sábado, janeiro 26, 2008

Para baixo. Para cima.

A dedução é a forma de inferência preferida dos teólogos. Parte-se da Verdade e aplica-se a Razão. Para o teólogo, a conclusão tem que se pendurar na verdade certa, sólida, inatacável. Raciocina de cima para baixo, da autoridade para o subordinado, do perfeito para o imperfeito, do criador omnipotente para a pobre criatura. É natural. É como os nossos pais nos ensinam, é como se organiza uma tribo ou um bando de guerreiros, um reino ou uma religião. De cima para baixo. O cérebro humano evoluiu para lidar com situações destas e a nossa tendência é ver tudo desta forma.

Por azar o universo funciona ao contrário. Não é um deus poderoso que agita nuvens e vento numa tempestade. O vento é o movimento de moléculas microscópicas, algumas que condensam em gotas que se juntam e encharcam os homens assustados que rezam a um responsável que não existe. O Big Bang, as estrelas, os seres vivos, foi tudo de baixo para cima. Neste canto só ao fim de treze mil milhões de anos é que surgiu algo suficientemente complexo para tentar perceber o que se passava. A ciência é o truque que inventámos para pôr o cérebro a trabalhar ao contrário daquilo que a evolução favoreceu. Custa, e o Bernardo Motta mostra que muita gente ainda se engana.

«sem o cristianismo [...] não haveria qualquer razão intelectual para supor que o Mundo seria ordenado, inteligível, que permaneceria o mesmo independentemente do observador, que não seria um Mundo enganador, ou que os nossos sentidos não seriam enganadores ou subjectivos. Sem o cristianismo, o que nos faria supor que o João vê o mesmo que a Maria ou que o Manuel? Ou que o ferro do século XIV exibiria uma resposta mecânica semelhante à do ferro do século XIX?»(1)

Este raciocínio é de cima para baixo. Assume um deus todo poderoso e benévolo de onde deduz que os sentidos não nos enganam para, finalmente, concluir que há mesmo pedras, o ferro é duro e assim por diante. Que exagero. Como explicou David Hume, se o saco num prato da balança levanta os cinco quilos no outro prato não dizemos que o saco tem um peso infinito, nem que pesa quinhentas toneladas, nem sequer que pesa cem quilos. Dizemos apenas que pesa mais que cinco quilos. O deus Cristão é um exagero igualmente insensato. Para explicar pedras, ferro e humanos não é preciso postular omnipotência, omnisciência, benevolência e uma inexplicável aversão a preservativos. Não se justifica esse exagero nem é razoável a premissa.

Para explicar temos que fazer o percurso inverso deste raciocínio. Em vez de deduzir consequências de um postulado abduz-se hipóteses cujas consequências incluam o que se quer explicar. Explico a sensação de calor com a hipótese que estou ao Sol. Ou que há um incêndio. Ou que estou a sonhar. Tem a vantagem de partir do que se quer explicar, que é melhor do que partir dos confins da imaginação. E mostra que qualquer coisa pode ser explicada de infinitas maneiras, por isso não nos podemos fiar na primeira que aparece. Temos que procurar entre muitas a mais informativa e menos especulativa.

Eu gosto da metáfora com que Daniel Dennett expõe esta diferença. A ciência constrói gruas sobre dados empíricos, hipóteses que ajudam a erigir teorias onde se pode apoiar gruas mais altas e assim por diante. O conhecimento científico ergue-se gradualmente e de baixo para cima como os edifícios. A religião quer fazer o contrário. Postula um gancho mágico no céu onde pendura um enleado de especulações que vêm por ai abaixo. Quando toca no chão qualquer semelhança com realidade é pura coincidência.

Essa «razão intelectual» é desnecessária. Não precisamos assumir à partida que a realidade é estável ou previsível. Essa hipótese surge depois, como explicação para algumas coisas e nem serve para todas. Um prego é estável e previsível mas o átomo de Urânio 235 não é, e nem o deus do Bernardo pode prever o instante do decaimento radioactivo de um átomo.

Mais uma coisa na qual o Cristianismo não ajudou nada. Durante séculos andou tudo a pendurar especulações em ganchos no céu em vez de construir conhecimento sólido.

1- Bernardo Motta, 23-1-08, O paradoxo do ateu.

4 comentários:

  1. Há Bastante Metafísica em Não Pensar em Nada

    O que penso eu do mundo?
    Sei lá o que penso do mundo!
    Se eu adoecesse pensaria nisso.

    Que ideia tenho eu das cousas?
    Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
    Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
    E sobre a criação do mundo?

    Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
    E não pensar. É correr as cortinas
    Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

    O mistério das cousas? Sei lá o que é o mistério!
    O único mistério é haver quem pense no mistério.
    Quem está ao sol e fecha os olhos,
    Começa a não saber o que é o sol
    E a pensar muitas cousas cheias de calor.
    Mas abre os olhos e vê o sol.
    E já não pode pensar em nada,
    Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
    De todos os filósofos e de todos os poetas.
    A luz do sol não sabe o que faz
    E por isso não erra e é comum e boa.

    Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
    A de serem verdes e copadas e de terem ramos
    E a de dar fruto na sua hora, o que nos faz pensar,
    A nós, que não sabemos dar por elas.
    Mas melhor metafísica que a delas,
    Que é a de não saber para que vivem
    Nem saber que não o sabem?

    "Constituição íntima das cousas"...
    "Sentido íntimo do Universo"...
    Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
    É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
    É como pensar em razões e fins
    Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
    Um vago de ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

    Pensar no sentido íntimo das cousas
    É acrescentado, como pensar na saúde
    Ou levar um copo à água das fontes.

    O único sentido íntimo das cousas
    É elas não terem sentido íntimo nenhum.
    Não acredito em Deus porque nunca o vi.
    Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
    Sem dúvida que viria falar comigo
    E entraria pela minha porta dentro
    Dizendo-me. Aqui estou!

    (Isto é talvez rídiculo aos ouvidos
    De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
    Não compreende quem fala delas
    Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

    Mas se Deus é as flores e as árvores
    E os montes e sol e o luar,
    Então acredito nele,
    Entao acredito nele a toda a hora,
    E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
    E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

    Mas se Deus é as árvores e as flores
    E os montes e o luar e o sol,
    Para que lhe chamo eu Deus?
    Chamo-lhe flores e árvores e montes,
    Se ele me aparece como sendo árvores e montes
    E luar e sol e flores,
    E que ele quer que eu o conheça
    Como árvores e montes e flores e luar e sol.

    E por isso eu obedeço-lhe,
    (Que mais sei eu de Deus de si próprio?).
    Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
    Como quem abre os olhos e vê,
    E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
    E amo-o sem pensar nele,
    E penso-o vendo e ouvindo,
    E ando com ele a toda a hora
    Alberto Caeiro

    Está como comentário a este post, mas serve para vários ;)

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