quarta-feira, julho 19, 2006

O sobrenatural

O sobrenatural é mesmo uma treta. Não é novidade que há muita treta nesta vasta categoria. Muitos que acreditam em deuses não acreditam em fadas, os que acreditam em fadas e unicórnios já não acreditam no Pai Natal, e os que aínda acreditam são novos demais para ler blogs.

Mas o que quero aqui apontar como treta é o próprio conceito de sobrenatural, esta ideia de haver na natureza coisas que estão para além da natureza. O que quererá isso dizer?

Suponhamos que os espíritos dos meus bisavós aínda persistem, e vagueiam por aí a coscuvilhar a vida dos seus descendentes. Se for mesmo assim que as coisas funcionam neste universo, então esses espíritos são tão naturais como os seus antigos corpos. A ciência moderna até nos diz coisas bem mais estranhas. A gravidade é uma distorção do espaço-tempo. Um electrão nunca tem a posição e a velocidade perfeitamente determinadas. Todos os seres vivos neste planeta são parentes, descendendo de antepassados longínquos pela acumulação de pequenas diferenças ao longo de inúmeras gerações.

A imagem da natureza dada pela ciência moderna viola quase tudo o que há poucos séculos se pensava ser as leis da natureza. Será que toda a ciência hoje em dia é sobrenatural? Não. Uma excepção a uma regra que pensávamos ser uma lei natural não é indicativo de influência sobrenatural, mas apenas sinal que estávamos enganados. Se o diccionário diz que os corvos são todos pretos e encontramos um corvo branco, o erro é de quem fez o diccionário. O corvo não tem culpa.

É essa a grande treta desta ideia do sobrenatural, de algo que está para além da natureza, de algo que viola as leis naturais. O máximo que pode acontecer é algo violar o que nós pensamos ser as leis naturais, mas chamar a isso sobrenatural é apenas tentar disfarçar a nossa ignorância. Não sabemos porque há raios e trovões? São os deuses. Algo que prevíamos ser duma forma afinal é de outra? Foi a bruxa, o mau olhado, ou os maus pensamentos. Alguém anda a ver fantasmas? É o inexplicável, o insólito...

Sobrenatural?

Treta.

Se a natureza se porta duma forma que não esperávamos, são as nossas expectativas que estão erradas. Por ignorância, assumimos algo que não devíamos ter assumido. Infelizmente, isso é perfeitamente natural.

14 comentários:

  1. Confesso que quando li o título me ocorreu precisamente isso ainda antes de ler o post. Coincidência ou ou algo sobrenatural?

    De certo modo esta situação que descreves é análoga ao que acontece em relação às medicinas. "Medicina alternativa" parece-me um contrasenso. Há com certeza curas e tratamentos variados, mas se algum método é considerado eficaz, dando provas e resultados consistentes, não será incluído na definição de medicina?

    Parece-me que "medicina alternativa" é a forma politicamente correcta de "merdas que podes experimentar porque a tia dum primo da vizinha tinha uma verruga e ficou boa depois de tropeçar 3 vezes no gato em noite de lua cheia"

    ResponderEliminar
  2. Dantes a medicina era para curar. Agora há a alternativa, para quem quer todo o prazer de um tratamento sem perder a doença.

    ResponderEliminar
  3. O conceito de «sobrenatural» faz algum sentido porque há pessoas que realmente acreditam que existe uma entidade consciente «acima» e «fora» do nosso universo, e que regula a vida e a morte, o passado e o presente do nosso universo. Em simultâneo, mas possivelmente sem intervir. É essa noção de que existe «algo mais» do que o universo que torna necessário o uso do termo «sobrenatural» (ou «supra-natural»).

    ResponderEliminar
  4. OK, vamos supor que exise alguém acima e fora do universo. Vamos também ignorar o problema de definir "universo" como sendo quase tudo menos esse alguém (será que posso viajar para fora do universo se definir o universo como sendo tudo menos a minha casa de banho?).

    Mesmo assim, o que quer dizer essa entidade ser sobrenatural? Não são à mesma todos os seus atributos parte da sua natureza?

    Se há alguém a controlar todo o universo com a sua vontade e omnipotência, então é assim que a natureza é. Dizer que é sobrenatural não diz nada acerca da sua natureza, apenas revela a preguiça de quem o afirma e que não está para se incomodar a descobrir essa natureza.

