sábado, fevereiro 03, 2007

Vida a juros.

O debate sobre o valor da vida tem sofrido pela ambiguidade do termo. Imaginem que tenho duas contas no banco, cada uma com 5€. Uma das contas não dá juros, a outra dá juros altíssimos e os 5€ serão um milhão de euros num ano. Qual o valor de cada conta?

Se olharmos para o valor neste momento, valem 5€ cada uma. Mas um investidor sensato não venderia a segunda conta nem por mil euros. Cinco euros com aqueles juros valem muito mais que cinco euros.

Concordo com quem defende que o valor do embrião aumenta gradualmente com o desenvolvimento, tal como o valor em caixa aumenta com os juros. E cinco euros são cinco euros, seja em que conta for. Um embrião de humano tem, nesse momento, o mesmo valor que um embrião de cão. O embrião de cão até tem juros mais altos, inicialmente. Dez semanas depois da concepção já é um cachorro. Vinte semanas após a concepção, quando o feto humano nem sequer tem pulmões funcionais, já o cachorro brinca, pede, explora, sente, e, à sua maneira, pensa. Nesse momento o valor do cachorro é muito superior. Mesmo aos 9 meses o humano recém-nascido é muito inferior ao jovem cão, mas nos meses que se seguem começa a recuperar terreno e ultrapassa-o. Como investimento a longo prazo o humano é muito mais valioso.

E esse é que é o valor da vida. Não o dinheiro em caixa às 10 semanas, mas o retorno esperado pelos juros acumulados durante as décadas que dura o investimento. E ao contrário da analogia da conta a juros, a vida não vale para o investidor que decide se fecha ou não fecha a conta. A vida vale para quem a vive. É falso quando dizem que a despenalização não obriga ninguém ao aborto. O mais prejudicado por esta decisão insensata não participa voluntariamente.

12 comentários:

  1. Não acho eticamente louvável ter tantos filhos quantos se puder, independentemente das condições para os criar.

    Isso é uma grande diferença.


    Da tua perspectiva isso é assim, e então o texto que escreveste faz sentido.



    Mas eu creio que na nossa sociedade não é nada garantido que uma vida a mais seja melhor do que nenhuma vida a mais. Tendo em conta o valor para essa vida e para todos.
    E acho que é claro que este mundo seria um lugar PIOR se todos os casais tivessem cerca de 10 filhos.

    Na nossa sociedade, uma criança pode ser algo provavelmnete bom. Se os pais lhe podem dar atenção, se os pais a amam, se lhe podem dar condições, não é garantido que vá ser feliz, mas não é improvável.

    Mas na prática, acho que os pais devem ter os filhos que desejam e que podem suportar. Será aticamente louvável terem esses filhos e não mais que esses filhos, creio eu.

    Nota: isto não seria válido numa sociedade subpovada ou sobrepovoada. Na segunda, por exemplo, poderia ser eticamente louvável os pais terem menos filhos do que os que desejassem. Mas creio que não é esse o caso da nossa sociedade.

    O mal de matar, portanto, é fundamentalmente o mal de matar. O mal de matar ultrapassa o valor que o próprio dá à vida. Um suicida pode pedir-te ajuda para o matares. Se o ajudas, a opção foi dele (não quer dizer que eu ache isso certo...). Mas se o matares sem que ele to peça, mesmo que le não valorizasse a sua vida de todo seria errado matá-lo.

    O mal de matar não é proporcional ao valor que o próprio vai dar à sua vida ao longo da sua vivência.
    O mal de matar ultrapassa isso.

    Se uma mãe pretende ter dois filhos, um dia tem uma gravidez indesejada e aborta, e mais tarde tem dois filhos, ao nível do "valor obtido" pelas pessoas que foram ao longo do tempo valorizando a sua própria vida, caso ela não fizesse o aborto, ela não "conceberia" da 3ª vez, pelo que alguém que poderia valorizar ainda mais a sua própria vida não existiria.
    Assim sendo, não é esse valor que está em causa.

    Se em vez de um aborto a mãe matasse um recém nascido, qualquer pessoa considerará isso muito mais grave. Porque nesse caso, ela terá morto uma pessoa.
    E como disse, o mal de matar ultrapassa em muito o mal causado ao morto.

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  2. João,

    Quanto ao falso problema do celibato, vê a caixa de email.

    Quanto às razões porque todos condenariamos o infanticidio e poucos se importam com o aborto (ou com milhares de crianças a morrer à fome noutros paises), não tem nada a ver com a ética. São semelhantes às que levariam os que aceitam leitão assado e borrego no forno a protestar contra bifes de cão ou gato frito.

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  3. «São semelhantes às que levariam os que aceitam leitão assado e borrego no forno a protestar contra bifes de cão ou gato frito.»

    Eu acho que não são, e expliquei com o meu argumento porque é que assim não é.

    Quanto ao email, já to respondi.
    Não é um falso problema, claro está. É uma divergência ética profunda.

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  4. A divergência ética é profunda, mas o problema que tu apontaste é falso: é falso que a minha proposta obrigue a considerar a contracepão tão má como o aborto.

