sábado, novembro 15, 2008

Porque importa.

Se escrevo 2+2=5 ou compro o selo do carro fora do prazo violo regras. Mas se pago a multa e o erro algébrico é inofensivo não cometo qualquer imoralidade. Matar alguém é diferente. Mesmo que me entregue à polícia, cumpra a minha pena e acerte as contas com a justiça o meu acto terá sido imoral. Porque este importa enquanto os outros não. Seja o que for a moralidade, o primeiro requisito é que tem que ser algo que importa.

Quando sugeri que a moral nasce de dar importância à subjectividade dos outros alguns leitores sugeriram alternativas. O João propôs a consistência, o José Sarmento os contratos e o Pedro Ferreira as leis, por exemplo (1). Mas nada nestas coisas obriga a que nos importemos com elas. Se não lhes dermos valor moral, leis, contratos e o que mais calhe serão como contas de somar ou o selo do carro. Moralmente irrelevantes. Por isso defendo que um ser é agente moral quando lhe importa a subjectividade daqueles a quem os seus actos afectam e só daqui se pode derivar o valor moral de leis, contratos e afins. Estes são produtos da moral e não a sua origem. A origem da moral é a preocupação com os outros.

Um erro do Ricardo Alves é fundamentar a moral na regra que «Temos deveres perante quem respeita os nossos direitos. Quem os desrespeita perde o respeito.» (2) Qualquer relevância que esta regra tiver deriva da moral e, por isso, não pode justificar a moral. É a moral que tem que justificar a regra. E a regra de só nos preocuparmos com quem se preocupa connosco parece contrária à preocupação que fundamenta a moral.

O outro erro é assumir que um agente moral só se deve preocupar com outros agentes morais. A regra do Ricardo diz que não tenho de respeitar direitos de um bebé que chora e não me deixa dormir porque o bebé também não respeita os meus direitos. Mas o bebé não ser um agente moral não o exclui da preocupação que faz de mim um agente moral. Se eu sou um agente moral tenho de considerar a subjectividade dele mesmo que ele não possa preocupar-se com a minha.

E esta obrigação vai até onde chegar a minha capacidade de avaliar o efeito dos meus actos na subjectividade dos outros. Por exemplo, se eu souber que a fábrica que vou construir libertará poluentes que vão acumular-se e causar deformações a quem nascer daqui a umas décadas eu tenho que considerar essa consequência como moralmente relevante. Se a considerar irrelevante porque os afectados ainda não existem ou porque nascerão tarde demais para respeitar os meus direitos deixarei de ser um agente moral. Uma regra moral não pode excluir arbitrariamente certos sujeitos porque o fundamento da moral é precisamente a preocupação com os sujeitos e não, como o Ricardo parece sugerir, cada um coçar as costas apenas a quem coçar as suas.

Há muitas formas de idealizar, justificar e implementar normas morais, das consequências e utilitarismo ao imperativo categórico ou às virtudes. Mas toda a moral e todo o projecto da ética assentam na preocupação com a subjectividade dos outros. Sem isto é contas ou selo do carro. Excluir de consideração qualquer ser sensível só porque gostamos de bifes ou convém é contrário ao valor que fundamenta a moral: a importância da subjectividade dos outros.

1- Ter direitos.
2- Palavra de animal!

39 comentários:

  1. De acordo, excepto quanto ao selo do carro.
    Ao retardar o seu pagamento, estou a contribuir para uma menor liquidez dos cofres do estado, que se vê assim obrigado a recorrer á banca para poder pagar os seus compromissos atempadamente.
    Não é moralmente (nem políticamente)inconsequente.

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  2. "o fundamento da moral é precisamente a preocupação com os sujeitos"

    porquê? não estás a confundir o fundamento da moral com o conteúdo da moral?

