quinta-feira, março 26, 2009

Financiar a criatividade, parte 1: pagar o que prezamos.

O Desidério escreveu recentemente sobre «o problema do financiamento da cultura, da ciência, das artes, da filosofia e da informação»(1). Deste primeiro texto, algo confuso, fica a ideia que não se pode financiar a criatividade com publicidade porque «introduz [...] a necessidade de publicar palermices», que o financiamento público é «tirar dinheiro às pessoas contra a sua vontade, através de impostos, para financiar o que elas na verdade se recusam a financiar voluntariamente» e que o «problema de fundo é uma injustiça fundamental da humanidade. Ao mesmo tempo que muitíssimas pessoas ganham, e muito, com avanços da ciência e com informação de qualidade, só uma pequeníssima minoria está realmente disposta a pagar essas coisas e a pagá-las caras.» A solução, propôs mais tarde, é mudarmos a mentalidade “aristocrática” de quem tem nojo de pagar e, «sempre que possível, financiar os criadores de informação, software, ciência, filosofia, poesia ou artes cujos trabalhos prezamos»(2).

Um problema de “financiar os criadores” é que queremos financiar a criação e não o criador. Ou seja, investir na altura da criação, e não depois do trabalho feito, para que quem tenha uma boa ideia a possa desenvolver. E este problema não é trivial. Por exemplo, em 1965, Ted Nelson criou o termo “hipertexto”. Em 1968, com Andries Van Dam, implementou um editor de hipertexto. No final desse ano, Douglas Engelbart demonstrou um sistema de colaboração com uma rede de computadores e hipertexto para organizar informação. Em 1980 Tim Berners-Lee começou a implementar um sistema de partilha de documentos no CERN usando hipertexto e, em 1991 publicou a primeira especificação do HTML como parte do projecto World Wide Web (W3). Eventualmente, para encurtar a história, deu isto que vocês estão a ver.

Quando o processo de criação é mais exigente, nem em retrospectiva se encontra “o” acto ou agente criador. E é impossível fazê-lo na altura em que se precisa investir. Por isso, se estes inovadores tivessem dependido de pessoas como o Desidério para lhes pagar os projectos que “prezassem” em vez do apoio financeiro de institutos de investigação ou universidades, hoje estávamos a discutir isto por carta. E mesmo quando podemos apontar o criador e o acto da criação temos também de atribuir um valor. Em 1905, Einstein publicou três artigos. Uma descrição matemática da luz como partículas; uma formulação do princípio que as leis da física devem ser independentes do referencial; e a análise estatística da trajectória de uma partícula microscópica sujeita a colisões aleatórias. Só depois de publicados é que alguns peritos reconheceram o seu valor. E nem esses imaginavam a importância destas ideias para a ciência e tecnologia do final do século XX.

O método que o Desidério propõe funciona para algumas coisas e já não é novo. Sempre funcionou com professores e explicadores, estilistas, artesãos, sapateiros, cozinheiros, electricistas, ilustradores, jornalistas e tantos outros que criam algo que o cliente sabe, antes do trabalho ser feito, que vale a pena comprar. E, com o colapso do copyright, já há músicos e escritores a fazer o mesmo. Vendem o seu trabalho a quem preza o que eles fazem. Mas isto só funciona se, antes do trabalho ser feito, o comprador perceber que o resultado vai ter valor.

Como ninguém quer comprar sem saber se vale a pena, e como não se pode financiar a criatividade com promessas vagas de “se gostarmos, logo te damos qualquer coisinha”, o método do Desidério serve para pouco. Não serve para financiar nada cujo valor só seja evidente depois de ter sido criado. Que é o caso, quase por definição, daquilo que é inovador. E não serve para nada que exija vários passos de criatividade até dar frutos, excluindo por isso a maior parte da tecnologia. Ou aquilo que só tem aplicação prática depois de virem outras inovações, que é a regra geral nas descobertas científicas. Em suma, o método do Desidério só serve onde já é usado. Para aquilo que as pessoas conhecem, sabem que gostam e querem comprar. E é estranho que o Desidério rejeite a publicidade como forma de financiamento «porque a verdade desagradável acerca da humanidade é que as palermices são muito mais populares do que tudo o resto»(1) mas proponha reduzir o financiamento a pagarmos aos «criadores [...] cujos trabalhos prezamos»

A criatividade no entretenimento ou em coisas que já sabemos com o que contar, como roupa e comida, pode ser financiada como o Desidério propõe. Ou pela publicidade, que vai dar ao mesmo. Claro que haverá muita “palermice”, mas ainda bem porque a “palermice” é tão subjectiva que só havendo muita, e diversa, é que chega para todos os gostos. O resto, o que for inovador, inesperado, trabalhoso, útil a todos ou que só compense a longo prazo, tem de ter financiamento público. Mas justificar isto fica para a próxima.

