sexta-feira, setembro 21, 2007

Moderação.

Pedem-me mais moderação na critica a certas crenças. Mas não explicam como, nem porquê nem em que aspecto é que eu devia ser mais moderado.

O aspecto íntimo não discuto. Há quem goste de rezar, ir à missa e louvar o senhor. Há quem goste de golfe. Eu gosto de chocolate. Admito interesse em conversar com o Criador do Universo, se existisse tal coisa, mas não me ia dar para ajoelhar, rezar e louvar. Não faz o meu estilo. Mas é uma questão de gosto e não há nada para discutir. Nem sequer posso ser mais moderado. Podia, e devia, ser mais moderado no consumo do chocolate, mas não posso moderar o gosto. Esse é o que é.

O aspecto da crença que discuto é público. Se deus existe, existe para todos, crente ou descrente. Se não existe, não há crença que lhe valha. E qual destas melhor corresponde à realidade é uma questão a investigar. A fé não interessa. Tem que se considerar alternativas, confrontá-las com as evidências, rever as que não são adequadas, e repetir tudo sempre que há dados novos.

E sem moderação. Não queremos um juiz moderadamente imparcial, que julgue metade dos casos de acordo com as provas e metade de acordo com a sua crença que quem tem bigode é culpado. Não queremos um cirurgião moderadamente rigoroso, que metade das vezes corte onde a anatomia indica ser apropriado e outra metade feche os olhos e confie em deus para guiar o bisturi. Se queremos ter uma boa noção da realidade também não podemos ser moderadamente criteriosos. Temos que confrontar as nossas ideias com a realidade como ela é, sem pitadas de fantasia, de li uma história engraçada, nem de ai que bom que era.

Ou talvez queiram que eu seja mais moderado no confronto com quem discorda de mim. Mesmo assim não vejo como. Não devem querer moderação nas vezes que rebento autocarros cheios de gente, atiro aviões contra prédios, queimo pessoas vivas ou as condeno a sofrer para sempre no inferno. É que isso não faço, nem com moderação nem com coisa nenhuma. Também não vou bater à porta das pessoas a vender ateísmo, não distribuo panfletos, e nem sequer uso pontos de exclamação quando escrevo estas coisas. Só respondo a quem me dirige a palavra ou escrevo aqui, onde só vem ler quem quer.

Se não é nada disto que querem quando me pedem moderação só resta uma possibilidade. Querem que me cale.

Azar. Não se pode ter tudo...

19 comentários:

  1. Ludwig,

    Não lhes ligues. Isso de te pedirem mais moderação é uma forma envergonhada de te pedirem para não seres tão claro na exposição das tuas opiniões e, de preferência, que também não o faças com a capacidade de argumentação que te tem de ser reconhecida.

    Deixa lá; vai comendo todo o chocolate que te apetecer.

    Um abraço.

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  2. Oi Helder,

    Obrigado pelo comentário. Mas acho que devias retirar essa imagem do teu blog. É ofensiva e uma heresia. Vejam lá o disparate, fazer uma coisa dessas com o santo chocolate... :)

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  3. Um Cristo comestível? Mas porquê? O Vaticano quebrou o contrato com as empresas de panificação e fez outro, com a Nestlé?
    De qualquer modo, oh! Ludwig!, que reaccionarismo à mudança! Eu voto já nela! Tem mais sabor a Paraíso!

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  4. Eu detesto pessoas moderadas. Não se pode confiar nelas. Nunca sabemos se estão a dizer o que pensam ou se estão a dizer o que é politicamente correcto.

    O ser moderado é quase igual a ser condescendente. É quase igual a ter pena. Se fossem moderados quando discutem comigo, o que acontecia é que provavelmente morria a pensar que cerveja era whiskey, e isso não se quer. Se está mal, diz-se que está mal, e "mai nada", mas sempre com educação.