    PS. (De novo, escusado será dizer que estou de acordo contigo genériamente quanto ao conteúdo da moral; o meu problema é a fundamentação de uma tal moral)

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  3. Miguel,

    «Ao retardar o seu pagamento, estou a contribuir para uma menor liquidez dos cofres do estado»

    Daí a multa. Assumindo que esta cobre os prejuízos do atraso não há diferença moralmente relevante entre comprar a tempo ou comprar com atraso pagando a multa. Há diferenças nos procedimentos -- um é um incumprimento a regra penalizado com a multa -- mas moralmente são equivalentes. É uma diferença que não importa.

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  4. Timshel,

    «não estás a confundir o fundamento da moral com o conteúdo da moral?»

    Não... o conteúdo da moral são as regras e normas. O fundamento é aquilo onde a moral assenta.

    O problema é que "fundamento" é um termo metafórico que, neste contexto, pode querer dizer duas coisas diferentes. Uma é a origem, que é a preocupação com o outro. É isso que gera a moral, que nos faz dar importância a certas coisas e procurar regras que digam o que se deve fazer.

    Outro sentido para "fundamento" é a justificação racional da moral. Isso é o que a ética tenta dar. Esse é mais difícil porque é bem possível que a moral não tenha fundamento racional. No limite pode assentar numa sensação, em processos neurológicos, etc.

    O meu argumento aqui é que é uma ilusão julgar que a moral vem das regras que inventamos porque sem a moral essas regras não valiam nada. Nem mesmo se as cumprissemos.

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  5. A multa é para compensar os juros que o estado tem que pagar à banca para suprir o atraso do meu pagamento.

    Não desfaz o empréstimo em si, ou seja, o estado continua a ter que recorrer à banca para fazer face às suas dívidas, pois estava a contar com o meu dinheiro que não chegou a tempo.

    Para quem tem um negócio, e tem que recorrer à banca para poder pagar as suas obrigações, sabe que o devedor, mesmo que pague os juros de mora, está a agir imoralmente.

    A minha (e a do estado) capacidade de negociar dívidas com a banca é proporcional ao capital que já devo, logo, ao atrasar uma obrigação fiscal, estou de facto a penalizar o estado, que mais não é que o conjunto das pessoas com quem vivo em sociedade.

    A moralização das obrigações contributivas e de cidadania são algo que há muito já estão enraizadas nas sociedades mais avançadas.

    Aparentemente, aqui em Portugal continua a ser vulgar (logo banal) ver alguém detonar essa carga moral.

    E sacudir a diferença entre pagar uma obrigação fiscal e pagá-la atrasada com multa como sendo algo que não importa, do ponto de vista moral.

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  6. Ludwig

    embora me pareça a discussão sobre o fundamento da moral mais importante deixo-a de momento (até porque me parece que neste momento o teu eixo de discussão é diferente - e nesse até podemos de momento fazer frente comum :)) para dizer que sobre o caracter da multa ele é duplo: visa por um lado ressarcir o Estado dos montantes perdidos decorrentes do atraso no cumprimento, mas visa também, por outro, sancionar o incumpridor; não é portanto moralmente neutro pagar atempadamente ou pagar com multa - a multa corresponde de facto também à "declaração de imoralidade" do comportamento relapso

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  7. Miguel,

    «Não desfaz o empréstimo em si, ou seja, o estado continua a ter que recorrer à banca para fazer face às suas dívidas, pois estava a contar com o meu dinheiro que não chegou a tempo.»

    Se estás a dizer que pagar o selo atrasado com multa prejudica outros então, pelo meu argumento, isso torna-se moralmente relevante porque assim que decidirmos preocuparmo-nos com os outros isso passa a ser importante. Mas nesse caso discordo do facto. Se todos passarem a pagar o selo do carro com um mês de atraso o único efeito, ao fim do primeiro mês, será aumentar a colecta fiscal, e os unicos prejudicados serão aqueles que o fizerem.

