domingo, março 04, 2007

Tipos e propósito.

Da embriologia do século XIX nasceram duas ideias acerca das leis que governam a vida. O embrião começa num estado amorfo, e organiza-se gradualmente num organismo complexo. Propôs-se por isso que a vida do embrião era guiada para a forma do organismo adulto. Por milagre segundo uns, por mecanismos naturais segundo outros, mas todos concordavam que era o propósito do se tornar num organismo adulto que guiava o processo.

Também observaram que um embrião de galinha se transformava em galinha, um embrião de cão num cão, um embrião de humano num humano. Apesar de começarem todos igualmente amorfos, tornavam-se em organismos diferentes. Daqui inferiram que cada tipo de organismo tinha uma essência diferente, um conjunto de propriedades imutáveis.

Já antes de Darwin era aceite que as espécies evoluíam. O avô de Charles, Erasmus Darwin, tinha escrito sobre evolução quando Charles era ainda criança, e Lamarck já era famoso pela sua teoria de como as espécies evoluíam. Mas todos assumiam que a evolução das espécies era como o desenvolvimento dos organismos. A espécie melhorava-se alterando a sua essência para cumprir um objectivo. Duas ideias infelizes que ainda hoje impedem muita gente de compreender a evolução das espécies.

Charles Darwin notou que uma espécie é um conjunto de indivíduos distintos, e não um tipo com uma essência fixa. Quando os criacionistas alegam que nenhum réptil deu à luz um pássaro deixam-se confundir pela ideia dos tipos. Répteis e pássaros são grupos de indivíduos. Cada indivíduo tem características próprias, mas o conjunto de indivíduos abarca uma grande gama de atributos. Uma população de répteis em que uns indivíduos eram mais parecidos com pássaros foi se tornando numa população de pássaros em que uns indivíduos eram mais parecidos com répteis.

Alguns criacionistas perguntam porque há ainda macacos se o Homem evoluiu do macaco. Outra vez se enganam com a ideia de uma essência-homem a tornar-se numa essência-macaco. Foram populações de indivíduos diferentes que se separam em grupos e se tornaram cada vez mais diferentes.

A ideia do propósito é outro empecilho. O que significa isto tudo, perguntam alguns. Para que serve, quem é que guia este processo, qual é o destino da evolução. É como pensar que os grãos de areia no monte decidiram ser pequenos para passar pelos buracos da peneira. É o contrário. Passaram porque já eram pequenos, e não foi de propósito.

A evolução de Darwin é empurrada pelas vicissitudes do passado em vez de ser puxada por uma finalidade. A nossa espécie não evoluiu para ter mais inteligência. A inteligência evoluiu porque os menos inteligentes morreram mais jovens. As espécies não mudam para se adaptar melhor ao seu ambiente, mas porque os menos adaptados deixaram menos descendentes. A evolução é retrospectiva. Não acontece para. Aconteceu porque.

E é talvez esta a ideia que assusta mais gente. Como no século XIX, confundem a população com a essência do indivíduo. A nossa espécie é produto de um processo cego e sem objectivos. Mas este processo deu a cada indivíduo a capacidade de compreender e encontrar sentido na sua vida. Parafraseando Huxley, prefiro compreender como descendo de macacos em vez de usar a inteligência para me iludir acerca das minhas origens.

4 comentários:

  1. é pena que se queime tantas células cinzentas a inventar um objectivo para a vida a todo o custo. Não será suficiente o facto de a vida existir e de termos a capacidade de a apreciar?

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  2. http://bp3.blogger.com/_ZkAsWfdkICY/RgOqcKie8oI/AAAAAAAAAD4/NZT4W2mF_mI/s1600-h/creationism.gif

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  3. Os dados observáveis corroboram as doutrinas bíblicas de que a vida só pode vir da vida e os seres se reproduzem de acordo com a sua espécie. As mutações pontuais destroem o genoma e não acrescentam informação genética nova que codifique estruturas e funções mais complexas e inovadoras. Existem mutações que trocam, recombinam, copiam, eliminam informação pré-existente, mas não se conhece nenhuma que dê origem a uma estrutura inteiramente nova. Por seu lado, a selecção natural opera sobre informação genética pré-existente que vai eliminando progressivamente. Nem as mutações nem a selecção natural têm qualquer relação com a evolução de partículas para pessoas ao longo de milhões de anos. Isso é pura história da carochinha!


    A evolução ao longo de milhões de anos, essa, nunca foi observada por ninguém. Nem por Darwin, nem pelo seu avô Erasmus Darwin. O mesmo se diga do hipotético ancestral comum entre o homem e o macaco. A evolução só existe na cabeça dos evolucionistas. Em vão procurará o Ludwig evidências da mesma. Elas não existem! O Ludwig ainda não conseguiu invocar uma só. Continuamos à espera.

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  4. «a vida só pode vir da vida»
    Então não é do pó, como diz o Génesis 2-3?

    ... «não acrescentam informação genética nova que codifique estruturas e funções mais complexas e inovadoras.»
    No talkorigins existem essas referências:
    «
    * increased genetic variety in a population (Lenski 1995; Lenski et al. 1991)
    * increased genetic material (Alves et al. 2001; Brown et al. 1998; Hughes and Friedman 2003; Lynch and Conery 2000; Ohta 2003)
    * novel genetic material (Knox et al. 1996; Park et al. 1996)
    * novel genetically-regulated abilities (Prijambada et al. 1995)
    »

    «Isso é pura história da carochinha!»
    ;)

    «A evolução ao longo de milhões de anos, essa, nunca foi observada por ninguém.»
    É claro que ninguém observou-a (pelo menos directamente), do mesmo modo que ninguém observou o acto de Criação. Mas acho evidências de fósseis (como os referidos na revista SÁBADO de há 2 semanas, sobre um dinossauro com bico e penas) mais confiáveis do que um livro. E eu prefiro o Alcorão do que a Bíblia por ter sido revelado e não apenas inspirado. E é uma edição mais recente.

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