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  5. «sempre com educação»... a primeira vez que li, pareceu-me «sempre com moderação». Depois disse hã?! , abanei a cabeça, e à segunda já entrou certo :)

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  6. Um Cristo de chocolate parece-me bem menos indigesto que aquele inventado pelos crentes e que não tem nada a ver com a figura histórica. Se forem de chocolate, até estarei disposta em acreditar em Santo António e "sus muchachos".
    Cristy

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  7. Caro Ludwig,
    Concordo com o que escreve, mas faço um reparo.
    Há pelo menos uma coisa em que você acredita sem provas e sem que alguma vez essas provas possam existir: na existência de um Universo material exterior a si.

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  8. Ludwig

    Antes de mais faço o reparo que não li os comentários que foram colocados depois de ter dito que era melhor calar-me. E não vou comentar mais o que estava em causa porque realmente não é oportuno.

    Mais que isso, o que estava em discussão já nem era importante, porque o tom com que se dicutia se sobrepôs ao tema. E aí os meus pontos de exclamação não foram tão eloquentes como os discursos de muita gente.

    Não quero converter-te nem sequer que concordes comigo. Acho que dá para ver no meu blogue e nestes comentários que sou por vezes excessiva e muito apaixonada no que discuto e na forma como o faço (em contrapartida, isso estende-se a quase tudo o resto que faço). Não me levo demasiado a sério, contudo, porque acho que isso é um erro. Acho que tu te levas demasiado a sério, mas isso pode ser um erro por não te conhecer pessoalmente. Admito que isso possa acontecer, porque pessoas que me conhecem e lidam comigo diariamente cometem erros de julgamento tais que vão ao ponto de me classificar (lá estão as malditas caixinhas) de radical de esquerda... a extrema direita! Mais incompatível que isso não há. Agora fanática religiosa nunca me chamaram.

    Só quero chamar-te a atenção para uma expressão que se usou repetidamente (nas partes que eu li): desonestidade intelectual. Tu usaste-a, por exemplo! Não é em si uma expressão muito... honesta! Pior que um camião de pontos de exclamação! É forte! É grave! É nesse aspecto que tens que... não... não tens que fazer nada: devias moderar-te. Por auto-contenção. Tu e os teus leitores. Claro que, como antes, não tens que concordar comigo. Mas ganhavas com isso.

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  9. Helder e Ludwig

    Não quero ofender as vossas crenças chocolatais, mas pareceu-me um mau uso (atenção que eu não escrevi abuso) de chocolate! O boneco, assim de repente, não está assim grande coisa. Isso será mais para o Herr Krippmeister, o grande mestre da arte e do design modernos e contemporâneos criticar, mas acho que ele dirá qualquer coisa como que é uma obra que abusa do tema nudez (como a maioria da arte moderna, onde a propósito de nada salta uma gaja ou um gajo nús de qualquer lado).

    Se ainda fosse a playmate do mês ou a Pamela Anderson ou a Paris Hilton, mas um Jesus (sem cruz ainda por cima, ou seja, sem "provas" que é mesmo o Jesus!)... não é muito a minha missa (por assim dizer).

    Agora a parte a sério: não gosto da obra visualmente, mas não aprecio grande parte da arte moderna (tenho um par de posts dedicados a isso). Em parte pela porra da nudez fora de contexto, o que me parece sacrilégio (no sentido em que desvaloriza a nudez em contexto).

    Do pouco que li na altura sobre o assunto do Cristo, ficou-me a ideia que só o local de exposição teria sido desadequado, por se ver da rua (e na rua passam pessoas que não pediram para ver um nú integral). De resto, nada contra.

    Fora isso tens que reconhecer que o artista só não vestiu o Cristo para fazer publicidade e ver se algum palerma lhe comprava aquela porcaria! A isso chama-se publicidade enganosa. E fraquinha!

    Mas aborrece-me que cristãos, muçulmanos ou monárquicos tomem as suas convicções como absolutas e que lhes dêem o direito a cortar a liberdade de expressão dos outros. E dizem vocês: monárquicos? Passou-se!