    ResponderEliminar
  5. Esta questão do sobrenatural parece-me mais uma questão de semântica.

    Chamar algo de 'sobrenatural' que, ao existir, teria que fazer parte da natureza, é, no fundo, atribuir um significado à palavra 'natureza'.

    Para a maior parte das pessoas, 'natureza' surge associado a 'natural', pelo que 'sobrenatural' será sempre 'extraordinário', ou seja, algo fora do comum.

    O 'sobrenatural' não é assim entendido como sendo algo que ultrapassa o universo conhecido(vulgo natureza) mas sim algo que é único, fora do normal (acima do normal - sobre natural).

    Claro que, se for misterioso e inexplicável também ajuda...

    Por isso, a questão levantada é apenas uma questão de interpretação de palavras, e como tal pouco relevante.

    É como argumentar com alguém que a palavra 'deslocalização' é tonta e mal aplicada, no caso da saída de uma empresa de um país. A questão chave, nesse caso, é a perca de centenas de postos de trabalho, e não o uso tonto e generalizado de uma certa palavra.

    No caso do 'sobrenatural', a questão principal não está no uso indevido de um termo. Está na tontice de acreditar (outra palavra tonta) em algo impossível de provar, e ao fazê-lo, tornar-mo-nos vítimas potenciais de tudo o que é aldrabão e charlatão.

    ResponderEliminar
  6. O problema é que "sobrenatural" é usado para designar a categoria daquilo que não pode ser explicado da mesma forma que se explica o natural.

    Mas como categoria, "sobrenatural" não faz sentido. Não é aquilo que tem esta ou aquela propriedade. Esta palavra é usada duma forma enganadora porque na verdade apenas denota a incapacidade (ou falta de vontade) de procurar uma explicação melhor.

    É uma questão de semântica, sim, mas o que quer dizer é falso: quer dizer que a coisa em si não pode ser compreendida duma forma metódica, quando na verdade é aquele que a propõe como sobrenatural que não quer que seja compreendida dessa forma. A culpa não é do corvo; é de quem fez o diccionário.

    ResponderEliminar
  7. Revendo-me em grande parte do artigo, queria fazer uma correcção ao último comentário:

    « quer dizer que a coisa em si não pode ser compreendida duma forma metódica, quando na verdade é aquele que a propõe como sobrenatural que não quer que seja compreendida dessa forma.»

    eu diria «aquele que a propõe como sobrenatural que não acredita que possa ser compreendida dessa forma.» Pode mesmo acreditar que a realidade não é consistente, e que há aspectos na mesma que, por desafiarem as leis lógicas, nunca poderão ser entendidas.


    Eu certamente não acredito nisso :)

    ResponderEliminar
  8. hum, so acho que estás a meter tudo no mesmo saco. Ok ja deu pra perceber que és bastante "terra à terra" mas não faças um cocktail (da bruxa, do pai natal, das fadas e dos unicorneos e das almas de cada ser) deste assunto, pois há coisas "sobrenaturais" que até 1 puto de 5 anos percebe que são treta, mas à outras que so nos passam ao lado se virarmos a cabeça pro outro lado. O pior cego é o que não quer ver!

    ResponderEliminar
  9. hum, so acho que estás a meter tudo no mesmo saco. Ok ja deu pra perceber que és bastante "terra à terra" mas não faças um cocktail (da bruxa, do pai natal, das fadas e dos unicorneos e das almas de cada ser) deste assunto, pois há coisas "sobrenaturais" que até 1 puto de 5 anos percebe que são treta, mas à outras que so nos passam ao lado se virarmos a cabeça pro outro lado. O pior cego é o que não quer ver!

    ResponderEliminar
  10. hum, so acho que estás a meter tudo no mesmo saco. Ok ja deu pra perceber que és bastante "terra à terra" mas não faças um cocktail (da bruxa, do pai natal, das fadas e dos unicorneos e das almas de cada ser) deste assunto, pois há coisas "sobrenaturais" que até 1 puto de 5 anos percebe que são treta, mas à outras que so nos passam ao lado se virarmos a cabeça pro outro lado. O pior cego é o que não quer ver!

    ResponderEliminar
  11. «à outras que so nos passam ao lado se virarmos a cabeça pro outro lado. O pior cego é o que não quer ver!»

