quarta-feira, outubro 10, 2007

Exclusividade de cópia e outras coisas.

O meu truque retórico sobre o copyright criou alguma confusão (1). Dou-me por culpado e vou tentar resolver os equívocos, apesar de já ter escrito sobre estas coisas antes. Começo pelos comentários do Joaquim Amado Lopes:

«Imagine que eu escrevia um livro. Isso dava-me x trabalho e eu era pago (por quem?)»

Seja livro, seja o que for, o trabalho será pago por quem concordou que o iria pagar. É uma transacção voluntária. Daí o ridículo de eu vos pedir dinheiro pelos posts que leram quando nenhum de vós se comprometera a fazê-lo. Quem me paga pelo trabalho que eu faço sem combinar pagamento com ninguém? Pois. Ninguém. Pensem no que sentem quando param num semáforo e um tipo vos limpa os vidros sem pedirem e depois vem pedir dinheiro. O Joaquim continua:

«Mas o meu livro não interessava a ninguém e, assim, ninguém o lia. O do Ludwig, pelo contrário era tão interessante que todos o que o liam o recomendavam aos seus conhecidos, que acabavam por o ler também e recomendar a outros. Faz algum sentido que o Ludwig e eu recebamos o mesmo?»

Talvez. Se ambos tivemos X de trabalho e se estamos a ser pagos pelo trabalho, faz sentido. Não fará menos sentido que um cantor ganhar milhares de vezes o que ganha um bombeiro ou um polícia. Se for um mercado livre, se cada um paga o que acha bem pagar, faz sentido. Mas não faz sentido criar leis só para que um cantor ganhe mil vezes mais que um polícia.

O Joaquim também sugeriu: «Implemente um sistema de acesso em que apenas quem estiver registado pode ler os seus posts. Assim, pode cobrar o que quiser.» E tem razão. Mas não preciso do copyright para criar um site em que se paga para ler as páginas. Como notou o João Vasco, acerca da minha posição:

«agora que eu adquiri o produto - o livro, vamos supor - devo ter o direito de contar a história a quem quiser, com o detalhe que quiser. Mesmo que isso implique divulgar o livro a quem quiser ler.
Se isso não tirar aos autores qualquer incentivo para escrever bons livros, eu estaria 100% de acordo com ele. Mas é óbvio que tira.»


O copyright serve apenas para restringir o que os outros fazem com o que eu já distribuí. A remuneração pelo meu trabalho depende do acordo que faço com quem me paga. A injustiça de uns receberem mais que outros não é corrigida pelo copyright. E a divulgação daquilo que eu escrevo ou componho é protegida pelas leis de privacidade. Só se torna conhecimento público o que eu quiser.

A maioria dos argumentos a favor do copyright não têm nada a ver com o copyright. E até na questão do incentivo há confusão. Se queremos incentivar um médico a curar pessoas devemos pagar-lhe para curar pessoas. Um rendimento vitalício em função das que já curou é incentivá-lo a não fazer mais nada.

O copyright protegia o investimento de imprimir e distribuir um livro, que há cem anos era considerável. Mas agora é um incentivo à compra de direitos exclusivos, pois beneficia principalmente quem é dono dos direitos sobre algo que já foi criado. Com a tecnologia e sociedade que temos, incentivar a criatividade artística é investir em escolas, dar bolsas a jovens artistas e financiar instituições que promovam a criação artística. Exactamente como se faz quando se quer incentivar a ciência ou o desporto.

O sucesso de cada artista deixa-se por conta do mercado. Se muitos quiserem comprar ficará rico. Se ninguém achar que vale a pena, que arranje outra profissão e escreva um blog. Como este, por exemplo. Tem mais de quatrocentas visitas diárias porque o preço cobrado ao leitor corresponde exactamente ao valor do que aqui se compra.

1- Os meus direitos de autor

25 comentários:

  1. "Tem mais de quatrocentas visitas diárias porque o preço cobrado ao leitor corresponde exactamente ao valor do que aqui se compra".