    Se estás a dizer que esse atraso é imoral mesmo que seja inconsequente então discordo. Se é inconsequente não tem nada a ver com a moral. Mas isto, admito, é reflexo (ou causa...) da minha ética consequencialista.

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  8. Timshel,

    «visa por um lado ressarcir o Estado dos montantes perdidos decorrentes do atraso no cumprimento, mas visa também, por outro, sancionar o incumpridor; não é portanto moralmente neutro pagar atempadamente ou pagar com multa - a multa corresponde de facto também à "declaração de imoralidade" do comportamento relapso»

    O que é irrelevante. Se te multarem por beijares a tua namorada, e se a lei declarar essa multa como correspondendo à imoralidade do acto, nem por isso passa a ser imoral beijares a namorada.

    O meu ponto é precisamente que não são as regras que decidem o que é moral ou imoral mas a moralidade que se exprime em regras.

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  9. Ludwig

    Curiosamente (ou talvez não) penso a mesma coisa. A moral não é a lei. A lei é que deve ser moral. Costumam chamar-se a estas concepções "jusnaturalistas", por contraposição aos positivistas para quem só é moral a lei e a lei é a única expressão da moral atendível. Numa expressão que ficou célebre por quem a disse nas circunstâncias em que a disse: "a ética da República é a lei".

    escrevi em tempos um post (melhor, uma tradução) a este respeito: http://timoteoshel.blogspot.com/2004/01/em-1945-gustav-radbruch-professor-de.html

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  10. Ludwig

    Notáveis golpes de rins para disfarçar uma argolada, como de costume.

    "Se todos passarem a pagar o selo do carro com um mês de atraso o único efeito, ao fim do primeiro mês, será aumentar a colecta fiscal, e os unicos prejudicados serão aqueles que o fizerem."

    Isso revela um profundo desconhecimento do funcionamento do estado. Se todos passarem a pagar os impostos com x dias de atraso, o estado deixa de ter dinheiro para pagar as suas obrigações durante esses x dias. A proposta do "IVA com recibo" esbarra exactamente nessa situação.

    Se esse x for, por exemplo, 1 ano, então o estado deixa de ter dinheiro durante um ano. para pagar os hospitais, as escolas, as estradas, etc.


    Resumindo:
    1. Atrasar o pagamento de impostos prejudica a colectividade.

    2. As multas por atrasos não reparam na totalidade esse prejuizo, porque obrigam a entidade "devedista" a contrair empréstimos, ou a atrasar pagamentos por sua vez.

    3. Moralmente não é indiferente que se pague atempadamente ou atrasado, mesmo com multa. Num caso estamos a cumprir a nossa obrigação, noutro estamos a obrigar o outro a alterar os seus planos para suprir o nosso incumprimento.

    4. Desligar as obrigações fiscais da moralidade (remetendo-as para o domínio puro da legalidade) é algo muito caro aos povos do Sul da Europa - e da África, presumo - mas nem por isso se torna mais correcto, do ponto de vista da coerência e unidade social.

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  11. Miguel,

    No post eu falei em pagar o selo do carro com atraso. No teu primeiro comentário disseste «De acordo, excepto quanto ao selo do carro.» Agora dizes «Se todos passarem a pagar os impostos com x dias de atraso» e «Se esse x for, por exemplo, 1 ano»

    Para poupar tempo, concordo já que a decisão colectiva de ninguém pagar impostos durante um ano é suficientemente consequente para ter relevância moral. No entanto, não me parece que seja a mesma coisa que eu pagar o selo do carro com um mês de atraso.

    Proponho que se eu pagar o selo do carro com um mês de atraso a única consequência, em relação a pagar a tempo, é que eu fico com menos dinheiro por causa da multa e o estado fica com mais. Deste acto não haverá x dias que o estado fica sem dinheiro.