    Ou então se procurarmos saber, testarmos e pensarmos friamente sobre o assunto.
    A Skeptical Enquirer não procura virar a cabeça para o lado: simplesmente desvenda os mistérios.

    Os piores cegos são aqueles que não querem ver. Preferem continuiar embalados pelo misticismo.

    ResponderEliminar
  12. Olá, Ludwig Krippahl como está?

    Apenas vou falar acerca do conhecimento que tenho através da minha percepção.
    Vou tentar expor as minhas ideias o mais claramente possível.
    Respeito a sua percepção e espero o mesmo de si.

    Primeiro de tudo, vou definir alguns conceitos:

    Dados de Origem = informação que chega aos nossos sentidos.

    Sentidos = Qualquer meio capaz de captar informação do mundo exterior pelo qual qualquer ser vivo percepciona.

    Tudo = reunião daquilo que existe para um indivíduo com aquilo que existe sendo desconhecido para o mesmo.

    Os conceitos a seguir enunciados são por defeito confirmados por qualquer indivíduo.

    Percepção = processamento dos dados de origem através de um mecanismo com essa função localizada num sistema nervoso.

    Agora vamos ao passo seguinte.

    Para mim, a condição suficiente para que algo seja físico é interagir.
    Caso algo não for físico, não interage e, por consequência, não sabemos a sua existência.

    Portanto, se algo não for físico na minha percepção então nunca saberei da sua existência.

    Mas...

    Tenho uma teoria em que o Sobrenatural pode existir e ser físico na mesma. Mas não passa de uma possibilidade!

    Se viu o filme Matrix, e eu acredito que sim, deve ter uma ideia da minha teoria.

    Para mim, o conhecimento é a cultura.

    Cultura = Conhecimentos = abstracções coerentes com a percepção menos as incoerências entre si de qualquer indivíduo.

    Este é o meu conceito de cultura individual que para mim cada indivíduo tem a sua e é tão legítima como uma cultura geral.

    Podemos ver as coisas da seguinte maneira:

    Sabemos que nem toda a gente é saudável, e podemos fazer a seguinte experiência:

    Junta-se um grupo de pessoas as quais umas são saudáveis e outras psicopatas.

    As que têm mais probabilidades de concordarem umas com as outras são as saudáveis porque estas percepcionam praticamente o mesmo, sem alucinações.

    Nós distinguimo-nos dos outros animais pelo facto de termos uma cultura documentada.

    Também defini estes conceitos:

    Dúvidas = abstracções coerentes com a percepção que sejam contraditórias entre si de qualquer indivíduo num dado instante.

    Possibilidades = abstracções incoerentes com a percepção de um indivíduo num dado instante.

    Paradoxos = abstracções incoerentes com a percepção de um indivíduo que nem são contraditórias nem não contraditórias, ou seja, não existem.

    A minha teoria da possibilidade de existir o Sobrenatural consiste no seguinte:

    Àquilo que podemos percepcionar, chamo Natureza.

    Chamo Sobrenatural a Tudo menos essa Natureza.

    Para mim o Sobrenatural é transcendente e ao mesmo tempo interage connosco.

    Mas se alguém que está dentro do Matrix descobre uma causa, então essa causa é Natural

    Se um fenómeno no Matrix foi causado pelo Sobrenatural, então os indivíduos que estão dentro do Matrix nunca descobrirão.

    Nenhum indivíduo que está dentro do Matrix pode provar que o Matrix existe. Pelo que qualquer causa descoberta é para esses indivíduos Natural pois interage com eles. Ninguém que esteja dentro do Matrix descobrirá uma causa Sobrenatural, a menos que esteja fora dele.

    Matrix = Natureza que nós percepcionamos

    Não será uma possibilidade verosímil?

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  13. Olá Ludwig Krippahl,

    Queria só corrigir um conceito no meu comentário anterior.
    Matrix = Natuteza que qualquer indivíduo percepciona que seja uma realidade virtual.

    Não cheguei a dizer isto:

    A condição suficiente para que saibamos que o Matrix existe é nós acordarmos.
    Uma vez descoberto, há a possibilidade de estarmos dentro de ilimitados Matrix.

    Cumprimentos mais uma vez

    ResponderEliminar
  14. Excelente raciocínio!

    Estou totalmente de acordo.
    Tudo é Natural!

    Tenho uma opinião semelhante.

    Boa Sorte para o Blog!

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.