    Que treta! ;-) do que tu precisas é de um bom agente. Cobro 20%.
    Bjs
    Cristy

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  2. «O copyright serve apenas para restringir o que os outros fazem com o que eu já distribuí. A remuneração pelo meu trabalho depende do acordo que faço com quem me paga. A injustiça de uns receberem mais que outros não é corrigida pelo copyright. E a divulgação daquilo que eu escrevo ou componho é protegida pelas leis de privacidade. Só se torna conhecimento público o que eu quiser.»

    Ludwig:

    Imagina que escrevias um livro, e vendias o livro a cada comprador por 5e, na condição de que o conteúdo se mantivesse privado.
    Mas o comprador ia para o p2p e divulgava o livro por todo o mundo.

    Se tivesses passado 14 meses a viver das tuas poucpanças, na esperança do sucesso do livro, que te permitiria recuperar o dinheiro, podias ver que afinal, apesar do sucesso do livro, o dinheiro foi mesmo para o galheto. E tão cedo não repetes a brincadeira.

    E nós todos, a sociedade, perderia os futuros livros que escreverias se te tivessemos pago aquilo que estaríamos dispostos a pagar para o ler. Mas não o fizemos porque tivemos um acesso gratuito ao livro.

    Eu bem sei que a notícia para a qual te alertei contraria estas negras previsões, mas isso é porque neste momento essas iniciativas são a excepção e não a regra.
    Pelo que vejo à minha volta, o sucesso do p2p vai ter um impacto negativo na criação cultural profissional, mesmo que nos facilite a todos o acesso ao que já está criado.

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  3. «Talvez. Se ambos tivemos X de trabalho e se estamos a ser pagos pelo trabalho, faz sentido. Não fará menos sentido que um cantor ganhar milhares de vezes o que ganha um bombeiro ou um polícia. Se for um mercado livre, se cada um paga o que acha bem pagar, faz sentido. Mas não faz sentido criar leis só para que um cantor ganhe mil vezes mais que um polícia.»


    Faz sentido se o objectivo for incentivar o autor não a ter trabalho, mas a que o seu trabalho sirva a alguém..

    Se o objectivo for incentivar mais os que têm mais jeito para escrever, se o objectivo for encorajar as pessoas a tornarem as suas obras apelativas, etc...

    Não digo que deva ser assim. Mas é uma posição defensável.

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  4. Ludwig,

    O João Vasco relembrou aqui o factor investimento que também já referi no passado.
    A tua visão colide com a pespectiva de remuneração de um investimento. Pelo teu raciocinio. Se comprares as acções de uma empresa por 1 euro, e no primeiro ano essa acção der 1 euro de dividendo, está pago, e não tens direito a mais nada, e a acção passa a ser posse de todos. Isso é treta da grande. Quase toda a arte é feita com investimento, e é o retorno desse investimento que o copyright cobre. Por isso é que aquele negócio da gravação de discos à custa da banda e o lucro vai todo para a editora ou é mito urbano criado por mais um pseudo-revoltado, ou foi um bando de pacóvios que não quiseram contratar um advogado. Na nossa legislação aquilo dava direito a quebrar o contrato.
    No entanto, tu continuas a achar que o investimento é feito a titulo perdido... O que é treta.

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  5. João,

    «Imagina que escrevias um livro, e vendias o livro a cada comprador por 5e, na condição de que o conteúdo se mantivesse privado.»

    Imagina que vendia na condição que só o lessem à terça feira, ou que não o mostrassem a mulheres, ou que só o lessem com um pé no ar. Eu imagino que diriam sim sim, e depois ignoravam por completo porque não tenho direito de fazer esse tipo de exigências nem pôr as condições que me dá na gana. O que tenho direito é de vender o livro pelo preço que quiser, se mo quiserem comprar. O que fazem com ele depois de o vender é com cada um.

    «Se tivesses passado 14 meses a viver das tuas poucpanças, na esperança do sucesso do livro»

    Era parvo. Então vou trabalhar 14 meses para ganhar dinheiro sem primeiro saber se me vão pagar ou não? Ou o faço por gosto, ou decido arriscar e assumo a responsabilidade se o negócio falhar. Mas querer fazer isto desta maneira não me dá direito de exigir restrições legais ao que os outros fazem.

