas olha, o que estava a pensar é que há muito tempo que não escreves um artigo de blinologia. É a unica coisa que explica realmente a criação de uma estrutura vermiforme em contiguidade com o ceco, cuja unica finalidade parece ser o desenvolvimento de uma tecnica médica chamada apendicectomia ou apendectomia, não sei, Deus não dotou todos os animais com essa benesse. Talvez seja até possivel viver sem a sua cultura intencional de bacterias.

    Blin!

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  8. Fui ao answers in genesis ver o que eles la diziam.

    Depois de muitas voltas concluiem que é possivel que o apendice sirva para produzir anticorpos no momento em que o intestino começa a ser colonizado por microorganismo.

    Porque todas as outras hipoteses foram eleminadas. É portanto uma função das lacunas.

    E esta funçao das lacunas permite-lhes tirar a espantosa conclusão que o apendice tem todas as caracteristicas de desenho inteligente.

    Sem duvida. Algo que talvez seja preciso durante escassas semanas e que pode matar mais tarde é sem duvida de origem inteligente.

    Que tal se fossem as placas de pyer a fazer esse trabalho? Isso é que era inteligente.

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  9. O Mats e o Perspectiva despareceram depois de ter feito aquela pergunta incómoda. É a terceira vez que o Mats desaparece depois de eu lhe fazer aquela pergunta. Enfim, espero ter falado cedo de mais...

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