    Sim, meus lindos, há coisa de 2-3 meses um espanhol fez uma caricatura de uma real trancada (com os príncipes de espanha), teve grandes problemas e a edição do jornal (ou revista?) em que aquilo foi publicado foi recolhida! Eu concordo: ainda se fosse um Cristo ou um Maomé, tudo bem, mas a Santa Letizia nunca! Há limites! Do mesmo modo, a Floribella e a Diana são inatacáveis. Já os McCann, depende do andar das investigações!

    Infelizmente eu também sou crente (e praticante quando caio em tentação) no São Chocolate. Pior que isto, sou racista: quanto mais preto melhor! A minha sobrinha ainda é mais radical que eu: gelado é de chocolate! O resto é pecado na religião dela! Ela mesma está da corzinha de um chocolate de uma qualidade muito aceitável e é uma doçurinha!

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  10. Senhor Ludwig,

    Como antigo crente, gosto da sua maneira de expor a sua argumentação, acho válida e muito interessante. E como já estive do outro lado; sei que a sua opinião é de interesse.

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  11. José Luiz,

    Não é uma questão de acreditar, no sentido de ter como verdadeiro sem provas. Em parte é puro pragmatismo.

    Se tudo isto é fantasia minha, pouco importa o que faço. Mas se não é, então tenho que ter atenção. É muito mais seguro assumir que é real até que tenha indicios em contrário. E há partes que sei que não são reais. Sonhos, ilusões de óptica, etc. Nesses casos ajo de form diferente, quando os detecto.

    Além disso tenho bons indícios que o que se passa à minha volta é muito mais detalhado e complexo que aquilo que eu consigo imaginar. Eu tenho que escrever coisas porque depois me esqueço, e depois tenho que ler para relembrar. Isto é um forte indício que há uma realidade independente da minha imaginação.

    Nunca terei certezas. Mas certas coisas tenho indicios suficientes que são fantasia para as tratar como tal, outras as evidências sugerem que há ali mais que a minha imaginação, e noutras que não sei assumo que são reais por prudência. Se vir um tigre na sala pode ser imaginação, mas, à cautela, fecho a porta primeiro antes de chamar o médico.

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  12. Abobrinha,

    Não sei o que entendes por levar a sério. Gosto de compreender as coisas, e por isso não me importo de insistir num tema e discutí-lo anos a fio se for preciso. Aliás, fiz disso profissão.

    Mas não é coisa que me faça perder o sono de preocupação. Só, às vezes, por entusiasmo.

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  13. Sardinha,

    Obrigado pelo comentário. E, já agora, «senhor» Ludwig só se for o meu pai, e mesmo ele se queixava... :)

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  14. Olá Ludwig,

    Olha aqui está um santo que não me convence.
    Sim, porque eu sou das poucas pessoas no mundo que realmente não cre (gosta) do S. chocolate...

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  15. Caro Ludwig:
    «Em parte é puro pragmatismo». Eu acho que aqui você se deixou levar pelo ritmo da frase e caiu numa contradição. Se é em parte, não é puro, se é puro não é em parte.
    Eu diria que é mesmo puro pragmatismo. Pragmatismo que eu partilho, de resto. Poderia postular a inexistência de um mundo real exterior a mim, mas também posso postular a sua existência; e como o segundo postulado é mais útil, opto por ele.

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  16. Luiz,

    admito que é uma frase ambigua, mas o que eu queria dizer é que numa parte das vezes é pragmatismo puro e mais nada.

    Mas discordo que tenha que ser sempre só o pragmatismo. Há situações em que tenho evidências num sentido.

    Por exemplo, baralho as cartas, tiro uma de cada vez, e anoto por que ordem estão. Depois, sem olhar, tento escrever de memória a ordem porque sairam. Finalmente comparo ambas as listas novamente com a ordem das cartas no baralho.

    Se a primeira lista concordar mais que a segunda, é uma evidência forte que há mesmo um baralho e uma lista onde está guardada informação que a minha mente sozinha não conseguiu reproduzir (a segunda lista).

    É claro que permanece a possibilidade de me estar a enganar a mim próprio, mas a possibilidade de qualquer hipótese ser falsa nunca pode ser eliminada definitivamente.