    Estás a propôr que o trabalho de escrever um livro ou compôr uma música é radicalmente diferente de qualquer outro trabalho, seja ensino, investigação científica, conduzir autocarros, carpintaria. Mas nunca deste razões para isso.

    Nota que eu posso passar 14 meses a desenvolver um algorítmo que depois de publicado toda a gente pode usar sem me dar um centimo. O segredo é simples: ou o faço por conta própria ou arranjo quem me pague por esses 14 meses de trabalho. O livro é exactamente a mesma coisa.

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  6. Cristy,

    Por acaso recebi há tempos um convite para escrever num blog comercial, com publicidade, e receber uma parte. Mas não me interessa, porque a vantagem de não ganhar nada com isto é que não tenho obrigação nenhuma. É só pelo gozo.

    E esse talvez seja o verdadeiro direito do autor: o direito de fazer o que faz pelo prazer que lhe dá a si e aos outros, em vez de ser pelo negócio. Penso que isso faz mais sentido que andar a vender direitos às editoras e coisas assim.

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  7. António,

    O meu raciocínio é que se compras acções de uma empresa ficas com parte da empresa. Isso não tem nada a ver com copyright.

    Quando investes esperas um retorno, que podes ou não ter. Também não tem nada a ver com copyright.

    Quando trabalhas e queres ser remunerado fazes um acordo com quem te vai remunerar. Idem.

    O copyright, hoje em dia, é dar a uma pessoa (que normalmente nem é o autor) o direito de processar outros que reproduzam uma sequência de números que seja usada para recriar a tal obra protegida. O efeito principal é dar confusão, restringir a distribuição de arte e cultura, impedir a criação de obras derivadas, e dar emprego a muitos advogados, que são os mais incentivados por isto.

    Como um incentivo a processos judiciais sem sentido é bastante eficaz. Mas fora isso só estorva.

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  8. Ludwig,

    Se comprares a gravação de um artista és dono de uma gravação. :-) E isto é tão válido como seres dono de uma empresa.
    Se abrires uma empresa de paus-de-cabeleira, e arriscares na produção do produto, sem saber do seu possível sucesso, podes acabar falido se der para o torto. Se tiver sucesso, aquilo que tu estás implicitamente é que alguém constroi uma réplica ao lado e sem riscos, começa a receber o dinheiro que o teu investimento proporcionou como perspectiva de mercado.
    Tu inclusivé tiveste de investir na criação, o tipo limita-se a copiar, por isso, tu como criador estás sempre condenado à falencia, pois não é possível conseguires melhores custos do que o copiador, pois ele não investiu na criação, apenas na cópia, que é de onde tu irias tirar o lucro que pagasse o investimento.
    Se achas que na arte não há investimento, aí começo a achar que a tua posição é apenas originada numa falácia: a inexistencia de investimento na criação!

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  9. Onde se lê:
    "Se tiver sucesso, aquilo que tu estás implicitamente é que alguém constroi uma réplica ao lado e sem riscos"
    devia estar:
    "Se tiver sucesso, aquilo que tu estás a aceitar implicitamente é que alguém te constroi réplicas ao lado e sem riscos"...

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  10. Ou, em alternativa, vou começar a comercializar t-shirts "KTreta"... Tu tens o trabalho de ser intelectualmente mais avançado do que a maioria, e eu vou capitalizar isso em meu proveito.
    Também serve...
    :-)

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  11. António,

    A tua premissa é falsa, como atestam indústrias como a culinária ou a moda. Não se pode registar a mini-saia nem as mousse de chocolate.

    Mas à partida não há problema em reular algumas formas de comércio para melhorar a oferta. Por exemplo, quem vende qualquer obra artística tem que avisar o comprador de quanto é que vai para o artista. Isto provavelmente era suficiente, porque muita gente ia evitar comprar de quem não dava nada ao artista.

    No entanto o copyright é muito mais que isto. Hoje em dia é dar direitos de propriedade sobre informação em abstracto, o que é uma confusão e custa-nos muitissimo mais que esses benefícios. É como Elton John sugeriu: acabar com a internet porque estava a estragar a forma como se faz música.