1- Desidério Murcho, 2-3-09, Comprar e vender ideias.
2- Desidério Murcho, 11-3-09, Mentalidade, cultura e dinheiro.
3- Wikipedia, Hypertext e HTML

8 comentários:

  1. Oscar Pereira27/03/09, 00:50

    Também eu já tinha embicado com esse post do Desidério quando o li (a partir de uma referência de um post anterior).
    Concordo com o essencial deste post do Ludwig, mas acrescento apenas mais um reparo ao post do Desidério. Lê-se nesse artigo que
    O que acontece é que as pessoas preferem realmente o Windows ao Linux, e por uma razão simples: quase não há software para o Linux. E é aqui que está o busílis: não há mais software para Linux porque os religiosos do Linux têm a mentalidade aristocrática de que o software, como todo o produto do trabalho intelectual, deve ser gratuito.

    Isto está completamente errado, e é uma sobre-simplificação inaceitável. O "livre" em "software livre" nem sempre quer dizer gratuito. Mas já é tarde, e por agora fico-me por deixar aqui a seguinte citação:
    Every good work of software starts by scratching a developer's personal itch.

    (http://catb.org/~esr/writings/cathedral-bazaar/cathedral-bazaar/ar01s02.html)

    Muito software começa assim, com um programador que, por razões puramente egoístas começa a fazer um programa para lhe resolver o problema. Mas ele é só um. E se der o código, já não pode cobrar pela distribuição daquilo que criou. Mas em contrapartida ganhou toda uma comunidade que também contribui para o desenvolvimento do programa em questão, criando melhoramentos que apenas muito dificilmente seriam realizados pelo programador original*. Como o objectivo do programador era em primeiro lugar, resolver o seu problema, fica muito melhor servido com toda uma comunidade a ajudar :-)

    O "open source" é uma metodologia de desenvolvimento, e não apenas uma pseudo-moda aristocrática.

    *É claro que paragráfo também é uma sobre-simplificação, mas espero ter feito passar a ideia.

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  2. Oscar Pereira,

    Esse texto do Desidério tem realmente muitos problemas. Mas o meu patrão aqui no blog não me deixa escrever posts mais compridos que isto, e para ir a tudo nesse texto do Desidério precisava de um texto ainda maior que o dele :)

    Mas a confusão com o software talvez mereça um post especialmente dedicado...

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  3. O Desidério não percebeu a subtileza do "free as in speech, not as in beer".

    E depois nem é verdade o que ele diz. Qualquer um pode vender software fechado para o Linux. Quem o impede? Existe alguma cláusula de utilização do Linux que impeça isto? Pergunto por puro desconhecimento.

    Mas concordo que o "open-source" não é muito atractivo. Ele revolucionou imensas coisas, e foi o motor de bastante inovação, mas a verdadeira inovação parece-me existente mais em ambientes controlados por uma espécie de DRM que seja, e aqui é que está a novidade, justa, em que a distribuição seja a mínima possível, a pirataria a mínima possível e o preço seja estabelecido pelo autor.

    É o que acontece por exemplo no mercado das aplicações do iPhone, com uma extraordinária quantidade de inovação nas suas aplicações, e a preços cerca de dez vezes inferiores aos do Windows Mobile e afins. Conseguem isto porque as aplicações são mais fáceis de criar, mais intuitivas logo mais apelativas, e vendem em dimensões bem maiores. E existe um verdadeiro mercado meritocrático.

    Parece-me que este exemplo mostra porventura uma possibilidade a copiar. Sem esquecer que aplicações são diferentes de "cultura" propriamente dita. E tenho algumas reservas às tendências um pouco "socialistas" (no termo tradicional) do Ludwig... :)

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  4. Oscar Pereira27/03/09, 12:43

    Existe alguma cláusula de utilização do Linux que impeça isto? Pergunto por puro desconhecimento.

    Não. Talvez o melhor exemplo de software fechado para o Linux sejam os drivers gráficos. Pelo menos os da ATi e da nVidia são apenas distribuídos em formato binário (i.e. sem código fonte).

    Quanto ao restante software, creio que a razão pela qual existe pouco software proprietário (i.e. binários sem código fonte) é porque no Linux (e no Unix em geral...) existe uma pluralidade de ambientes muitíssimo maior do que no Windows ou no Mac. Resultado: criar um binário como uma caixa fechada e vender isso, até funciona no Windows e/ou Mac, mas é muito, muito difícil de fazer no Linux. Porque tipicamente, depois de estar feito (i.e. compilado) é muito díficil alterar um binário. E se o tentarmos usar num ambiente diferente do ambiente para o qual esse binário foi criado, o mais certo é a coisa não funcionar como deve ser. Tendo o código fonte, a flexibilidade é muito maior.