    O que interessa aqui é que sempre que eu encontro limites para as minhas capacidades cognitivas tenho evidências que há mais no universo que apenas a minha imaginação. E nessas situações já não preciso depender apenas do pragmatismo.


    Já agora, isto tem uma implicação curiosa. Um ser verdadeiramente omnisciente nunca poderá ter sequer indícios se a realidade existe ou se é só fantasia sua... :)

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  17. Ludwig,

    Sinceramente, estou-me nas tintas para a forma que você usa para escrever. Use a acidez que quiser, a ironia que lhe apetecer, a mordacidade que entender.

    O que me choca, em tantos comentários que lhe fazem, é que todos falham o alvo. Que interessa a forma que você usa?

    Porque é que tantos se agarram à porcaria da forma, como se o conteúdo não fosse muitíssimo mais importante?

    O Ludwig possui uma sã atitude mental quando afirma a superioridade intelectual das suas ideias. É evidente que TEM que a afirmar, porque o Luwdig, de forma razoável, detesta o relativismo. Demonstra que é coerente quando considera que a sua posição tem que ser melhor que a minha porque a considera verdadeira, ao invés da minha, que considera falsa.

    Como imagina, partilhando eu da sã vontade de coerência e repudio do relativismo intelectual, eu também penso o mesmo das suas ideias: vejo-as como elas são, como inferiores às que defendo, que são verdadeiras.

    As suas, considero-as falsas.
    Até aqui, tudo bem, e tenho respeito por si. Como dizia eu a um grande amigo meu, ateu até ao tutano: "Eu só posso dizer-te que estás totalmente errado, e só espero de ti, em nome da coerência, que enquanto persistires no erro, me consideres totalmente errado".

    No entanto, pelo meio desta posição honesta da sua parte, vão aparecendo tiques de presunção que não são bons: quando, por exemplo, o Ludwig escamoteia noções filosóficas importantes para tentar "refutar" coisas às três pancadas.

    Esta ideia de que a Filosofia é uma ferramenta maleável, cujo uso se pode distorcer para nosso bel-prazer ou para fingir refutações, é uma ideia perigosa.

    Da sua parte, apenas pediria uma coisa: visto que a Filosofia é a única área intelectual que o ateu e o crente podem ter em comum, e visto que o debate só é possível quando há um mínimo de noções intelectuais em comum, respeite a Filosofia.

    Seria pedir muito um comentário mais sério ao Boécio? Algo que não escamoteasse o conceito filosófico de "relação"?

    Um abraço

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  18. Bernardo,

    Pelo que li, não vejo necessidade de um comentário mais sério. Boécio parte da premissa que o deus trinitário católico é real. É uma premissa injustificada, e sem ela nem há problema a resolver.

    Depois defende que esse deus é uno por ser uma forma sem matéria, um conceito que já era problemático quando Platão o inventou. Hoje em dia, é caso para lhe chamar um disparate. Ainda se fosse o deus de Espinoza, talvez tivesse alguma coerência...

    Finalmente diz que são três pessoas porque há relações entre elas. Mas que raio de argumento. É circular, visto que só postula as relações porque postulou as pessoas à partida. E é inválido, porque uma relação entre X e X não prova que X é diferente de X. Por exemplo, zero é o dobro de zero, mas não é diferente de zero.

    Se há algo aqui que mereca um debate mais sério, então sugiro que explique exactamente o quê. Note que até agora o Bernardo disse muito bem de Boécio mas não explicou porquê...

    Por isso para um debate mais sério sugiro que além de apontar os meus defeitos e manias que ache necessário, aproveite para explicar também o raciocínio que defende. Assuma, por muito improvável que lhe pareça, que nem todos os leitores deste blog tiveram a paciência de ir ler o tratado de Boécio.

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  19. Manuel de Castro26/09/07, 09:43

    Caro Ludwig: não te cales!

    Só me preocupa um bocadinho o grande esforço a que te obriga esta cruzada individual contra o obscurantismo.

    Espero que nunca desistas. Lembra-te que não estás só!

    Um abraço

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