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  12. Tenho tido alguns problemas em compreender este conceito, mas admito q à partida sou a favor do copyright e copyleft desde q o 1o seja delimitado num curto prazo q permita q a sociedade beneficie prontamente.
    O q me atrai é a possibilidade de escolha do autor das obras para a escolha da licensa. (ver por ex Creative Comons) É o autor poder escolher entre a eterna (70 anos em PT?) protecção e a evolução da cultura. Muitos são a favor do egocentrismo pois acham q devem ser donos da obra mesmo q ninguém tenha ouvido sequer falar dela. Outros, como o caso deste blog, prefere elucidar-nos e oferecer o seu conhecimento para q todos o possam usufruir. Parece-me mto mais interesante.

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  13. Refaço ali aquela frase menos coerente:

    "teimam em ser donos de uma obra por décadas mesmo q a obra seja ignorada ao invês de tornar a obra publicamente acessível, atingir um maior publico e contribuir para o conhecimento global.". Outros, ....

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  14. Pedro,

    O problema é que esta escolha do autor é uma escolha sobre as liberdades dos outros.

    Eu proponho que ninguém tem o direito de proibir que o imitem. Seja nas palavras, nos gestos, nas frases, textos, músicas, o que for. E muito menos o direito de proibir que divulguem aquilo que escolheu tornar público.

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  15. Mário Miguel10/10/07, 23:30

    Ludwig,

    «Imagina que vendia na condição que só o lessem à terça feira, ou que não o mostrassem a mulheres, ou que só o lessem com um pé no ar. Eu imagino que diriam sim sim, e depois ignoravam por completo porque não tenho direito de fazer esse tipo de exigências nem pôr as condições que me dá na gana.»

    Porquê? Só compra que quer/concordar, e neste caso o produto não é de 1.ª necessidade. Tanto é que a tua condição para que lê isto é não haver nenhuma condição.


    «O que tenho direito é de vender o livro pelo preço que quiser, se mo quiserem comprar. O que fazem com ele depois de o vender é com cada um.»

    Com um quadro, por exemplo, isto é falso... Não podes fazer o que quiseres com ele.

    «Eu proponho que ninguém tem o direito de proibir que o imitem.»

    Com as farmacêuticas, por exemplo, ou com industrias similares, isto não é exequível.

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  16. Miguel,

    No caso das farmacêuticas, só permitimos que vendam as drogas se nos mostrarem que são úteis e determinarem como se devem usar. Tudo pago pela farmacêutica. Sem isso nem os deixamos vender.

    Em contrapartida, a sociedade dá-lhes uma exclusividade comercial durante uns anos. É uma contrapartida pela exigência.

    Nas patentes em geral, a exclusividade comercial é uma contrapartida pela publicação da invenção. A patente é domínio público.

    No copyright original era mais ou menos isso também. A informação era domínio público, e apenas uma forma específica de a exprimir era coberta. Uma lista de números não era coberto pelo copyright de um romance. Era uma contrapartida pelo investimento na edição e distribuição, e era também uma exclusividade comercial. Ninguém ia ver se as pessoas liam em voz alta ou copiavam os livros.

    Até recentemente, as fotocópias de livros na universidade eram algo normal.

    Esta mutação do copyright para se aplicar a toda e qualquer forma de reproduzir informação é muito recente, e perniciosa.

    Quanto à liberdade de exigires o que quiseres de quem compra, é treta. Os termos desse tipo de contrato estão fixos na lei. Por exemplo, não podes vender electrodomésticos que fabricas sem dar garantias de segurança e de funcionalidade. E não podes exigir o que te der na gana.

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  17. Mário Miguel11/10/07, 00:04

    Ludwig,


    «Em contrapartida, a sociedade dá-lhes uma exclusividade comercial durante uns anos. É uma contrapartida pela exigência.»

    A farmacêutica avança porque sabe que tem protecção, se não tivesse não avançaria, devido aos custos que tem que fazer (devido às exigências e não só). Concretamente a farmacêutica vê custos e perspectiva ou não de retorno.
    Na sua escala, qualquer outro criador também o vê: custos pessoais; tempo; dinheiro, etc...


    «Esta mutação do copyright para se aplicar a toda e qualquer forma de reproduzir informação é muito recente, e perniciosa.»

