quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Viva Harvard.

A faculdade de artes e ciências da universidade de Harvard aprovou unanimemente um plano para disponibilizar online todas as publicações dos seus investigadores (1). É um passo importante para o acesso livre à investigação porque muitas universidades vão certamente imitar Harvard nisto.

Para algo protegido por direitos de cópia, os artigos científicos já têm um acesso muito livre. É comum aos editores permitir que o autor disponibilize uma versão electrónica do artigo na sua página pessoal, e é sempre possível pedir ao autor uma cópia do artigo. São muito raros os que recusam. Mesmo assim, muitos editores importantes impõem restrições à distribuição. São negócios com fins lucrativos e não servem inteiramente os interesses da comunidade científica.

É importante que sejam instituições como a universidade de Harvard a tomar esta posição porque nenhum editor vai recusar publicar a investigação de uma universidade destas, ou das outras que a seguirem. Colectivamente, a comunidade científica tem um poder de negociação muito maior que cada cientista por si.

Direitos de autor é bom. Eu quero ter o direito de ser reconhecido como autor do meu trabalho. Mas não quero que tenham o direito de restringir a distribuição do meu trabalho, por isso espero que a moda pegue.

Via Sivacracy.

1- Inside Higher Ed., 13-2-08, Harvard Opts In to ‘Opt Out’ Plan

24 comentários:

  1. Totalmente de acordo, Ludwig.
    Está na hora de deixar de ser necessário desembolsar uns dólares para poder ler um artigo científico.

    Um abraço

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  2. Ludwig

    A questão dos direitos de autor neste caso dos artigos científicos tem outra perversão: tudo isto (ou a maioria) foi pago com dinheiros públicos. A publicação também é paga por quem submete. Não conheço os pormenores de como se ganha dinheiro com as publicações científicas, mas deveriam ser livres por natureza.

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  3. por um lado o MIT já há alguns anos que disponibiliza on-line todos os conteúdos dos seus cursos. por outro lado, em muitas áreas da ciência todos os artigos actuais estão disponíveis livremente no arXiv.org... não sei até que ponto harvard está a ser tão revolucionária :-)

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  4. e mais uma coisa: já há algum tempo que o cern vem a liderar um consórcio de open access que pode vir no futuro a acabar com os lucros absurdos e injustificados da elsevier, springer, etc...

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  5. Eu penso que o que há de novo em Harvard é a ideia de fazer esta distribuição o default. Nota que Harvard é uma instituição privada. Há muitos casos, como diz a Abobrinha, de institutos publicos em que a disponibilização gratuita é obrigatória (penso que o NIH, por exemplo).

    Mas acho inovador quando uma instituição privada faz o mesmo.

    Na FCT também já estão a organizar há um tempo um repositório para as dissertações, mas confesso que não sei bem em qque estado é que já está. Mas já é um bom principio.

    Para mim, o factor limitante para ter os meus artigos disponíveis online é mesmo a preguiça de actualizar a página. Mas a ver se começo a dar um melhor exemplo :)

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  6. Ludwig

    O repositório de teses pode ter o efeito perverso do costume do copy-paste. Dito isto, o plágio não é um problema novo e este tipo de situação terá mais benefícios que malefícios (mesmo porque quem quer muito uma tese,vai arranjá-la de qualquer modo), por isso nem estava a refilar: estava só a constatar um facto.

    Estou desactualisada, mas acho que a FCT dá acesso a Faculdades e Institutos de investigação a uma série de bases de dados. Mas por eles paga um balúrdio.

    Não sei se pondo os teus artigos online estarás ou não a quebrar leis de copyright (sinceramente creio que sim, mas também não sei o que pode acontecer). Do mesmo modo, não sei se Harvard pode ser processada ou se pagou para disponibilizar essa cópias.

    Mas ao contrário da música, em que discordo no sentido lato de ti (porque há uma ideia inovadora que é paga), aqui pagar por um artigo é perverso porque várias pessoas pagaram o estudo: fundos públicos e/ou privados, salários de investigadores e o que se pagou para submeter o próprio artigo.