    Mesmo extrapolando para a situação hipotética em que todos os que pagariam em Janeiro pagam em Fevereiro, os de Fevereiro em Março e assim por diante, algo cuja relevância para o meu acto individual de pagar atrasado é muito questionável, mesmo assim proponho que o resultado era também o estado ficar com mais dinheiro e não ficaria x dias sem dinheiro para pagar as contas. A razão principal é que o orçamento principal é anual e o selo do carro é cobrado todos os meses (a pessoas diferentes).

    Caso não tenha ficado claro, foi por isto que eu escolhi no meu exemplo o selo do carro e não os impostos em geral.

    Mas, já que os mencionas, gostava de ver evidências disto:

    «Atrasar o pagamento de impostos prejudica a colectividade.»

    São os atrasos, pagos com multa, que prejudicam o estado ou é a fuga ao fisco prejudica?

    Finalmente, sendo que o estado retém parte do meu ordenado e só ao fim do ano me devolve 2000 euros que reteve indevidamente, sem pagar multa, não vejo que seja imoral se enquanto têm lá o meu dinheiro eu atrase o pagamento de 16 euros do selo do carro durante um mês, que depois pago com multa.

    A minha situação fiscal tem sido sempre de credor, não de devedor...

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  12. "Finalmente, sendo que o estado retém parte do meu ordenado e só ao fim do ano me devolve 2000 euros que reteve indevidamente, sem pagar multa, não vejo que seja imoral se enquanto têm lá o meu dinheiro eu atrase o pagamento de 16 euros do selo do carro durante um mês, que depois pago com multa."

    Não é imoral porque não se aplica o conceito de moralidade, ou porque consideras haver moralidade em não pagar a quem deve?

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  13. Miguel, desiste, não estás a fazer sentido nenhum. (epa, estou a intrometer-me em conflitos familiares, é melhor pirar-me!!)

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  14. Pedro Ferreira16/11/08, 21:11

    Ludwig,

    O que comentei anteriormente foi sobre "ter direitos" e não sobre a "moral" que, aliás, é o título do teu post. A expressão "tenho direito a..." é independente ao conceito "é moralmente correcto...".

    Sobre a primeira expressão, a lei pode e concede direitos. Um exemplo disso, é o direito a uma pensão vitalícia em algumas instituições públicas (por exemplo, no Banco de Portugal), acumulável com várias outras, num país como o nosso. Enquanto o ter "direito a" não está em causa, já a moralidade de todas estas regalias é bastante questionável.

    É sobre esse "ter direito a" que pode ser decretado, sem ter necessariamente de de haver um reconhecimento por parte dos outros como correcto.

    Já sobre a moral, julgo que tens razão: deverá ser dada importância à subjectividade dos outros.

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  15. Pedro,

    «Sobre a primeira expressão, a lei pode e concede direitos. Um exemplo disso, é o direito a uma pensão vitalícia em algumas instituições públicas»

    Tens razão Pedro, mas isso é meramente descritivo. Eu tenho os direitos que a lei concede. Se a lei conceder direitos aos animais eles também terão.

    A questão importante aqui é normativa. É melhor a lei que concede direitos aos animais ou a que não os concede? Isso é que importa. Senão esta divergência com o Ricardo resolvia-se trivialmente consultando a legislação vigente.

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  16. Miguel,

    «Não é imoral porque não se aplica o conceito de moralidade, ou porque consideras haver moralidade em não pagar a quem deve?»

    Porque considero que um acto só é imoral se afectar negativamente alguma subjectividade (e isto é condição necessária, nem sequer suficiente).

    É por isso que me parece imoral que o sistema burocrático das finanças retenha o dinheiro dos contribuintes para além daquele que é devido mas não considero imoral que um contribuinte se atrase no pagamento a esse sistema desde que pague as multas que compensam a comunidade por esse atraso.

    E a ideia que atrasar o pagamento é imoral simplesmente porque uma regra diz que se tem que pagar no dia X é precisamente aquilo que eu rejeito. A moral precede essas regras, não é consequência delas.