    Concordo inteiramente contigo no «perniciosa», mas haverá um meio termo no que tu defendes e no que é praticado actualmente.


    «Quanto à liberdade de exigires o que quiseres de quem compra, é treta. Os termos desse tipo de contrato estão fixos na lei. Por exemplo, não podes vender electrodomésticos que fabricas sem dar garantias de segurança e de funcionalidade. E não podes exigir o que te der na gana.»

    A lei, pode (e deve) ser discutida, ou será dogma?!
    Claro que há obrigações em quem vende electrodomésticos, mas no caso destes
    não serem de primeira necessidade, e obedecendo a criterios de segurança, não vejo que o vendedor não possa exigir disparates a quem compra, só compra quem quer. Nota que o facto desses electrodomésticos terem que cumprir requisitos, em nada se relaciona ou invalida o facto do vendedor exigir que se faça o pino quando se usa o leitor de MP3.

    ************

    Nota que eu sou a favor de se pagar, se assim o criador quiser; se tal for feito, que seja justo para as partes envolvidas, como já tinha referido.

    Por exemplo: arranjar critérios para obter um valor para o lucro máximo obra para o autor, e depois o excedente seria redistribuído automaticamente pelos compradores,
    o que incentivava ambas as partes; esta proposta eu já a tinha feito lá para trás, num dos teus posts, e dias depois vim a verificar a ocorrência de um caso similar aplicado à música.

    Sobre o argumento dos números: então não há transmissão, mas sim "milagre". A música vai de um emissor (CDA, ou outro) até ao transdutor que "empurra" o ar para o ouvido do receptor; no meio, não se passa nada... :->

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  18. Joaquim Amado Lopes11/10/07, 01:01

    Ludwig:
    Mas não faz sentido criar leis só para que um cantor ganhe mil vezes mais que um polícia.
    Pode dar o exemplo de um país que tenha uma Lei dessas?
    É que as leis do Copyright não dizem nada sobre quanto um músico ganha, nem em valor absoluto nem em relação a qualquer outra profissão.

    Se for um mercado livre, se cada um paga o que acha bem pagar, faz sentido.
    Um mercado livre não funciona assim.

    Num mercado livre, não são apenas os consumidores que são livres de pagarem o que quiserem pagar mas sim ambas as partes são livres para chegarem ou não a acordo.
    Se o comprador não estiver de acordo com o preço, é livre para não comprar e o vendedor é livre para estabelecer o preço.

    Imagine que o Ludwig vai a um restaurante e, depois de comer, pretende decidir qual o valor justo a pagar. Ou vai a uma loja e decide levar umas calças mas pagando apenas metade do preço afixado. É assim que funciona um mercado livre?

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  19. Na base desta conversa, parece-me que está o facto de as editoras abusarem (nitidamente) da posição.
    Quando todos os custos são imputados aos artistas, porque raio é que a editora arrecada quase 90% das receitas?
    Por isso sou a favor do copyright, mas, como forma de controlo da utilização pública dos conteudos artisticos, e que não podem ser vendidos a terceiros. É do autor, e mais nada. Não pode ser vendido a outro artista, nem a empresas, e afins.
    Ceio que o copyright, é o mecanismo correcto... mas, não creio que seja como está a ser implementado.

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  20. Mas isso deixa o problema fundamental.

    O objectivo de tornar possível a vida de artista profissional é legítimo. Concordo que a sociedade faça por isso. Mas os meios mais adequados são os que se usa para tornar possível os filósofos profissionais, os políticos profissionais, os professores, cientistas, juizes, advogados, etc. É um salário que eles precisam.

    Não se justifica proibir toda a gente de trocar certos dados na esperança que os obrigue a dar dinheiro aos músicos.