    Sendo assim, uma editora lucra com a divulgação do trabalho de outros e é daí que lhe advêm os direitos de cópia. Do trabalho que não realizou. Claro que tem despesas, mas não é o mesmo que pagar o estudo. Quanto ao cientista e à instituição financiadora, têm como paga a fama (mas não a fortuna). Mas a outra coisa que queria o cientista (e pela qual pagou) foi a ampla divulgação do que fez. O que, se a base de dados for muito cara, fica perversamente impedido.

    A não sei que eu esteja a esquecer-me de alguma coisa para esta discussão.

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  7. Abobrinha,

    «Estou desactualisada, mas acho que a FCT dá acesso a Faculdades e Institutos de investigação a uma série de bases de dados. Mas por eles paga um balúrdio.»

    Sim. A B-On. É uma organização de vários institutos e universidades. No total deve ser um balúrdio, mas acho que por fazerem os contratos com as editoras em bloco sai muito mais barato por cabeça.

    Podes ver mais no site da B-On:

    http://www.b-on.pt/

    E se tiveres acesso a computadores numa universidade deves poder descarregar artigos daqui de graça (mas não todos...).

    «Não sei se pondo os teus artigos online estarás ou não a quebrar leis de copyright (sinceramente creio que sim, mas também não sei o que pode acontecer).»

    Em geral, não. A maior parte dos editores deixa ao autor o direito de ter o artigo na sua página pessoal. São muito generosos.

    É verdade que não são todos, e por vezes há umas ressalvas em letra muidinha que não leio. Por isso talvez alguns dos artigos que lá tenho estejam ilegais. Mas se tiverem os tipos que refilem, que eu tiro e depois faço um pé de vento a ver se os envergonho. Mas duvido que se ponham a proibir os autores de terem o artigo online. Isso havia de ser bonito...

    «Sendo assim, uma editora lucra com a divulgação do trabalho de outros e é daí que lhe advêm os direitos de cópia. Do trabalho que não realizou.»

    É o mesmo problema das músicas e filmes e afins. A distribuição é essencial -- sem distribuição não se usufrui destas obras -- e antigamente era dispendiosa. Era preciso pagar bem a quem distribuia. Hoje em dia distribuir conteúdo é praticamente de graça. Por isso o direito de cópia já não faz sentido. Mais vale dar prioridade ao direito de criar e ao direito de usufruir, porque, no fundo, o direito de cópia era apenas uma forma pragmática de tentar garantir os outros dois, mas hoje em dia é só um empecilho.

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  8. Ludwig

    No caso da música e outros, o teu problema (e onde acho que diferimos) é nos direitos dos autores. É que não vejo a coisa como sendo passível de salário nem de mérito mas de venda de cópias. A distribuição ser paga em excesso, isso já é outra história.

    É inteiramente diferente do caso dos cientistas, que têm um salário ou uma bolsa (o que é uma treta diferente) e não veem um chavo e ainda pagam por isso. Dito isto, a distribuição está muito mais facilitada, pelo que podem ter mais pontos em comum.

    Quanto à FCT, atenção que não contestei o preço do contrato, muito pelo contrário: assim não tem que se depender de amigos que trabalham onde se tem bases de dados em condições, de viagens e de fotocopiadoras. Isso sim era um desperdício de tempo e recursos. A informação é muito preciosa: foi um excelente negócio e muito nivelador em termos de acesso a fontes de informação.

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  9. Abobrinha,

    «No caso da música e outros, o teu problema (e onde acho que diferimos) é nos direitos dos autores.»


    Sim. Eu não acho um direito meu decidir o que é que tu lês ou deixas de ler. O único direito que considero que tenho é decidir se torno público algo que eu crio. Mas se torno público passa a ser de todos.

    Tudo o resto são apenas formas de tentar incentivar a públicação das obras criadas. Mas isso não são direitos. São subsídios, mais ou menos disfarçados.

    «É que não vejo a coisa como sendo passível de salário nem de mérito mas de venda de cópias.»

    Claro que é passível de salário. Se demora tempo e exige esforço e alguém quer que uma pessoa perca tempo e se esforce, esse pode pedir uma remuneração pelo seu tempo e esforço. Se funciona com a matemática e com o xadrez, porque raio não funcionaria com a música?