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  17. Creio que não é multa e sim coima.

    Multa é só para crimes, e apesar de tudo espero que tal atraso - moral ou imoral - não seja crime...

    Para contra-ordenações há coimas, se não estou em erro.

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  18. Ludwig, em teoria concordo com o que diz, mas tenho algumas curiosidades em relação a como chegou até aqui. A ver:

    1 - porque é que eu me hei-de preocupar com a subjectividade dos outros? É porque dá jeito que os outros se preocupem com a minha? Ou existe no Homem uma necessidade de altruísmo? E se sim, de onde terá vindo?

    2 - essa moralidade também é exigida para o comportamento que tenho comigo próprio, ou só para os outros? Se sim, porquê?

    Obrigado. Pedro Silva

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  19. Ludwig:

    Quando falei em consistencia era num passo para baixo do teu em termos de fundamentos. Não tenho muito a criticar no presente texto, mas a minha pergunta é: Porque nos preocupamos?

    Não pertendi dar uma resposta ao falar de consistencia, apenas uma ideia de que evolutivamente o preocupamo-nos foi seleccionado por permitir vantagens a esses grupos. Uma seria a consistencia, ou seja a não aleatoriedade do julgamento individual ou não e depois o discernimento entre o bem e o mal, de forma o mais completa possivel. Percebes o que quero dizer?

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  20. deixa-me la por pontuaçao nisto:

    Não pertendi dar uma resposta ao falar de consistencia, apenas uma ideia de que evolutivamente o "preocupamo-nos" foi seleccionado por permitir vantagens a esses grupos. (que se preocupam com a subjectividade alheia)

    Uma seria a consistencia, ou seja a não aleatoriedade do julgamento (individual ou não) e depois o discernimento entre o bem e o mal, (de forma o mais completa possivel).

    Consigo explicar-me? Estava numa fase mais precoce da moralogenia.

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  21. «Ou existe no Homem uma necessidade de altruísmo? E se sim, de onde terá vindo?»

    Emerge naturalmente da selecção natural.
    Ironicamente, grande parte do livro "O gene egoísta" destina-se a explicar porque é que o altruismo é uma consequência natural da luta pela sobrevivência. Os animais têm comportamentos altruistas e egoístas precisamente da forma que seria expectável tendo em conta a selecção natural (propensão para gostar mais de familiares que de estranhos, por exemplo). Daí aquilo que o Ludwig escreveu sobre as abelhas e formigas.


    «essa moralidade também é exigida para o comportamento que tenho comigo próprio, ou só para os outros? Se sim, porquê?»

    Pelo que entendi sobre a posição do Ludwig, a moralidade serve para conciliar "subjectividades" diferentes.
    Se uma acção minha só tem consequências sobre mim, então não tenho subjectividades diferentes para conciliar.
    Posso ser parvo e tomar uma acção que só me prejudica, mas isso, sendo estúpido, não é imoral, porque não havia outra subjectividade envolvida.

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  22. João Vasco

    o Homem tem algum dever de escolher o altruísmo?

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  23. timshel:

    Uma coisa é falar na propensão natural para o altruísmo, outra coisa é falar nas razões para fazer o bem.

    Em vez de acreditar em culpa "por si", eu acredito em incentivos e desincentivos.

    Se nós formos incentivados a fazer o bem, temos mais propensão para o fazer (isto é circular, eh!eh!)
    E para o mal vice-versa.

    Assim sendo, temos vantagem em criar um sistema que desenvolva os instintos altruistas, encorage as pessoas a fazerem o bem, reprima ou domine os instintos egoístas ou cruéis, e desencorage as pessoas de fazerem o mal.

    Assim sendo, não basta educar as crianças para saberem que devem fazer o bem: devemos tornar esse ensinamento real punindo quem faz o mal e recompensando quem faz o bem. A lei pode ser usada para casos extremos (um assassino, um ladrão), mas os sentimentos de admiração ou desaprovação também podem e devem ser canalizados para as acções que prejudicam ou beneficiam terceiros.