    Quanto ao DRM, o maior problema que tenho com ele, é que, simply put, não funciona, nem pode funcionar, porque o modelo conceptual que lhe está subjacente está errado. É uma ficção tentar criar modelos de negócio que se baseiem no controlo da *distribuição*, pela simples razão que isso, mesmo que fosse desejável, ficou obsoleto. Pode não ser a realidade que muita gente quer, mas é a realidade que temos. E é nessa que a cultura, software, música, whatever ... vão ter que existir.

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  5. Há alguma coisa que me escapa: se não preza, por que motivo copia? Não me parece racional alguém pagar por uma coisa que não preza e querer que seja grátis o que não preza mas mesmo assim copiá-lo.

    Como diria o Dr. Vítor Guerreiro, parece-me que existe aqui uma antinominia. Cito:

    "Os filósofos valorizam as antinomias porque temos decididamente algo a aprender com elas. Uma vez presos na antinomia, não nos podemos contentar com o estado de coisas existente; algo tem de ceder. Ou o raciocínio aparentemente sólido afinal não é sólido, ou a conclusão aparentemente absurda não é tão absurda como parece. A nossa tarefa é descobrir qual.

    Riddles of Existence"

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  6. António Parente,

    Eu não prezo a publicidade que me metem na caixa do correio e certamente que não estaria disposto a pagar por ela. No entanto não é isso que me impede de a ler e de ocasionalmente encontrar lá alguma coisa que até acho interessante.

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  7. Oscar, isso é tudo muito bonito e concordo o que o teu link diz é verdade (tenho estado bem a par do tema DRM e da Apple, etc), mas a ausência de DRM cria de facto um vazio que não tenho grande certeza de que o Ludwig responda totalmente.

    A meu ver, a pirataria funciona apenas porque existe material profissional que foi feito para piratear e que foi pago por um sistema que pressupõe o DRM ou algo semelhante (uma barreira física ou virtual à cópia).

    Neste caso, a pirataria pode ser vista como uma espécie de parasita.

    O Ludwig abraça a "nova era" como uma era onde esta treta do DRM desaparece e os códigos "libertam-se", sonho tão antigo como o computador. Não tenho problemas pessoais com isso, mas cheira-me que não funcionará nem que irão deixar que funcione.

    No entanto, penso que iremos ver cada vez mais surpresas. E o Steve Jobs tem razão naquilo que diz, as empresas têm de competir com esta realidade, não lutar contra moínhos de vento.

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  8. António Parente,
    «Não me parece racional alguém pagar por uma coisa que não preza e querer que seja grátis o que não preza mas mesmo assim copiá-lo.»

    Neste fim-de-semana espero assistir o Watchmen. Um colega de trabalho designer disse que não gostou. Um outro colega antigo disse que gostou. No IMDB uns dizem que gostaram muito, outros dizem que foi muito mau. No YouTube assisti um par de vídeos de uns que dizem que foi bom mas que existem muitos que não gostaram. Eu não sei se prezo ou não o filme. Estou curioso e vou pagar para ficar quase 3 horas a vê-lo. Só depois é que vou saber se gosto ou não gosto.

    Linux e BSD são outros mundos. Existem dezenas de ambientes. Eu uso o Gnome com Compiz. Já experimentei o KDE, o XCFCE, o Fluxbox, o Matchbox, Enlightment, etc. Existem centenas de distribuições. Uso o Ubuntu. Já usei o Red Hat, Mandrake, Slackware, Debian, Knopix, Damn Small Linux, etc. Já experimentei várias aplicações que servem para o mesmo propósito. Tudo isso é grátis. O que eu não prezo, outros prezam. Em fóruns e blogs muitos falam de maravilhas naquilo que eu experimentei e não prezo. E falam mal do que eu prezo e uso.

    Quando era miúdo, gastava todo o meu dinheiro que poupava - inclusivamente dez mil escudos que ganhei num concurso de BD - para comprar programas para desenvolver jogos, como o The Games Factory e DIV, e em livros. Infelizmente na altura não tinha Internet ou não tinha muita informação. Agora posso sacar gratuitamente código em C, C++, Python, etc. e aprender com os programas excelentes e com os péssimos. Aprendi pormenores do C e do UNIX com esse excelente e-book gratuito: The Art of Unix Programming . Já tinha gasto dinheiro com livros que considero maus e que estão num canto.

    Tenho código em C, Python e PHP que tenho feito nos tempos-livres. Mostrei uns joguinhos que fiz a um colega aqui ao lado e ele sugeriu-me que colocasse num servidor Open Source.

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