    Quanto ao mérito, esquece. Podemos dizer que quem anda a recolher lixo de madrugada merece bastante mais dinheiro que um tipo como eu que dá aulas confortavelmente e trabalha por gosto. A ideia de cada um ganhar «o que merece» nem sequer faz sentido porque isso de merecer é indefinivel.

    A única coisa clara nisto do copyright é a lei dar a uns o direito de restringir o que os outros fazem com informação pública. E isso não vale a pena.

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  10. Ludwig

    Nessa do mérito meteste um bocado de água: tu conseguias recolher o lixo, mas a maioria dos homens do lixo não consegue dar aulas ao teu nível nem a nível nenhum.

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  11. Ludwig

    Estou confusa: isto é direitos de autor

    http://o-outro-universo.blogspot.com/2008/01/pcr.html

    ou será isto

    http://ktreta.blogspot.com/2008/01/pcr.html

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  12. Mário Miguel16/02/08, 01:01

    Ludwig,

    Paulo Coelho disponibiliza os seus livros gratuitamente através de redes peer-to-peer.

    Para veres que dou a mão à palmatória (em parte), dou-te aqui mais pormenores sobre esta notícia...

    Mas nota: ele não deixou "cair" o Copyright.

    As pessoas compram devido ao conhecido fenómeno de não se sentirem cómodas com a leitura de longos textos frente ao monitor, tal pode ser associado com aumento do consumo de papel, via impressora (não sendo o único factor do aumento do consumo); sendo que o esperado era a diminuição.

    Fica aqui um caso em que a descarga "pirata" pode favorecer, mas nota que o Copyright está lá, parece contraditório, mas é o que ocorre.

    Parece que terá de haver um meio-termo nisto tudo.

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  13. Abobrinha,

    Duas pessoas falarem da mesma coisa não tem nada a ver com direitos de autor. Não há problema se dois jornalistas relatam a mesma notícia ou se dois professores ensinam a mesma matéria.

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  14. Abobrinha,

    Quanto ao mérito, também não é por aí. Aposto que tu não consegues coçar os testículos com a mesma facilidade que eu. Mas é discutível que eu mereça melhor ordenado por isso...

    O que eu queria dizer é que o trabalho de recolher lixo é bem mais lixado (perdoa o pleunasmo) que o meu, mas esses profissionais recebem bastante menos. Isto é por haver muito mais gente capaz de recolher lixo, mas isso é uma consequência do mercado e não tem nada a ver com merecer ou não merecer.

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  15. Mário Miguel,

    Meio termo com o copyright não dá. É muito específico. Ou uma pessoa tem o direito de proibir os outros de aceder a cópias, ou não tem.

    Onde pode haver alternativas é recorrendo a outros esquemas de incentivo. Mas aí penso que o mais sensato é olhar para o melhor esquema de incentivo que temos até agora: pagar às pessoas pelo trabalho que fazem.

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  16. Ludwig

    Estou a ver que não leste o que te deixei: não foi o mesmo tema, mas um post com as tuas palavras (menos o último parágrado), as tuas images, o teu vídeo, postado um dia depois do teu post e sem uma menção à autoria. Uma coisa é dizeres no fundo do blogue "nenhum direito reservado", outra é não reconhecer a autoria.

    Possivelmente eu poderia ter feito um post acerca de PCR e usado aquela imagem. As palavras que usaria não seriam muito diferentes (PCR é PCR), mas não usaria as TUAS palavras. E se as usasse reconheceria a autoria e usaria aspas. Pode não ser direitos de autor, mas é elegância.

    Quanto ao mérito e remuneração e aceitação social, é uma longa conversa e tem várias tretas à mistura.

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  17. Dito isto, eu uso imagens que tiro da internet sem ver se estão protegidas por direitos de autor e sem sequer revelar a origem. Isso também não está inteiramente certo.

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  18. Abobrinha,

    Tens razão, não li com atenção e não reparei que tinha sido copy paste. Bem, neste caso é plágio. Não viola copyright porque eu não reclamo nenhum right de copy, mas é verdade que não é de bom tom copiar coisas sem reconhecer a fonte...

