quinta-feira, junho 26, 2008

Estão a ver?

A propósito da conversa sobre vigilância e privacidade, recomendo este artigo do Bruce Schneier no Guardian, sobre os efeitos e consequências dos sistemas de video-vigilância:

CCTV doesn't keep us safe, yet the cameras are everywhere

Além de não reduzirem o crime que era suposto reduzirem, têm um custo de oportunidade pelo investimento ineficaz que podia ser usado para ter mais polícias e melhor preparados, e ainda dá azo a mais crimes (por exemplo, Peeping tom CCTV workers jailed) e abusos que a lei nem contempla como ilícitos (como este, `Caught In The Act' In Britain Means Millions May See You).

Infelizmente, muita gente pensa que os criminosos se reformam ao ver uma câmara ou que os terroristas desistem com medo que lhes registem as chamadas. Mas para estes é trivial estragar a câmara, mandar uma pedrada no candeeiro, usar uma máscara, telefonar com um telemóvel roubado ou ligar-se à Internet pela rede de outra pessoa. Vigiar toda a gente em vez de se concentrarem nos suspeitos só penaliza o resto das pessoas.

(Via Shneier on Security)

17 comentários:

  1. Quetretófilo27/06/08, 00:27

    Off topic:

    Como se formou a água em nosso planeta???

    Melhor resposta - Escolhida por votação
    Segundo a história da criação, a água já existia, apenas foi separada da parte sólida e nela colocados os seres anfíbios e os peixes, enquanto na terra ficaram os outros animais, as aves e o homem.

    http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20061029154600AAw92sQ

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  2. Camares não inibem esse tipo de criminoso, obviamente,mas são capazes de prevenir os abusos do cidadão comum: excesso de velocidade, vandalismo,estacionamento impróprio,furtos no super,em lojas, uma série de coisas que nos incomódam no dia a dia.
    bjs

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  3. Karin,

    Depende do tipo de vigilância. Sou a favor de câmaras no supermercado que mostram ao segurança o que se passa nos corredores. Ou ligadas a um radar para tirar fotos aos carros que passam com o sinal encarnadou ou em excesso de velocidade. Porque essas têm um efeito dissuasor real e a acção é focada nos infractores. O segurança ou a multa vão agir sobre quem fizer algo ilícito e não se pode usar o sistema em si para propósitos ilícitos.

    No outro extremo estão câmaras por todo o lado com reconhecimento automático de matrículas ou características biométricas que permitam seguir os passos de alguém, ou bases de dados interligadas de todas as imagens, etc. Isso é mau porque tem muito mais potencial para usos perversos do que utilidade na prevenção do crime.

    Regra geral, sou a favor de vigilância dirigida aos suspeitos mas não de acumular dados sobre toda a população para apanhar 0.01%...

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  4. Karin

    Há um tempo diria que não sou de todo a favor de circuitos de CCTV na rua. Isto porque a segurança deve ser assegurada presencialmente por patrulhamentos de polícias em zonas sensíveis, sendo essencialmente dissuasora. O mesmo se aplica a estacionamentos abusivos e pequenos abusos dos cidadãos que são chatas e têm que ser punidas (nem tanto pela punição em si mas mais por ser pedagógico e dar uma certa ordem pública) mas não exigem um big brother. Pelo contrário, o sistema big brother dá azo a sentimentos de revolta e opressão.

    Dito isto, alguns meios justificam alguns fins e ocorre-me incidentes graves na noite do Porto e de Lisboa. Disseram-me que na Holanda há circuitos de vigilância, pelo que quando há desacatos a polícia comparece enquanto o diabo esfrega um olho e em força para acabar com a brincadeira antes que se torne grave. Atendendo a que os incidentes de que falei levaram um par de vidas, o investimento já se tinha pago a ele mesmo.

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  5. Apesar de isto ser um pouco diferente do registo de dados de uma operadora, no sentido em que tem potencial muito maior para abuso de dados sem capacidade de punir os abusadores, o que não é caso numa operadora, porque facilmente sabe-se tudo o que alguem fez com os dados e com igual facilidade aplica-se castigo, o que não deixa de ser giro, porque a retenção de dados acaba por proteger outra retenção de dados, é uma meta-protecção, e só me leva a pensar que se retessem dados suficientes havia muita merda que acabava, até os eventuais abusos dos dados retidos.