    Devemos portanto educar as pessoas para quererem fazer o bem, porque todos ganhamos com isso. Com esta educação, muitas pessoas vão querer fazer o bem por si e não pela recompensa, mas isto é mais fácil de acontecer se viverem numa sociedade que recompensa o bem.

    Portanto, se o "bem" corresponder a uma sociedade em que os seus elementos são mais felizes, e sofrem menos, é do interesse dos elementos desta sociedade promover o enquadramento que encoraja as "boas acções".

    E isto pode, em certa medida, materializar-se num sentimento de "dever" fazer o bem.

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  24. "Devemos portanto educar as pessoas para quererem fazer o bem, porque todos ganhamos com isso."

    Mas porque é que eu devo fazer o bem? Não estou a negar as vantagens duma sociedade em que todos façam o bem, mas porque é que eu o hei-de fazer? Não faria muita diferença para a sociedade se eu não o fizesse, embora continuasse a incentivar a educação dos outros para o bem.

    Eu teria vantagens óbvias em não me preocupar com a subjectividade do outro, nem que fosse só às vezes. Para não o fazer preciso de um motivo forte, não do sonho duma sociedade utopica.

    Dá-me jeito não ir preso agora, tenho mulher e filhos que precisam de mim, porque é que não "devo" pôr as culpas noutro, tendo a certeza que o poderia fazer, e assim me ia safar? Porque é que me devo preocupar com o outro, numa situação tão critica para mim, como esta?

    Já agora, o altruísmo "a mais" terá sido também incentivado pela selecção natural? Dar a vida por alguém, que não sejam os filhos, é um acto nobre? Porquê?

    E se não há nenhuma imoralidade em prejudicar-me a mim próprio, é moral eu cortar o meu próprio braço só porque sim? Indo mais longe, o suicídio é moral? Ou "devo" fazer bem a mim próprio, já que o "devo" também aos outros?

    Pedro Silva

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  25. Pedro Silva:

    Se o suicidio não afectasse terceiros, não seria moral nem imoral.

    «Já agora, o altruísmo "a mais" terá sido também incentivado pela selecção natural?»
    Pelo que subentendo daquilo que quer dizer com "a mais", a resposta está na própria pergunta.

    Altruismo a mais do que aquele que é incentivado pela selecção natural não pode ter sido incentivado pela selecção natural, se não não seria "a mais".


    «Dar a vida por alguém, que não sejam os filhos, é um acto nobre? Porquê?»

    Pela razão que expus na minha última mensagem. Porque temos conveniência em admirar quem se comporta dessa forma, considerando nobres esse tipo de actos.


    «Ou "devo" fazer bem a mim próprio»
    A conveniência é sua, mas a sociedade não tem interesse em incentivar quem cada indivíduo faça algo ou deixe de fazer a si próprio, visto que em circustâncias normais é o próprio indivíduo quem está em melhor lugar para avaliar se algo é bom ou mau para si.


    «Não faria muita diferença para a sociedade se eu não o fizesse,»

    Claro que fazia.


    «Não estou a negar as vantagens duma sociedade em que todos façam o bem, mas porque é que eu o hei-de fazer?»

    Se a educação que teve foi adequada do ponto de vista que expús, o seu altruismo instintivo terá sido desenvolvido ao ponto em que agora QUER fazer o bem, mesmo sem recompensas envolvidas.

    Claro que há quem não acredite que tal é possível, e pense que só com a promessa do Paraíso é que as pessoas têm uma boa razão para se portar bem.
    Mas dados empíricos mostram que isto não é verdade.

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  26. Este comentário foi removido pelo autor.