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  21. Ludwig,

    O salário seria a solução, efectivamente, mas, a realidade do salário é tão falsa, que se torna inutil. Um génio de uma disciplina qualquer, vai receber salários mais elevados a ensinar sobre o que estudou, mesmo que seja mau professor. E é assim com todos os professores universitários que conheci, a começar pelo nosso presidente da républica, e todos os que leccionaram lá na faculdade, à excepção de 2 ou 3.
    Estão a viver do passado, tal como o artista que vive do copyright. Não são nem melhores nem piores. São iguais.
    O salário permite dedicar mais tempo à actividade, mas, não obriga à qualidade, nem incentiva a criação genial. O salário normaliza e "arredonda" por baixo a arte.
    Tirando o Requiem do Mozart, quase toda a obra encomendada que conheço é uma treta normalizada, e hiper inflacionada. Muito bem executada, em alguns casos, mas, sem a "chama" que a ansia do sucesso comercial pode gerar.
    Musicos assalariados, são coisas tipo Take That, e outras bandas da treta formadas pelas editoras. DZR'T diz-te alguma coisa? Se é isso que queres para o futuro da música, eu prefiro o copyright. :-)

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  22. «Estás a propôr que o trabalho de escrever um livro ou compôr uma música é radicalmente diferente de qualquer outro trabalho, seja ensino, investigação científica, conduzir autocarros, carpintaria. Mas nunca deste razões para isso.»

    Pois estou. E é.

    E a razão é simples e eu já te tinha dito qual é: free ride. Isso não ocorre na condução de autocarros, na carpintaria, nem em nenhuma destas actividades.

    Na produção de um livro, pelo contrário há "free ride": sem copyyrigth os consumidores podem optar por usufruir de um bem que tu produziste sem te pagar nada. Ora o problema disto não é a injustiça, é a "falha de mercado". Sem copyrigth existe uma falha de mercado: os consumidores gostariam de pagar até 10 moedas pelo livro, num total de 40000 modedas. Se investisses 14 meses da tua vida a escrevê-lo, isso custar-te-ia 10000 moedas, por isso a sociedade (tu e os consumidores) poderiam ganhar até 30000 moedas por escreveres o livro.
    Mas como assim que o escreveres, a primeira pessoa a pagar-te x (menos de 10) moedas pode divulgá-lo livremente, tu nem sequer vais escrever o livro, porque não queres jogar dinheiro à rua. Ficam todos a perder.

    Sem copyrigth tens uma falha de mercado. Com copyritgh tens outras. Nenhuma das opções é um mar de rosas.

    E para a investigação aplicada existe o sistema de patentes, que é análogo ao copyrigth. E pode chegar ao ridículo de patentear o duplo clique - claro que essas coisas são ridículas, e mostram que muita coisa poderia melhorar. Mas soluções ideais não existem.

    A abolição do copyrigth, que cada vez mais vejo como inevitável, vai ter consequências negativas - talvez menos às que a sua manutenção - que eu não entendo como é que não as reconheces.


    Nesta história da escrita é fatal: torna-se muito mais difícil ser um "escritor profissional", se qualquer livro que tu escreveres pode ser divulgado livremente, mesmo contra a tua vontade, a partir do momento que fizeste a primeira venda.
    E com os filmes de cinema, muito pior. Filmes muito caros, como os consumidores parecem gostar, vão mesmo ter de passar a ser coisa do passado.
    Tu podes achar que "qualquer um" já pode sacar os filmes, mas isso é falso. Ainda recentemente tive a confirmação daquilo que dizia: fora do univrso da informática, qualquer indivíduo acima dos 30 não faz ideia de como piratear filmes e músicas.
    E quando essa realidade mudar... adeus filmes caros. O pior nem é para mim, mas vai ser aborrecido para muita gente...

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  23. «E a razão é simples e eu já te tinha dito qual é: free ride. Isso não ocorre na condução de autocarros, na carpintaria, nem em nenhuma destas actividades.»

    Acontece em quase todas. Se eu compro um móvel eu pago ao carpinteiro mas mais pessoas beneficiam da mobília. Quando um médico trata uma pessoa outros que poderiam apanhar a doença safam-se e beneficiam. Quando o motorista leva uns de autocarro os outros beneficiam pela redução do trânsito. E assim por diante.

    O free ride só é uma coisa má quando tem consequencias más. Não é mau por si só. Pelo contrário. O benefício a terceiros é uma parte fundamental de uma sociedade. É bem pobre a sociedade que não tem free riders em nenhuma transacção.