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  5. «é falso que a minha proposta obrigue a considerar a contracepão tão má como o aborto.»

    Sei que não achas que obriga, por isso aquilo que escrevi foi diferente:

    «Não acho eticamente louvável ter tantos filhos quantos se puder, independentemente das condições para os criar»

    Para evitar dvergências nem sequer falei em comportamentos eticamente condenáveis, ou algo que possa sequer sugerir qualquer espécie de restrição à liberdade reprodutiva dos envolvidos, em relação à qual já entendi que estarás certamente contra.
    (Mas quando falo em "eticamente condenável" também não pretendo sugerir necessariamente isso, e isso já tem sido fonte de males entendidos)

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  6. A longo prazo a vida de um ser humano é mais valiosa que a dum cão? Só mesmo na perspectiva do ser humano, e nem sempre.

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  7. Acho que na perspectiva de um cão também. Nem sempre, mas em média, quanto maior a compreensão do que se é, do que nos rodeia, quanto maior a capacidade de manipular o ambiente, de satisfazer ou contorlar impulsos, de assegurar o futuro, etc, maior o valor da vida para quem a vive.

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  8. Quando nós chegarmos ao estado da Alemanha, que vai pagar € 25000 pocada filho, aí se calhar já é tarde.

    o que torna toda esta discussão uma enorme falsidade é o facto de que o SIM "oficial" não estar a discutir as questões que o João Vasco aponta mas sim estar hipócritamente a dizer que está a discutir APENAS a despenalização.

    A clara demonstração disto são as declarações do sr. Sócrates à porta aberta que lhe foi deixada pelo NÃO. Porta aberta que eu defendo há anos e que entre muitos amigos tenho dito que iria redundar neste novo referendo.

    Até mais.

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  9. Mário da Silva:

    Isso é falso. A minha posição não é NADA representativa da do sim.

    Praticamente todo o sim acha que o aborto é SEMPRE condenável, mas que seria mais condenável impôr à mulher uma gravidez não desejável.
    Pelo contrário, eu acho que o aborto pode ser a opção certa e responsável em algumas situações (assumindo que obviamente deve haver o cuidado de tentar preveni-las com recurso ao planeamento familiar).

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  10. Mário da Silva:

    Isso é falso. A minha posição não é NADA representativa da do sim.

    Praticamente todo o sim acha que o aborto é SEMPRE condenável, mas que seria mais condenável impôr à mulher uma gravidez não desejada.
    Pelo contrário, eu acho que o aborto pode ser a opção certa e responsável em algumas situações (assumindo que obviamente deve haver o cuidado de tentar preveni-las com recurso ao planeamento familiar).

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  11. Pequeno esclarecimento de um mal-entendido muito propagado em Portugal: a Alemanha não paga, nunca pagou, nem vai pagar 25 000 euros por filho. O que introduziu foi um pagamento até 67% do ordenado do pai ou da mãe que opte por ficar em casa pouco mais de um ano, mas apenas se cumprir uma série de critérios que não vou enumerar aqui. O limite absoluto deste subsídio é 1800 euros por mês. Por outras palavras, só mesmo quem ganhar muito bem - até para a Alemanha - é que obtém essa soma. Mães que não trabalham, por exemplo, mesmo que solteiras, recebem a enorme soma de 300 euros por mês. Estão a topar o esquema? Eu explico: o que se pretende aqui é claramente fomentar a natalidade entre as «elites», e travá-la entre o chamado «precariado». Claro que a grande parte das mulheres aqui não tem filhos segundo critérios financeiros. O que as assusta é não haver praticamente estruturas de apoio para mulheres que trabalham, como creches, direito a um lugar no jardim infantil, escolas
    abertas o dia inteiro, etc. Mas estas soluções não teriam o efeito desejado, que é encorajar as mulheres a ficar em casa e a não fazerem muita concorrência aos homens no mundo profissional.

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  12. Pequeno esclarecimento de um mal-entendido muito propagado em Portugal: a Alemanha não paga, nunca pagou, nem vai pagar 25 000 euros por filho. O que introduziu foi um pagamento até 67% do ordenado do pai ou da mãe que opte por ficar em casa pouco mais de um ano, mas apenas se cumprir uma série de critérios que não vou enumerar aqui. O limite absoluto deste subsídio é 1800 euros por mês. Por outras palavras, só mesmo quem ganhar muito bem - até para a Alemanha - é que obtém essa soma. Mães que não trabalham, por exemplo, mesmo que solteiras, recebem a enorme soma de 300 euros por mês. Estão a topar o esquema? Eu explico: o que se pretende aqui é claramente fomentar a natalidade entre as «elites», e travá-la entre o chamado «precariado». Claro que a grande parte das mulheres aqui não tem filhos segundo critérios financeiros. O que as assusta é não haver praticamente estruturas de apoio para mulheres que trabalham, como creches, direito a um lugar no jardim infantil, escolas
    abertas o dia inteiro, etc. Mas estas soluções não teriam o efeito desejado, que é encorajar as mulheres a ficar em casa e a não fazerem muita concorrência aos homens no mundo profissional.

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