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  27. João Vasco

    Parece-me que não respondeste à minha pergunta. A minha pergunta não visava a genealogia do altruísmo ou do dever de escolher o altruísmo. Era muito mais simples. Perguntei se o Homem tinha algum dever de escolher o altruísmo?

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  28. João Vasco

    relendo o teu comentário, parece-me que talvez de facto tenhas respondido à minha pergunta

    posso interpretar o teu comentário no sentido de que quando se é altruísta apenas se está a reagir a estímulos sociais (ou a alguns genes) e que portanto o Homem não só não tem o dever de escolher o altruísmo como não pode, isto é, quando é altruísta, apenas está a ser um mero output de um conjunto de factores biológicos e ambientais?

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  29. timshel:

    Não sou determinista: acredito que geralmente os factores biológicos e ambientais condicionam a acção, mas não a determinam. Creio que nem isso nem o oporto se depreende das minhas respostas anteriores.

    Em resumo, a minha resposta é "não".

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  30. João e Pedro Silva,

    «porque é que eu me hei-de preocupar com a subjectividade dos outros?»

    Peço desculpa se isto já foi respondido, mas estou atrasado nos comentário (ontem estive em Aveiro) e com pouco tempo hoje (aulas...). Mas esta é rápido responder. Não há porquê. Ou preocupamo-nos e somos agentes morais, ou não queremos saber e não somos. O existencialismo é em grande parte uma treta, mas nisto acho que acertaram. É uma opção, não algo a que a vida ou alguém nos obrigue.

    E quando, quer por um lado quer pelo outro, tentam eliminar esta escolha alegando um imperativo divino ou da nossa natureza estão implicitamente a negar a moral. Moral não é ser obrigado a fazer uma coisa mas sentir-se obrigado por se escolher a obrigação (ou algo assim... espero que se perceba, isto está um bocado à pressa :)

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  31. Ludwig:

    O teu argumento implica que não ha implicações de não haver moral.

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  32. M. Abrantes18/11/08, 14:31

    Está um post bem sacado. E leva-nos a pensar que a 'moral aplicada'(?) depende do contexto (ia pagar o selo do carro, mas alguém de quem gosto adoeceu e tive que lhe emprestar o dinheiro do selo)e do tempo (contestar Deus era imoral há 300 anos mas hoje tende a já não ser - as pessoas foram-se apercebendo que as discussões tolerantes favorecem o entendimento entre os indivíduos e o progresso).

    No entanto, ao contrário do que julgo ter percebido no seu texto,acho que tem que existir um fundamento para a moral enquanto modeladora de acções dos agentes.

    Arrisco que a moral se conforma em regras de não agressão e auxílio. A moral faz dos outros pessoas mais previsíveis diminuindo o dispêndio de energia nas relações dos indivíduos com os grupos; favorece a defesa de cada um pelo colectivo e tende a minimizar acções destrutivas de pessoas e bens, sendo por isso um fautor de estabilidade.

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  33. Muito bem, pelo que percebi o Homem tem todas as condições para ser agente moral, condições essas favorecidas pela selecção natural, e se o for a sociedade ganha com isso.

    Mas não existe nenhuma razão forte, o chamado dever, para eu ser agente moral. É que por princípio não acredito em sacrificios sem motivos, e o único motivo do sacrificio altruista parece-me a precocupação pelo outro. Resta saber porque é que eu me hei-de preocupar com o outro, às minhas custas, privando-me de vantagens óbvias. Estou a falar de exemplos concretos, da vida do dia-a-dia, em que nos sacrificamos por alguém.

    Pedro Silva

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  34. Pedro Silva:

    Creio já ter respondido a essa pergunta. Se foio educado por forma a incentivar os instintos altruistas, alargando-os para além do seu círculo familiar, vai gostar de fazer o bem, mesmo que eventualmente não exista uma recompensa por esse comportamento.

    Neste caso, a razão para fazer o bem é ter vontade disso. Ter vontade de condicionar o seu comportamento à moral em que, bem ou mal, acredita.

