terça-feira, março 27, 2007

As regras do jogo.

No colóquio de dia 21 (1) alguns intervenientes compararam a ciência e a religião a jogos com regras diferentes. Não ficou claro o que queriam dizer, mas parece-me que esta analogia omite uma propriedade importante das regras da ciência.

As civilizações antigas da China, Egipto, Grécia, e América Central eram muito diferentes. Tinham diferentes deuses, cultura, arte, e política; «jogos» jogados com regras diferentes. Mas algumas regras todas tinham que seguir. A água escorre para baixo em todas as culturas, e isto determina os sistemas de irrigação. Um monte de pedras é estável se a parte inferior for maior que a parte superior, por isso os grandes monumentos antigos tinham forma de pirâmide. Um ser humano precisa de um mínimo de nutrientes para sobreviver, e a população de todas estas civilizações era limitada pelo alimento disponível.

São dois tipos diferentes de jogos. Na interacção entre humanos temos alguma liberdade para decidir com que regras jogamos. Monarquia ou democracia, cristianismo ou ateísmo, barroco ou gótico, e assim por diante. Na interacção com o resto do universo temos que nos sujeitar ao que este é. As regras deste jogo não são negociáveis.

Este diferença marca a história dos últimos séculos. Por serem jogos humanos com regras negociáveis, as religiões (e outras ideologias) multiplicam-se em variantes doutrinais. Seitas, cultos, igrejas, denominações disto e daquilo. Uma diversidade crescente, agora que a repressão violenta da heresia é menos comum. Um arbusto fertilizado pela imaginação humana. Por outro lado, o jogo da ciência é descobrir como o universo funciona, e isso limita as possibilidades. Também neste jogo a imaginação humana contribui com ideias novas, mas a realidade obriga a encaixá-las num único modelo coerente. Em vez de rebentos a divergir, as ideias novas em ciência são tributários de um grande rio. É por isso que não há bioquímica evangélica, apostólica, ou ortodoxa, nem físicos da Ordem de São Newton, nem biólogos da Opus Darwinei.

O objectivo da ciência é conhecer a realidade, e a primeira regra é simples: vale qualquer hipótese com consequências observáveis. Tais hipóteses podem ser testadas, comparadas com alternativas, e seleccionadas pela sua correspondência ao que observamos. As restantes, sem consequências observáveis, são irrelevantes. Porque nunca se pode saber se estão certas ou erradas não nos podem dar qualquer conhecimento. Todas as regras do jogo da ciência são consequência desta regra e de como o universo funcionar. E são iguais para todos.

1- Eu, 24-3-07, Darwinismo versus Criacionismo: colóquio na FCUL.

12 comentários:

  1. Uma coisa que eu gostava de ver explicada pela ciência é porque razão os vegetais da minha horta dão imenso trabalho para fazer crescer enquanto as ervas daninhas crescem alegremente sem intervenção humana e dão um trabalhão para não deixar crescer.

    Estou cada vez mais inclinado para a ideia de que isto tem a ver com Adão e Eva e com a imposição de suar para tirar da terra qualquer coisa que não sejam espinhos e cardos...

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  2. nas célebres palavras de alguém: "oh my god, please, may that commentary be a joke"

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  3. it is!
    não pensei é que tivesse de torná-lo explícito...

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  4. Bom é uma anedota a parte do Adão e Eva, porque quanto á proliferação de daninhas... the joke is on me! ;O)

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  5. De certa forma, é mesmo um castigo pelos pecados da humanidade.

    Durante milhares de anos as hortaliças foram apaparicadas, protegidas, regadas, e seleccionadas pelo sabor e valor nutritivo. As ervas daninhas foram arrancadas e cortadas, o que as seleccionou pela resistência e capacidade de invasão das hortas.

    O resultado é o que se vê. O meu conselho: nos próximos 10,000 anos planta só ervas daninhas, e sempre que aparecer uma couve corta-a. Ao fim desse tempo vais ter umas couves pequenas e de sabor horrivel, mas que crescem por todo o lado :)

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  6. Mas existe alguma relação entre as couves serem pequeninas e de sabor horrível e proliferarem por todo o lado? Não conseguimos ter as duas? Já agora por processos de selecção, sem manipulação genética?

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  7. Penso que não. Couves grandes demoram mais tempo a crescer, e por isso reproduzem-se mais lentamente. Logo perdem em competição com as daninhas. E as mais saborosas e nutritivas são as primeiras a ser comidas pelos animais, mais uma desvantagem.

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  8. Sim, mas essas desvantagens são vantagens perante a selecção natural, perante a natureza, pura e dura.No caso das couves e restantes verdes a reprodução já não segue vias naturais mas controladas. Significa isto que não havendo uma relação biológica entre as duas características faria sentido que tivéssemos couves grandes e a proliferar como pragas...
    Isto partindo do princípio que a selecção é cega, não é orientada. Se ela fosse orientada fazia sentido que a planta dissesse: "Espera aí, se eu fôr apetitosa ainda me comem..." e depois optava, em função disso, ser pequenina e de sabor horrível...

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. ncd:

    A evolução não é orientada pela consciência das couves, mas a consequência será couves pequeninas e pouco saborosas.

