sábado, outubro 04, 2008

Treta da Semana: Exorcismo.

Deus, na sua infinita sabedoria, deu aos humanos o dom da vontade livre. E aos demónios o dom de possuir os humanos. Depois encarnou em Jesus, expulsou demónios e deu aos apóstolos o poder de fazer o mesmo. «Chamando os doze discípulos para junto de si, Jesus deu-lhes autoridade para expulsar os espíritos maus e curar toda a espécie de doenças e enfermidades.» (Mat. 10:1). Aparentemente, mais tarde Jesus revogou esta autoridade dos bispos e deu-a aos antibióticos, vacinas e cremes fungicidas.

Os mais cínicos dirão que isto é armar aos cágados, que Deus podia ter feito os humanos imunes a influências demoníacas ou micoses e dispensar estes milagres. Mas isto desrespeita o principio fundamental da fé, que é atribuir a um desígnio misterioso tudo o que puser em causa preconceitos queridos.

Seja como for, durante a idade média os representantes de Deus usaram e abusaram da sua autoridade curativa. Exorcizaram pelo poder divino tudo o que era espirito maligno ou doença, da peste negra à azia e da epilepsia ao paganismo. Por vezes com algum excesso de zelo. Os resultados ficaram aquém do que se esperava de uma manifestação do poder de Deus, mas a idade média foi um período dominado por ignorância e superstição, e a Igreja Católica era um produto do seu tempo. Apesar do contacto directo com um ser omnisciente que lhes revelava regularmente a Verdade, permaneceram tão ignorantes e supersticiosos como os seus contemporâneos.

Mas com o fim da idade média, período que para a Igreja Católica acabou em 1999, decidiram actualizar o ritual do exorcismo para o trazer mais em linha com a ciência e os tempos modernos. Infelizmente, a Igreja Católica não optou por critérios objectivos bem estabelecidos no diagnóstico da posse demoníaca, tais como rodar a cabeça 360º ou projectar o vómito de um lado ao outro do quarto. Mas agora o padre exorcista «”tem que decidir com prudência” depois de consultar peritos espirituais e “se considerado oportuno, com peritos na ciência médica e psiquiátrica”»(1). Cumpre-se assim o requisito de eliminar qualquer explicação científica. O padre, se considerar oportuno, pode pedir uma opinião ao primo que estudou psicologia e avançar com o exorcismo apenas se o primo coçar a barba e disser “na verdade, é estranho...”

De resto, isto está em linha com a atitude esclarecida e progressista com que a Igreja Católica se tem destacado em todas as áreas, da astronomia à educação sexual. Partindo do princípio que a ciência é infalível, perfeita e completa, e que qualquer pessoa ligada à ciência domina todo o conhecimento científico, e assumindo também que nenhum cientista se engana, a Igreja Católica pode comprovar como inquestionavelmente sobrenatural qualquer fenómeno que o cientista mais próximo não consiga explicar em detalhe num quarto de hora de análise superficial. É este método exigente que fundamenta o diagnóstico do exorcista moderno (entra música dos Ghostbusters).

Para terminar, deixo uma ressalva. Apesar da Igreja Católica defender oficialmente a existência e intervenção regular de espíritos demoníacos há membros do clero com a decência de ficar ligeiramente embaraçados e mudar de assunto se pressionados sobre isto. E, que se saiba, João Paulo II apenas exorcizou espíritos malignos uma vez enquanto Papa. Por isso não quero que pensem os leitores que o exorcismo é mais uma superstição católica como a transmutação da hóstia ou o pecado da contracepção.

1- CNN, 28-1-1999, Vatican issues first new exorcism ritual since 1614

9 comentários:

  1. António Parente04/10/08, 12:37

    Ludwig

    Dois breves comentários:

    1) Utilizou a ironia com mestria (nem sempre o consegue fazer mas os dois sabemos que só Deus é perfeito): o que escreveu não é insultuoso nem ofensivo para ninguém, na minha modesta opinião;

    2) Está a ficar exímio numa certo tom populista que se não fosse o seu brilhantismo intelectual tornaria o seu blogue numa espécie de 24 horas do ateísmo ;-)

    Dito isto, despeço-me com amizade e desejo-lhe um óptimo fim-de-semana.

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  2. Caro Ludwig, evidentemente que o primo psicológo não diria «na verdade, é estranho...» mas sim «realmente, é estranho...» É a única falha no post. :-)

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  3. António Parente:

    Não deve esquecer o que aprendeu no catecismo: para ganhar o céu é indispensável ser humilde.

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  4. Ainda não apareceu ninguém a defender o exorcismo. Será por ser fim-de-semana, ou já ninguém (nem mesmo os crentes mais fervorosos) acredita nessas coisas?

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  5. jaime,
    nem sequer é «Realmente, é estranho». Foram esquecidas palavras. É «Na verdade, na verdade vos digo: é estranho» LOL

    Será que quem não apoia agora o exorcismo - como algo medieval - apoia que os exorcismos dos apóstolos?

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  6. errata: Será que quem não apoia agora o exorcismo - como algo medieval - apoia os exorcismos dos apóstolos?

    Ficou um "que" a mais.

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  7. LOL e vocês ficam à coca para poder bater no ceguinho...realmente é preciso pachorra.
    Por acaso a minha mãe contou-me uma cena de possessão demoniaca e perseguição demoniaca a um certo padre da paróquia. Quando vi o filme "O exorcista" senti um medozinho agradável pela espinha abaixo. Adoro filmes de terror.

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  8. Francamente! A internet é um espírito demoníaco! Como poderia algum padre exorcista vir aqui postar alguma coisa?
    Estaria a pactuar com o próprio cornudo! :P

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  9. Parabéns António. Conseguiu não dizer nada sobre o post. Parece um padre embarassado questionado sobre o exorcismo.

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