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  35. “vai gostar de fazer o bem, mesmo que eventualmente não exista uma recompensa por esse comportamento.”

    Desculpe lá a quantidade de perguntas, devo estar a ser chato, mas há coisas que ainda não percebi. Se fui educado a gostar de ser altruísta, então a recompensa não é já esse prazer que tenho quando o sou? E neste caso o altruísmo não é um dever, é uma escolha que deriva da educação, tal como mastigar de boca fechada. Posso mastigar de boca aberta, mas ensinaram-se que se “deve” mastigar de boca fechada, e gosto da reacção das pessoas quando o faço, por isso decido mastigar com a boca fechada, vejo nisso uma coisa boa. Mas não é verdade que não tenha recompensa quando o faço, dá-me gosto. Esse gosto será um instinto existente em todos os homens, por selecção natural, mas que depois necessita de ser desenvolvido na educação?

    E quem não foi educado a ser altruísta? E quem foi educado a não ser altruísta? Vai fazer o que lhe foi ensinado a fazer, e tirar daí prazer, também.

    “Ter vontade de condicionar o seu comportamento à moral em que, bem ou mal, acredita.”

    Ou seja, um comportamento é moral consoante o que eu acredito que é bem ou mal? E se a minha “moralidade” foi mal-educada, por quem me educou, ou por mim próprio? Existe uma moral mais ou menos genérica para o homem, ou cada um tem a sua?

    Pedro Silva

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  36. «Se fui educado a gostar de ser altruísta, então a recompensa não é já esse prazer que tenho quando o sou?»

    sim

    « neste caso o altruísmo não é um dever, é uma escolha que deriva da educação, tal como mastigar de boca fechada. Posso mastigar de boca aberta, mas ensinaram-se que se “deve” mastigar de boca fechada, e gosto da reacção das pessoas quando o faço, por isso decido mastigar com a boca fechada, vejo nisso uma coisa boa. Mas não é verdade que não tenha recompensa quando o faço, dá-me gosto. Esse gosto será um instinto existente em todos os homens, por selecção natural, mas que depois necessita de ser desenvolvido na educação?»

    Precisamente.
    A selecção natural cria um instinto altruista, mas ele existe principalmente em relação a familiares e pessoas próximas. É por educação que alargamos os sujeitos abrangidos por esse instinto, idealmente por forma a incluir toda a humanidade, ou até mesmo - tal como está em discussão neste texto - mais seres ainda .


    «Ou seja, um comportamento é moral consoante o que eu acredito que é bem ou mal?»

    Não.


    «E se a minha “moralidade” foi mal-educada, por quem me educou, ou por mim próprio? Existe uma moral mais ou menos genérica para o homem, ou cada um tem a sua?»

    Mesmo quando acreditavam que a escravatura não era errada, ela era errada.
    Causava sofrimento, dificultava a felicidade.

    Aquilo que eu escrevi é que uma pessoa tende a sentir-se mal se faz coisas que ACHA que são imorais.

    Se forem imorais, mas a pessoa acreditar que não são, não se sente mal.

    O corolário disto é que não basta fazer aquilo que achamos que está certo, devemos pensar cuidadosamente sobre o que é que está certo.

    Houve uns indivíduos nuns aviões que deram a vida por aquilo que acreditavam estar certo. Mataram cerca de 5000 pessoas...

    Estavam errados.

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  37. Ludwig:

    Não acha que se houver causas do efeito de não ser moral, essa pode ser a origem da moral? A razão porque nos preocupamos pode ser essa, evitar as implicações de uma conduta imoral. A não ser que argumentes que não haja implicações e então sim, é apenas uma escolha livre, não condicionada e derivada do facto de sermos empatas, perdão, de termos a capacidade de empatia e decidir o que fazer com ela.

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  38. JV, muito obrigado pelos esclarecimentos.

    Pedro Silva

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