    «Nesta história da escrita é fatal: torna-se muito mais difícil ser um "escritor profissional", se qualquer livro que tu escreveres pode ser divulgado livremente, mesmo contra a tua vontade, a partir do momento que fizeste a primeira venda.»

    Outra ideia que é contrária à observação. Sempre houve imensa pirataria (o termo «cassete pirata» atesta à antiguidade da prática...). Sempre se fotocopiou livros. Muita gente gravou filmes da televisão não para ver uma vez mas para ficar com eles.

    Hoje em dia há mais de cem milhões de utilizadores regulares de p2p (os dados que vi agora acabavam em 2005). Há muitas queixas por parte dos distribuidores de música, mas não conheço um unico caso de um artista que tenha deixado de trabalhar porque milhões ouvem a sua música mas ninguém lhe quer pagar.

    A indústria da música como a conhecemos vai desaparecer, mas é porque os artistas vão vender directamente ao público.

    Finalmente, há imensos livros disponíveis em P2P, mas as vendas de livros têm aumentado continuamente.

    Finalmente, aquilo que chamas consequências negativas é só para uma das partes. O copyright é a concessão de um privilégio a alguns (normalmente não ao autor), e acabar com o copyright acaba com o privilégio. Isso eu reconheço que tem impacto.

    Mas como considero este privilégio injusto e um mal que já não é necessário, não acho que seja uma consequencia negativa acabar com ele. Poderias dizer que abolir a lei que dava ao marido o direito exclusivo de decidir o que se fazia com os bens do casal teve consequências negativas para os homens casados. Eu diria que não foram negativas mas justas.

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  24. Ooops... queria dizer mais de dez milhões, e não de cem. Ou então, pode ser um milagre :)

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  25. Ludwig:

    As consequências do copyrigth são positivas e negativas para o consumidor.

    São negativas na medida em que dificulta o seu acesso gratuito aos bens, e na medida em que dificulta a produção amadora (não se poder pegar num original e fazer uma ligeira alteração, etc...). Depois ainda há o aspecto da repressão e da invasão da provacidade, etc... que são quase inadmissíveis.
    E por fim, como a repressão já não poderá ser eficaz sem afectar direitos muito mais importantes, isto pode tornar o copyrigth incomportável. Até aqui estamos de acordo.

    Mas não entendo como te custa reconhecer os aspectos positivos do copyrigth, mesmo que admitas que não superam os negativos.
    O consmidor é beneficiado pelo copyririgth na medida em que este é uma ferramenta muito poderosa de incentivo à produção cultural profissional, e nenhuma outra é tão eficaz.
    Sem o copyrigth vai haver menos produção profissional, e os consumidores vão ter as suas escolhas muito limitadas - claro que vão ter acesso a uma produção amadora muito maior, mas as pessoas tendem a gostar mais da profissional, e aqui as escolhas disponíveis irão menos ao encontro dos seus gostos.

    Tu dizes que a experiência contraria isto. Sim, houve esta notícia engraçada e outros projectos giros. E por enquanto Hollywood continua a funcionar.
    Sim, mas muito poucos têm acesso ao p2p. E os hábitos demoram algum tempo a mudar.
    Posso estar muito enganado, mas creio que no dia em que o coprigth caír vais ver bem menos dinheiro metido na industri do cinema. E não é por haver mais concorrência e esse mar de rosas todo: é porque não compensa fazer um filme tipo "Senhor dos Aneis" ou "Guerra das Estrelas" se depois não se consegue rentabilizar o investimento. Não são apenas os produtores que perdem - são também os potenciais fãs.

    As alternativas sugeridas até agora foram duas: "cada um dá o que quer" e "o estado subsidia". Quanto à segunda, creio que conheces o problema: o estado pode e deve subsidiar, mas nunca será tão competente a incentivar os produtores de filmes a satisfazerem as preferências dos consumidores como o sistema actual. O "cada um dá o que quer" até pode funcionar para livros e músicas - mas nunca podem ser coisas muito caras. Isso exigiria um grau de altruismo generalizado que pelo menos nos próximos séculos duvido que se verifique, e toda a experiência mostra que não se verifica (não digo que se verifique o extremo oposto - já sabemos que o "homo economicus" é uma abstracção que a experiência mostrou não corresponder À realidade).

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