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  19. Isso mesmo, ó Miguel! E é assim que eu os leio, directamente no monitor que nunca tive problemas com isso. De facto, de há muito quase deixei de ler livros em papel e agora há mesmo sofwtare que imita muito razoavelmente as versões editadas dessa forma.

    Aliás, Paulo Coelho é sem dúvida um dos autores que mantêm uma maior relação de proximidade com os seus leitores e fá-lo de um modo muito simples e tremendamente eficaz: coloca-se ao nível deles, nem acima nem abaixo!

    Por isso, pode ser muito facilmente entendido por qualquer pessoa, isto é, de preferência não muito pretensiosa, note-se! Esses não o compreendem e apenas o invejam, bah! ;)

    Sob o ponto de vista do seu sucesso literário, isso é, no mínimo, uma jogada de mestre e o melhor marketing a que qualquer escritor pode aspirar.

    O seu site oficial, com a newsletter "Guerreiro da Luz" e os seus blogs em várias línguas, mais o projecto experimental que agora lançou para um filme amador baseado no seu último romance, "A Bruxa de Portobello", são múltiplos exemplos de um talento deveras ímpar a nível comunicacional que ultrapassa qualquer circuito da crítica literária e, de facto, até os menoriza.

    Deste modo, o autor brasileiro está muito à frente da maioria dos seus pares, procedendo até como se de um novato se tratasse e não de um escritor consagrado, pelo menos a nível do seu incontestado sucesso literário.

    Tudo isto, aliás, enquadra-se de um modo perfeito na sua doutrina libertária de escolhermos o nosso destino - ou perseguirmos o sonho ideal -, sem nos deixarmos aprisionar pelas circunstâncias exteriores, já que é essa a última liberdade, tal como Viktor Frankl muitíssimo bem o definiu, em "Man's Search for Ultimate Meaning" ("Em Busca de Sentido"), após a sua vivência de 3 anos em Auschwitz e Dachau:

    Nós que vivemos nos campos de concentração podemos lembrar-nos dos homens e mulheres que andavam pelos alojamentos confortando os outros, dando o seu último pedaço de pão. Eles devem ter sido poucos em número, mas ofereceram prova suficiente que tudo pode ser tirado do Ser Humano, menos uma coisa: a última das liberdades humanas - escolher a sua atitude em qualquer circunstância, escolher o seu próprio caminho.

    E isso é ser um Guerreiro da Luz, que age no devir que à liberdade o conduz!!! :)

    O medo de sofrer é pior do que o próprio sofrimento. E nenhum coração jamais sofreu quando foi em busca de seus sonhos.

    Paulo Coelho

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  20. Abobrinha,
    quando disseste que tiras imagens da internet sem olhar a direitos de autor, lembrei-me de um caso caricato na Alemanha. Um fotógrafo descobriu um filão de ouro: coloca fotos de produtos alimentares na net, de modo a que qualquer pessoa que faz uma busca no google possa aceder rapidamente a elas. Depois faz uma busca pelos "biliões" de sites de receitas e afins, e processa todos aqueles que violaram os seus direitos de autor. E até agora obteve sempre razão no tribunal, de modo que temos donas-de-casa perplexas a pagar-lhe indemnizações para cima de milhares de euros por cada foto de uma cenoura ou uma banana que, por acaso, foi postada pelo espertalhão. Portanto, cuidado com os legumes que pões no teu blogue ;-)
    Cristy

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  21. Cristy

    Obrigada pelo aviso. Ora bem, se a nossa justiça está mais doente por omissão que o que dá para pôr por palavras (e eu sei-o na prática), isto já é demais e ultrapassa todos os limites do razoável!

    Tenho que arranjar maneira de ver como uma imagem está protegida por copyright.

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  22. Este comentário foi removido pelo autor.

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  23. Ludwig

    Já agora, o Dário já reconheceu a autoria do post. Pena ter sido só depois de ter sido apanhado.

    E activou a moderação de comentários, possivelmente para não ser apanhado de novo em falta.

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