    Mas voltando ao tema em questão, não é por haver camaras que há o problema de terem visto a mulher nua, eu diria mesmo que era porque ela deixou as cortinas abertas, porque se não fossem camaras seriam os telescopios, e agora faz-se o quê? Proibe-se a venda de telescopios para que não os usem para olhar para dentro das casas dos outros?

    Acho que estão outra vez a olhar para o problema de forma falaciosa.

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  6. Bizarro

    No caso de Inglaterra o problema é mesmo a falta de cortinas e estores. Continua a não justificar terem feito o que fizeram, mas o facto é que é mais uma incongurência num país com uma taxa de criminalidade como a que tem o pessoal não proteger as janelas... e comprar alarmes!

    Apesar de tudo, acho que a frase-chave no artigo do Guardian é esta "Cameras afford a false sense of security, encouraging laziness when we need police to be vigilant"... lá está: nothing is fool-proof because fools are too inginious. E a polícia tem que estar vigilante e não dependente de uma máquina. Está-se perante casos de recursos mal usados, pelo que devem ser repensados.

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  7. Abobrinha,

    «Disseram-me que na Holanda»

    Nestas coisas é melhor usar dados concretos...

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  8. Bizarro,

    «Apesar de isto ser um pouco diferente do registo de dados de uma operadora, no sentido em que tem potencial muito maior para abuso de dados sem capacidade de punir os abusadores,»

    Mas uma coisa têm em comum, que é a mais importante. O registo dos dados não é em benefício da pessoa acerca de quem os dados são registados. Uma vez que a pessoa paga o serviço e tem a factura em casa, a empresa está a guardar informação acerca da pessoa em benefício da empresa, sem autorização da pessoa e potencialmente em prejuízo desta.

    Este tipo de coisas só se justifica fazer com alguém suspeito de um crime, e não com toda a gente.

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  9. Bizarro,

    «porque se não fossem camaras seriam os telescopios, e agora faz-se o quê? Proibe-se a venda de telescopios para que não os usem para olhar para dentro das casas dos outros?

    Acho que estão outra vez a olhar para o problema de forma falaciosa.»


    Eu diria que és tu que não estás a ver o problema correctamente.

    Não se trata de alguém ter uns binónculos ou um telescópio e olhar para a vizinha. Tata-se do governo criar um sistema organizado de recolha de imagens que pode ser usado para estas coisas e outras mais graves.

    No caso da retenção de dados trata-se de uma lei a obrigar todas as empresas a fazer isso.

    Por exemplo, supõe que o teu merceeiro anotava a hora de chegada e saída de cada cliente. Algumas pessoas não se incomodavam, outras pediam para ele não o fazer, outras iam comprar a outra mercearia. Isto não era uma situação grave.

    Em contraste, supõe que o estado aprovava uma lei obrigando todos os merceeiros e supermercados a identificar os seus clientes e anotar horas de chegada e saída. Essa informação seria recolhida pelo estado e organizada numa base de dados de hábitos de consumo. Isso era grave. Mesmo que a informação fosse inócua (e nenhuma é, há sempre algum uso preverso para estas coisas, se for informação suficiente) isto tirava a todos o direito de não estar a ser seguido e registrado.

    Eu acho que as empresas ou organizações que guardam informação acerca de mim deviam ter a obrigação de me informar o que é que guardam, durante quanto tempo, e que uso dão a esses dados.

    E devia haver a possibilidade de oferecer serviços de acordo com a vontade do cliente de preservar a privacidade. Lembras-te do teu exemplo do carjacking? Eu não me oponho a que uns comprem carros caros e outros carros baratos. Oponho-me que o estado ou as empresas tomem essas decisões contra a vontade das pessoas.

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  10. Ludwig,

    Eu acho que as empresas ou organizações que guardam informação acerca de mim deviam ter a obrigação de me informar o que é que guardam, durante quanto tempo, e que uso dão a esses dados.

    Isto já sabes, guardam os dados todos durante 6 meses, e a unica utilização que lhe dão é no caso de vires a ser suspeito de algum crime, de resto estarem lá e não estarem é igual.

    Em tudo pode haver uma utilização correcta, e uma utilização incorrecta, como na energia nuclear, que pode servir para produzir electricidade ou fazer bombas, mas acho que todos concordamos que estamos melhor com ela do que sem ela.

    Neste caso novamente o problema não é haverem camaras, é alguem as utilizar para fins improprios. E agora para não falar de car jacking, falo de telescopios, o problema não é haverem telescopios, é alguem os utilizar para olhar para as casas dos outros.