    O Ludwig explicou porquê, mas tentarei ser mais claro: à partida temos couves grandes e saborosas.
    Em 400 couves todas têm sabor 10 e tamanho 10.
    Depois cada couve tem em média duas filhas (vamos supor isto para simplificar - não percebo nada da reprodução das couves, mas isto é só uma analogia).

    À partida as couves vão ter as mesmas características que as progenitoras, mas podem ocorrer pequenos erros de cópia, etc, a que chamaremos "mutações".
    Assim, 5% das couves filhas tem mais sabor, 5% tem menos. E 5% das couves tem mais tamanho, e 5% das couves tem menos.

    A média do tamanho e do sabor mantém-se, mas não por muito tempo. A antiga probabilidade de cada couve chegar à idade reprodutiva sem ser comida é de 1/2 (daí o antigo número 300 ser o número de equilíbrio), mas agora nem todas as couves têm a mesma probabilidade de sobreviver - as mais saborosas têm menos, pois certos animais farejam o seu sabor. As menos saborosas têm mais. Vamos supor que as mais saborosas têm 1/4, e as menos saborosas 3/4.

    Então temos que 400 couves sobrevivem. 360 de sabor bom (1/2); 30 de sabor menos bom (3/4); e 10 de sabor melhor (1/4).


    Agora o número de filhas também não é o mesmo. As couves pequenas vão ter 2.5 filhas em média. As couves maiores vão ter 1.5.

    Facilmente se vê que depois da morte de cerca de metade das couves, teremos 260 couves normais, 25 couves pequenas e 15 couves grandes.
    E mesmo sem mutações adicionais, poderemos esperar que nesta geração já fiquemos com 45 couves mal saborosas e apenas 5 com sabor muito bom. Se ocorrerem mutações, o número e a proporção de couves mal saborosas será ainda maior.

    E por aí fora. Em cada geração a proporção de couves pequenas e com pouco sabor vai sempre aumentando em consequência de equivaler a um «valor esperado» para o número de descendentes que se reproduz superior.


    Ninguém decide ficar com pior sabor. Mas quem por acaso fica com pior sabor espalha mais os seus genes. Não é de admirar que ao fim de muito tempo sejam estes mesmos que nós vamos encontrar.

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  11. Caro João,
    eu já tinha percebido essa parte, obrigado. Chamava, porém, a atenção para o facto de o normal ser a selecção dar-se por intervenção humana e orientada para a existência de couves maiores, mais saborosas e ao mesmo tempo que proliferem por todo o lado.
    É que neste caso a selecção não é natural, ao contrário do modelo apresentado.

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  12. Sábado, Dezembro 15, 2007
    Medicina Tradicional Chinesa.

    É uma longa tradição de sabedoria Oriental. O Qi, o Yin e o Yang, os cinco elementos, e assim por diante. E se há milhares de anos que se faz assim é bom de certeza. Permitam-me que questione esta premissa.

    Além de criarem pássaros e mamíferos todos juntos, é tradição no Oriente vender os animais vivos e matá-los em casa. Quem quiser procurar no Google por imagens de chinese animal market verá cães e gatos amontoados em gaiolas, animais selvagens, galinhas e patos, cobras, tartarugas, insectos e tudo o que é bicharada. Tudo vivo, tudo ao molho, no meio de imensa gente e em condições de pouca higiene. É a tradição milenar Chinesa. Provavelmente o Qi não se conserva no frigorífico.

    O Ocidente é artificial. Os animais são abatidos, a carne lavada, embalada e refrigerada. Vende-se em pacotes. Esta forma de produção levanta problemas éticos e de saúde. Os animais são criados em ambientes pouco propícios e consomem rações com antibióticos e hormonas de crescimento. Apesar da legislação há sempre alguns problemas de higiene. Mas estamos a par dos problemas e tentamos resolvê-los exigindo formas diferentes de produção. E estes problemas são irrisórios perante os problemas da tradição Oriental.

    A medicina tradicional Chinesa dá grande valor a coisas como bílis de urso. Os ursos são entalados numa jaula com um tubo espetado até à vesícula para recolher este remédio tradicional (1). O efeito é poderoso, mas só para o urso. Chifres de rinoceronte e patas de tigre são também muito procurados. Quanto mais perto da extinção mais poderoso o remédio. E vender ao público os animais vivos para abate doméstico é mais «natural» mas é uma grande asneira.

    Estes mercados são caldeirões de doenças. Estirpes adaptadas a uma espécie são aqui seleccionadas pela capacidade de infectar outras espécies, e ajudadas pelas más condições e proximidade de tantas pessoas e animais. A longo prazo todas as infecções se tornam menos virulentas. Os hospedeiros mais susceptíveis morrem e os parasitas menos agressivos propagam-se mais. Mas a curto prazo dá coisas como a gripe asiática, a gripe de Hong Kong ou a gripe das aves. No início do século XX estas epidemias surgiam em qualquer parte do mundo, mas o conhecimento de medicina no Ocidente regulou a produção e comercialização de animais reduzindo este perigo.

    No Oriente respeita-se a medicina tradicional, que vê no Qi a causa principal das doenças e usa remédios «naturais» para enganar pessoas, torturar animais e extinguir espécies. Mas o maior contributo da medicina tradicional Chinesa são as epidemias capazes de matar milhões de pessoas por todo o mundo.

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