    No teu exemplo dos supermercados, para o estado o fazer, teria que oferecer uma razão para o fazer, e na altura discutir-se-ia se o fim justica os meios.

    No caso do car jacking, todos temos o direito de ter o carro que queremos, mas o estado tem a obrigação de me permitir ter o carro que quero sem me preocupar com car jacking, e não dizer-me que para não me preocupar com car jacking não posso ter um carro caro.

    Neste caso das camaras, se realmente não diminuem a criminalidade, então sou de todo a favor que deixem de investir dinheiro nisso e invistam em algo que reduz a criminalidade. Não porque as camaras invadem a privacidade, mas porque são dinheiro mal gasto.

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  11. Bizarro,

    «Isto já sabes, guardam os dados todos durante 6 meses,»

    Sei que a lei vai obrigar a guardar certos dados durante pelo menos 6 meses. Não sei que mais dados eles guardam nem o que fazem ao fim de 6 meses.

    «Em tudo pode haver uma utilização correcta, e uma utilização incorrecta, como na energia nuclear,»

    É por isso que se proibe o uso de amianto ou tintas com chumbo, se regula os brinquedos para crianças, se proibe tirar fotografias nas casas de banho e balneários, pôr microfones escondidos na casa do vizinho, andar à noite pelos quintais a espreitar pelas janelas das pessoas e assim por diante.

    Como tudo pode ter vantagens e desvantagens temos que as pesar para decidiro que fazer.

    Neste cado, não há vantagens suficientes na retenção de dados para ter uma lei a obrigá-la. Nota que já nem estamos a falar na possibilidade de reter estes dados mas na *obrigatoriedade* de os reter. Ou seja, tornar ilegal qualquer serviço de comunicações que não tenha isto.

    «No caso do car jacking, todos temos o direito de ter o carro que queremos, mas o estado tem a obrigação de me permitir ter o carro que quero sem me preocupar com car jacking, e não dizer-me que para não me preocupar com car jacking não posso ter um carro caro.»

    No caso das comunicações, todos temos o direito de ter o serviço que queremos, mas o estado tem a obrigação de me permitir ter o serviço que quero sem me preocupar com os terroristas, e não dizer-me que para preservar a minha privacidade não posso ter telefone.

    «Não porque as camaras invadem a privacidade»

    Pensava que já tinhas concordado que isso é um juízo subjectivo e que é legítimo que nem todos aceitem ser filmados como tu. Um casal a namorar no jardim, por exemplo, tem legitimidade para não querer ser filmado. E não sendo suspeitos de nenhum crime têm o direito de não estar sob vigilância.

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  12. Já agora, Bizarro, chamo atenção para o artigo 12º da declaração universal dos direitos humanos:

    «Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques a sua honra e reputação. Todo o homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.»

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  13. Ludwig,

    É por isso que se proibe o uso de amianto ou tintas com chumbo, se regula os brinquedos para crianças, se proibe tirar fotografias nas casas de banho e balneários, pôr microfones escondidos na casa do vizinho, andar à noite pelos quintais a espreitar pelas janelas das pessoas e assim por diante.

    É também por isso que existem leis para proibir a utilização indevida dos dados, como usa-los para saber quem vai ao médico, ou olhar para dentro da casa de uma mulher.

    Temos sempre que pesar os prós e os contras, no caso das camaras é que não tem prós (pelo que li nas tuas referencias) e se assim é não se justificam porque consomem recursos.
    No caso a obrigatoriedade de retenção de dados acho que tem mais prós que contras, certamente pode ocorrer um ou outro abuso, mas também pode impedir um ou outro atentado, o que é bem mais importante que um ou outro abuso.

    Pensava que já tinhas concordado que isso é um juízo subjectivo e que é legítimo que nem todos aceitem ser filmados como tu.

    E concordo, apenas estou a expressar o meu juizo subjectivo, que é diferente do teu, uma vez que não acho que sejam as camaras invadam a privacidade, mas sim a utilização indevida das mesmas.

    No meu caso particular, normalmente quando quero fazer algo que é privado, faço-o num local privado, não o faço onde existem camaras. Quando quero ter conversas privadas, não as tenho onde posso ser ouvido. Tudo isto está no controlo de cada um.

    O artigo 12º é todo correcto, até está lá a dizer que todos gozamos da protecção da lei quando nos invadem a privacidade. E até foi o que aconteceu nos exemplos citados.

    Se eu estivesse a olhar para dentro de uma casa com o meu telescopio, eu é que seria punido e ninguem ia dizer que a culpa era de haver telescopios.

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